Sobre dias de folga e sadismo
1 Um cara tipo Hijikata!
Notas iniciais
Uma multidão se juntou no parque nos poucos minutos que Hijikata sentou-se num banco ali perto. Havia um palco montado e pessoas de todas as idades espremiam-se procurando um bom lugar. Além de adultos, tinha muitas crianças. Mais crianças que o comandante poderia contar, e todas gritavam ou choravam enquanto seus pais falavam para serem pacientes. Usar seu dia de folga naquele lugar não tinha sido assim uma ótima ideia, pensou que estaria a salvo de Sougo se não ficasse no quartel nesse dia, mas acabara se enfiando num lugar tão irritante quanto aguentar armadilhas mortais feitas pelo seu companheiro.
Tirou um maço de cigarros de dentro de seu kimono casual e preparava para acendê-lo quando sentiu a sombra de alguém tampar a iluminação que lhe alcançava antes. Levantou o olhar estressado, vendo a garota do Yorozuya com um sukonbu pendurado na boca.
— Que foi? — perguntou mal-encarado.
— Você também veio pela apresentação, sim? — sentou-se ao seu lado, empurrando-o para o outro canto do banco a fim de conseguir espaço.
— Do que está falando? Estou aqui apenas porque é meu dia de folga. — deu de ombros, finalmente acendendo seu cigarro e colocando-o na boca.
— Um grupo famoso de mágica veio se apresentar aqui em Edo, eles são realmente bons! — comentava como se Hijikata quisesse mesmo ouvi-la falar. — Mas parece que cheguei meio atrasada... — olhou bem o tanto de pessoas que já cercavam o palco, seria impossível para ela assistir a peça inteira dali. — De qualquer forma, não imaginava que um cara como você gostava desse tipo de coisa, uh-huh.
— Um cara tipo eu como?! — ergueu uma sobrancelha aparentemente nervoso.
— Tipo, como eu posso dizer... — segurou o queixo pensando sobre o assunto.
Enquanto Hijikata esperava pela resposta da menina, todos que aguardavam pela peça se agitaram com os atores entrando no palco e uma algazarra de gritos animados e risadas se iniciou. Aquilo foi o suficiente para tirar a concentração da yato, e fazê-la correr desesperada em direção a aglomeração de pessoas.
O comandante demoníaco observou ela correr e tentar se enfiar na roda da plateia, mas alguém sempre a jogava para fora dizendo que haviam chegado primeiro. Kagura foi obrigada a ficar no pior lugar possível para alguém da altura dela assistir a apresentação. Ela parecia não ter desistido, pulava incansavelmente a fim de enxergar algo, mas via pouquíssimo com tanta gente em sua frente. Hijikata bufou vendo-a se esforçar tanto por uma peça ridícula como aquela.
Kagura passou a pular apoiando-se nos ombros das pessoas que estavam a sua frente tendo mais impulso e enxergando mais daquela forma; mas em um dos seus saltos, sentiu ser pega no alto e não voltar para o chão. Olhou para trás assustada e viu o policial com quem falava há poucos instantes lhe segurando por debaixo dos braços.
— Não me olhe com essa cara. — ele revirou os olhos, fazendo pouquíssima força para mantê-la numa altura razoável.
Ela não respondeu de imediato. Achou aquilo estranho, mas não iria reclamar por enquanto, ele estava a ajudando muito, assim poderia assistir ao show inteiro e não perderia nenhum detalhe sequer.
Mesmo Kagura sendo consideravelmente leve, os braços do comandante passaram a cansar-se depois de poucos minutos segurando-a. Ele então colocou a yato no chão, resmungando mais uma vez.
— Estava na melhor parte, não dava pra aguentar mais um pouco?! — ela reclamou sem nem mesmo ter agradecido pelo o que ele tinha feito.
Hijikata sentiu uma veia saltar em sua têmpora, a menina tinha mesmo passado muito tempo com aquele outro yorozuya, estava até mesmo pegando maus hábitos como a falta de educação dele. O comandante tragou seu cigarro uma última vez, jogando-o no chão e abaixando-se em seguida.
— Vem cá. — apontou para sua costa, incitando para que ela subisse. Kagura pulou sem qualquer aviso prévio, o desequilibrando e fazendo-o bater o rosto no chão. — Nos ombros China, nos ombros! — gritou estressado, nem ele mais sabia porque estava a ajudando.
Levantou-se com ela em seus ombros, e pode sentir o quanto aquilo a animou. A menina pousou as mãos no cabelo bagunçado do policial e assistiu atentamente a apresentação, rindo e chutando o peito dele diversas vezes durante a peça.
— China, por que você acha que um cara como eu não gosta desse tipo de coisa? — puxou assunto, segurando os pés dela para evitar chutes caso a garota tivesse mais um ataque de risos. — Você ainda não me respondeu. — murmurou.
— Não lembro exatamente, mas Gin-chan me disse uma vez que um cara como você não sabia se divertir. — ela balançou os ombros ainda atenta ao show. — Algo como “muita nicotina no cérebro e maionese ingerida causa isso as pessoas Kagura-chan, não se envolva com ele”, acho que foi isso que ele disse.
— Está desobedecendo a seu pai então? — questionou sério, sabia que Gintoki dissera aquilo para apenas para ela não incomodá-lo, Hijikata nunca soube lidar muito bem com mulheres.
— Você estava aqui para fugir daquele sadista maníaco, sim? — deu de ombros. — E por você não estar com o uniforme achei que hoje fosse seu dia de folga, até mesmo um cara como você merece minha companhia uma vez ou outra, mesmo que isso vá contra algo que Gin-chan me disse.
Hijikata revirou os olhos mais uma vez naquela tarde, Kagura então só não o tinha esmurrado ainda por puro ego e achar que ela era necessária de alguma forma para ele.
A apresentação chegou ao fim e a multidão passou aos poucos a dissipar-se, o comandante passou a andar em direção ao Yorozuya ainda com a menina nos ombros. Ela não reclamou, seu sadismo dizia que era honroso ter um cara lhe servindo a ponto de carregá-la de volta para casa.
O sol se punha, e aos poucos o céu ganhava um tom alaranjado, fazendo poucos comércios acenderem as luzes em suas bancas. Hijikata não se sentiu estranho por carregá-la em meio de Kabukichou, depois dessa tarde, não a via como uma garota tão mal quanto Sougo costumava a descrever.
— Heh, o que será que o danna iria pensar se visse o vice-comandante demoníaco carregando seu precioso alien de estimação por aí? — uma voz de tom preguiçoso e irônico soou atrás deles, e os dois souberam de imediato quem era.
— Sougo, não é o que você está imaginando! — Hijikata virou tentando explicar-se, mas logo o policial de cabelos claros puxou a menina de cima dos ombros dele sem qualquer delicadeza, sacando sua bazuca e apontando para o mais velho em seguida.
— Seu chihuahua, me ouve! — Kagura o puxou pelo colarinho no exato momento em que Okita atirou.
— Oh China, você me fez errar. — comentou olhando sadicamente para Hijikata estirado na rua, ele havia escapado por pouco. — O que você queria? Ele poderia estar te levando para um motel e você nem iria saber. — comentou do seu jeito inexpressivo de sempre.
— Eu só estava levando-a de volta para o–
— Cala a boca viciado em maionese, estamos discutindo aqui! — dessa vez a própria Kagura batera nele, voltando a atenção para Sougo em seguida. — Você não sabe o que é melhor para mim! Você é só um sadista nojento que acha que tem chances com a rainha de Kabukichou.
— Não leve para o pessoal pirralha, não fiz isso por você, fiz pelo danna que não gostaria de ver seu animalzinho de estimação abusado por um policial como Hijikata-san.
— O que você disse, huh? Eu vou te matar agora, depois vou te matar uma segunda vez e te mandar para o inferno, sim?! — esperneou-se enquanto Sougo levantava-a pela gola da qipao que usava.
— Tá, você faz isso depois, agora vou te tirar daqui. — desviou de um ou dois socos que ela tentava inutilmente acertar nele.
Enquanto os dois se afastavam, Sougo olhou ameaçadoramente para trás, fixando-se em Hijikata ainda jogado no chão. Seu olhar não era nada amigável, fazendo o vice-comandante assemelhar aquilo com aquelas vezes que ele e Mitsuba interagiam, era o mesmo olhar possessivo gritando internamente para ele afastar-se da propriedade de Sougo.
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