Sobre as flores e as cores de abril
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Algumas horas mais tarde (que mais pareceram minutos) Bernardo acordou com o som de batidas na porta. Antes que se levantasse para atender, porém, ouviu a voz do coronel do outro lado:
— Desculpe incomodá-lo, doutor. O almoço está pronto e será servido dentro de alguns instantes. Desça quando estiver pronto, estamos todos lhe esperando...
— Está certo, coronel... – respondeu o rapaz, ainda com voz sonolenta. – Só um momento, eu não me demoro...
Enquanto o som dos passos do coronel se distanciava pelo corredor, Bernardo ajeitou-se na cama. Ainda estava na mesma posição de quando adormecera e não havia sequer tirado os sapatos. Conforme imaginou que aconteceria, seu corpo doía muito mais agora, depois do breve descanso, do que antes, enquanto ainda estava com o corpo quente e envolvido pela pressa dos acontecimentos. Seus membros estavam pesados e doloridos, especialmente aquele lado que havia sofrido maior impacto do acidente. Como costumava dizer o pessoal mais simples, sentia-se como se tivesse levado uma surra de porrete.
Com algum esforço, colocou-se de pé e, mesmo com os músculos doloridos e meio travados, caminhou como pôde em direção ao banheiro. Ao olhar-se no espelho, encontrou uma aparência um pouco pior do que esperava: além dos cabelos bagunçados pelo ato de dormir, havia alguns esfolados bem evidentes pelo rosto. Os pequenos ferimentos não pareciam graves, porém era quase certo que despertariam comentários e suscitariam perguntas que o jovem médico não desejava responder. Ainda assim, alguns minutos depois, o doutor descia as escadas de seu aposento com as vestes bem alinhadas, rosto lavado e os cabelos molhados e devidamente penteados. O coronel o esperava ao pé da escada, pronto para conduzi-lo aonde a família Linhares se reuniria.
Conforme o conduzia pelo corredor, o homem perguntou, de súbito:
— Me diga uma coisa: o doutor já comeu carne de tatu?
— Não que eu me lembre... – respondeu Bernardo com um leve sorriso.
O coronel deu uma risada sossegada.
— Pois então irá experimentar hoje. Tatu-galinha, uma das carnes de caça mais saborosas que há!
Ao chegarem ao portal da cozinha, se depararam com a cozinheira compenetrada em pôr a mesa, tão zelosa quanto esbaforida, dispondo os pratos e talheres em seus respectivos lugares.
Um fato interessante da mansão dos Linhares, é que a sala de jantar não se separava da cozinha. O ambiente amplo abrangia os dois espaços: de um lado, a preparação do alimento; de outro, a reunião da família para consumi-lo. Estas duas realidades tão próximas, do cozinhar e do comer, davam ao lugar a uma atmosfera de acolhimento e aconchego.
— Ei, Rosa... – chamou o coronel a princípio.
Mas a mulher estava tão concentrada na tarefa que cumpria, andando de um lado para o outro com um pano de prato jogado sobre o ombro, que nem mesmo ouviu a voz do patrão.
— Rosa! – chamou o coronel um pouco mais alto, adentrando na cozinha.
A mulher deu um pulo de sobressalto ante a voz do patrão, virando-se para ele imediatamente.
— Ara! O coroné qué mi matá de susto?! Óia qui meu coração tá in tempo di saí pela güela! – respondeu a mulher em uma voz esganiçada, esfregando a mão no peito.
— Deixe de bobagens, quero lhe apresentar o doutor Garcia. Venha, doutor, pode se achegar... – disse o homem, gesticulando para que Bernardo se aproximasse.
O rosto de Rosa assumiu um ar de surpresa e ligeira vergonha quando o rapaz entrou na cozinha. Preocupando-se em alisar o avental e ajeitar os cabelos sob o lenço da cabeça, disse, em tom ameno e levemente constrangido:
— Uai, o coroné num falô nada que nóis ia tê visita...
— Não se trata de uma visita, mas de um hóspede – explicou o coronel. – Este é o doutor Garcia, veio para cuidar da menina. Ficará conosco pelo tempo em que durar o tratamento.
Escondendo a vontade de rir pelo jeitão pitoresco da cozinheira, Bernardo beijou-lhe a mão educadamente e lhe disse, em um sorriso cortês:
— Estou encantado em conhecê-la, Dona Rosa.
A mulher deu uma risadinha tímida e lisonjeada, levando a outra mão ao rosto, provavelmente para esconder o rubor.
— Ara, quê isso, dotô! Eu é qui tenho muito gosto in cunhecê o sinhor...
Mas reparando melhor no rosto do médico, o sorriso da mulher se transformou em espanto:
— Ave, cruiz! O dotôr brigô cum um gato, foi?!
— Olhe os modos, Rosa! – ralhou o coronel, ligeiramente constrangido pela atitude da empregada.
— Mai coroné, óia a cara do minino!
— Basta, Rosa...
— Não se preocupe, coronel, não me ofendo com a observação da Dona Rosa... – disse Bernardo, com gentileza.
E voltando-se para ela, disse:
— Não se preocupe, foi apenas um pequeno incidente que aconteceu antes que eu viesse para cá.
— O doutor depois nos conte essa história melhor – pediu-lhe o coronel, com certa curiosidade.
E voltando-se para a cozinheira, perguntou:
— Onde está o resto da criadagem?
— O Tião cabô de chegá da cidade. Dexô aqui o remédio da minina Laurinha e saiu aí pra fora. A Otília foi buscá umas lenha para mim. Os zôtro deve tá puraí...
— Entendi. E Iolanda, onde está?
— Tava no quarto da sinhazinha inté góra pôco. Deve que tá se ajeitano, antes de vim armuçá...
— Está certo. Vamos nos acomodando então, doutor, enquanto ela não chega... – disse o coronel, fazendo menção para que Bernardo se sentasse à mesa.
O estilo rústico daquele ambiente – e de toda a casa na verdade – imprimia um caráter artesanal e acolhedor no lar dos Linhares. Em uma das paredes do amplo espaço ficava acoplado o fogão à lenha, encerado de vermelho vivo, transformando em brasas e cinzas os galhos secos e pedaços de tocos que lhe eram inseridos para combustão. Bem acima do fogão, penduradas em uma vara firme e roliça acoplada à parede, pendiam réstias de alho e de cebola, as quais secavam suas palhas ao calor das chamas que subia, fazendo rescender pelo espaço um aroma de tempero.
A certa distância do fogão, ainda ligada à mesma parede, estava uma pia caprichosamente limpa, sobre a qual se encontrava um jarro com água contendo um maço de cheiro-verde e um cesto de vime repleto de tomates bem vermelhos. Acima da pia, em um pedaço de ripa pregado à parede, cravejado de pregos, ficavam pendurados toda a sorte de conchas, colheres de pau e tachos de cobre bem areados, de diversos tamanhos. Ao pé da pia, servindo como tapete, um pedaço de couro bovino curtido.
Nas paredes perpendiculares ao fogão e à pia, havia, do lado esquerdo, um janelão de madeira bem aberto, trazendo luminosidade ao ambiente. Do lado direito, um armário de madeira e uma cristaleira que exibia bonitas peças de cerâmica, ambos os móveis enfeitados por vasos de margaridas e crisântemos amarelos.
Ao centro de todo o espaço, situava-se a mesa para refeições, ampla e de madeira escura e avermelhada, decorada com uma toalha branca de crochê.
Após algum tempo, Dona Iolanda apareceu na cozinha, arrumada e recomposta, com ares diferentes daqueles encontrados de manhã, no aposento da filha.
— Já está tudo pronto, Rosa? – perguntou calmamente à cozinheira.
— Tá tudo no jeito sim, Sinhá...
— Podemos servir o almoço então.
Rosa pôs-se a transferir as panelas de barro da taipa do fogão para uma esteira de palha trançada sobre a mesa, que servia de descanso para as panelas. Ao destampá-las, o aroma da comida se espalhou por todo o ambiente. A carne do tatu, corada pelo açafrão, rescendia a salsinha e cebolinha.
Enquanto Rosa servia porções de arroz, feijão e outros acompanhamentos, Tião apareceu na cozinha.
— Escute, Tião – disse o coronel – vá até a adega e nos traga uma garrafa de vinho. Traga também aquela pinga de barril, envelhecida no carvalho.
— Tá certo, coroné...
Em questão de alguns instantes, o homenzinho voltava com as bebidas.
— O doutor aceita uma dosinha da marvada? – perguntou o coronel, em tom brincalhão.
— Obrigado, coronel, mas vou preferir o vinho mesmo... – respondeu o médico.
— Pois eu sempre gosto de uma dose antes das refeições... o doutor sabe como é: para abrir o apetite... – disse o coronel, sorvendo o líquido amarelo do copo com uma careta e um estalar da língua.
O decorrer do almoço seguiu tranquilo, com diálogos leves e uma ou outra pergunta do coronel ou de Dona Iolanda. Até que a pergunta inconveniente surgiu:
— Mas então, doutor, nos conte melhor esta história de seu incidente. O que foi que aconteceu afinal de contas? – perguntou o coronel, dirigindo seu olhar ao rapaz, ao mesmo tempo em que a esposa.
Bernardo lançou um olhar discreto a Tião, encostado de braços cruzados à pia da cozinha. O homenzinho assumiu o olhar de um coelho assustado e Bernardo percebeu o sangue sumir de seu rosto.
— Bom, como o senhor sabe, me mudei hoje para a cidade — iniciou o rapaz. – Eu estava em busca de hospedagem e quando cruzei a rua, fui atropelado por um sujeito numa carroça...
— Valha-me Deus! – exclamou Dona Iolanda, cobrindo a boca de espanto, ao mesmo tempo em que Rosa bradava “Minha Virgi Santa!”.
O olhar do coronel não era menos assustado.
— Mas como é que o doutor me vem nesse estado para atender a menina? – perguntou o homem abismado. – O doutor me desculpe, mas foi uma irresponsabilidade de sua parte sair desse jeito e vir para cá; quem precisava de um médico é o senhor! O doutor podia ter quebrado um osso, ou tido uma hemorragia, ou qualquer outra coisa do tipo! Ainda está em tempo de buscar um médico na cidade para atendê-lo...
— Não há necessidade, coronel... – adiantou-se Bernardo rapidamente. — O golpe não foi tão feio assim. Felizmente não tive mais do que arranhões e hematomas.
— Ainda assim, o doutor deveria se cuidar... – recomendou Dona Iolanda, com olhar preocupado.
— Mas afinal de contas, quem foi o filho de uma égua que...
— Teobaldo! – ralhou a mulher.
— Me desculpe, doutor. Quero dizer, quem foi o infeliz que lhe fez isso? – corrigiu o homem. – Um sujeito desses deveria ser preso!
Nesse ponto, os olhos de Tião estavam quase tão grandes quanto ovos de galinha. O homenzinho engoliu seco.
— Não pude ver, coronel. Quem quer que fosse, estava muito apressado. Deveria ter lá seus motivos. Por sorte, nesse momento o Tião vinha passando pelo caminho e me ajudou.
Pelo canto de olho, Bernardo viu Tião suspirar aliviado. O doutor lhe dirigiu um sorriso discreto.
— Bom, neste caso, menos mal... – disse o coronel. – Mas se o doutor sentir qualquer coisa, qualquer complicação, não hesite em pedir ajuda.
— Se o dotô quisé e aceitá us cuidado de uma véia sem istudo, eu posso fazê um banho de arnica pu sinhô tirá a dor do corpo – ofereceu Rosa. — É tiriquéda! Amanhã u dotô já acorda di ôto jeito!
— Obrigado, Dona Rosa, irei aceitar sim – respondeu Bernardo, com bondade. – A medicina tradicional tem muito a aprender com a sabedoria popular...
A mulher sorriu com satisfação.
— U dotô só espere um cadim intão, pra cumida báxá, purquê num presta si banhá co estâmo cheio.
O decorrer do almoço seguira tranquilo e o coronel não insistiu mais na história. Quando todos se retiraram da cozinha e Bernardo se dirigia para seu quarto, Tião parou-o no meio do caminho, amassando o chapéu de palha entre as mãos, com uma expressão tímida no olhar:
— U dotô me discurpe mêmo do aconticido. Néra minha intenção tacá u cavalo in riba do sinhô não, inda mais seno um moço bão que nem o dotô...
— Não se aborreça, Tião, eu já esqueci isso... – respondeu o médico, com um sorriso gentil.
— O dotô num sabe a gratidão que eu lhe tenho, pur num tê falado nada pru coroné... – disse o homenzinho cabisbaixo. — Numa hora dessa, eu e a minha Rosa ia tá no ôio da rua. O coroné é um ômi brabo, num tulera essas coisa...
Bernardo deu-lhe um tapinha nas costas.
— Eu nunca colocaria em risco o seu emprego, nem o de sua família. Se agora eu tenho um trabalho, foi graças a você... – respondeu-lhe, bondosamente. – Bom, agora me deixe ir para meu quarto. Preciso descansar da viagem e tenho o caso da senhorita Linhares para estudar...
— Tá certo, seu dotô. Gradicido mêmo, o dotô é um ômi bão, muinto bão!
Enquanto o homenzinho voltava pelo corredor com um largo sorriso no rosto, o médico seguiu adiante. Por um momento, a lembrança da moça voltou à sua mente. O rapaz voltou os olhos para trás, ao fim do corredor, olhando para a porta que guardava os aposentos da enferma. Com um menear de cabeça, porém, afastou o pensamento da mente, pondo-se a subir as escadas em direção ao próprio quarto.
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