Notas iniciais
Demorou, mas saiu! Eu prometo que vou responder todos os seus reviews. Ando sem tempo, mas penso sempre em vocês e escrevo sempre que posso. Um beijo, espero que gostem.

Fúria.

Qualquer pessoa que olhasse para Rizzoli agora, pensaria em uma só palavra. Rizzoli era a fúria em pessoa, pronta para atacar quem é que entrasse em seu caminho. Pronta para despedaçar, esganar, apertar gargantas.

Quando Rizzoli andava daquele jeito — sobrancelhas juntas, o olhar animalesco nos olhos, os punhos cerrados, passadas determinadas — arrancava diversas reações: inveja dos homens que faltavam tamanha confiança; medo da parte dos que eram culpados; admiração daqueles que aspiravam ser como ela. E respeito de todos suficientemente ajuizados para saberem com quem estavam se metendo. E é por isso que nenhum policial ou técnico entrou em seu caminho quando ela pisou duro dentro de sua casa. É por isso que alguns deles se sentiram ignorados: ela estava concentrada demais em seu objetivo para notar qualquer coisa ou alguém durante sua passagem. E eles até se sentiram aliviados, porque ninguém queria explicar a essa mulher a razão de ela ter sido a última a saber de um ataque na própria casa. E no estado em que ela estava — visivelmente abalada, bufando de raiva — ninguém queria se meter em seu caminho, ninguém queria ser repreendido por ela.

Ela subiu a escada a passos duros, firmes, e se os policiais ali prestassem bem atenção, eles jurariam que os degraus estremeciam em cada passada. Mas de novo, ninguém se atrevia a observá-la. E isso porque eles ainda não tinham ouvido sua voz nesse estado. Todos colegas de trabalho sabiam como ela era grave, mas poucos deles haviam presenciado Rizzoli em estado de fúria, de ódio puro. A voz soava como trovão, e abaixava até mesmo as cabeças mais ousadas.

A morena continuava em seu caminho, e nada impedia seu progresso, nem mesmo uma mão que tentou segurá-la nesse ponto. Ela estava quase alcançando a porta do escritório, onde o ataque tinha ocorrido, e agora que tudo parecia mais próximo e real ela sentiu o nível de ansiedade aumentando.

'Jane, ela tá bem.' Ela ouviu a voz de um homem atrás de si. Korsak. Era Korsak? Ela dispensou o comentário com uma mão. Não, não era o comentário, era um braço tentando segurá-la.

'Jane!' Ele chamou de volta e agora Frost estava na entrada da porta. No seus olhos negros um misto de preocupação e simpatia. Jane engoliu seco. Era assim tão ruim? Maura tinha se machucado muito? Ele estava agindo assim porque ela parecia tão determinada a matar alguém quanto sentia vontade?

'Nenhum passo a mais, Rizzoli.' Ele colocou as mãos na frente do corpo impedindo a passagem dela, e Jane virou o pescoço de uma maneira desafiadora e deu um passo à frente. Ela iria passar por aquela porta.

'Frost, não!' Eles ouviram Maura gritar do outro lado do quarto quando o homem segurou a morena pelos braços, impedindo-a de avançar.

Jane queria chegar até Maura. Ela mal podia ver a mulher dali. E a voz da loira só aumentou o desejo de vê-la, de checá-la com seus próprios olhos — com suas próprias mãos.

'Cai fora.' Ela ordenou para Frost num rosnado, mas o homem sabia melhor. Ele não deixaria a parceira entrar.

'Ela é evidência, Jane. Você odiaria destruir evidência.'

'O caralho!' Ela vociferou. 'Ela é minha mulher, Frost!' Ela socou o batente da porta, mas Frost nem se mexeu.

'Jane, pára!' Maura ordenou numa voz frágil, o que a enfureceu mais ainda.

'E ela é minha amiga, Rizzoli.' Ele rebateu endurecendo a voz enquanto apontava o dedo para ela, inclinando o corpo para frente, ameaçador.

'Frost...' Ela estava prestes a fazer uma ameaça quando ele a fez primeiro.

'Você força a entrada, eu forço você no chão. E eu tô falando sério.' Ele lançou um olhar afiado. 'Agora se você se acalmar... Se você se acalmar, Jane... Eu deixo você entrar. Mas você não vai chegar perto. Você me ouviu?'

Jane odiava ser mandada. Ela sempre estava no controle e ela simplesmente odiava alguém tomando conta de uma situação, dizendo o que ela podia ou não fazer. Ela mudou o peso de um pé para o outro e abaixou a cabeça, não num gesto de submissão, mas num gesto que indicava que ela estava pronta para atacar.

'Se você destruir evidência a gente não pega o cara.' Ele disse numa voz mais suave, os olhos quase implorando pela sanidade da amiga. 'Qual é, Jane, você sabe como funciona.'

Ela tentou bisbilhotar por cima do ombro de Frost, mas pelo que lhe pareceu, Maura estava em uma parte fora do alcance da visão. Ela considerou a proposta do homem.

'Ok.' Ela disse, finalmente sucumbindo à necessidade de encontrar Maura, deixando de lado o orgulho. 'Ok.'

Ele concordou com a cabeça e deu passagem. Jane, numa olhada rápida, contou cinco policiais ali. O quarto não estava necessariamente bagunçado, mas algumas coisas estavam fora do lugar, caídas ao chão. Jane andou de vagar e tomou cuidado para não pisar no que poderia ser evidência. Ela virou o corpo e os olhos encontraram Susie, ajoelhada no chão de frente ao armário de... Maura. A mulher estava sentada no chão, costas colada ao móvel, prestes a chorar. Sangue escorria de um pequeno corte na testa. Ao seu lado estava Harriet, sentada sentada também, olhando para Maura enquanto a loira acariciava seu rosto com a mão direita. Ela murmurava algo para a menina que parecia tão assustada quanto ela.

O coração da detetive acelerou consideravelmente e ela deu um passo para frente na tentativa de alcançá-las, mas Frost segurou-lhe o braço e com o puxão ela pisou para trás.

'Sem tocá-la.' Ele lembrou.

A raiva dos olhos da detetive cedeu lugar ao desamparo. Ela se perguntava quão ruim era a situação, o quanto Maura estava machucada, o quanto Harriet estava machucada. Ela deu as costas para Frost mais uma vez e se virou para encontrar o olhar de sua mulher.

'Maura.' Ela murmurou quando a médica encontrou seus olhos com os dela.

'Jane, não.' Ela disse, a voz carregada. Maura balançou a cabeça em negativo sinalizando para que ela não se aproximasse, mas os olhos estavam pedindo por suas mãos.

Jane não sabia quão ferida ela estava. Era só um corte na cabeça? Por que Susie estava segurando sua mão? Estava coletando evidências? Por que Maura estava sentada no chão? Enquanto o turbilhão de perguntas inundavam sua mente, Harriet a estudava de olhos arregalados. A detetive se deu conta de que a menina estava assustada — possivelmente até mesmo com ela — e a convidou com as mãos.

'Ei, querida, vem aqui.' Ela se agachou e estendeu os braços.

Os lábios de Harriet se curvaram para baixo e ela começou a chorar antes mesmo de se levantar. Jane recolheu a menina nos seus braços e a levantou do chão. Ela era tão leve que era como se tivesse levantando um ursinho de pelúcia.

'Mamãe!' Ela choramingou e escondeu o rosto no pescoço da mulher e um choro infantil alcançou seu ouvido. Os braços de Jane se apertaram em torno dela e ela beijou a cabeça da pequena. O medo e a fragilidade do choro emanando da menina a deixou desconcertada.

'Tá tudo bem, Harriet. Ninguém vai machucar você, tartaruga. Eu te protejo, você tá segura comigo, ok?' Jane sussurrava no ouvido dela enquanto as mãos da menina apertavam com força sua blusa.

'Ma-mau-ma-ma.' A menina tentava falar mas as palavras eram engolidas pelo choro.

'Shh... Maura tá bem, vê? Você também tá bem. Eu sinto muito, Harriet, mas vocês estão bem agora.' Ela beijou a cabeça da menina e acariciou suas costas, tentando conforta-la.

Jane queria chorar. Não era justo que a menina passasse por mais isso. Não era justo que ela sofresse qualquer outro dano depois de tudo o que já tinha sofrido. Alguém ia pagar caro por ter assustado sua garotinha, por tê-la deixado tão amedrontada. Se ao menos ela tivesse conseguido evitar o ataque, se ao menos ela estivesse estado lá, Harriet não estaria assim, Maura não estaria machucada. O ódio tinha voltado novamente, mas dessa vez era contra ela mesma. Poderia ter sido pior, ela repetia para si mesma numa tentativa de se acalmar, de aliviar a culpa que sentia.

Maura tinha pedido para ela ficar em casa, na noite anterior. Se ela não fosse tão teimosa, se ela tivesse atendido ao pedido da mulher, ela poderia ter evitado isso. Ela poderia ter protegido as duas. Mas é claro, ela tinha teimado em se enfiar em um caso que não era dela. Ela tinha saído de casa confiante de que ela ficaria bem, mas não havia ocorrido à ela que talvez Maura e Harriet não ficassem. Como ela poderia prever uma invasão, de qualquer jeito? Ela simplesmente não podia, mas a culpa começa a se multiplicar dentro de si. Ela deveria ter ficado. E porque ela não tinha, Maura e Harriet estavam feridas.

Maura. Agora ela tinha que segurar Maura em seus braços.

Ela colocou uma mão na cintura enquanto a outra suportava o peso de Harriet e começou a andar de um lado para o outro, observando enquanto Susie limpava os ferimentos da mulher. A loira observava Jane com a mesma intensidade que a morena à ela. A troca de olhares, diferente de outras vezes, não era uma comunicação silenciosa. Era tensão. Era o espaço entre uma ação finalizada e a outra esperando permissão para acontecer. Era a inquietação vibrando do corpo de Jane. Era a necessidade de Maura pelos braços da detetive em seu corpo para espantar o medo. Medo. Há quanto tempo Maura não usava essa palavra?

Os olhos verdes estavam marejados agora, e a médica fez uma careta quando sentiu Susie limpar o ferimento do rosto. Ela queria que Maura contasse o que tinha acontecido, mas ao mesmo tempo não queria expor a médica aos outros policiais. Por que eles ainda estavam ali, a propósito? Eles já não tinham catalogado o necessário? Eles estavam querendo mais o que? Presenciar Harriet chorando em seu colo, Maura debilitada no chão? Por que não estavam atrás de quem tinha feito isso com ela? Por que estavam ali assistindo a falha que cometera em não proteger sua família?

Maura a encarou mais uma vez, o olhar agora preocupado, intenso. Quando uma lágrima finalmente caiu dos olhos da mulher, Jane apertou os dentes para manter o controle. Ainda assim, o quarto pareceu pequeno e abafado demais para a morena. Ela queria gritar. Queria bater em alguém. Queria todo mundo fora dali.

'Fora. Todo mundo fora!' Ela ordenou. Aquela era sua mulher. Era a Médica Legista do Departamento de Polícia de Boston. Ela não era uma vítima, ela não era... 'Fora!' Ela gritou agora, porque todo mundo tinha parado para encará-la e ninguém se mexia.

Frost revirou os olhos. Ele sinalizou com as mãos pedindo para que os policiais saíssem. 'Susie, você fica.' Ele pediu para a mulher. Jane concordou com a cabeça. Harriet, ainda em seu colo, já não chorava mais. O corpo pequeno e delicado pesava em seu peito, e Jane acariciou e beijo a cabeça da menina que agora estava apoiada em seu ombro.

Susie recolhia o material de baixo das unhas da loira. Delicadamente. Jane parou em frente a Maura e os olhos negros pousaram nos olhos claros e amedrontados da loira.

'Ele te machucou? Além do que posso ver, quero dizer.' A voz saiu rouca, como se recusasse a se manifestar.

'Meu braço, minhas costas.' Maura murmurou.

'Susie?' Jane se amaldiçoou. Como se Maura não fosse capaz de se diagnosticar.

'É apenas uma torção, nada grave. E um hematoma nas costas, na parte inferior da caixa torácica. Vai ficar dolorido por alguns dias' Ela nem se virou para responder.

Maura confirmou com a cabeça. Susie levantou cuidadosamente o braço machucado de sua chefe e o apoiou em seu joelho para pegar amostra da outra mão. 'É o último procedimento.' Ela disse mais para Jane, do que para Maura.

A loira deixou que ela terminasse o trabalho, observando o quão delicadamente Susie segurava sua mão, numa demonstração de respeito e simpatia. Depois de recolher amostra do último dedo, a médica mais jovem colocou o braço de Maura de volta à barriga da mulher.

'Obrigada, Susie.' Ela disse, a voz soando mais firme agora.

'Não por isso, Dr Isles.' Ela parou antes de se levantar. 'Você gostaria que eu imobilizasse seu braço?'

'Não, muito obrigada. Não acho que seja necessário.'

Susie concordou com a cabeça e se levantou, um minuto depois Jane estava agachada em frente de Maura. Ela tentou se balancear enquanto colocava Harriet em pé, no meio de suas pernas.

'Oh, Deus.' Ela disse colocando as mãos no rosto da mulher. 'Maura, eu sinto muito, querida.'

Lágrimas finalmente começaram a cair incontrolavelmente de seus olhos. 'J-Jane, ele queria H-Harriet, oh Deus.' Ela chorava, por medo, por alívio, por estar viva.

'Ho-homem mau!' A criança choramingou para Jane. 'Machucou Maura!' Ela apontou para a mulher que agora estava com os olhos arregalados.

'Não, Harriet, não.' Maura tentou acalmá-la, ainda que estivesse machucada. 'Já passou, olha só. Eu estou bem.'

'Minha Maura!' Ela disse furiosa, indignada, encarando Jane como se exigisse que a morena fizesse alguma coisa. Os olhos expressavam raiva e medo, uma mistura perigosa até mesmo para uma criança.

'Sabe de uma coisa? Eu vou meter o pé na bunda dele.' Jane disse séria, e Maura revirou os olhos com o vocabulário.

'E na cara!' A menina exclamou irritada.

'Pode apostar.'

'Jane, isso é altamente inapropriado.' Maura interveio.

A morena só deu de ombros, não se importando.

'Mamãe.' A menina pulou para frente e abraçou a loira cuidadosamente porque Maura tinha pedido para que não a tocasse enquanto Susie estivesse ali, prometendo que depois ela a pegaria no colo. Depois ela se afastou olhando para ela preocupada. Ela colocou o dedo indicador perto do curativo na testa e perguntou, 'Dói?'

Maura balançou a cabeça em sim. 'Sim, mas não é nada grave.'

A menina se inclinou e beijou levemente por cima da gaze. 'Melhor?'

Os olhos de Maura se encheram de lágrimas mais uma vez. A sensibilidade de uma criança. Maura faria tudo de novo se fosse para mantê-la ali, simplesmente para presenciar o momento de tamanha doçura. 'Muito, muito melhor, minha tartaruguinha.'

Harriet sorriu para ela, orgulhosa de si mesma e olhou para Jane que lhe deu um sorriso de aprovação.

'O que aconteceu, Maur?' Jane tombou os joelhos no chão e acariciou o rosto da mulher com o polegar. Maura se inclinou ao toque.

'Eu ouvi vidro se quebrando, achei que fosse Harriet, mas o barulho tinha vindo de baixo e nós estávamos aqui. E...' Ela tomou fôlego, tentando se lembrar dos acontecimentos na sequência. 'E eu não sabia o que era. Não sabia se era você, ou se — se era outra pessoa. Mas eu sabia que havia algo de errado, Jane. E tudo o que eu consegui pensar foi em esconder Harriet e...' Ela deu de ombros. Ela não tinha pensado em se proteger, ela só pensou em salvar a menina. 'Eu mandei uma mensagem para Frost, porque ele tinha sido meu contato mais recente. E depois... depois ele entrou aqui e...' A voz estremeceu. Ela se arrepiou com a lembrança do homem, maior do que ela, ameaçador.

'Tá tudo bem, querida.' Jane acariciou o rosto dela. 'O que aconteceu depois?'

'Ele queria Harriet. Deixou bem claro desde o começo que só queria ela, mas quando eu recusei entregá-la, ele...'

'Ele avançou para cima de você?' Jane juntou as sobrancelhas em ódio.

'Minha Maura!' Harriet disse indignada. 'Eu bati nele.' Ela virou os olhos azuis afiados para Jane.

A morena olhou com incredulidade para Maura, que confirmou com a cabeça. A loira puxou a menina para cima de suas pernas e a abraçou, o gesto custou uma pontada de dor, mas a lembrança e o medo de perder a menina ainda ardia em sua pele, e só o corpo dela em seus braços acalmava-a e trazia conforto.

'Ela saiu, Jane. Ela saiu e eu achei...' Ela respirou fundo e fechou os olhos para conter novas lágrimas.

'Maura, eu sinto muito. Vocês não deveriam ter passado por isso.'

A loira balançou a cabeça e continuou. 'Ele me é familiar, Jane. Eu sei que já o vi em algum lugar, mas eu não consigo lembrar aonde.'

'Tudo bem. Você deu a descrição para Frost, certo?' Maura confirmou com a cabeça. 'Nós vamos achar ele. Ele vai pagar por isso, Maura. Agora vamos levantar você daqui, ok?'

A médica concordou com a cabeça e moveu Harriet do seu colo. Ela estava imóvel por minutos, e para ser sincera ela não tinha muito certeza se queria se movimentar. Ela não tinha tentado antes e se perguntava quais seriam os danos, aonde sentiria dor primeiro. E o quanto doeria.

Familiarizada com o tipo de situação, Jane ajustou o peso nos pés e esperou que a loira passasse os braços em torno do seus pescoço. Ela segurou firme na cintura da mulher e a ajudou a se levantar, fazendo a maior parte do esforço. Uma vez em pé, Maura juntou seu corpo com o da detetive e a segurou pelo que lhe pareceu vários minutos. O corpo estava terrivelmente dolorido, o hematoma nas costas queimava em dor a cada movimento de respiração, e ela quis chorar sem saber ao certo se era de dor, se era porque ainda estava assustada ou se, simplesmente, era porque Jane estava segurando-a nos braços e ela finalmente parecia estar salva.

'Eu sei como é.' Ela murmurou entre lágrima perto do ouvido de Jane.

'O que, querida?' Jane acariciou seu quadril, temendo correr as mãos nas costas da mulher.

'O que você faz, querer proteger as pessoas, eu sei como se sente. Eu entendo.'

Jane se afastou e segurou o rosto de Maura com as mãos. 'Maur, você foi extremamente corajosa. Vocês duas foram. Mas eu não quero, nunca mais, que você tenha que fazer isso de novo.'

Jane não tinha entendido, então ela esclareceu. 'Eu tenho orgulho de você, Jane, porque... porque precisa de muita coragem e altruísmo para fazer isso.'

E os olhos verdes e lacrimejados de Maura piscaram para ela, logo quando Jane pensou que não podia amar mais aquela mulher. Ela estava tão enganada. Como Maura conseguia fazer isso? Mesmo nos momentos mais frágeis, como ela conseguia fazer Jane se apaixonar mais e mais? A morena segurou seu rosto com carinho e beijou os lábios macios.

'E um pouco de loucura, Maur. E uma arma, definitivamente uma arma.' A morena beijou a bochecha da mulher.

'Eu gostaria... de me deitar um pouco.' A loira disse, se sentindo fraca e dolorida para continuar em pé.

'Certo, vamos levar você para o quarto. Devagar, ok?' Ela disse enquanto passava a mão na cintura baixa da loira. Maura estendeu a mão para segurar a de Harriet e as duas cruzaram o lugar lentamente, atravessaram o corredor — ainda com alguns policiais — e finalmente alcançaram o quarto das duas. Jane a ajudou a se deitar na cama e Maura fechou os olhos em agonia quando o peso do corpo pressionou as costas. Dor, dor, dor. Instintivamente, ela se virou de lado na cama, levando a mão ao rosto.

'Maura, você precisa ir num médico.' Jane disse quase apavorada.

'Eu sou médica, Jane. Eu preciso de Ibuprofeno. Você pode pegar para mim?' Ela pediu educadamente.

'É claro, claro. Eu volto num minuto.' Jane ergueu a criança e a depositou na cama ao lado de Maura. Ela não queria que ninguém mais tivesse algum contato com elas. Ninguém precisava ficar encarando, ninguém precisava perguntar 'e agora?' e, acima de tudo, elas não precisavam de ninguém criando uma situação constrangedora. Era o suficiente. Jane caminhou para fora do quarto e fechou a porta e pela brecha que ia diminuindo até sumir, ela viu Harriet se ajeitando ao lado de Maura. A morena andou o suficiente para sair da frente da porta e se encostou na parede.

O dia tinha acontecido do avesso. Era ela que, supostamente, deveria ter corrido algum tipo de risco. Ela jamais imaginara que naquele dia ao sair de casa estava deixando Maura e Harriet expostas ao perigo. Teoricamente elas deveriam estar seguras na própria casa. Quando Jane recebeu o telefonema de Korsak ela achou que tinha entendido errado. Logo a compreensão foi seguida pelo medo e raiva, o primeiro servindo de pavio para o segundo. Ela imaginou que quanto antes visse as duas e as checasse com os próprios olhos, o turbilhão de sentimentos dentro de si fosse se acalmar. Sim, talvez tivesse se acalmado, mas para quê, afinal de contas? Apenas para ceder espaço à agonia de encontrar sua mulher machucada e jogada ao chão, à culpa de não ter sido ela ao se colocar entre o invasor e ela, mas sim a garotinha de apenas seis anos?

Jane escondeu o rosto nas mãos e esperou até que a mente parasse de gritar. Os dedos tremiam levemente e ela se esforçou para não chorar. Ela ainda tinha algo a fazer, Maura estava esperando de volta por ela. Ela respirou fundo e caminhou em direção às escadas. Lá em baixo ela encontrou Frost e Korsak discutindo algo em murmúrios. Ela decidiu ignorar por enquanto e pegou um copo de água na cozinha e a cartela de comprimidos que Maura guardava numa das gavetas do armário. Se sentindo um tanto quanto fracassada e irritada, ela caminhou em direção aos homens.

'Quem quer que seja, eu quero...' Ela começou, mas Korsak já estava balançando a cabeça em não.

'De jeito nenhum. Isso é pessoal e você tá fora do caso. Você sabe como funciona.'

Jane ficou de queixo caído. 'Caso você não tenha percebido, Korsak, essa é minha casa e nesse momento eu tô levando remédio para minha mulher que tá lá em cima porque alguém a atacou. Sob o teto da nossa casa. Não me venha dizer que isso não diz respeito a mim.' Ela apontou um dedo para ele e não se importou nenhum pouco com o tom.

O homem trocou olhar com Frost e balançou a cabeça novamente. 'Sinto muito, não foi minha decisão. Cavanaugh quer você fora, e a não ser que você queria ser suspensa... É melhor você obedecer.'

A detetive apertou os dentes e fechou a cara. Ela iria falar com Cavanaugh na manhã seguinte. Ela iria dizer que ela, mais do que ninguém, deveria participar daquilo.

'Eu quero esse desgraçado atrás das grades. E Korsak, Deus o ajude se eu colocar as mãos nele primeiro do que vocês.'

Ela se virou e saiu a passos duros. Os dois homem se entreolharam e eles sabiam que não tinha sido uma ameaça. Não tinha, tão pouco, sido uma chantagem para que não a tirassem do caso. Aquela era apenas uma faceta de Jane se mostrando: Jane, a mulher de Maura. E todos sabiam muito bem como a morena funcionava quando se tratava da proteção da médica. Jane iria caçá-lo como um gato caça um rato e a única vantagem que eles tinham é que, primeiro, ela já não tinha mais acesso a meios — vídeos e depoimentos — que eles tinham agora. E, segundo, eles sabiam que ela não deixaria Maura até ter certeza de que ela estaria bem.

'Frost, você sabe como ela é. Coloque mais homens trabalhando nisso antes que...'

'Deixa comigo. Eu sei.'

Frost deu um tapinha do ombro do homem antes de sair. Korsak andou até a janela da sala — a janela quebrada — e se ajoelhou para pegar Joe Friday no colo. A cachorrinha dormia profundamente, possivelmente drogada pelo invasor.

...

Jane ajudou Maura a se sentar, apenas para ingerir o remédio, e depois a se deitar novamente. A expressão de dor no rosto de Maura se refletiu no rosto de Jane quando a morena finalmente se afastou depois de aninhá-la na cama. A morena trouxe a coberta até o seus ombros, se agachou no chão e segurou a mão de Maura com as suas.

'Eu vou ligar para Tommy, para ele me ajudar com a janela quebrada. Que tal se você dormir um pouquinho enquanto isso?' A voz suave não combinava nem um pouco com o nervosismo que sentia.

'Eles se foram?' A loira perguntou.

Jane balançou a cabeça em sim. 'Todos eles, exceto Korsak e Frost. Colocaram patrulhas perto de casa também.' A morena acariciou o rosto da loira, os olhos verdes apagados pelo cansaço, pelo medo. 'Maura, vocês estão a salvo agora. Ninguém vai machucar vocês, nem... Nem levar você. Ouviu Harriet?' Ela ergueu os olhos para a menina que estava sentada na cama, parecendo tão pequena e frágil como nunca.

'Tá.' A palavra curta soou distante no ar.

O olhar dela caiu para Maura de novo. A loira balançou a cabeça em entendimento. Jane inclinou para beijar sua bochecha e acariciou sua cabeça.

'Eu volto para checar vocês.'

Jane não tinha realmente paciência para trabalhar com vidros e janelas. Então, em vez de ajudar — ou atrapalhar, nesse caso — os irmãos, ela simplesmente observava. Enquanto os dois trabalhavam para consertar a janela estragada, ela esperava em pé, os braços cruzados sobre o peito, o olhar fixo em algum ponto da parede. Um tornado de emoções rodopiava dentro de si, mas a maioria dizia respeito a sentimentos de raiva, culpa, preocupação e... vingança. Ela sabia que deveria reconsiderar a última palavra... deveria substituí-la por 'justiça', mas no exato momento, para ser honesta, tudo o que ela queria ela colocar as mãos em cima do responsável pelo ataque, e o que quer que fosse acontecer em seguida não podeira ser classificada, em nenhuma jurisdição, como justiça.

Atormentada pelos próprios pensamentos, pelo desejo de causar mal a quem tinha causado mal à sua família, ela balançou a cabeça e se dirigiu para o quarto, afim de checar a mulher e a criança. Pela porta entreaberta os olhos capturaram a única imagem capaz de lhe desarmar: Maura encolhida na cama, Harriet aninhada em seus braços. Fazia trinta minutos desde a última vez que a detetive deixara o quarto e agora a loira dormia profundamente, e Harriet parecia também perdida em seus sonhos. A menina tinha uma mão na boca, e a outra mão segurava a mão de Maura que estava em sua barriga. Em outros dias, a cena parecia doce, digna de uma foto — Jane já tinha várias no celular — mas hoje tinha sido amargurada pela agressão de alguém. Se elas estavam ali deitadas, era apenas porque Maura estava machucada e precisava do descanso.

O pensamento fez a garganta se fechar e lágrimas ameaçarem a cair. Entretanto, ela não iria chorar. Ela não tinha nenhum direito de chorar considerando que ela não tinha sido ferida, que ela não tinha sido aterrorizada. Nenhuma mão tinha sido apertada no pescoço dela, então ela não iria chorar.

Ainda que alguma mão invisível estivesse lhe apertando a garganta.

...

Sufocando. Ela estava sufocando e o ar pelo qual lutava para respirar parecia cada vez mais raro-efeito. Ela tentou mais uma vez com força, mas em vez de ar, o que apareceu em sua garganta foi... o que era aquilo? Ela não conseguia definir com precisão. A textura era grossa, fria, como uma corda. Mas estava vivo, ela sabia porque a coisa se apertava em seu pescoço com força, pouco a pouco, tirando inclusive sua capacidade de gritar por ajuda. Ela deslizou os dedos pela coisa. Era vermelha, ela não conseguia ver mas mesmo assim ela sabia que era vermelha. Os dedos estudaram a textura e... Aquilas coisas eram escamas?! Sim, eram escamas! Seria uma cobra? Um lagarto? Ela tentou gritar quando dentes afiados surgiram em sua frente, a boca aberta dando o bote.

Maura se sentou na cama e numa arfada pegou todo o ar que precisava. Imediatamente após, ela apertou os dentes ao som de um gemido de dor. Tinha sido um sonho, apenas um sonho terrível com... Coisas rastejantes. Agora seu corpo vibrava dolorosamente por causa do esforço da respiração pesada, um preço a se pegar pelo tão desejado ar. Instantes depois Jane estava se sentando na cama, colocando uma mão em sua nuca.

'Hey...' A morena sussurrou não querendo assustá-la ainda mais.

'Tá tudo bem.' Maura disse, apertando levemente a coxa de Jane. 'Tudo bem, foi só um pesadelo.'

A detetive suspirou fundo. Ela sabia como era passar por um trauma e ter esse tipo de sonho. 'Vem aqui comigo. Deixa eu cuidar de você.' Ela abriu o braço enquanto se deitava e Maura não hesitou por um minuto.

'Sonhos ajudam a diluir o trauma', ela começou enquanto descansava a cabeça no ombro da morena, como se tentando se justificar, 'é o jeito do cérebro lidar com isso. Pode acontecer algumas vezes, até que...'

'Até que o trauma seja superado.' Jane concluiu. Ela afastou o cabelo do rosto da mulher e beijou sua cabeça.

'Exatamente.' Maura apertou a mão na cintura da detetive.

'Quer me contar?'

'Era só... alguma coisa apertando meu pescoço. Me enforcando.' Ela murmurou.

'Oh, Maura. Sinto muito...' E ela sentia. Mais uma consequência do ataque na tarde anterior, um adicional que Maura estava pagando pelo seu descuido. De qualquer forma, agora nem adiantava mais se culpar — se cobrar — Maura precisava de seus cuidados, e não de resmungos. Ela acariciou a linha do rosto da loira com o polegar e encostou o nariz na cabeça dela. 'O que eu posso fazer?' Ela perguntou em voz baixa, na mais honesta sinceridade, porque nesse momento ela já não sabia o que poderia fazer — se poderia fazer. Ela se sentia tão impotente agora, como se o acontecimento do dia anterior tivesse apontado um dedo para sua mais nova falha: não ser capaz de proteger sua família. E se sua armadura tinha sido rachada, de que ela serviria?

A loira ergueu a cabeça para estudar o rosto da mulher e, tão costumeiramente, fez o pedido mais singelo. 'Só me segura, e eu sei que você vai estar aqui.'

E embora as palavras tenham quase quebrado seu ser em pedaços, Jane apertou Maura num abraço, ciente de que seus braços — aqueles que sempre a acolheram e cuidaram — poderiam agora lhe causar dor. 'Eu tô aqui.' E eu deveria ter estado antes. Ninguém deveria ter machucado você. Deus, o que me aconteceria se tivessem matado você? A morena correu a mão pela cintura da mulher, os dedos deslizando pela caixa torácica. Ela conseguia sentir os ossos sob os seus dedos, a pele quente e macia. Maura parecia tão pequena sob sua mão, e Jane odiou a sensação que a invadiu quando ela se lembrou que aquele corpo, pequeno e magro, tinha se atrevido a enfrentar um com o dobro do tamanho. 'Eu tô aqui.' Ela repetiu de novo, como se pudesse de alguma forma regressar no tempo, como se as palavras fossem a chave para desfazer e reescrever a cena inteira. Ela deveria ter estado lá, e ela deveria ter protegido Maura, e Harriet. Ela era a forte.

Com um suspiro ela apertou os dentes e dispensou, mais uma vez, as lágrimas. Ela era forte e não iria chorar.