Sobre amor, tartarugas e novas chances
24 Capítulo XXIV
Notas iniciais
O jeito como os fios de cabelo de Maura deslizavam por seus dedos, lentamente. Finos, macios, ainda mais dourados por causa do sol nascente. A forma como sua mão cicatrizada descia e subia sobre o peito da loira, constante e regularmente, enquanto a a médica respirava tranquilamente o ar novo da manhã. O modo como a cabeça dela se inclinava involuntariamente para o seu lado, como se Jane tivesse uma força invisível que a atraísse, mesmo em sono profundo. O momento silencioso trazia paz. Era como se ela estivesse em uma bolha, deslocada da realidade, do mundo.
A morena segurou a mão de sua mulher e correu o polegar pela aliança. Maura era dela. Bem, não era dela, porque Maura não era nenhuma propriedade; ela simplesmente escolhera passar o resto da vida ao seu lado. E às vezes Jane nem acreditava na sorte que tinha. Ela não viu nada daquilo acontecendo: não se viu apaixonar por Maura, não notou em que momento passou a aceitar sem brigas o sentimento, não notou, tão pouco, que Maura estava apaixonada por ela também. Por isso, quando a médica tinha pedido aquele beijo — o que as uniu para sempre — Jane tinha ficado surpresa. Afinal, quais eram as chances de Maura estar na dela? Aparentemente, Jane era uma ótima detetive quando não se tratava de sua vida pessoal. De uma forma ou de outra ela ficara maravilhada quando as duas decidiram assumir o namoro. Era um passo grande, algo que significava que a relação das duas estava tomando um rumo sério. Mas nada a tinha deixado tão feliz até aquela manhã...
Elas já estavam juntas por sete meses. Oficialmente juntas. É verdade que muitas coisas permaneciam iguais: os encontros, a estadia dela na casa de Maura, os gestos e toques de antes, os olhares e os sorrisos. Assumir aquilo que sentiam pela outra tinha adicionado uma nova coisa ao meio dessas: sexo. E depois de meses juntas, Jane se sentia completamente a vontade com a loira. Naquela noite Maura tinha sugerido algo novo: strap-on. Jane pareceu hesitar a princípio, mas no fundo a idéia a excitava, principalmente quando se lembrou de que aquilo era via para outras posições. É claro, tudo tinha sido um tanto quanto desajeitado e cuidadoso da primeira vez, sobretudo por causa do medo de machucar Maura. Mas Jane aprendia rápido, e o fato de não irem trabalhar no dia seguinte implicava numa noite longa e cheia de amor — e desejo.
Jane conhecia aquele corpo. Conhecia tão bem como a palma de sua mão, cada curva, cada pico, cada ponto sensível. Ela poderia ter Maura implorando por ela, mas em vez disso, ela preferia oferecer. Ela estava viciada na mulher, em seu cheiro, em seu gosto, em sua voz. E como qualquer outra droga, ela sempre queria por mais. O strap-on naquela noite tinha elevado o sexo a outro nível, e Jane queria repetir as ações, as sensações, os movimentos.
Foi no ponto onde a madrugada se transformava em dia, durante o terceiro ato, que Jane se deu conta de que aquilo que começaram era um círculo vicioso, interminável. Seu corpo estava cansado em um ponto que consideraria minimamente dolorido, mas ela precisava fazer aquilo mais uma vez. O corpo quente e também cansado de Maura estava guardado entre seus braços, e ela beijou sua nuca com carinho, tirando-a do sono leve em que se encontrava. Nenhuma palavra foi dita. A loira entendeu a demanda de Jane e deitou de barriga para baixo na cama.
Jane sorriu em malícia com a posição sugestiva de Maura. Ela deslizou os lábios da nuca para as costas da mulher, uma mão seguindo o movimento, traçando padrões com os dedos que queimavam a pele. A pele branca da loira estava marcada. Jane a tinha arranhado das outras vezes? Ela não se lembrava, mas as marcas rosadas estavam lá e ela não conseguia imaginar de que outra forma elas tinham ido parar ali, senão pela força de seus próprios dedos. Ela depositou beijos seguindo a linha da coluna e parou a centímetros de seu quadril. Ela plantou um beijo demorado ali, no mesmo momento em que sua mão deslizou para parte interna das pernas. Maura inclinou o quadril para cima, permitindo que a mão de Jane alcançasse sem dificuldade o destino final.
Ela gemeu em antecipação quando sentiu a mão da morena tocar-lhe o sexo, mas em provocação Jane estava correndo os dedos entre os lábios, para cima e para baixo, como se espalhando o líquido que começava a se acumular ali, mais uma vez. Quando a loira tentou se virar, Jane a manteve no lugar com uma única mão pressionada nas costas, e Maura gemeu em surpresa e prazer quando dedos a penetraram. Ela apertou o lençol com as mãos e respirou fundo. A morena estava provocando, os dedos deslizando para frente e para trás num ritmo lento demais para o gosto de Maura, e ela não conseguia evitar de se contorcer, pedindo por mais. Quando dedos abandonaram seu corpo, Maura sentiu uma falta terrível de Jane, mas o sentimento logo foi substituído por uma onda de excitação quando, depois de plantar novos beijos em suas costas, a voz da morena soou roucamente em seu ouvido.
'De joelhos.' Jane disse e lhe beijou a nuca antes de ela mesma se ajoelhar entre as pernas de Maura.
Obediente, a médica ajoelhou-se e arfou quando a morena passou as mãos pela sua barriga, obrigando-a a endireitar a postura. Maura encostou-se no peito da mulher e recebeu cada beijo colocado no seu pescoço, e virou o rosto apenas o suficiente para beijar os lábios da morena. Um gemido ecoou na boca de Jane quando ela apertou seus seios, e os lábios da detetive voltaram a descer pelo seu pescoço, por uma busca minuciosa por pele não tocada, por curvas não exploradas.
Um arrepio correu por suas costas quando a mão quente da morena pousou ali, pressionando-a sugestivamente para frente. As mãos da loira apoiaram no macio da cama e o seu rosto se voltou para Jane. Os olhares se cruzaram e Maura mordeu os lábios em excitação e apreensão. Elas nunca tinham feito desse jeito, ela estaria mais exposta do que nunca. Entretanto, sua confiança em Jane era maior. Os olhos escuros como a noite emitiam desejo, e também um tipo sereno de amor. Aquela mulher tomaria conta dela. Ela piscou os olhos para dispensar a hesitação e sorriu para Jane — um sorriso maroto, permissivo. Quando a detetive segurou sua cintura, ela empurrou o quadril para trás, provocativa.
Jane mordeu o lábio e apertou os dedos na cintura da loira. Os dedos de uma mão só, já que a outra agora estava inadvertidamente pressionando contra o sexo inchado da loira. Maura gemeu baixo e fechou os olhos. Ela dançou o quadril na mão de Jane, porque afinal de contas ela também sabia provocar, e o gemido vindo da outra mulher — rouco, carregado de excitação — só fez aumentar a umidade entre as pernas.
E Jane soube que era a deixa. A morena sentia o coração bater acelerado no peito e o meio das pernas queimar. Em várias ocasiões, antes de se envolver com Maura, ela havia se perguntado como a loira era na cama. Em tão poucas ela se permitira imaginar tendo relações com a mulher, mas em nenhuma delas ela se imaginou usando um strap-on. Penetrando-a por trás.
Era excitante. Era algo ousado que ela não tinha cogitado antes, e se ela não estivesse tão excitada teria, quem sabe, ficado surpresa com a própria iniciativa. Mas agora tudo o que ela conseguia focar era em Maura em sua frente, dobrada de joelhos, respirando fundo e esperando...
Até que a espera tinha sido interrompida, e a interrupção fora anunciada por um gemido de prazer, de surpresa. Maura apertou o lençol com as mãos enquanto sentia Jane preenchendo seu sexo, e o simples ato disparou uma onda de prazer que percorreu em abundância pelo seu corpo. Os músculos se tensionaram por vontade própria, e o ar foi expulso de seus pulmões em formato de alívio quando a voz rouca de Jane ecoou em seu ouvido.
'Jane.' A voz era grave e cheia de pedidos.
A morena esperou tempo suficiente para que o sexo de Maura se acostumasse e apenas depois começou a mexer o corpo lentamente para frente e para trás. Os músculos ardiam em protesto à quantidade de exercícios repetidos durante a noite, mas a queimação se transformava em prazer. A sensação era avassaladora, despertava sentidos e sensações em lugares que Jane jamais tinha conhecido antes. A mistura de poder, de prazer, de dominância era apenas medida pelo lembrete de que se ela perdesse a cabeça, Maura sairia machucada. Ainda assim, a sensação era poderosa demais, lançava pulsos de prazer em cada investida, e a mistura de gemidos — seus e de Maura — combinados com a sensação da tira do strap-on roçando em seu clitóris e pressionando a cada encontro com o corpo de Maura, sobrecarregava Jane com aquele tipo de energia que deve ser aliviada, que só pode ser aliviada através de um orgasmo.
A dança dos corpos era ritmada e seguia como se tivesse sido ensaiada, e o corpo de Maura se balançava para frente e para trás, comandado pelo corpo de Jane, enquanto as mãos da morena se certificavam de mantê-las próximas, conectadas. Maura se rendeu a sensação causada por algo que mal podia processar. Poderia ser o gesto possessivo da morena que segurava com força seu corpo, poderia ser a voz rouca brotando da garganta, poderia ser o fato de Jane estar, literal e metaforicamente, completando-a. Em cada vez que seus corpos se encontravam, em cada vez que o som da voz da morena corria pelo seu corpo. Jane em seus pensamentos, Jane em tudo que ela sentia. Em corpo, em mente. A morena segurava tão possessivamente, fortemente seu corpo que Maura tinha certeza que deixaria marcas ali. E ela já não tinha deixado de qualquer forma? Em suas costas, em corpo? O cheiro de Jane em sua pele, o gosto da morena em sua boca. Jane completamente dentro de si, Jane por toda parte do seu corpo, em cada milímetro de sua pele. Jane, Jane, Jane.
Maura gemeu, tentando não ceder à energia poderosa que ameaçava dominar seu corpo, e o som de sua voz só fez eclodir com força imensa e incontrolável o orgasmo que Jane sabia, não demoraria muito a acontecer. Seu corpo tremeu e a sensação só fez estimular movimentos mais rápidos, sedentos, e num últimos instante de controle a morena jogou a cabeça para trás enquanto cerrava os dentes e se entregava ao domínio da sensação. O único som que escapou de sua boca, um gemido rouco e longo, quase gutural, foi o último estímulo que Maura precisava.
O próprio quadril se remexeu pela busca de prazer enquanto Jane havia por uns instantes sido paralisada e Maura protestou em exigência chamando por seu nome. Ainda não completamente recuperada a morena voltou a investir contra a mulher, suas mãos buscando furiosamente pelo quadril, cintura da loira. Não demorou muito. O corpo da mulher tremeu sob seu toque, suas mãos, e os gemidos de Maura eram a mais viciante melodia e Jane queria mais e tinha meios para consegui-los. Mesmo após o choque principal, o som baixo continuava soando incessantemente enquanto Jane movia o quadril lentamente, até parar por completo. A morena se curvou para frente e beijou as costas da loira, e Jane endireitou a postura e se afastou com cuidado dela.
Cansada, Maura repousou o corpo na cama e esticou as pernas entre as de Jane. A morena apoiou as mãos no colchão e beijou sua nuca, duas, três vezes, sem pressa. Ambas respiravam pesado, e Maura tinha os olhos fechados e a boca entre aberta, ainda numa expressão de prazer. Jane sorriu em malícia. Aquela mulher... Ela poderia fazer isso todas as noites, sem se cansar. Ela poderia tê-la ali, ajoelhada em sua frente, quando quisesse. E Maura parecia agora esgotada, mas era por causa dela. Jane se sentia poderosa, e ainda que fosse apenas pelo motivo de Maura permiti-la — ela jamais tomaria a mulher assim sem consentimento — ainda assim a sensação tava lá.
A morena se livrou das tirar do strap-on e enquanto o fazia Maura havia se virado para observá-la. A língua umedeceu os lábios secos por causa da respiração forte e pesada de antes, e ela esticou a mão como se convidando Jane de volta ao seus cuidados. A morena simplesmente se inclinou para frente e sentiu os braços delicados abraçando seu corpo. Ela amava como Maura a abraçava depois do sexo. Ela amava o modo como a loira conseguia dividir com ela o mesmo ato, ora em amor, ora em sexo. E como o coração batia forte e ainda assim tão macio em seu peito.
Ela segurou o rosto da loira e beijou os lábios vermelhos que pareciam tão macios nos seus com amor. Ela amava Maura, e seus toques, e suas cores, e seus sabores. O seu cheiro doce, o cheiro da excitação misturado com seu perfume. Os olhos claros que ficavam verde escuro quando carregados de intensidade — como agora.
A morena riu e sua voz soou rouca ao próprio ouvido. 'Deus... Strap-on: melhor idéia de todos os tempos.'
Maura riu em resposta e os olhos se fecharam delicadamente. 'Não sei se Deus aprova isso.' Ela rebateu.
'Eu certamente aprovo.' Ela roubou um beijo da loira. 'Você... Caramba, você é maravilhosa, Maur.'
'Você não fica muito atrás.' Ela riu em seguida.
'Oh, é mesmo? Bom saber.' Jane apertou o corpo da loira e beijou sua bochecha e roçou o nariz em seu rosto num gesto carinhoso.
Maura se limitou a rir, sentindo o corpo pesado com o cansaço. Ela manteve os olhos fechados enquanto sentia os lábios de Jane roçar de vez em quando em sua pele, no seu pescoço, em seu peito. Era o reconhecimento que a morena fazia sempre, distribuindo beijos aqui e ali antes de ninar Maura para o sono.
A morena se remexeu na cama e se afastou o suficiente para estudar a loira. Ela memorizou cada traço do rosto, as curvas dos lábios, os movimentos sutis dos olhos e sobrancelhas. Os olhos desceram pelo pescoço até o peito da mulher, novamente. E algo chamou a atenção da morena.
As sardas. Jane nunca tinha prestado tanta atenção em como elas estavam distribuídas. Ela deslizou um dedo no ombro de Maura, observando cada pontinho pintado ali, o modo como se separavam e se aproximavam, como se tivessem sido jogadas aleatoriamente. Ela levantou os olhos para checar a loira que ainda respirava pesado de olhos fechados, e traçou um caminho com um dedo ali. Quem sabe acharia algum padrão? Quem sabe as sardas contassem alguma história? Eram todas exatamente da mesma cor? O dedo indicador dançava lentamente na pele da loira. Jane ergueu as sobrancelhas quando fez sua primeira descoberta: três sardas se destacavam visivelmente perto da clavícula, na formação do cinturão de Órion. A morena não ficou nem um pouco surpresa. Maura era todo o universo, o seu universo, e fazia sentido que tivesse registrado algo pertencente à ele em seu corpo. Agora ainda mais atenta, a morena correu os olhos para o lado, e a próxima coisa que encontrou foi a 'bota da Itália'. Não era um mapa perfeito, é claro, mas era reconhecível. Ela apoiou o corpo num cotovelo e se inclinou para ter uma visão melhor. Os dedos desceram para a linha do seio da mulher, e Maura agora acariciava seu cabelo, mas Jane estava concentrada demais procurando por sinais ali que não se deu conta nem de que Maura estava observando ela.
'Mickey.' Ela murmurou e sorriu.
'Jane, o que você está fazendo?' A loira correu o polegar pela bochecha da outra.
'Suas sardas. Esse é o Mickey!' Ela exclamou, parecendo encantada demais.
'O que?' A loira inclinou a cabeça e estudou o ponto que Jane estava apontando para ela.
'Olha, as orelhas e a cabeça.' Ela insistiu.
Maura abriu os olhos quando finalmente entendeu, encontrando o desenho feito pelas sardas e riu.
'Realmente, é até mesmo simétrico.' Ela correu a mão pelas costas da mulher, aproveitando o momento doce.
'Meu Mickey.' A morena disse e beijou o lugar, fazendo a loira rir de novo.
'E aqui, bem aqui... O cinturão de Órion.' Ela beijou o lugar também para que Maura soubesse onde ele estava. 'E aqui, a bota da Itália.' E os lábios beijaram outro ponto da pele novamente.
'Hum... Viu? Eu sempre tive uma queda pela Itália, e tudo relacionado à ela.' A loira sorriu com o beijo de Jane em seus lábios e queixo, e ela tentou segurá-la ali, manter seus lábios nos seus, mas a morena parecia determinada em encontrar mais, porque logo ela sentiu o dedo de novo em seu colo.
Poucos instantes depois Jane bateu de leve duas vezes com o indicador e disse: 'Aqui, uma pata de cachorro.' Mais um beijo foi plantado ali, e era como se ela estivesse declarando cada figura como sua. Maura não respondeu, apenas deixou com que ela continuasse sua procura, conformada de que enquanto Jane não terminasse com a caça, ela não faria nenhuma outra coisa, mas apreciando o momento de qualquer jeito.
'Uma flor!' Ela ouviu Jane exclamar, e quando levantou a cabeça para conferir a morena advertiu. 'Não, espera.' Ela começou a murmurar baixo, enquanto contava. Maura sentia cada vez que a morena movia o dedo. 'Bem-me-quer, mal-me-quer.' Ela tentou não rir, mas Jane tornava as coisas impossíveis. O que tinha dado nela que agora implicara tanto com as sardas? 'Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer.' E foi quando Jane suspirou aliviada que Maura sorriu — cheia de amor.
'Bem me quer.' A morena tinha erguido os olhos para ela como se dissesse 'as pétalas não mentem' e Maura dessa vez teve que rir.
'É claro que eu te quero. Muito. Eu amo você, Jane.'
A morena sorriu para ela e beijou lentamente seus lábios. 'E eu amo você. E amo suas sardas.'
Maura sorriu em retorno e fechou os olhos quando mais uma vez, serena e em paz. Os olhos desceram pelo pescoço da loira e Jane se atentou à linha fina e branca ali. A cicatriz que Hoyt deixara no pescoço da loira era quase invisível, e ela estava se apagando cada vez mais e mais, assim como as memórias assustadoras que tantas vezes agarravam sua garganta como uma mão gelada, sufocante. Jane deslizou o dedo ali e no momento em que a mulher virou o pescoço, como se tentando se safar da recordação, ela soube que era melhor recuar. As vezes a detetive ainda se sentia culpada por tê-la colocado em risco tantas vezes. O trabalho de Maura não estava diretamente relacionado com seu, e toda e cada vez que a loira sugeria ir em campo com ela, ela se lembrava da lâmina fina em seu pescoço, e não podia deixar de querer protegê-la. O risco que Maura corria por estar com ela tinha que ser compensado com proteção em dobro. O lugar onde estava agora, ali em seus braços, parecia perfeitamente seguro e ideal para mantê-la segura. Jane jamais poderia deixar que ela se fosse, jamais permitiria que, sob sua proteção, algo de ruim acontecesse à ela — ela cuidaria de seu corpo, de seu espírito. Jane sabia como fazê-la feliz. Ela se inclinou e beijou os lábios da loira, que pressionou os dela em resposta ainda de olhos fechados, e quando a morena se afastou para estudar seu rosto, ela viu as sobrancelhas da mulher se arquearem levemente, como se perguntasse o que vinha em seguida.
Jane sorriu. Ela amava esses momentos de intimidade e calmaria com Maura. Eles eram tão sagrados e singulares que seria absolutamente irreverente de sua parte se não prestasse atenção neles. Os momentos que eram só dela, os gestos sutis que eram só dela e que só ela conhecia. O jeito como a loira respirava agora, cansada, e roçava os pés em sua canela era sinônimo de resistência ao sono que estava sentindo. Ela ficaria acordada até que Jane a recolhesse nos braços, ou a abraçasse por trás e dissesse para dormir. E qual era o jeito mais rápido de fazê-la se entregar ao sono? Acariciar seu cabelo, especialmente com os dedos enroscados perto do couro cabeludo, se mexendo em qualquer ritmo lento. O jeito de recuperá-la de um pesadelo? Colocar o ouvido no peito da morena, assim as batidas a lembrariam de que Jane era real, e o sonho não. Convencê-la de que precisava ficar em casa enquanto corria uma febre de quase quarenta graus? Ameaçar trocar os sapatos de caixa, ou simplesmente dizer que irá jogá-las fora (tinha funcionado uma única vez em que a médica ficara doente). Esses e tantos outros detalhes que só a morena sabia. E como ela não poderia notá-los?
Além disso, é claro, havia as pequenas coisas que somente Maura sabia sobre ela. A dor nas mãos em dias frios que era combatia com massagens. A mania de esfregá-las uma na outra em situações de estresse, algo que Maura a ajudava a reverter com conversas e carinhos. O modo como Maura a fazia se sentir segura em noites de pesadelos — algo que quase não acontecia mais — sem se sentir fraca e dependente. A confiança que Maura depositava nela quando se tratava de cuidar de seu corpo; Jane se sentia tão poderosa nesses momentos. O fato de Maura adorar enfiar folhas verdes e frutas em sua alimentação, sempre insistindo num estilo de vida mais saudável, mas não se importando muito quando Jane decidia comprar uma pizza ou apenas comer um lanche — porque ela sabia que Jane amava as porcarias que comia. As vezes que Maura roubava suas batatas fritas, mas por pura implicância ela decidia provocá-la dizendo que se quisesse comer batatas fritas, que pedisse pelas próprias. A verdade é que Jane adorava quando Maura roubava sua comida. Era ridículo, mas ela via o gesto como algo que casais faziam, e ela estava feliz com o lembrete de que aquela mulher era seu par. De alguma forma Maura sabia disso também, porque ela sempre esperava Jane pedir por elas, ou pela sobremesa, por qualquer coisa que pudesse furtar em seguida.
Ela amava Maura, tinha amado desde muito tempo, e entendia naquele momento que não havia razão alguma para viver sem ela. Ela precisava da loira na sua vida. Das lições diárias tiradas de algum livro de história, biologia, de documentários da televisão. Do seu cheiro que invadia seu nariz todas as manhãs, do abraço macio e reconfortante, do seu gosto em sua boca.
A morena plantou um beijo leve em seu pescoço e outro em seu peito. Ela estava prestes a se deitar de lado e puxar Maura para si, quando mais uma vez sua atenção foi pega pelas sardas. Uma em particular.
Jane traçou o caminho até ela e passou o dedo como se testando se fosse verdade. Sim, estava ali e era realmente aquilo. Ela estava impressionada.
Maura se remexeu e segurou a nuca da morena. 'Oh!' Ela sentiu um dedo pressionando de leve sua pele. 'Maura... Esse é um coração!'
A loira abriu os olhos e olhou para o peito, o lado direito sustentando o dedo de Jane. Ela conferiu o formato e concordou com a cabeça, com sono demais para elaborar uma frase que fosse.
'Esse é meu também, Maura?' Ela perguntou tímida, mas com um sorriso bobo nos lábios.
O olhar escuro da morena era tão intenso que por um minuto Maura só soube da existência dela. Ela balançou a cabeça em sim e os lábios se desenharam a curta palavra. 'Os dois são teu, Jane. E eu sou tua também.' Ela disse em seguida, enquanto sua mão acariciava gentilmente a bochecha da detetive. Ela assistiu enquanto a morena, parecendo encantada demais, apoiou os braços na cama e segurou com carinho seu rosto. Sua expressão era impagável, e tudo o que Maura conseguia identificar era amor e adoração.
Ali estava, o futuro que queria diante dos seus olhos. A mulher que parecia ter saído de seus sonhos mais secretos, deitada nua em baixo de seu corpo. A chance de concretizar algo que era abstrato. Não, de simbolizar algo que era abstrato, grande demais para ser interpretado ou compreendido de maneira completa.
'Casa comigo.' As palavras saíram dos lábios sem serem medidas, vindo do lugar mais profundo e sincero do seu peito.
'O que?' Maura parecia bem acordada agora, impressionada e pega de surpresa.
'Casa comigo, Maura.' Ela repetiu, sem medo de receber um não. 'Eu não tenho dois corações, tenho apenas um, mas ele é completamente seu e eu posso amar você mais do que amo a mim mesma.'
'Jane...' Maura sussurrou e a voz carregada sinalizava apenas emoção.
'É sério, Maura. Casa comigo, porque eu amo você e não vejo motivo para não colocar uma aliança no teu dedo. Aliás tudo o que eu consigo pensar é nisso: que você use uma aliança para que os olhares indevidos sejam desviados, porque no momento em que eles encontrarem com o anel eles vão saber que você é amada e respeitada por alguém, por mim.'
'Oh...' Maura arfou diante das palavras, e ela não soube se era o sono que a impedia elaborar algo coerente ou a intensidade do que estava sentindo no peito.
'E porque eu quero te dar algo mais substancial nessa relação -'
'Jane, nada é mais palpável do que você aqui.' Ela disse e apertou os braços em torno da mulher.
Jane sorriu para ela e continuou falando. 'Eu quero te dar uma família. Em termos de lei, Maura, eu quero que você seja uma Rizzoli-Isles, ou Isles-Rizzoli, você escolhe. E se você quiser um bebê, quer dizer, eu sei que você quer, desde que resgatamos aquele recém-nascido eu soube... Se você quiser, eu fico mais do que contente de repartir a maternidade com você. Eu quero te fazer feliz, Maura. Eu posso te fazer feliz, não posso?' Era como se fosse uma dúvida, mas ela já sabia a resposta.
'É claro que pode, Jane. Você já me faz feliz, todos os dias.' Ela beijou os lábios da morena e as lágrimas caíram dos olhos sem consentimento.
'E é o que eu quero continuar fazendo o resto da vida, Maur, porque você também me faz feliz. Casa comigo?'
'Sim, é claro que sim.' Ela segurou o rosto da mulher e a beijou com ternura. Ela não estava esperando por isso. Nenhuma delas tinha tocado no assunto desde aquela noite no colchão, e parecia fazer um século desde então. Maura estava extremamente feliz. O pedido de Jane, ela concluíra, tinha a ver com a disposição da morena lhe oferecer tudo o que podia. Jane sabia que não precisava colocar uma aliança no dedo dela para ter todas essas coisas que mencionara, mas ainda assim, colocar um anel em seu dedo tinha sido cotado porque, afinal de contas, fazia parte de uma tradição, assim como um primeiro encontro. Além do mais, era o modo de selar o compromisso com um futuro em comum com a pessoa que ela devotadamente amava. Maura quebrou o beijo em busca de ar, e o sorriso que estava estampado no seu rosto jamais iria se apagar. Ela apertou os braços em Jane e quando falou, seus lábios roçaram no da morena.
'E a minha escolha é Rizzoli-Isles.' Ela entregou um novo beijo nos lábios sorridentes de sua futura esposa.
...
'Jane! Nós vamos nos atrasar, anda logo!' Maura apressou a mulher que estava carregando algumas sacolas. O céu estava nublado, a chuva estava ameaçando cair a qualquer momento e Maura não podia deixar de estar nervosa. Aquele seria o dia em que sua família, a família de Jane e amigos delas saberiam que elas iriam se casar. Ela sempre ficava nervosa em situações onde ficava exposta. Ela sabia que aqueles eram seu amigos e sua própria família, mas o nervosismo simplesmente não podia abandoná-la. Elas tinham escolhidos os trajes corretos? Elas tinham reservado mesas suficientes? Todos chegariam em ponto?
Irritada pela demora da morena, uma arfada de impaciência escapou-lhe dos lábios, e ela bateu um pé no chão no mesmo tempo que um pingo de chuva atingiu-lhe o rosto.
'Jane, nós não temos o dia todo!' Ela insistiu em apressar a morena.
Ela não conseguia entender como a detetive estava tão calma e tranquila diante daquilo. Ou era apenas ela que estava ansiosa demais?
'Maura. Você tem que se acalmar. Sério.' Jane apontou um dedo para e depois abriu a mão no sinal universal de 'pare'. 'Vai dar tudo certo, querida.' Ela suavizou a voz porque, caramba, ela entendia aquela ansiedade toda. Ela estava morrendo por dentro, mas não se permitia perder o controle. Alguém tinha que manter a cabeça no lugar. Como um sinal — negativo ou positivo? — a chuva de verão começou a cair pesadamente.
Maura curvou os braços para frente num apelo silencioso para que a natureza colaborasse com aquele dia. As gotas grossas e frias batiam contra sua pele, e ela sentiu o arrepio percorrer o corpo. O dia estava sendo tão estressante. O atraso no trânsito, a demora no aeroporto para pegar a mãe e o pai, o almoço que tinha sido cancelado por causa de todos atrasos, a queimação que ela estava sentindo no estômago por causa da ansiedade. Maura suspirou, sentindo o peso do dia nos ombros, o peso da chuva que tinha aparecido para acrescentar mais um ponto negativo no dia. Ela estava considerando entrar em casa e se trancar no banheiro por uns minutos e chorar. O problema é que, para isso, ela teria que passar por todas as pessoas que estavam ali: seus pais, Angela, Tommy, Frankie e até mesmo Lydia. Talvez ela nem conseguisse segurar o nó na garganta antes mesmo de cruzar a sala. Por outro lado, se ela começasse a chorar ali talvez ninguém perceberia, nem mesmo Jane, considerando que a chuva estava encharcando seu rosto.
Ela olhou para Jane, na esperança de que pudesse encontrar algum consolo, de entender o método que a morena estava utilizando para manter a calma e copiá-lo efetivamente. Para sua surpresa, a mulher estava sorrindo abertamente. O cabelo colado no rosto pela água parecia contraditoriamente enfatizar o traço de felicidade. Por que ela estava tão feliz assim, toda molhada pela chuva? Como se escutando seus pensamentos, Jane ergueu um dedo para cima e apontou para o céu, se aproximando de Maura.
'Hey! Olha lá. É um arco-íris!' Ela disse empolgada e os olhos da legista acompanharam a direção para onde o dedo estava apontado. Um belo arco-íris, grande, de cores fortes e definidas estava ali enfeitando o céu. Maura admirou sua beleza antes que ela se perdesse na imensidão cinzenta. Era de fato encantador, e ela sentiu os próprios lábios se curvando num sorriso, se rendendo à raridade do fenômeno e interpretando a aparição como um bom sinal. O nó na garganta de repente estava desfeito, e as mãos de Jane em sua cintura lhe mandaram um arrepio espinha abaixo. Ela se virou para a morena e piscou os olhos carregados de pingos de chuva para ela.
'É extraordinário!' Ela sorriu e olhou mais uma vez para o arco-íris.
'A nossa noite também vai ser, Maur. Vai dar tudo certo. Tá bom?' Jane se inclinou e beijou os lábios da loira, e a voz tão segura de Jane tinha lhe grudado no corpo, em sua mente, e de repente ela tinha recebido uma garantia.
'Okay.' Maura sorriu nos lábios da Jane. E então ela pensou na chuva, no arco-íris e nos lábios da mulher. Um beijo na chuva, testemunhado por um dos fenômenos mais belos da natureza, nos lábios da mulher que ela amava. Maura beijou Jane apaixonadamente sentindo o contraste frio das gotas de chuva que massageavam seu corpo e as mãos quentes de Jane lhe acariciando a cintura e as costas.
A perspectiva tinha acabado de mudar. O dia começara tumultuoso, duvidoso e infavorável, entretanto, agora parecia estar se invertendo de posição: promissor pela companhia e palavras de sua namorada, surpreendente pelo presente colorido pintado no céu, e clemente, como se fosse agora configurado para reverter a metade anterior em dádivas.
...
O nervosismo de Maura poderia ter sido facilmente descartado se ela soube que aqueles sorrisos e brindes estariam aguardando por elas. As taças levantadas em suas direções mandaram borboletas em seu estômago, e o sorriso caloroso de Jane provocava um imenso em seus lábios como resposta. A família e os amigos próximos aprovavam a união — é claro, eles não tinham motivos para não fazê-lo — e até mesmo o pai de Maura havia colocado a médica num abraço, de modo a parecer como o último antes de entregá-la a Jane. Não era como se precisasse dizê-lo, mas no final da noite o homem havia segurado o ombro da detetive para lhe dizer que esperava que Jane continuasse fazendo Maura feliz do mesmo jeito que estava agora. A detetive sorriu e fez sua promessa — se lembrando que Paddy tinha dito a mesma coisa, mas que havia soado muito mais ameaçador.
Depois do jantar elas haviam deixado o restaurante para uma volta nas margens de Boston Public Garden. Jane não queria adentrar muito no parque — não por causa do perigo, porque ainda era cedo e muitas pessoas andavam por lá, mas justamente porque queria um momento mais íntimo com Maura. E era por isso que estava nervosa. Elas estavam passando sobre a ponte agora e as águas negras do lago lá em baixo estavam margeadas pela aquarela de tons amarelos, verdes e brancos. As luzes dos postes coloriam o lago, atrevendo-se a se lançarem acima da escuridão. Maura falava alguma coisa sobre os pássaros que migravam para lá naquela época do ano, mas dessa vez, diferente de todas as outras, Jane não estava escutando.
'... e quando o clima já não está mais favorável para reprodução, as aves sentem necessidade de migrar. É uma questão de sobrevivência, e acontece sempre na troca de estação.' A loira afirmava veementemente.
Jane suspirou lentamente e parou em cima da ponte, se encostando na barra de segurança.
'O Puffinus griseus é a ave que mais voa no mundo.' Ela adicionou rapidamente, prevendo que Jane iria interrompê-la logo, mas achando que o fato merecia ser citado.
'São as estações.' Jane franziu o cenho enquanto pensava.
Maura pareceu confusa. 'Sim...? Eles migram por causa das estações.'
'Não, Maura.' A morena segurou a mão da loira junto ao seu peito.
Maura inclinou a cabeça como sempre fazia quando não entendia algo. 'Perdão?'
'São as estações. Os pássaros vão embora nas estações porque eles não enfrentam invernos rigorosos.'
'Eu acabei de dizer isso, Jane.' Maura sorriu docemente.
Jane concordou com a cabeça, mas Maura não pôde deixar de notar o olhar distante, perdido em pensamento. Algo disparou dentro de si.
'Jane, o que aconteceu?' Ela apertou a mão da morena levemente.
'Quando você me conheceu... Era verão. Mas tudo parecia cinza e sombrio para mim, como nos invernos. Até minhas mãos eram geladas.' Ela adicionou a última frase quase num sussurro.
'Jane, você passou por um trauma terrível.' A loira acariciou com o polegar o dorso da mão da outra.
'Você não sabe, Maura, o que é sentir frio. O frio da lâmina ultrapassando sua mão, e o frio que o medo traz antecipando a morte. E nem... Você não sabe o que é sentir frio no verão, em dias quentes. O gelo daquele bisturi afiado tinha sido sugado para dentro do meu corpo e nunca iria embora. E Deus, eu jamais quero que você saiba.'
'Jane...' Maura sussurrou agora, vendo o olhar escurecido e intenso da mulher perdido em algum ponto que não os seus olhos. Por que a conversa tinha se tornado tão sombria?
'Não, escuta.' A morena a cortou. 'Foi horrível, e eu me sentia congelada por dentro. Eu me afastei de todas as pessoas e tentei ignorar a sensação por tanto tempo. Não, na verdade eu tentei aturar por tanto tempo, a ponto de eu parecer fria com as pessoas porque, você sabe...'
'Você não queria parecer frágil.' Maura concluiu.
'Isso. E você veio com seu sorriso e, você foi até meio intrometida, sabia?' A morena apertou os olhos mas quando Maura riu, ela riu também. 'Para minha sorte.' Ela adicionou em seguida. 'E tudo começou a ficar bem de novo, até que ficou ruim quando você se aproximou demais — '
'Você quer dizer até que você se fechou demais.'
'Caramba, mulher, será que eu posso concluir?'
Maura deu de ombros, sorrindo.
'E,' Jane continuou levantando um dedo para não ser mais interrompida, 'foi quando eu entendi que eu só estava ficando bem porque... bem, porque eu tinha você. Eu sempre prezei nossa amizade, Maur, do mesmo jeito que ainda prezo, porque eu sempre soube que você... era você quem iluminava meus dias, foi você quem trouxe luz de volta à minha vida.' Jane mordeu os lábios. Ela estava colocando as palavras no lugar certo?
Maura sorriu e os olhos verdes brilharam. Ela plantou um beijo nos lábios de Jane. 'Você também ilumina os meus.'
Jane balançou a cabeça e continuou. 'O que eu quero dizer... É que você ficou. Você chegou no meu inverno e decidiu ficar mesmo assim. Você conheceu o pior de mim e depois o meu melhor, e não recuou. E como se não bastasse, como se já não tivesse sido o suficiente você estar lá, você trouxe o calor de volta. Quer dizer, a quem eu quero enganar, Maura? Você é meu sol. Você reina em todos os meus dias, nas quatro estações, nas minhas estações. E você nunca vai embora. Você se recusa a partir nos dias gelados e cinzentos, e de alguma forma você os torna quentes, no mínimo suportáveis, apenas com sua presença.'
'Jane, isso é...' A loira passou a língua nos lábios, e piscou os olhos. 'Eu não fui a única responsável. Você também... Fomos nós duas. Nós não desistimos, lembra?'
A morena sorriu. É claro que Maura iria dividir o crédito — e talvez ela tivesse razão, foi uma luta em conjunto. E aproveitando das palavras da médica... 'Exato, nós não desistimos. E o que quero te dizer é justamente isso: eu também luto por você, e com você. E eu também quero ser seu sol, e quero ficar nos seus invernos. Eu quero aquecer seus dias frios e... E quero te trazes flores nas primaveras. E contar os vaga-lumes com você nos verões. E observar as estrelas nas noites de outono, quando o céu fica límpido. Mas eu quero principalmente ficar. Diferente dos pássaros que migram, eu quero ficar, do mesmo modo que você ficou comigo eu quero ficar com você.' Ela parou por um momento e estudou os olhos agora marejados de Maura.
'As estações são um círculo,' ela desenhou um círculo invisível no ar, 'elas sempre mudam, mas nunca são interrompidas. É um ciclo eterno de mudança.'
A loira concordou com a cabeça, os olhos atentos em Jane.
'Eu quero saber, Maura... Se esse pode ser o nosso ciclo. Se você pode continuar sendo meu eterno sol, e se eu posso ser o seu. O quero saber Maura...' Ela apoiou os dois joelhos no chão e segurou as mãos da loira.
'Você casa comigo?' A morena sorriu quando Maura levou uma mão na boca — emocionada pelas palavras e pelo gesto.
O gesto, por si, não tinha sido algo relacionado ao cavalheirismo. Estava diretamente ligado à humildade de Jane, ao pedido singelo e sincero que clamava por algo generoso. Nobre.
Eu posso ser seu sol? Eu posso ficar ao seu lado? Um cargo de extrema importância, mas que Jane já estava executando tão bem.
Maura estava dividida entre agarrar as palavras que estavam viajando para fora de sua mente e tentar dizer para Jane que ela já era seu sol também ou simplesmente dizer seu sim. Ela encontrou uma terceira opção: se ajoelhar, também, em frente à morena. Maura não estava acima de Jane nessa relação, as duas dividiam o mesmo patamar, e se ajoelhando ali, na mesma altura que ela, ficava entendido que sim, Jane podia ficar ao lado dela — ao lado, jamais em num nível inferior.
'Oh, Jane, eu já disse que sim!' Ela segurou o rosto da morena e deu um beijo demorado nos lábios, e quando se afastou ambas estavam sorrindo.
Jane levantou uma mão segurando uma pequena caixa preta. 'Agora eu tenho o anel.' Ela levantou a aliança no nível dos olhos de Maura.
A loira abriu os olhos em espanto. Era uma aliança extremamente cara. 'Jane... Essa... É linda! E cara, Jay.'
'Eu posso tomar isso como um sim?' A morena apertou os olhos.
'Pela terceira vez, sim!' Maura disse e esticou a mão para Jane que logo deslizou o anel pelo dedo dela.
'Para você sempre o melhor, Maur.' Ela deslizou o dedo sobre a aliança de Maura e a loira imitou o gesto com o polegar — um gesto que faria muitas vezes daquele dia em diante.
'E é claro, aqui está meu par!' Ela mostrou a aliança idêntica a da mulher e a entregou a Maura quando a loira a tomou dos dedos.
'Eu posso continuar iluminando seus dias?' Maura perguntou, segurando a mão da morena.
'Não é assim que funciona, Maura. Eu já fiz o pedido.' E quando ela levou a mão para frente, Maura recolheu a dela em desafio.
Jane revirou os olhos. 'É claro que pode, Maur. Nada me faria mais feliz.' E um minuto depois a médica havia deslizado o anel em seu dedo.
Elas se beijaram de novo, e ao longe escutaram alguém assobiar em aprovação. Uma sorriu no lábio da outra, e segundos depois, outro alguém assobiou do outro lado enquanto duas ou três pessoas ao longe batiam palmas. Jane sentiu o rosto corar, mas Maura não pareceu se importar nenhum pouco com a platéia. Elas estavam felizes, e a noite quente de verão carregava uma brisa leve que correu entre os corpos das mulheres ajoelhadas na ponte, onde haviam assumido um compromisso que suportaria as trocas de estações e se fortaleceria naquele ciclo infinito de mudanças.
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