Sobre amor, tartarugas e novas chances
17 Capítulo XVII
Notas iniciais
'Não acredito nisso.' Maura murmurou enquanto se tornava consciente das coisas à sua volta. Ela abrira os olhos para um novo dia — um dia cinzento e chuvoso, combinando com seu humor que prevalecia desde a noite anterior — e se encontrava ali na sala, dormindo apertada entre o sofá e Jane. Mais uma vez. Que hábito era esse que elas estavam desenvolvendo? Elas tinham uma cama perfeitamente aconchegante no quarto. Ainda assim, era a segunda noite em poucos dias que elas passavam ali. A morena estava virada para ela, a mão na sua cintura e cabeça em seu ombro. Maura aproximou os lábios da cabeça de Jane e plantou um leve beijo ali, não querendo acordá-la, parecia ser muito cedo ainda. Ela própria desejou ter dormido um pouco mais, estar absorta em seu sono, ignorando o mundo real.
Surpreendentemente, Jane resmungou alguma coisa inaudível e abriu os olhos para a loira. 'Bem, Dr Isles... Parece que você está sucumbindo ao conforto do próprio sofá, finalmente.' Ela abriu um sorriso provocante e Maura a conhecia bem demais, mas decidiu comprar o jogo assim mesmo.
'Sucumbindo? Desde quando você conhece essa palavra?' Maura provocou de volta, tentando virar o jogo.
Jane fez um bico enquanto pensava. 'Acho que tô passando tempo demais com você.'
'Uma boa influência, eu deduzo.' Ela riu baixinho, se sentindo vitoriosa.
'Posso dizer o mesmo aqui. Você só tem que admitir que é realmente gostoso dormir no sofá.'
Maura cedeu, não tinha razão de ser implicante logo tão cedo. 'Bem... Não é realmente mais confortável, mas parece mais... acolhedor do que a cama.' Ela acariciou o cabelo da morena e Jane se moveu para cima dela, apoiando o peso nos joelhos e cotovelos.
'Hum...' Jane estreitou os olhos em pensamento. 'Pensando bem... Talvez a companhia seja mais convidativa para você do que o sofá em si.'
Maura balançou a cabeça em negativo. 'Talvez seja por isso que você goste de dormir até um pouco mais tarde. Acorda cedo demais e começa a delirar.'
Jane fez uma cara de ofendida e Maura riu, levando a morena a rir também.
'Obrigada por ontem.' Maura disse baixinho enquanto acariciava as costas da mulher.
'Não, qual é, Maur... Não tem nada para agradecer.' Ela beijou os lábios da loira com carinho.
Maura discordou com a cabeça, mas não queria discutir. Apesar das longas horas de conversa na noite anterior e das tentativas de Jane de consolá-la, sua esperança de recuperar Harriet tinha sido esmagada. Não, não era só isso. Maura se sentia magoada, quase ofendida, por alguém ter tirado a menina dela de novo. Algo tinha despertado dentro de si no momento em que Harriet tinha a abraçado pela primeira vez. E não é como se ela tivesse se declarado mãe da menina, mas experimentar a função por poucos dias tinha trazido à tona sua vontade de ter uma criança. Era como se fosse uma amostra grátis daquilo que poderia ter um dia, mas que por pura crueldade fora tirada dela cedo demais. Assim como seu bebê. Ela se sentia de alguma forma dispensada pelo mundo, como algo descartado que não serve mais, como se não fosse adequada para assumir um papel que tanto almejava. Isso machucava, e ela imaginou que talvez fosse esse o motivo: ela não tinha nascido para ser mãe.
Agora que Maura tinha parado para pensar, a mensagem parecia bem clara; primeiro a perda do bebê, e depois a perda de Harriet. A conclusão parecia ridícula, principalmente para ela, uma cientista que não acreditava em destino ou em superstições, mas o pensamento não deixava de apertar dolorosamente seu coração, e uma dúvida sombria tinha se instalado em sua alma. Quem saberia dizer com certeza, afinal? Havia tantas coisas incompreensíveis no mundo, talvez essa fosse apenas mais uma delas.
Diante do semblante da realização, Maura tinha desistido. Ela tinha dito à Jane que não desistiria, mas agora pouco importava. Nesse momento ela não esperava ter alguma notícia de Harriet. Não boa, pelo menos. Qualquer perspectiva parecia ruim. A única razão pela qual tentava se conter era Jane. Apesar de bancar a forte, a morena também tinha seus momentos de fraqueza. Um deles era ver Maura desfeita, desolada, e depois da noite anterior em que ambas desabaram juntas, nada era mais justo do que tentar se reerguerem juntas também. Então Maura tinha decidido por levantar e enfrentar o dia de queixo erguido, mesmo que estivesse vazia por dentro, mesmo que fosse difícil encarar que em algum ponto desse dia, talvez do próximo, alguma notícia iria chegar. Agora ela não estava mais ansiosa, na verdade, ela esperava que o momento não chegasse tão cedo, poupando-lhe algumas horas antes de enfrentar uma nova crise, antes de experimentar mais dor. Lá estava ela, preparada para o pior.
Ela forçou um sorriso para sua esposa. Se toda essa história com Harriet lhe deixava desanimada, sem muita motivação para começar o dia, Jane era o contra peso de seus sentimentos. Ela era o princípio de tudo, a fagulha de vida que despertava em Maura e a colocava em movimento. Uma pequena provocação da morena na parte da manhã, por exemplo, já era o suficiente para alegrar o dia. Jane era mau humorada da manhã, mas era algo que não durava muito, e algo que Maura mudava facilmente. O fluxograma era simples: Maura provocava primeiro arrancando da detetive uma reclamação, depois Maura retrucava com um sorriso, e em sua réplica — Jane nunca admitia perder — a morena sempre se enroscava em Maura, fazendo-a mudar de idéia ou então encerrando o pequeno argumento do dia com beijos e abraços e palavras doces. A única variante nisso tudo era quem começava primeiro e terminava. Nessa manhã tinha sido Maura.
'Um café cairia bem agora.' Ela disse casualmente.
'Isso é um pedido?' Jane levantou as sobrancelhas.
'Não. Você sempre faz café instantâneo, o que já é ruim, e bem... O seu café não fica lá aquelas coisas.' Ela mordeu a bochecha para não rir.
Jane fechou a cara e espremeu os olhos. 'Maura Dorothea Rizzoli-Isles! Meu café é delicioso! Retire o que você disse agora.' A morena jogou o corpo em cima de Maura, prendendo-a no sofá, quase sufocando-a. 'Retire ou você não bebe café, e nem sai daqui!'
Maura tentou rir, mas o peso jogado em cima do seu corpo comprimia seus pulmões. 'Jane... Sem ar.'
A detetive nem se mexeu. 'Retire agora, Maura.'
'Jane!' Maura socou-lhe o braço e Jane mordeu o lábio inferior para não rir.
De alguma forma, Jane nunca soube como, Maura conseguiu se esquivar um pouco. O suficiente para aplicar a força necessária para retirar a morena de si. Um gesto mal planejado que resultou em Jane... no chão. Ela escorregou pela beirada do sofá, e Maura fez esforço para segurá-la, mas tudo o que restou de seu corpo ali tinha sido um braço.
'Oh meu Deus, Jane!' Maura tentou alcançá-la com as mãos — bem, uma mão, a outra estava na barriga enquanto ela ria. 'Eu não quis que...' A frase morreu no meio da sentença quando Jane olhou indignada para ela e depois fechou a cara ainda mais, fazendo Maura perder o ar durante a risada.
'Isso não foi nada gentil nem educado, Maura.' Ela resmungou enquanto sentava no chão e corria as mãos pelo cabelo.
'Não foi minha intenção, me desculpa.' Ela disse entre arfadas, tentando se controlar.
Jane lançou-lhe um olhar de soslaio, aparentemente não aceitando o pedido de desculpas.
'Eu imagino o que vão dizer na delegacia quando descobrirem que uma mulher menor derrubou a famosa Jane Rizzoli no chão.' Ela alfinetou de novo.
A morena olhou para ela com um sorriso maroto no rosto e uma sobrancelha erguida em desafio. 'Eu imagino, Dr. Isles, que essa tal detetive vai fazer essa mulher pagar por isso.'
'É mesmo? Como?' Maura jogou a cabeça para o lado de um jeito que parecia inocente demais.
Jane sorriu em provocação. 'Eu ouvi dizer...' Ela se ajoelhou no chão, aproximou a cabeça e plantou um leve beijo no pescoço da loira. 'Que ela é uma das mais duronas, sabia?' Ela aproximou os lábios para beijar Maura, mas quando a mulher se inclinou para frente Jane se afastou e a loira protestou num gemido fraco.
'Eu vou tomar um banho. E você vai fazer o seu café'. Jane informou depois de se levantar.
Jogo invertido, Jane estava na frente.
Maura sentou no sofá com as pernas cruzadas, observando a morena caminhar em direção ao corredor. As pernas definidas e bronzeadas, o andar sempre confiante, os cachos negros balançando a medida que os pés trocavam de espaço no chão. Jane era linda. Era a brisa forte e quente das manhãs de inverno de Maura, que aquecia-lhe o espírito e o coração, que desenhava um sorriso no seu rosto e refletia o calor em seus olhos verdes. Quando as pessoas lhe diziam 'você está radiante' ela sabia que o motivo era Jane. Entretanto ela nunca tenha dito a razão, era algo sagrado, e ela se admitia egoísta o suficiente para não querer dividi-lo com mais ninguém. Sua Jane, era a razão de brilhar. De emanar vida.
'Hey, Jane.' Ela chamou num ultimo momento antes da mulher sumir no corredor.
A detetive voltou alguns passos e olhou para ela. Maura agora tinha os braços dobrados no encosto do sofá e a cabeça descansada sobre eles. 'Eu amo você.' Ela anunciou em voz baixa como se as palavras pudessem percorrer um caminho destinado a chegar apenas ao ouvido da mulher.
'E eu, você.' Jane sorriu e se virou. Depois mudando rapidamente de ideia, virou o corpo de novo para Maura.
'O ar que eu respiro.'
'Como o ar que respiro.'
As duas disseram em uníssono e riram. Brega, ridiculamente brega e apaixonadas. Mas e daí? Elas estavam felizes com a relação nesse ponto.
A morena finalmente se deslocou para o banho e Maura se levantou do sofá para preparar o café delas. Sorriso no rosto: checado.
Fim da brincadeira matutina. Resultado do jogo: empatado.
...
O ar fresco da tarde beijou-lhe o rosto de maneira receptiva. Maura fechou os olhos e recebeu agradecida a lufada de vento. Era bom respirar novos ares. O dia no prédio tinha ficado pesado demais, sufocante, e ela decidiu que era hora de um pequeno passeio. Mandou uma mensagem para Jane dizendo que estava a caminho da universidade para se encontrar com um professor que tinha solicitado uma palestra sobre Patologia Forense para o mês seguinte, para os alunos do segundo ano. Maura se sentiu honrada pelo convite e disse que iria até o lugar para discutir os detalhes, o foco da apresentação, quanto tempo deveria tomar. Coisas que ela e o professor poderiam, é claro, fazer pelo telefone, mas a médica se disponibilizou em fazer uma pequena visita à universidade a qual não colocava os pés por mais de um ano. Ela sentia falta do lugar. Era bonito, refrescante, os jovens andando de um lado para o outro lhe lembrava dos tempos em que ela mesma cursava medicina ali. Anos um tanto quanto difíceis — por causa das relações quase inexistente com os colegas, dos longos e duros plantões nos hospitais — mas que definitivamente tinham servido de uma maneira satisfatória para sua formação.
Maura era reconhecida ali — assim como em muitos outros lugares — e era respeitada. No começo do ano tinha recebido um convite para lecionar, mas ser a Médica Legista Chefe do Estado de Massachussetts... tomava um tempo relevante da sua vida, e ela se viu forçada a recusar o convite, ainda levando em consideração seus planos de ter um bebê ainda nesse ano. Seriam dois trabalhos demandantes, e mesmo sem um bebê agora, ela se perguntava se se tivesse aceitado o cargo, sobraria algum tempo para Jane. Não. Ela estava feliz assim, com o tempo que passava no trabalho perto da mulher, e com o que lhe sobrava para decidirem fazer juntas o que quisessem. Se fosse antes de Jane, entretanto, ela aceitaria o convite sem pensar duas vezes.
Mas Maura era uma mulher diferente agora. Ela poderia lecionar uma ou outra palestra, é claro, isso não tomava tanto seu tempo, mas jamais conseguiria aceitar um trabalho que a mantivesse afastada de Jane. Ela havia conseguido balancear seu lado pessoal e profissional, e se arriscasse em uma jornada de trabalho tão exaustiva... O que sobraria para a relação delas? Se fosse considerar o que vinham passando nos últimos meses... Como elas conseguiriam resolver seus problemas? Quando teriam tempo para isso? A conversa com o professor Loftus tinha a entusiasmado, e ela estava de fato muito contente e ansiosa — no melhor sentido — para a palestra no próximo mês, mas isso era tudo.
Quando terminou seu encontro com o docente — que havia sido rápido, não mais do que trinta minutos — ela decidiu caminhar pelo lugar. O campus era extenso e cheio de árvores, gramado, um ponto turístico de Boston, certamente. Agora no outono era ainda mais bonito. Essa sempre fora a estação preferida da médica. As folhas das árvores trocavam de cores. A paisagem hoje estava numa figura de copas borradas de amarelo, vermelho e vermelho-amarronzado. As folhas do chão não muito diferentes, refletiam a cor das copas como espelhos. A grama já não estava tão mais verde, mas a combinação de cores queimadas e do amarelo exuberante tirava o fôlego de qualquer observador. O único detalhe que parecia fora de lugar era o céu cinzento. Maura se perguntou enquanto andava se era o céu, tão mórbido e sem graça, que tentava inibir o colorido das árvores ou se era o contrário; se eram todas aquelas cores quentes que desafiavam com braveza o firmamento, numa tentativa de não ceder à monotonia do cinza, enquanto as folhas teimosamente se apontavam para cima em censura. E mesmo quando a força da natureza derrubavam-nas das árvores, elas por insistência e quase como se por uma minúscula vitória continuavam a colorir o chão que agora também estava se tornando sem cor por causa da agressão do frio.
Ela andou mais alguns passos e parou para tomar ar. O cinza do céu, aparentemente, estava mais próximo do seu coração do que das folhas da árvore. Tanta vida a fazia lembrar do calor de Harriet, de como a casa parecia mais aquecida e convidativa quando a garotinha estava lá. Irritada, por mais uma vez sentir a conhecida sensação de aperto no coração, Maura suspirou fundo e deu meia volta. Hora de voltar para o trabalho. Ela estava tão distraída em seus pensamentos que não tinha notado alguém vindo em sua direção.
'Maura?' A voz chamou de longe e por instinto a mulher se virou de novo antes de reconhecê-la.
Hope. Ela caminhava em sua direção e Maura não tinha sequer notado a mulher se aproximar dela. Ela concluiu que o gesto deve ter parecido rude, e sentiu o coração disparar um pouquinho.
'Hope! Eu... Me desculpa, não percebi que você...' Ela suspirou, frustrada. 'Eu estava muito distraída e não te vi.'
A mulher sorriu pacientemente para ela. É claro que ela tinha notado a distração da loira: olhos fixados em algum ponto acima das árvores, ignorando o caminho de cimento em que pisava — ela agora estava prestes a pisar na grama.
'Não se preocupe, Maura.' Ela segurou os ombros da mulher e apertou em conforto. 'Eu não esperava te encontrar aqui, que surpresa boa!'
'Eu estou de passagem. Uma pequena reunião e, só...' Ela disse, um tanto quanto vaga demais. O que ela estava fazendo? A mulher parecia feliz em vê-la, porque ela não conseguia ser mais consistente nas falas? Criar diálogos duradouros, eloquentes? Tudo o que oferecera foram pequenas frases, cujas quais ela ofereceria à alguém que não conhece. Ela limpou a garganta e tentou, 'Eu, ahn...' O que ela estava prestes a falar mesmo? Os olhos verdes de Hope — tão parecidos com os dela, fisicamente — ofereciam um tipo de serenidade e calmaria enquanto esperava pela conclusão de sua frase, e provavelmente Hope notou que dos olhos dela emanavam inversamente o oposto. Inquietação, ansiedade. Maura se sentia exposta àquela mulher.
'Maura, você tá bem?' A mais velha segurou-lhe o braço e a puxou com delicadeza para um banco ali perto, esperando até que a loira se sentasse para só então sentar ao seu lado, em seguida.
'Eu — é só que...' Os olhos caíram para o chão, e as mãos se juntaram enquanto os dedos balançavam numa dança não rítmica e estranha.
'O que quer que seja, Maura, você pode me contar. Você sabe disso.'
Esse era um pequeno incomodo para Maura. Hope havia tentado se aproximar dela de todas as formas, e havia sido tão doloroso quando ela descobriu que Maura era filha dela — na verdade, para a mais nova tinha sido dolorido desde que conhecera a mãe, que ainda não sabia de seu laço materno com ela — que Maura temia engajar numa relação em que morreria tão logo começasse, assim como das outras vezes. Ela reconhecia que Hope estava se esforçando convidando-a para almoços e eventos, e Maura às vezes comparecia, outras vezes simplesmente — e educadamente — negava o convite. Ela havia construído uma... cerca, em torno de si, que permitia Hope se aproximar dela até certo ponto. Ela não sabia ao certo que tipo de relação elas tinham agora... Se Hope estava disposta finalmente a bancar o papel de mãe, ainda que depois de tantos anos, ou se essa conexão era de certa forma forçada como se para recompensar os erros com Paddy.
Ela não devia nada à Maura, isso era verdade. Ainda assim, a mulher estava ali, oferecendo seu tempo e, quem sabe, seu coração.
A loira balançou a cabeça em não e descansou as mãos obrigatoriamente no colo. 'É só que... esses dias tem sido complicados, difíceis...' Ela disse em um tom baixo e quase se assustou quando a mão de Hope foi parar em suas costas. Ela encontrou seus olhos com o da mulher que agora mostravam preocupação.
'Você e Jane?' Ela arriscou.
Maura balançou a cabeça em negativo de novo e riu. 'Não, nós estamos... Nossa relação está bem. Muito bem.' Ela sorriu involuntariamente — orgulhosamente. Alegrava-a falar de Jane, ela tinha orgulho de tê-la como mulher.
'Eu vejo.' Hope sorriu de volta e em seguida levantou as sobrancelhas. Ela não perguntaria mais nada, considerando que já havia começado a especulação e que se Maura se sentisse a vontade, ela mesma deveria oferecer algo mais. Ela afastou a mão das costas da mulher e olhos verdes procuraram algo em seu rosto.
'Eu... Nós estamos lidando com um caso difícil.' Ela ofereceu e Hope estava prestando toda atenção. 'Não faço idéia de como isso vai terminar.' Ela disse mais para si mesma do que para a mais velha.
'Maura, você parece completamente... desamparada. Se posso dizer.'
A médica legista suspirou fundo, tomando coragem para perguntar o que havia cruzado sua cabeça. 'Como foi... Como foi depois de mim?' A voz saiu tímida, como se a pergunta pudesse se retirar a qualquer momento antes de ser respondida.
Hope segurou a mão de Maura entre as suas. E precisou de um momento para elaborar. 'Terrível.' Ela murmurou. 'Traumatizante. Difícil de superar.' Ela apertou a mão da mulher como se para se certificar de que ela estava ali em carne e osso, de que o seu bebê morto na verdade estava bem vivo, com a diferença de que agora era uma mulher surpreendente, linda e inteligente. Tudo o que ela tinha sonhado para sua criança, e um pouco mais — e que tinha perdido de qualquer jeito. 'Quando eu perdi você, Maura, eu não perdi apenas um bebê. Eu... perdi uma parte significativa da minha vida. Alguns sonhos e horas de planejamento, e sorrisos antecipados. E entre toda a dúvida e medo que eu tinha, minha escolha era ter você comigo. Você de dentro de mim para os meus braços, e pensar em te segurar me acalmava e trazia conforto quando o medo do futuro me tirava o sono à noite. Deus, eu abriria mão de tudo para ficar com você. Da faculdade, de Paddy... Se eu soubesse o que ele estava planejando...' Ela abaixou a cabeça e a respiração veio tremida.
'Hope...' Maura apertou sua mão se sentindo emocionada com uma confissão que nunca imaginou ouvir, nem sequer imaginava dos planos de Hope para ela.
A mais velha ergueu os olhos e ofereceu um sorriso triste, nostálgico. 'Você nasceu uma semana antes de completar nove meses, sabia?'
Maura balançou a cabeça em negativo.
'Imagino — não, eu sei– que esse foi o maior motivo de eu ter acreditado na época... que algo tinha dado errado com você, comigo. Agora eu vejo que esse fato foi usado como base para fortalecer uma mentira.'
'Eu sinto muito.' Maura murmurou.
'Eu também. Principalmente porque nosso reencontro foi tão turbulento depois. Deus...' Ela suspirou e apertou com força a mão da mais nova. Tinha sido algo ardoroso saber que sua filha estava viva. Não por causa da pessoa que ela era, claro que não. Maura era a personificação daquilo que Hope consideraria perfeito em uma criança. Entretanto, vê-la viva com seus próprios olhos... Isso enfatizava o quão terrível tinha sido a traição de Paddy Doyle. Foi difícil de aceitar a princípio que o amor de sua vida tinha tramado algo tão impetuoso e insensível como a morte da própria filha. Somente quando Hope conseguiu processar, aceitar a atitude do homem e reprová-la por isso, é que ela conseguiu assimilar Maura à sua vida novamente. Uma mentira que tinha lhe roubado uma doce parte de sua vida. Uma doce criança, uma mulher singular.
'A dor não dura para sempre.' A mulher ofereceu depois de um tempo, imaginando o motivo da pergunta da loira. 'A vida continua acontecendo, coisas boas acontecem e... Só é doloroso quando se pensa demais sobre isso.'
'Eu...' Ela se remexeu no banco.
'Maura, hoje eu vejo que apesar de todos meus erros... Você é permanente, entende?'
A loira franziu as sobrancelhas, Hope riu baixinho. 'Você sempre vai ser meu bebê, Maura. Com a diferença de que agora, quando eu penso em você, em vez de visitar seu túmulo eu sei seu novo endereço.'
Maura riu com a mesma delicadeza de sempre. Era a primeira vez desde que ela se encontrara com Hope que as duas estavam de fato se conectando. 'Você pode me visitar sempre que sentir vontade.' Ela ofereceu, os olhos brilhando em reação à gentileza da mulher mais velha. 'E Cailin também, é claro.'
'Pelo que sei ela te visita frequentemente. Espero que ela não esteja te causando nenhum problema.' Ela disse educadamente.
'Nenhum, mesmo.' Maura ofereceu um sorriso como prova e depois abaixou os olhos de novo. 'Eu não sei como fazer isso.'
'O que? Tolerar Cailin?' Ela arrancou uma risada de Maura com a piada.
'Não. Eu quero dizer... Lidar com isso.'
Hope estreitou os olhos. 'Você vai ter que ser mais precisa.'
Suspiro. Hora de sair correndo ou de se abrir Maura. E levando em consideração o quanto Hope tinha o feito, agora era sua vez. 'Esse caso tá me consumindo. Me afetando de uma forma que... não deveria, eu não deveria permitir. E Jane tem feito de tudo para eu me sentir melhor, Hope, e eu me sinto quando ela está comigo porque ela é a melhor distração, mas depois...' Ela deu de ombros. Vago. Vago demais, Maura.
'Sobre o que é esse caso? Se você puder falar, é claro.'
Em resumo Maura contou para Hope sobre tudo o que tinha acontecido com ela e Harriet e Jane, levando mais tempo para finalizar a história do que tinha planejado.
'É sempre difícil quando se trata de crianças.' Hope disse assertiva. Ela não falou mais nada, prevendo que Maura tinha mais a dizer.
'É terrível. E...' Ela suspirou.
'E?'
'Não sei se posso lidar com... Não sei se sei como... Se fui...' Muito coerente, Maura. Ela se repreendeu.
'Se você serve como mãe?' Hope arriscou.
'Isso.' E foi baixo.
E quase quebrou o coração de Hope. Essa era a razão da primeira pergunta. Como foi depois de mim? Não era uma especulação sobre ela, mas como Hope se sentia para, talvez, Maura se identificar em alguma coisa. Como deveria ser depois que ela tinha perdido o bebê? A situação era a mesma. Hope, infelizmente, tinha sido a médica a admitir Maura no hospital naquela noite. Não tinha sido a responsável pelo caso dela por ética — querendo ou não, Maura era sua família, e médicos não podem atender família. O caso não era arriscado, um dos tipos mais frequentes de abortos e Hope confiava o suficiente na médica que ficara responsável pela loira. Ver Maura passar por aquilo tinha arrancado-lhe o coração fora. Saber as consequências psicológicas que ela iria enfrentar — as mesmas que ela tinha enfrentado — era angustiante. Mas como Hope tinha dito a ela, minutos antes, a dor sempre passa.
'Eu acho que só o fato de você estar se perguntando isso te torna apta para o cargo.' Hope sorriu e apertou a mão da loira em conforto. 'E sua preocupação com essa menina, bem... só reforça isso.'
'Você acha?'
'Sabe o que eu realmente acho?'
'O que?'
'Que você já é uma mãe, Maura. Só te falta uma criança.' E o sorriso tímido de Maura seguido do rosado das bochechas foi a coisa mais adorável que Hope viu naquele dia.
'Obrigada.' Ela murmurou.
'Eu realmente espero que vocês encontrem essa menina. Ela parece mais importante para vocês do que apenas um caso.'
'Eu não tô muito certa se... Se vamos encontrá-la, Hope.' Ela disse com a garganta apertada.
A mulher se remexeu no bando e encostou seu ombro com o de Maura. De fato, era algo imprevisível, mas Hope tinha que lhe oferecer algum conforto sabendo o quanto aquilo estava atormentando a mais nova. Ela compartilhou algo que acreditava.
'Maura, alguns milagres acontecem.' Ela ofereceu.
'Eu não acredito em Deus.' A loira rebateu em tom delicado.
'Eu não estou falando de Deus. Estou falando de pequenas coisas que nos acontece ao decorrer da vida, de novas chances, novas oportunidades, coisas inesperadas e boas.'
Maura virou a cabeça para ela, curiosa. Hope continuou.
'Vamos colocar de outra forma: possibilidades. As raras, as mais frequentes. Não importa. Uma vez atendi uma criança com leucemia, o caso era grave e... Honestamente, eu não acreditava muito em cura, mas você sabe que isso nunca se diz para um familiar, não quando se tem uma porcentagem de chances. A desse menino era cinco por cento. E chegou a um ponto que era praticamente um. Até que o tratamento surtiu efeito, depois de tanta insistência e tentativas. Os pais me agradeceram por tanto esforço, me disseram que sabiam que iria dar certo porque acreditavam em mim... Enquanto eu mesma não via muita saída, Maura. A esperança deles era relativamente maior do que o número de chances.'
Ela sorriu para a mulher mais uma vez.
'Os números às vezes falham e... coisas inesperadas acontecem. Eu chamo isso de milagre. Não porque é algo divino, mas porque é raro e... imprevisível. E certamente bom.'
Maura franziu as sobrancelhas em pensamento. 'Eu não tenho calculado o número de chances de Harriet.'
Hope riu. 'Você não precisa, os números não são importantes, se lembra? Quais são suas expectativas?'
'Altas.' Pelo menos depois do discurso de Hope.
'Mantenha assim. Enquanto vocês estiverem acreditando, vão estar procurando, logo as chances dela ser encontrada vão corresponder ao que vocês esperam.'
Outro sorriso, agora diferente. Os velhos verdes carregavam suavidade, a aflição tinha sido dispensada ao longo da conversa, e o horizonte parecia mais promissor sobre a convicção de que algo milagroso — de acordo com a definição de Hope — iria acontecer. Sim, Maura podia se apegar à isso.
'Eu posso te abraçar, Maura?' E soava como se a mais velha precisasse mais da oferta de consolo — porque agora Maura era sua filha — do que a própria Maura em si.
'É claro.' Ela sentiu os braços da mulher em sua volta e se permitiu desfrutar do momento. Ela também passou os braços em volta da mulher, agradecida.
'Maura, caso você não saiba... Você também é meu milagre.'
A loira apertou os braços em volta da cintura da outra e não se importou quando as lágrimas caíram. Agora, vendo de novo as árvores, ainda nos braços de Hope, ela tinha decidido: as folhas coloridas estava definitivamente desafiando o céu nublado. E elas estavam vencendo.
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