Sobre amor, tartarugas e novas chances
30 Capítulo XXX
Notas iniciais
Jordan Farris. O homem que tinha agredido Maura. Aquele que tinha tentado sequestrar Harriet. Jane se inclinou na parede e encarava o sujeito, convencida de que sairia dali com um sermão de Korsak — mas tentando, contra expectativas, se manter calma.
'Você não pode provar que fui eu.' Ele sorriu calmamente, dando nos nervos de Jane.
'Nós podemos, nós já provamos. O material recolhido da unha da vítima bateu com seu DNA.' Korsak retrucou duramente.
Jane franziu o cenho ao ouvir 'vítima'. O homem ainda parecia calmo. Ela reajustou o peso nos pés.
'Belo trabalho.' Ele elogiou na mais pura falsidade. E esperou.
Korsak trocou um olhar com Frost. O homem não iria ceder tão cedo.
'Eu quero saber quem tá por trás disso.' Frost assumiu o interrogatório. 'Você oferece informação, sua pena é diminuída.'
O homem riu e passou a língua nos lábios, depois ficou sério de novo. 'Não há nada que você possa me oferecer. A minha sentença é de morte.'
Eles ignoraram a observação do outro. 'Como vocês encontraram a menina?'
'Haha.' E foi tudo o que ele ofereceu. Depois, mudando de idéia, ele levantou os olhos para Korsak. 'Você sabe como. Vocês também são caçadores.' E o olhar afiado encarou Jane.
Era verdade. Todos eles eram caçadores, a única diferença era o motivo da caça. Ela se remexeu novamente, se endireitando. Não era algo a ser comparado. Eles faziam justiça, enquanto aquele homem e tantos outros que passaram por aquela sala causaram nada mais do que dor para outras pessoas.
'Nossos meios de encontrar pessoas são certamente diferente dos seus.' Frost devolveu.
'Ah, isso pode ser verdade. Vocês tem escrúpulos.' O sorriso irônico parecia nunca abandonar seu rosto.
Deus, esse homem jamais iria ceder. Ele não parecia se importar com a cadeia, não parecia se importar com coisa alguma. Jane respirou fundo e lançou um olhou para os colegas de trabalho que estavam de costas para ela. Era difícil interrogar alguém assim, tão seguro de si, alguém que aparentemente não precisava de nada em troca. Mas o que Jane não sabia, é que logo ela teria uma oportunidade.
'Cara, você mexeu com um dos nossos.' Frost abaixou a voz num nível em que dizia claramente que ele estava perdendo a paciência. 'Você tá ferrado, você tá entendendo?' Ele se inclinou para frente. 'O melhor que você pode fazer é colaborar, dizer para quem você trabalha. E aí, quem sabe, a gente dá um jeito de você não virar o novo saco de pancada da cadeia.'
Korsak ergueu uma sobrancelha. 'Você se lembra, Frost, do cara que pegamos no aeroporto? Eu não gostaria de morrer daquele jeito.' E embora ele tenha se dirigido à Frost, os o olhos nunca deixaram o rosto do culpado.
'Argh. Morrer espancado... Não. Muito obrigado.'
O homem se mexeu levemente na cadeira.
'Quem era ele, Farris? Seu comparsa?'
Frost achou que ele não fosse responder, mas para sua surpresa o homem disse sem ensaios. 'Oh, sim. Um velho amigo.'
'Parece que você vai acabar como ele.' Korsak provocou.
'Vocês não parecem saber de muita coisa, não é mesmo?' Ele ajeitou a postura na cadeira, parecendo irritado. 'Eu sou apenas uma peça do jogo.' Ele lançou um olhar para Jane. 'Me diga detetive, elas gritam a noite? É bom que ainda estejam assustadas.'
'Cala a boca.' Jane inclinou o corpo para frente e apontou um dedo ameaçador para ele, a voz rouca cortou o ar com força, raiva.
'Aquela menina é corajosa, devo dizer, mas isso não é suficiente para salvá-la.'
'Chega!' Frost levantou a voz para o homem. Korsak, rápido o suficiente, desligou o gravador.
Ele sorriu. 'E aquela médica? Ela é gostosa. Adoraria ter colocado minhas mãos nela, você sabe, para outros fins.'
Coisa errada para se dizer para uma Rizzoli já irritada. Sem medir suas ações, a morena cruzou a sala no que pareceu ser apenas uma passada, agarrou o colarinho da camisa do homem e o empurrou para trás. O movimento fez ele se levantar e com uns passos ele bateu as costas na parede. O impacto foi tão forte que ele ricocheteou para frente, e Jane mais uma vez o jogou contra ela. 'Canalha!' Ela gritou com toda raiva que sentia. 'Não se atreva! Não se atreva a mencionar ela!'
O homem empurrou-a pela barriga com as mãos algemadas, com a força suficiente para mandá-la para longe dele.
'Vá com calma, benzinho. Você pode participar da festa também.'
'Seu desgraçado!' Ela avançou para cima dele de novo e quando seus dedos agarraram a garganta do homem, mãos forte a seguraram e a puxaram para trás.
'Cala a maldita boca!' Korsak gritou para ele.
Ele tomou como um desafio. 'Quer saber? Talvez o próximo consiga fodê-la.'
Jane juntou toda a força que tinha para se livrar de Frost. Ela iria fazer aquele desgraçado engolir cada palavra, cada dente.
'Jane!' Frost apertou seus braços em volta da morena, e ele sabia que se vacilasse Jane partiria para cima do homem novamente. 'Não!'
'Me solta, Frost! Eu vou matar esse animal.' A voz rouca e grave parecia ter perdido toda a razão.
'Eu tenho meus direitos.' O homem disse enraivecido. 'Desde quando é permitido agressão por parte de policiais dentro de delegacias?'
'Eu não vi nada, você viu Frost?' Korsak empurrou o homem de volta a cadeira onde estava.
'Nada.' Ele disse enquanto ainda segurava a morena. Depois ele a soltou, quando finalmente acho que seria seguro, mas manteve as mãos nos ombros dela. 'Era por isso que não queria você aqui. Qual é, Jane. Vá para casa.'
'É docinho, corre e vê se você come ela pela última vez. Você sabe, eu não fui o último a aparecer.' Indiferente às ameaças, ele provocou de novo.
'Cala essa maldita boca ou eu mesmo vou arrebentar você.' Frost apontou um dedo para ele enquanto apertava o ombro de Jane com uma única mão. Se ela resolvesse se livrar dele agora, da segunda vez que a tirassem de cima do homem ele estaria morto.
Os olhos da morena se escureceram com terror, diante das palavras do outro. Ela já havia pensado nisso, ele apenas confirmara. Ou ele tinha apenas blefado, com o único intuito de provocá-la? Desarmada, ela ergueu os olhos para o homem e levantou uma sobrancelha. A máfia era algo grandioso demais para ela lidar sozinha. Até mesmo operações de meses — anos, como no caso de Paddy Doyle — às vezes falhava. Ela se sentiu derrotada e queria estar ao lado de Maura e Harriet mais do que nunca. Deixar a sala de interrogação era a melhor saída, ela sabia. Ela já tinha estragado tudo, de qualquer maneira. Ela tinha deixado ser afetada por provocações de alguém que, nesse momento, não fariam a mínima diferença. É claro, a dor e a raiva de encontrar Maura agredida não tinham desaparecido — nunca iria, mas reagir daquele jeito tão pouco iria mudar algo.
Ela balançou a cabeça para Frost.
'Nós damos conta disso, Jane.' Ele assegurou.
'Eu sei.' Ela murmurou. Num último momento ela olhou para o homem sentado e resmungou. 'Eu espero que os homens de Paddy piquem você. Eles estão em todos os lugares, você sabe.' Ela estava prestes a se virar e deixar a sala, mas o homem pareceu confuso.
'Do que você tá falando?' Ele perguntou ridicularizando-a.
Jane e Frost trocaram olhares. 'Então você não sabe?' O moreno abriu um sorriso. 'Cara, você tá tão ferrado.' Ele se aproximou da mesa de novo e apontou um dedo para Jane. 'A mulher dela, Dr. Maura Isles... Você sabe de quem ela é filha? Paddy Doyle.'
'Aquele Paddy Doyle.' Korsak enfatizou.
'Cara, você vai ter os melhores dias na cadeia.' E ele riu com a situação, porque percebeu que o nome tinha surtido efeito.
Ele sorriu, mas pareceu meio inseguro. 'Nós temos um código. Não nos metemos com os assuntos um dos outros.'
'Parece que você quebrou esse código no momento que atacou a filha dele.' Frost rebateu.
'Falando em Paddy... Faz tempo que não faço uma visita à ele. E quanto a você, Jane?' Korsak estava quase se divertindo com a situação agora. Ele olhou para a morena e ela sorriu.
'Na verdade, eu tô com tanta saudade dele que tô indo visitá-lo agora.'
O homem pareceu se encolher um pouco, e para pressionar ainda mais, Jane abriu a porta.
'Qual é!' Ele exclamou.
Determinada e confiando que o interrogatório tinha agora tomado, finalmente, rumo, ela saiu da sala e fechou a porta. Ela adoraria chutar a bunda daquele infeliz, até mesmo vê-lo pedindo por proteção em troca de informação, mas nesse momento ela tinha que fazer duas coisas. Ela andou até o quadro onde a foto do homem estava pendurada e arrancou de lá. Ela sabia que as fotos do ataque de Maura deveriam estar ali também, mas que foram tiradas por consideração porque os companheiros sabiam que elas viriam hoje. Ela vasculhou por cima da mesa de Frost e quando não encontrou nada, procurou na mesa de Korsak. Em baixo de uma pilha de papel, as fotos estavam viradas para baixo. Ela examinou cada uma delas e escolheu apenas duas. É claro que eles logo notariam o sumiço delas de qualquer forma, mas era só queria o necessário. Depois de colocar as fotos de um envelope amarelo, ela se encaminhou para o elevador.
Ela precisava checar Maura e Harriet. Depois ela faria uma curta viagem.
Ela destrancou a porta e entrou na casa, esperando por encontrar Maura e Harriet no andar de baixo. Ela correu os olhos pela sala e logo em seguida pela cozinha. Elas não estavam ali. A casa estava mergulhada no mais absoluto silêncio.
'Maura?' Ela chamou e esperou pela resposta. Nenhuma veio. Ela sentiu um arrepio correr pelas costas quando as palavras de Farris cruzaram sua mente. Você sabe, eu não fui a último a aparecer. Ela balançou a cabeça para espantar os pensamentos e virou nos pés para tomar outra direção. 'Maura?' Ela chamou de novo, e nenhuma voz apareceu depois da sua.
Por uma razão incompreensível seu coração começou a bater mais rápido. Ela levou a mão na arma, um hábito adquirido depois de anos de polícia. Não havia nada errado no andar de baixo, nada fora do lugar indicando que alguém tinha estado ali, mas o medo corria em sua veia, alertando todos seus sentidos.
'Maura.' Ela chamou de novo quando os pés alcançaram os primeiros degraus da escada. Ela subiu o mais rápido que pôde, pulando dois degraus por vez. Quando alcançou o piso de cima, ofegante pelo esforço, ela chamou pela mulher de novo.
A loira apareceu na porta do quarto, esfregando os olhos, cabelo bagunçado. A visão da loira completamente calma, e não totalmente desperta, a acalmou imediatamente. A detetive soltou a arma de volta ao coldre, antes que Maura se visse e se assustasse.
'Jane? O que está acontecendo?' A médica perguntou desorientada. Ela tinha escutado Jane a chamando apenas uma vez, mas aparentemente não tinha sido a única. E por que ela estava ofegando?
'Nada. Você tava dormindo? Desculpa, não queria te acordar.' Ela segurou o rosto da mulher e beijou os lábios, depois colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
'Eu devo ter apagado enquanto estava lendo. Não ouvi você entrando.' Ela sorriu e segurou na cintura da morena.
'Harriet?'
'Na cama comigo. Por que você parece tão preocupada, Jane?' Os olhos claros estudaram o rosto da mulher e Jane já não queria mais esconder o medo e a preocupação dela, entretanto ela não queria estressar a mulher.
'Não é nada, Maura.' Ela manteve a voz firme. 'Como foi Harriet com Frankie hoje?' Ela sorriu com a idéia.
Maura revirou os olhos. 'Minhas habilidades no basquete não são tão louváveis como no xadrez.'
Jane riu com o comentário e beijou a bochecha dela. 'Graças a Deus você não sabe uma coisa ou duas. Caso contrário você seria insuportável!'
A loira fez uma cara de magoada e deu um tapa no braço da detetive. 'Eu sou boa em esportes, Jane!'
'Patinação não é esporte, Maura. Achei que a gente já tinha concordado nisso.'
A médica revirou os olhos. Era melhor não começar a discutir sobre o assunto novamente. 'Como foi o interrogatório?'
Jane suspirou. Ela não iria contar a parte em que tinha perdido a cabeça, e nem o motivo. 'Ele começou a falar, Maur. Sai de lá antes de terminar, preciso resolver outras coisas ainda hoje.'
'O que é, Jane?' Ela deslizou sua mão dentro da mão da morena e segurou.
'Eu te conto assim que eu voltar, ok?'
'Voltar? Aonde você está indo?'
Jane hesitou. Ela não tinha certeza se contar para Maura o que estava prestes a fazer era uma boa idéia. A loira não aprovaria de forma alguma, e tinha a grande possibilidade de ela ficar irritada com a detetive, talvez tentasse até mesmo convencê-la a não ir. Entretanto era algo que ela precisava fazer. Ela se sentiria mais segura, mesmo que por meios que, como policial, ela não aprovaria.
'Confia em mim, ok? Eu prometo te contar tudo hoje a noite quando eu chegar.'
'O que você vai fazer? Jane! Isso tem a ver com o caso? Você não pode se envolver, você sabe. Aonde você pensa que vai? E pode ser perigoso. Você vai sozinha, sem reforço? Eu não estou gostando disso!' Ela começou a falar sem parar, já se abalando com a idéia, mas a morena a cortou.
'Ei, ow! Maura. Não... Não é sobre o caso. Juro. Não é nada perigoso. Nada que envolva perseguições, armas, interrogatórios. Nada.'
'Sua definição de perigo é bem diferente da minha.' Ela rebateu.
'Maur, não é perigoso, ok? De acordo com a sua definição, se te faz melhor.'
'O que é então?' Ela pressionou.
'Só vai fazer sentido se eu fizer primeiro e te contar depois.' Ela sorriu o melhor que pôde.
A loira balançou a cabeça. 'Não gosto de suspenses.'
'Não há nada com o se preocupar, Maura. Eu prometo que...' Ela suspirou, rezando para que o que pretendia desse certo, e que ela se sentisse segura o suficiente para assumir outros planos depois. 'Prometo que quando voltar nós vamos falar sobre... sobre bebês.' Ela abriu um sorriso esperando que Maura comprasse a oferta.
Ela abaixou a cabeça, tímida. 'Jane... Esse não é o momento para...'
'Não. Esse não.' Ela segurou o rosto da loira. 'Mas dentro de algumas horas qualquer momento vai ser o momento para se falar disso.'
E Jane estava decidida a encerrar de uma vez por toda esse período da vida delas, onde o medo as assombravam em cantos escuros da casa, em rosto de pessoas desconhecidas. Onde a tensão apertava seus corpos em um laço forte toda vez que alguém batia à porta da casa delas — mesmo se fosse o carteiro, o entregador de pizza — simplesmente porque não havia garantia nenhuma de que elas estavam salvas.
Não. Jane não queria isso para Harriet, Maura. Ela definitivamente não queria nenhum tipo de tensão rondando a casa, ainda mais se Maura estava decidida a ter outro bebê. E Jane faria qualquer coisa — qualquer coisa — para mantê-las seguras e confortáveis.
'Eu volto em duas horas, no máximo. E se Harriet acordar, pergunte o que ela acha de ter um irmão ou irmã.' Ela sorriu e beijou os lábios de Maura. A loira hesitou em soltar sua cintura, mas Jane apertou suas mãos num gesto reconfortante e finalmente ela a deixou.
Jane tamborilou os dedos em cima da mesa fria e dura. O pequeno móvel combinava com o lugar em que ela estava agora. As mesmas características pareciam se espalhar e grudar em tudo o que havia naquele prédio: paredes frias, duras, ambiente seco, sem cor. Ela se ajeitou na cadeira e cruzou as mãos, focando nos dedos enquanto esperava ansiosamente pela pessoa que fora visitar.
Ela odiava estar fazendo aquilo. Odiava ter que assumir que havia chegado em um ponto que precisava de ajuda, odiava ter que admitir que não podia cumprir parte do que mais almejava: proteger Maura, de qualquer perigo que fosse. Parte dela estava furiosa consigo mesma por parecer tão inofensiva agora, tão fraca, mas no fundo ela sabia que nessas circunstâncias não havia outra solução. Ela precisava de ajuda. Ela precisava de ordem e força maior do que tinha para colocar uma barreira de proteção em volta dela, de Maura e Harriet.
Ela levantou a cabeça quando o som de metal ecoou pelo corredor e um minuto depois dois homens entravam na sala. Um guarda corpulento conduzindo um prisioneiro. O homem acorrentado lançou um olhar afiado para ela enquanto se sentava na cadeira. Os olhos eram familiares, mas o que habitava atrás deles era desconhecido — perigoso e ameaçador, capazes de coisas que ela preferia não saber.
E era a esse homem que ela tinha vindo recorrer ajuda.
Paddy Doyle. Chefe da máfia irlandesa. Pai de Maura — apenas biológico. Protetor o suficiente para enfiar um picador de gelo no coração do sujeito que se metesse com sua família. Poderoso o suficiente para comandar a máfia mesmo dentro da prisão. Seu nome era respeitado, e mesmo estando entre os bandidos, Paddy seguia um tipo de moral regente entre eles. Talvez ele mesmo a tivesse criado. Jane não entendia de que forma alguém que fora condenador por quinze assassinatos pudesse, entretanto, entender algo sobre moral. Ela só imaginava que a moral que ele seguia era distorcida, ao menos bem diferente da dela.
Hoje, apesar de tudo, ela não viera para julgá-lo. Viera para pedir ajuda, algo que fazia questionar o próprio ato em si, mas convencida de que era um termo plausível, era acenou a cabeça para o homem em cumprimento.
'Você veio antes do que previ.' O homem disse sem nenhuma emoção.
'Senti falta das nossas conversas agradáveis.' Ela rebateu tentando segurar o sarcasmo. Ela estava preste a pedir algo e provocações não era a melhor forma de quebrar o gelo.
'Como está Maura?' Ele perguntou e dessa vez a voz soou mais calorosa. Hope e Maura eram definitivamente o ponto fraco do homem.
'Bem, ela tá bem.' A morena acenou uma vez com a cabeça para confirmar as palavras.
O homem a encarou por um tempo, como se estivesse digerindo a informação. Quando nada mais parecia ter restado para ser compreendido, ele inclinou o corpo para frente, curioso. Cauteloso. 'O que você quer de mim?'
A detetive juntou os lábios numa linha fina. Ele era direto, ela também. Ela desbloqueou o celular e mostrou uma foto de Harriet para Paddy. A menina estava chupando sorvete, a boca suja da cor rosada do doce, os olhos claros na tela encarando o homem de volta. 'Você sabe quem é essa criança?'
O homem olhou para a foto e depois para ela. Havia uma tensão crescente entre eles. 'Onde você quer chegar?'
Jane franziu as sobrancelhas. Era provável que ele conhecesse, mas como ela iria saber com certeza se ele respondia sua pergunta com outra?
'A mãe dessa garotinha foi morta. Ela foi a testemunha em um caso de tráfico de crianças e estava sob a proteção do governo. Mesmo assim a acharam e a executaram. É um milagre que ela esteja viva.'
'E então? Você quer saber se eu tenho parte nisso?' A pergunta era um truque, Jane sabia. Paddy não tinha nenhuma relação com o assassinato da mulher, e até onde ela sabia ele nunca havia matado mulheres e crianças antes. Traficar crianças tão pouco se encaixava na lista de descrição de coisas que o homem fazia — ou mandava fazer. A outra possibilidade escondida por trás da pergunta, era se Jane sabia de que ele estava tomando conta, de alguma forma, do que acontecera com Maura. Um ponto que ela ainda iria tocar.
'Por que você não me diz, Paddy?' Ela usou da mesma estratégia.
Ele bufou, ridicularizando a pergunta. 'Você sabe que esse não é meu negócio. Agora, Rizzoli, o que você quer de mim?'
Oh, ele deve estar tão ocupado hoje. A morena pensou em sarcasmo. 'Quero que você coloque um aviso. Algumas pessoas estão atrás dela, tentando sequestrá-la e vendê-la. Coloque um aviso lá fora, Paddy, de que é para deixá-la em paz. Esquecerem dela.'
O homem riu e balançou a cabeça em negativo. 'Desde quando você joga o meu jogo, detetive?' Ele inclinou o corpo para frente. 'Você tem idéia do que está me pedindo? Do que isso pode me custar?'
Era isso. Ele não sabia nada sobre Harriet. Nada sobre o ataque de Maura. Jane se perguntou como, considerando que ele tinha homens lá fora. Poderia ser algo sobre território, algo sobre não se envolverem demais com os crimes de outra organização mafiosa, algo que escapava de seu entendimento. Ela desbloqueou o celular mais uma vez e passou para a foto seguinte. Os olhos negros estudando o conteúdo. Maura estava deitada na cama, adormecida. Metade de Harriet estava em cima dela, uma mão na boca e cabeça apoiada no peito da loira. Os olhos fechados apenas enfatizavam a serenidade do momento, e a luz clara da manhã dava um ar pacífico. A imagem parecia ter sido capturada de um filme.
'Nós a adotamos.' Ela disse com a voz mais baixa. 'Harriet é filha da Maura. Minha filha. Ela é doce, inteligente, engraçada. Ela fica emburrada se tem que comer ervilhas, e ri sem parar quando eu a jogo para cima, mas é Joe, nossa carrinha, que ultimamente tem a feito perder o ar. Harriet adora o cágado que temos em casa... E ela só é uma criança. Nossa criança.'
A detetive esticou o braço e mostrou a foto para o homem. Ele estreitou os olhos e observou a imagem.
'E é ela quem coloca um sorriso no rosto de Maura, até mesmo nos dias mais difíceis. Ela nos consertou, Paddy. Ela é a... Droga. Ela é Harriet. Nossa Harriet.' A morena deslizou o dedo pela tela do celular, revelando outra foto em seguida. Maura rindo com Harriet no colo, os braços da menina abertos enquanto contava uma das histórias — essa especificamente, Jane se lembrava de ser sobre o filme que elas tinham visto no dia anterior. O sorriso de Maura era tão sincero e contagiante que a própria detetive se pegou sorrindo com a foto. 'Ela completou o que nos faltava, e... Multiplicou o que já tínhamos.' Jane odiava dar uma de sentimental, especialmente para pessoas que ela não tinha intimidade nenhuma, principalmente para Paddy, alguém que ela desconfiava que não tinha qualquer sensibilidade.
Os olhos do homem se ergueram para se encontrar com os dela. Ele respirou fundo, parecendo um tanto quanto chocado pela nova informação. O rosto endureceu numa expressão que Jane não sabia identificar e a dúvida começava a assombrar sua mente, lançando retalhos de arrependimento. Ir ali não tinha sido a melhor idéia, afinal de contas. Tinha?
'Há muito mais.' Ela continuou, aproveitando o momento de silêncio. Ela abriu o envelope e deslizou uma foto para fora. O ângulo enquadrava Susie agachada ao chão, Maura sentada em sua frente e Harriet ao lado da loira. Uma imagem do dia da invasão. Uma foto que Jane devolveria a mesa de Korsak e juraria de pé junto que não tinha tirado de lá. O velho saberia que era mentira, mas deixaria para lá, porque ele confiava nela. A morena esticou o braço e mostrou a foto.
'O que é isso?'
'Um homem invadiu nossa casa. Ele estava procurando por Harriet, mas Maura a escondeu. Maura a protegeu. Maura, a sua filha, Paddy, se colocou entre uma criança de seis anos e um homem de quase dois metros de altura. Um homem que poderia quebrar os ossos do braço dela com um único aperto.' Ela sentiu as lágrimas arderem nos olhos e as mãos tremerem levemente diante da verdade. Como que para provar seu ponto — e para escapar do sentimento doloroso que a foto trouxe, ela abriu o envelope para procurar pela seguinte. Os dedos depositaram a folha de papel ao lado da primeira.
O hematoma roxo e consideravelmente grande se contrastava na pele branca. A foto fora tirada para ser catalogada como evidência, e Jane não sabia de sua existência até que revirara a mesa de Korsak. Ela apontou o dedo para a parte escura das costas e encarou o homem. 'Ela não pensaria duas vezes se tivesse que fazer de novo. Não importa quantos ossos quebrados e, droga, você quer saber, Paddy? Ela morreria por essa menina. Eu morreria. Acontece que eu não quero que isso se repita. Ela está assustada. Nós todos estamos.'
'Achei que tinha sido claro quando disse para você cuidar bem da minha filha, detetive.' Ele disse duramente, os olhos reprovando a mulher.
'E eu tenho. Mas isso é maior do que eu posso lidar, e você sabe. Se fosse tão simples você estaria atrás das grades por anos agora.' Ela rebateu. Ela apoiou o cotovelo em cima da mesa e apontou o indicador para ele. 'Não venha me dizer que eu não tomo conta dela enquanto tudo o que venho fazendo é isso, desde o momento que a conheci. E isso vai muito além de protegê-la de pessoas perigosas, de alguns riscos que ela corre, inclusive, por ser sua filha. Você não tem idéia do que ela tem passado. Droga, você não tem idéia nenhuma. Você não sabe das lágrimas e dos gritos de medo. Você não sabe das noites em claro e do que me custou saber que eu não podia poupá-la de certo sofrimento. Você não estava lá quando a dor foi tão grande que ela pediu para eu pará-la. E quer saber, Paddy? Eu não pude. Mas era eu quem estava lá por ela, eu quem a tinha nos braços, cuidando e tentando de todos os meios fazê-la sorrir. Então, seu desgraçado, não me venha dizer que eu não tenho tomado conta dela. Eu faço o que ela precisa para ser feliz, custe o que me custar. Eu sei o quanto ela é frágil e o quanto é forte. Eu estive lá todas as vezes. Pro inferno com 'você não cuida bem dela'!' Ela disse com a voz rouca e quase tremendo de raiva. O peito subia e descia com a respiração forte, e o dedo ainda continuava apontado para ele.
Ela tinha abusado da sorte. Ela não pretendera em nenhum momento enfrentá-lo dessa forma , mas ser acusada de não estar tratando Maura como ela deveria tinha a tirado do sério. Se ela tinha arruinado qualquer chances de receber ajuda, ela não fazia idéia, mas esperava que não.
'E se ela quer essa menina, ela tem essa menina, porque Harriet a faz feliz.' Ela disse num ultimato. 'Caso você não tenha percebido, nós dois queremos a mesma coisa. Eu não estou pedindo por mim, mas por ela. Eu odiaria ter que voltar a dormir com uma arma em baixo do travesseiro, ainda mais com a presença de uma criança em casa.' Ela respirou fundo e esperou.
Paddy se remexeu na cadeira, nunca desgrudando os olhos dela. Ele parecia estar ponderando as escolhas, medindo o discurso de Jane. Os olhos percorreram as fotos de novo e depois caíram para as próprias mãos. O silêncio estava incomodando a morena. Ela queria chacoalhá-lo e arrancar uma resposta imediatamente dele, mas o bom-senso a mantinha presa na cadeira. Ele sabia ser irritante. Ela revirou os olhos.
'Você diz que eu não sei o que isso pode te custar? Não faço a mínima. Mas eu espero que você saiba o que a sua decisão pode custar a Maura.' Ela pressionou.
Com a cara fechada, ele acenou com a cabeça para ela. 'Você tem um nome?' Ele resmungou.
Ela tirou a última foto e mostrou para ele. 'Esse homem foi quem a atacou. Nós o temos sob custódia, mas o problema não é ele. É o próximo. Ele não foi o primeiro a vir atrás dela.'
'Farris.' O homem murmurou o sobrenome. Outro aceno de cabeça.
'Coloque um aviso, Paddy. Diga para que fiquem longe de nós, ou Deus sabe o que vai nos acontecer da próxima vez.' A morena pediu sob todo o medo e assombro de um novo ataque.
'Você', ele apontou um dedo para ela, 'você continua mantendo minha filha feliz.' E era uma ordem.
A morena concordou com a cabeça. 'É o que eu mais quero. Acredite.'
Ele a encarou como se analisando a sinceridade — inquestionável — dela. Quando pareceu convencido e certo do acordo que estavam fazendo, ele falou finalmente. 'Você tem minha palavra: vocês vão ter a paz que querem daqui para frente.'
Jane sorriu — mas não muito, afinal ela não queria parecer totalmente agradecida e dependente da segurança que ele podia oferecer. 'Obrigada.'
'Não é por você.' Ele lembrou.
Ela revirou os olhos. 'Eu estou agradecendo pela Maura.' Ela recolheu todas as fotos e devolveu dentro do envelope. Quando Jane se levantou, Paddy chamou pelo guarda, anunciando que a visita tinha terminado. A morena lançou-lhe um último olhar antes de deixar a sala, e ela teve certeza, pelo olhar que o homem a devolveu, de que ambas as partes do contrato seriam cumpridas.
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