Notas iniciais
Oi gente! Feliz Páscoa! E aqui segue meu presente de domingo para vocês. É um capítulo leve, espero que vocês gostem. :) Logo, logo tem mais. Me digam o que vocês acham, beijo!

O dia estava amanhecendo preguiçosamente, pela janela ela podia ver o azul escuro se dissipando nos raios da manhã, revelando um céu azul turquesa no processo. O vento frio soprou lá fora, levantando as últimas folhas secas do chão. Jane rolou na cama e cuidadosamente colocou Maura em seus braços. A loira ainda dormia profundamente e o sono não tinha sido perturbado pelo movimento. Era algo costumeiro; levantar a cabeça devagar, apoiar em seu peito e depois virar o corpo da outra em sua direção. Jane já tinha feito tantas vezes que o gesto era quase automático, e Maura muitas vezes colaborava em estado de sono mais leve, voltando a dormir tranquilamente em seguida.

A noite anterior tinha sido uma de comemoração, e Jane não pôde deixar de comparar o contraste dos últimos meses. Todo sofrimento dela e de Maura em relação ao bebê, e depois somado à situação de Harriet, e logo, em tão pouco tempo, a mudança que ela trazia. Os sorrisos matutinos, o companheirismo, o corpo fofo e quente da criança em seus braços. O rosto de Maura se iluminando quando Harriet corria em sua direção. Fazia agora, um mês que a menina estava com elas. A tempestade tinha definitivamente passado, e o sol brilhava forte e caloroso.

O contato com o advogado horas antes do jantar, na noite anterior, tinha colocado o maior sorriso no rosto de Maura. Harriet seria delas, agora era certo. Levaria mais um mês, no máximo dois, para a legalização dos documentos. Jane sentiu pele primeira vez um dos benefícios de carregar o sobrenome 'Isles'. O juiz era um velho amigo do pai de Maura, e embora não tivessem tido contato durantes anos, ele havia ficado mais do que feliz em prestar um favor. É claro que isso só foi possível porque ambas tinham tudo o que precisavam para adotar uma criança: lar seguro, estabilidade financeira, família bem-estruturada. O sobrenome veio, na verdade, como uma garantia no processo de adoção.

Em poucas horas um grande jantar tinha sido preparado por Angela, e mesmo Harriet que não entendia completamente o que elas estavam festejando — por que ela não poderia morar ali se não tivesse um pedaço de papel? — parecia satisfeita demais com a casa cheia. Uma ligação de Maura para a mãe, para agradecer o apoio dos pais, tinha deixado a menina ainda mais feliz. Em uma semana Constance estaria de volta, e Harriet mal podia se conter de felicidade e empolgação.

'Nonna!' Ela gritou da sala para a mulher que estava na cozinha. 'Granmér chega semana que vem!' E todos voltaram o rosto para ela. Nenhum deles — Tommy, Frankie, Korsak e nem Frost — tinham ouvido a menina chamar Angela de avó. A primeira vez tinha chocado Jane também, mas conhecendo bem sua mãe, ela simplesmente revirou os olhos e riu em seguida. Agora a morena parecia orgulhosa demais estudando os rostos surpresos por causa de Harriet, e Angela estava vívida pela cena. Por um minuto a garotinha pareceu tímida com todos os rostos encarando-a, mas tão logo ela encontrou o olhar de Maura — os olhos verdes brilhando para ela — ela ergueu os braços e correu na direção da mulher, pulando em seu colo.

'Maravilhoso!' Angela exclamou para a menina de onde estava.

'Isso não é ótimo?' Maura perguntou, arrumando a blusa da garotinha que tinha se levantado quando a segurou no ar.

'Mal posso esperar!' Ela abraçou a mulher. 'Quanto tempo é uma semana?'

Maura riu, divertida. 'São sete dias, Harriet. O que significa que ela chega no próximo domingo.'

'Passa logo?' A menina perguntou, ainda desorientada no tempo.

'Bem...' Maura deu de ombros. 'Imagino que sim.'

E então toda a comoção tinha se passado, e o jantar foi regado de risadas, e gestos singelos entre Jane e Maura, e gargalhadas de Harriet. No final todos estavam no sofá assistindo um filme, e a criança dormia sossegada nos braços de Jane. Tinha sido uma noite leve, feliz e que havia deixado seus resquícios de doçura para ser lembrada na manhã seguinte — pelo resto da vida.

Como se num presságio, Harriet abriu a porta do quarto e colocou a cabeça para dentro. Quando Jane acenou com a mão, a menina contornou a cama e foi ao seu encontro. Ela escalou o colchão e Jane a colocou de baixo do cobertor, e logo em seguida beijou sua cabeça.

'Bom dia, tartaruga.' Ela murmurou silenciosamente, já que tinha Maura encostada em seu peito.

'Dia.' A menina respondeu e sorriu para ela, devolvendo o beijo na bochecha. Depois ela se inclinou e beijou carinhosamente a bochecha da médica. De sobrancelhas franzidas, ela olhou intrigada de Maura, que dormia, para Jane. 'Muito cedo?' Ela inclinou a cabeça se referindo à loira.

'Muito vinho.' Jane murmurou de volta e riu, tentando não chacoalhar, em vão, o peito.

'Vinho dá sono?' Ela perguntou para esclarecer enquanto se deitava de novo, apoiando a barriga ao lado do corpo de Jane.

'Oh, sim. Bastante.' Ela abraçou a menina que apoiou a cabeça em seu ombro. Parecia ser tão certo ter as duas ali, enroscadas nela.

'Mais meia hora?' A menina murmurou, porque era sempre o que elas falavam para ela quando não queriam levantar logo tão cedo, 'mais meia hora, Harriet', o que significava que ela tinha que, ou dormir, ou ficar em silêncio ali com elas.

'Sim, querida, meia hora.' Jane acariciou seu corpo.

Harriet descansou sua mão no rosto de Maura, e a loira instintivamente lançou o braço por cima de Jane e apertou um abraço nas duas figuras, respirando fundo. Jane reconhecia quão confortável era aquela situação, quão promissora aquela manhã estava sendo desde as promessas da noite passada. Era um novo dia, fresco, carregado por uma sensação de plenitude vinda de uma fonte que Jane soube imediatamente identificar. Brotava da combinação de Maura em sua vida, vivendo e correspondendo o amor que a morena sentia por ela, e da chegada e estadia de Harriet em seus corações. Não havia mais ameaças, Harriet ficaria, e o incômodo da dúvida tinha sido varrido para fora na noite anterior. A menina era delas, e Jane sentiu os olhos se encherem de água com o pensamento. Se Maura não estivesse dormindo, ela teria gritado de felicidade. Em vez disso, ela optou por beijar a cabeça de cada uma demoradamente. Sim, aquilo estava tão certo. Era tudo o que ela precisava: sua família dentro de seus braços, num encaixe que parecia ter sido meticulosamente talhado.

O corpo de Maura se juntava no dela numa combinação perfeita, do mesmo modo que o corpo pequeno de Harriet se ajustava. Uma do lado esquerdo, a menor do direito. Elas eram como um quebra-cabeça mutável, onde as curvaturas e esquinas das peças se dobravam e estendiam, contraiam, de acordo com a necessidade da mudança de cada uma. Sempre mudando, sempre se adaptando — sempre conectadas.

De forma impecável e ideal.

...

O caso da mãe de Harriet ainda permanecia aberto, e era uma pasta que Jane jamais colocaria numa caixa de arquivo morto enquanto não o encerrasse. Por outro lado, o corpo da mulher tinha sido dispensado para o sepulcramento depois de recolhido todas evidências possíveis. Mais uma semana tinha se passado desde o telefonema com o advogado, e Maura decidiu, junto com Jane, que elas seriam responsáveis pelo velório da mulher. Era uma forma de honrar a memória da mãe da criança, que agora também era filha delas, e zelar pelo bem da própria menina.

Elas explicaram para Harriet o que iria acontecer no dia anterior. A menina ouviu atentamente, com olhos estudiosos e marejados, mas ela não chorou. O caixão estava lacrado, pronto para ser abaixado, e ela não chorou. Ela não chorou quando jogou uma última rosa em cima dele e sussurrou 'eu sinto tua falta' e viu a flor pousar levemente, respeitosamente lá em cima. De algum modo, mesmo para sua mente ainda infantil de criança, ela sabia que sua mãe estava em paz. Ela sentiria falta dela, para todo o sempre, mas agora já não era tão dolorido porque...

'Ela vai estar aqui sempre, Harriet.' Jane disse enquanto acariciava seu rosto. Ela estava aninhada nos braços de Maura, e a morena estava logo ao lado. 'Ela vai estar sempre aqui', Jane pressionou o indicador no peito da menina, em cima do coração, 'e ela pode te ouvir não importa aonde você esteja. Entende?'

Harriet balançou a cabeça em sim.

'E ela sempre vai cuidar de você.' Jane sorriu gentilmente para ela.

'E de vocês, porque vocês são minhas e cuidam de mim.' E tinha sido tão firme e confiante que Jane acreditou que sim, que agora de algum modo elas tinham a benção e a proteção de Anna para continuar com Harriet. Maura abraçou a menina sem dizer uma palavra, não confiando na própria voz, e lançou um olhar marejado para Jane.

Harriet era capaz de fazer algo bonito das coisas mais tristes — da sua própria tristeza, da tristeza de Jane e Maura. Ela era empenhada o suficiente para consertar a si mesma, e de quebra as duas mulheres.

Jane balançou a cabeça em afirmativo para Maura e sinalizou para que elas retornassem, já que agora só restavam elas ali. Maura se virou para fazer o caminho até o carro, e Jane, antes de segui-la colocou as mãos no bolso e encarou a lápide recém colocada.

Obrigada, Anna. Por mandar Harriet para Maura, para mim. Por guiar nossos caminhos de volta uma à outra. Ela tem sido nosso raio de sol, e nos dias tempestuosos só basta olhar naqueles olhos azuis para saber que o céu... Deus, o céu existe. Eu sinto muito que isso tenha acontecido à você, e eu prometo que Harriet será amada e cuidada da forma mais completa possível. Quer dizer, nós já a amamos tanto. Ela é pequena, ela é tão pequena — Jane riu sozinha, balançando a cabeça enquanto se lembrava da menina se enroscando nela naquela mesma manhã, enquanto Maura tentava acordá-la — e mesmo assim, tem um espírito tão grande. Isso me faz pensar que ela só é extraordinária porque você foi uma ótima mãe para ela. E você vai continuar sendo, Anna. Nós não vamos deixar que ela te esqueça. Fique em paz, e...

Jane suspirou fundo e olhou para trás. Maura tinha parado na distância, esperando por ela. O vento frio balançava o cabelo loiro e Harriet balançava as pernas no colo de sua mulher. Ela sorriu e se virou de novo.

Nós também temos uma garotinha aí em cima. Um bebê, na verdade. Talvez se... se você puder dar uma olhada nela para gente?

Ela revirou os olhos. Desde quando tinha se tornado tão emocional? Se ela demorasse mais um minuto Maura ficaria impaciente e Harriet irritada. Constance estava esperando no carro por um longo tempo agora, e talvez não fosse educado de sua parte deixá-la na espera. De qualquer forma, emocional ou não, ela sorriu e piscou os olhos uma última vez para a lápide antes de se virar e partir.

'Jane!' Harriet a chamou e esticou os braços, inclinando o corpo para frente. A morena a pegou no colo e beijou a bochecha fofa e vermelhinha por causa do frio. Em seguida, Harriet apoiou a mão no seu peito e olhou com o cenho franzido em pensamento para ela, e então...

'Nós cuidamos uma da outra.'

Jane balançou a cabeça em sim, concentrada, e olhou para Maura. A loira deu de ombros, não tendo idéia de onde e porque a menina dissera isso.

'Certo, tartaruga.' Ela confirmou com a cabeça. 'Nós cuidamos uma da outra.'

E então ela não chorou porque sua mãe estava ali — em seu coração — e Maura estava ao seu lado, e Jane a segurava forte num abraço. E a presença de todas elas era tão forte, tão real, que Harriet sorriu para elas — para as três — e suspirou fundo ao olhar para o céu azul em cima de suas cabeças.

'Nós podemos ir para casa?' Ela balançou as pernas na cintura da morena.

'É claro.' Jane disse e estendeu a mão para segurar na de Maura. 'Vamos para casa.' Porque de algum jeito a vida tinha se encarregado de juntar os fios soltos para continuar tecendo outras histórias.

...

Maura escutou o grito vindo da sala. Ela sentiu um calafrio percorrer o corpo a deixando em estado de alerta. Ela não tinha idéia do que poderia ser o motivo da menina ter gritado daquele jeito e, apressada, ela se virou rapidamente, fechando a geladeira e caminhando em direção ao som. Ela nem alcançou seu destino, descobrindo logo o motivo do barulho.

Harriet bateu de novo as mãos no chão e gritou um 'ah' mais curto dessa vez, e Joe Friday abaixou a parte dianteira do corpo no chão, a parte traseira inclinada com um rabo se movendo alegremente de um lado para outro. Depois das mãos da garotinha acertarem o carpete, a cachorrinha latiu uma vez em alegria e saiu correndo pela sala. Ela completou uma volta e parou em frente da menina de novo que agora ria desesperadamente. Harriet inclinou o corpo para trás, e as mãos apoiadas no joelho estavam contraídas, assim como a barriga pelo esforço da risada. E depois de rir o suficiente, ela fez de novo: gritou, bateu as mãos no chão e observou enquanto Joe disparava em torno da sala mais uma vez, e logo sem seguida parava em seu frente. Agora a cachorrinha batia as patas dianteiras no chão, como se pedindo por mais.

Maura se encostou na parede e observou a cena, se deliciando com a simplicidade e graça da menina. Um sorriso brincou em seus lábios quando a criança estendeu a mão para Joe, que a lambeu abaixando as orelhas de forma que pareceu à Maura um agradecimento. Ela se afastou de novo, dando espaço para Harriet e quando a menina insistiu na brincadeira, a cachorrinha correu mais uma vez, agora pulando no sofá, no chão e contornando a sala. Quando ela voltou, bateu as patas no peito de Harriet e a garotinha inclinou a cabeça para trás, a gargalhada chacoalhando o corpo inteiro.

Maura se descobriu rindo também. Ela levou a mão na boca para abafar o som quando Joe pulou em Harriet de novo, e a criança rolou de costas para o chão e protestou com 'Joooooooe', esticando bem a vogal, levando as mãos ao rosto quando recebeu lambidas ali. E mais uma vez, rapidamente recuperada de uma crise de riso, Harriet se levantou e Joe já esperava por ela de novo, pulando de um lado para outro como se dissesse 'você não me pega'.

Os olhos da menina se fecharam com o sorriso sapeca, e incansável, as mãos atingiram o chão depois de um curto grito, o animal correu furiosamente pela sala e a gargalhada encheu o ar. Joe latiu. Maura riu e chacoalhou os ombros. E então aconteceu.

Os olhos azuis da menina encontraram a mulher do outro lado da sala, quase escondida pelo ângulo da visão, e Harriet inclinou sua cabeça para vê-la melhor. Maura se aproximou, agora que já tinha sido pega, de qualquer forma. Sorridente, ainda entre risadas e com Joe a sua espera, a menina apontou para o animal e ergueu as sobrancelhas numa expressão de puro divertimento.

'Mamãe, olha!' Ela disse empolgada. Ela levantou as mãos no ar e o movimento parou por ali, logo quando ela percebeu o erro.

Maura também congelou, e ela só soube que não tinha se transformado numa estátua — como na história que lera para Harriet na noite anterior — porque escutava seu coração bater fortemente em seu ouvido. Ela não tinha escutado errado, tinha sido alto e claro. E Harriet parecia culpada demais, agora mordendo um dedo e encarando-a com seus grandes olhos azuis, como se a espera de uma reprimenda.

'Oh.' A loira finamente conseguiu dizer, entendendo que o silêncio era a deixa para dizer o que quer que fosse. Mas antes de qualquer coisa, ela sorriu. Ela sorriu porque Harriet não tinha idéia do quanto ela parecia adorável com aquele olhar de 'estou encrencada', e porque a menina tinha chamado-a de mamãe. Era estranho porque Maura não esperava por isso, pelo menos não por agora — mas com certeza futuramente — e era doce pelo mesmo motivo. Bem, a quem ela queria enganar? Ela estava extremamente feliz. Ela amava a menina. Amava como sua cabeça descansava em seu ombro antes de dormir, como Harriet corria de encontro a ela depois de um dia de trabalho, abraçando-a pelas pernas fortemente, amava seus bicos e suas caras feias para os legumes, amava os costumes que a menina tinha aprendido com Jane — o jeito que dizia as palavras separadamente quando irritada, e o jeito carinhoso nas manhãs — amava tê-la enroscada na cintura quando estava cansada demais para andar durante os passeios, sua inteligência e o modo como observava o mundo à sua volta. E amava ser responsável por ela; Maura era a mãe dela. E agora ela estava sendo reconhecida como tal.

Sorrindo, ela dobrou os joelhos no chão e esticou as mãos para alcançar a menina. 'Você pode me chamar de mamãe, você sabe...' Ela colocou uma mecha de cabelo escuro atrás da orelha de Harriet. 'Se você quiser, é claro, e se você achar que soa bem.' Ela encolheu os ombros. A menina parecia em conflito e ela pensou no que poderia ser. 'Eu sei que você tem sua mãe, mas...'

'Nonna disse que posso ter três.' Harriet concluiu sabiamente.

Maura ergueu as sobrancelhas em surpresa. É claro que Angela sabia aproveitar uma oportunidade como ninguém, e é claro que a terceira mãe seria Jane. 'Oh, ela disse?'

'Disse.' Ela apertou os olhos. 'Isso pode?' Ela acreditava em Angela, mas precisava da confirmação de Maura.

'Sim, Angela tem razão.' Ela confirmou. 'Harriet, você se lembra daqueles papéis de que falávamos antes?'

'Lembro, sim.' Ela balançou a cabeça em afirmativo.

'Certo. Aqueles papéis... Bem, eles garantem que você irá ficar comigo e com Jane. E que nós somos as responsáveis por você agora, como... mães.'

'Para sempre?'

Maura quase riu com a inocência da menina. Ela parecia mais preocupada com a promessa de eternidade do que com o título que aquilo acarretava.

'Sim, você vai ser nossa garotinha para sempre.'

'Você é mãe, Maur.' Ela disse, tímida. 'Só pode ser. Você faz todas as coisas de mãe.'

Maura sorriu enquanto sentia os olhos encherem de lágrimas. 'Oh, é mesmo?' Ela apoiou as mãos nos joelhos.

A menina imitou a mulher e se ajoelhou no chão também, mordendo os lábios. 'Minha mãe me colocava na cama e me contava histórias, me levava para passear com ela em qualquer lugar e... assistia desenhos comigo. E brincava comigo. E me obrigava a comer ervilhas.' Ela franziu o rosto em desgosto. 'Mas me comprava sorvete também. E desenhava comigo!' Ela disse empolgada e depois olhou para Maura pensativa de novo. 'Isso são coisas que todas mães fazem, não são?'

'Bem...' Maura mediu as palavras. Sua mãe realmente não tinha feito muito dessas coisas com ela, mas aquele era o parâmetro de comparação de Harriet. 'Sim', ela concordou, 'é isso que mães fazem.'

Harriet deu de ombros, provando seu ponto. 'Então você é uma. E Jane também. E são minhas, não são?'

São minhas, não são? Maura repetiu a última frase na cabeça e sorriu. Harriet era possessiva e a loira se perguntou como ela reagiria com a notícia de ter um irmão, ou irmã. 'Sim, Harriet. Nós somos suas mães agora. Para sempre.' Ela adicionou porque se lembrou que isso parecia ser tão importante para a criança.

A menina sorriu e pulou no colo de Maura, que a segurou e beijou sua bochecha quantas vezes achou necessário. 'Três mães!' A menina riu nos braços e Maura e jogou a cabeça para cima para olhá-la. 'Isso significa que vou poder comer sorvete duas vezes!' Ela disse pensativa e Maura riu.

'Não, não mesmo. A quantidade de sorvete permanece igual. Boa tentativa.' Maura riu e se sentou no chão, segurando a criança em seus braços.

'Caramba, achei que ia colar.'

E o comentário fez a loira rir mais ainda. Era uma frase tão típica de Jane que o coração se inflou de um jeito singular, e algo quente e macio dentro de si a fez sorrir. Maura se perguntou como tinha sido possível viver sem Harriet e Jane antes. Aquela menina podia não ter vindo de nenhuma delas, mas estava se tornando claramente uma cópia da morena. No humor, nas falas, no jeito com as pessoas. E Maura Isles, aquela que era filha de sua mãe, jamais sentaria no chão de uma sala — nem quando pequena, quem dirá agora grande — e mesmo isso Harriet tinha conseguido mudar.

'Quer saber? Vamos nos arrumar e esperar Jane chegar, e então nós podemos ir no parque.'

Harriet piscou os olhos para ela.

'Naquele parque.' E ela ergueu as sobrancelhas de um jeito sugestivo e Harriet agarrou seus ombros em empolgação.

'Você tá falando sério?' Ela se levantou, ainda segurando-se na mulher.

'Sim.'

E a menina levantou os braços e saiu correndo pela casa, gritando. Maura a perseguiria por cinco minutos até conseguir alcança-la, mas tudo bem. Era tudo o que ela sempre quis, afinal.

...

'Pipoca, pipoca, pipoca!' A menina repetia incansavelmente enquanto Jane entregava o saco de pipoca para ela. Ela já tinha andado em todos os brinquedos que sua idade permitia. A pequena montanha-russa para crianças — mas que parecia terrivelmente alta para ela, a xícara que rodava e rodava durante alguns minutos, os carrinhos bate-bate — ok, não era de criança, mas como Jane iria naquilo sem a desculpa de ser para Harriet?, o trem fantasma que não era nada assustador, mas que deixou Harriet em estado catatônico depois do primeiro minuto que saiu de lá, e que logo foi recuperado pela roda-gigante que era realmente alta, e que entregou uma Harriet saltitante e feliz de volta ao chão.

Faziam duas horas que ela estavam ali, andando, rindo e conversando. Era domingo, mais uma vez, e agora todas as tardes desse dia eram preenchidas com atividades fora de casa. Até enquanto o inverno permitisse, pelo menos. Agora que Harriet caminhava com um braço segurando o saco e a outra mão ocupada, cheia de pipoca, o cuidado tinha que ser redobrado. As duas mulheres caminhavam lado a lado, cuidando da direção que a menina tomava. Ela andava distraída, realmente concentrada na pipoca que estava comendo.

Pipoca, aliás, que Maura achava ser inapropriada depois de dois picolés, um refrigerante e meio cachorro-quente (Jane comeu a outra metade). Tudo isso, em duas horas. Toda essa comida entre as voltas nos brinquedos. Mas era domingo, e Harriet parecia feliz demais ali, e era difícil de argumentar enquanto Jane sorria para ela daquele jeito que a desarmava. Não era justo, as duas se unindo contra ela. E porque era domingo, porque era o dia que estava destinado à diversão (o que incluí permissão para comer coisas deliciosas e gordurosas, Maura!, disse Jane) ela não iria se aborrecer com isso.

A morena apontou uma árvore grande, perto do local aonde estavam passando, e Maura alcançou Harriet com os braços e indicou o lugar para ela. As três se sentaram lá em baixo, descansando as pernas depois de andarem por tanto tempo. Harriet sentou no meio das pernas de Jane e apoiou as costas em sua barriga. A morena beijou sua cabeça e roubou uma pipoca do saquinho.

'Fome?' Ela ofereceu para Maura, que revirou os olhos em reprovação.

'Não, obrigada.' Ela se encostou na árvore e observou a roda-gigante, funcionando ao longe.

'Harriet, você sabe que Maura tem medo de fantasmas? Por isso ela não quis ir no trem com você.' Ela mastigou a pipoca, enquanto tentava suprimir um sorriso.

'Isso não é verdade!' A loira se defendeu, endireitando a coluna. 'Fantasmas não existem, Jane, você sabe disso, logo não existe razão para temê-los.'

A menina trocou um olhar significativo com Jane — um gesto que ela tinha aprendido com a morena — e as duas riram em seguida. Maura caía tão facilmente nas provocações das duas. Ela revirou os olhos, mas acabou rindo também.

'Acabou a pipoca.' A menina anunciou, embora continuasse a pressionar o dedo e lamber o sal que havia sobrado lá de dentro.

'Lixo no lixo, tartaruga.' A morena disse enquanto apontava para uma lata, a direita e não muito distante delas.

'Ok.' Harriet se levantou, andou até lá e arremessou o saquinho de papel — que havia transformado numa bola — direto na lata. Ela ergueu as mãos em comemoração, procurando o olhar de Jane e a morena sorriu para ela, e acenou com a mão para que voltasse. Determinada a seguir sua direção, Harriet apressou o passo e ignorou o resto em sua volta.

E trombou com um guarda local. Jane estava pronta para se levantar e resgatá-la, quando Maura segurou seu braço, impedindo-a de fazê-lo. Ela estava perto demais, não havia necessidade. As duas observavam enquanto Harriet se endireitava e olhava para cima, para o rosto do homem.

'Desculpa, não te vi.' Os dois disseram em uníssono.

Ela mordeu o lábio e sorriu. 'Tudo bem, não foi nada.'

O policial, gentil, sorriu também e se curvou um pouco para baixo. 'Você não se perdeu de seus pais, se perdeu?'

'Não, minhas mães estão logo ali.' Ela apontou para as mulheres que sorriram para ela. 'Minha mãe é policial igual você.'

'É mesmo?' Ele parecia mais divertido do que interessado.

'É. E minha outra mãe é médica.'

As duas mulheres se entreolharam e sorriram orgulhosas. Era a primeira vez que a menina tinha apresentado elas como suas mães.

'Legal! Você tem duas heroínas, então.'

'Três.' Ela disse rapidamente.

'Três?' Ele pareceu intrigado.

'Três, mas é uma longa história e eu preciso ir. Adeus!' Ela balançou a mão e saiu apressada em direção as mulheres, logo depois que o guarda acenou também. Quando ela parou, mais uma vez em frente das duas, os lábios se transformaram num círculo. 'Ooooooh', ela disse encantada. 'Carrossel! Posso ir?' Ela apontou para o brinquedo atrás de Jane.

'O que você quiser.' A morena deu de ombros e Maura já estava se levantando.

Mãos pequenas nas mãos de suas mães. Elas caminharam até o brinquedo e esperaram na fila, até a vez da menina. Harriet dava pequenos pulinhos até que Jane a ajudou a subir num dos cavalos.

'Unicórnios!' A menina a corrigiu, ainda mais empolgada.

'Não solta.' Jane a instruiu.

'Não vou.' Ela prometeu. Mas não cumpriu completamente. A cada volta que ela completava, ela erguia uma mão e gritava para Jane 'Mamãaee', e ria loucamente.

E Jane nunca sorriu com tanta vontade. Os olhos negros brilharam e a mão ergueu em sua própria vontade para acenar para a garotinha. Sim, a garotinha dela. Sua filha.

E de novo. 'Mamãaaae.' E Jane riu, e Harriet chamava tanta atenção com sua gargalhada que algumas pessoas olhavam para ela, e depois para Jane e Maura. As duas estavam em êxtase. Bem, as três estavam, mas Harriet não tinha idéia daquilo que estava causando nas mulheres. Maura tinha tirado uma foto com o celular, e tinha ficado cômica. A menina com um braço estendido, a boca aberta em risada e os olhos espremidos. Um retrato da felicidade.

Quando a volta acabou, a menina correu para elas e abraçou a perna de Jane. 'Isso foi tão divertido! Você viu, você viu?' Ela perguntou para Maura. A mulher balançou a cabeça em sim, e tomou sua mão.

'É claro que eu vi. Você quer ir em outro brinquedo?'

'Sim, sim, sim!' Ela saiu saltitante na frente das duas, tentando decidir qual seria o próximo brinquedo. De repente ela parou e pareceu cansada demais.

'Harriet?' Maura chamou, parando também. 'O que foi, querida?'

E a menina deu um passo a frente e se curvou, e vomitou tudo o que tinha comido na última hora.

'Oh, não.' Maura murmurou e colocou a mão nas costas da criança que tossia. 'Oh, Harriet...' Ela lamentou, sabendo que depois disso viria...

O choro. A menina abriu a boca, completamente entristecida e chateada, e chorou dolorosamente porque estava tão feliz até então, e aquilo deveria durar.

'Comida e brinquedos? Acho que não foi uma boa combinação.' Jane disse olhando para Maura, arrependida. A loira balançou a cabeça com uma expressão de 'eu te avisei'.

A médica se curvou e segurou a cintura da menina para pegá-la no colo, mas o esforço do choro lhe causou ânsia, mais uma vez. Maura esperou até que ela terminasse e limpou a boca da criança com a pequena blusa que segurava nas mãos. 'Tá tudo bem, querida. Você não está realmente doente'.

'Mamãe.' Harriet choramingou e ergueu os braços para Maura. Fim da festa.

'Tá tudo bem.' A loira a ergueu do chão e beijou sua cabeça.

Harriet se aninhou em seus braços. 'O unicórnio.' Ela insistiu entre o choro. Aparentemente era divertido demais para ser posto de lado.

'Outro dia, meu amor. Outro dia você volta.' Maura disse acariciando seus costas.

'Ma-mama-mãe.' Ela esticou o braço para Jane, implorando, mas dessa vez nem mesmo a morena podia ficar de seu lado. A criança parecia esgotada, e não era apenas por causa do episódio do enjoo. Elas já estavam lá há muito tempo agora, e ela só tinha seis anos. Tinha sido o suficiente — um pouco demais — e já era hora mesmo de voltar para casa e dormir um pouco. Sim, era disso que a menina precisava agora: descanso.

'Sinto muito, tartaruga. Hora de voltar para casa.'

E a menina curvou os lábios para baixo e os olhos azuis se encheram de lágrimas. Se Jane não a conhecesse tão bem... Mas imediatamente ela identificou o começo da irritação que a garotinha sentia quando estava cansada demais. Os sinais estavam se mostrando. O choro, a cara feia. Ela sabia. Ela sabia tão bem quanto Maura sabia, porque aquela garotinha... Aquela garotinha era filha delas.