Notas iniciais
Tchadam! Aqui vai mais um capítulo. E quero aproveitar e deixar um parabéns para a Geysa e a Jééh que faz/fez aniversário essa semana. O melhor do mundo para vocês.

O cheiro de Jane impregnando seu nariz foi a primeira coisa que despertou em sua consciência. Ela tentou abrir os olhos mas o estado de letargia impediu o movimento, então ela continuou mergulhada na escuridão acolhedora daquele conforto. As lembranças flutuaram levemente em sua memória, e ela recolheu uma de cada vez, começando pela da noite anterior. Ela e Jane tinham feito amor. Não sexo. Amor: lento, com paixão, em movimentos sincronizados e gestos calorosos, cheio de cuidado e carinho. Ela tinha adormecido em cima do peito da morena, de forma que as batidas do coração a ninaram para um sono profundo. Ela não teve nenhum pesadelo, não acordou suando no meio do noite com o coração acelerado, desorientada. Era a segunda noite consecutiva que dormia bem, e embora fizessem apenas oito dias depois da invasão, o hematoma em suas costas já não estava tão dolorido, graças aos cuidados de Jane, e Harriet se sentia segura novamente para dormir em sua própria cama — também graças à morena.

Tudo parecia estar voltando aos eixos, inclusive a vida sexual. Elas tinham feito amor na noite anterior... E também naquela manhã. Angela tinha levado Harriet para o parquinho logo cedo, e depois iria levá-la ao shopping para comprar roupas e brinquedos — um mimo que uma avó precisa fazer aos seus netos! — ela tinha argumentado e Jane não iria desafiar aquele olhar decidido. No momento em que a mais velha deixara a casa, a detetive logo viu a vantagem de estarem sozinhas. Ela tomou Maura em seus braços e a levou de volta para a cama, e dessa vez nenhuma delas tiveram que se preocupar com barulhos. E dessa vez tudo tinha sido mais sedento, ainda que continuasse no mesmo ritmo da noite passada. Era como se precisassem de cada segundo para desfrutar do calor, memorizar os gestos, aproveitar sem pressa o arrepio que corria o corpo quando lábios encontravam pele, quando gemidos escapavam das bocas circulando no ar para morrer num suspiro baixo.

Ela se lembrou das palavras da morena logo depois de ter alcançado o orgasmo. Jane tinha a abraçado por trás e colocado a mão em seu peito, apenas para sentir o coração bater descompassado. O ar quente no ouvido arrepiou sua pele.

'Você é tão linda. É algo que eu nunca vou me acostumar.' Os dedos dançaram no cabelo dela e logo a morena plantava um beijo em sua nuca. 'Sem maquiagem, quando você acorda e seu cabelo tá bagunçado... Isso me deixa atônita.' Maura riu e chacoalhou os ombros. 'Quão justo isso é com as outras pessoas? Quer dizer, olha pra mim!' E a loira riu mais. Não podia ser verdade, não que Jane estivesse mentindo, era apenas que aquela era a percepção dela.

'Isso é impossível, Jane.' Ela murmurou de volta sentindo a bochecha arder.

'É muito possível, eu vejo todo dia.'

'Se você se checasse mais vezes no espelho, você também veria o quão linda você é.' Ela replicou, tentando tirar o foco de atenção dela. Maura podia ser aberta para muitas coisas, e ativa para tantas outras; na cama geralmente ela não tinha vergonha de nada, e nem mesmo as mais ousadas provocações, movimentos ou palavras a deixavam desconfortável, mas depois disso se Jane a segurasse nos braços e começasse a elogiar... Ela ficava tímida de alguma forma. Apenas porque era doce, porque Jane cuidava tão bem dela e com tanta ternura, porque a morena a polia, a colocava num pedestal. Ninguém fizera isso com ela antes. Na vida profissional qualquer conquista tinha sido através de esforço, logo tudo o que adquiria tinha vindo apenas como consequências. No âmbito familiar ela nunca havia recebido elogios dos pais, talvez porque parecesse tão independente e madura a ponto de não fazê-los pensar de que tais palavras pudessem fazê-la se sentir bem. Mas agora havia Jane, e toda vez que a morena oferecia palavras gentis, toda vez que Jane dizia o quão linda e perfeita ela era... seu rosto ardia em pura e verdadeira timidez. Ela simplesmente não sabia o que fazer com aquilo, e ao passo de que se sentia extremamente bem e confiante, era algo que a desarmava.

Ela rolou para o lado de Jane e escondeu seu rosto no pescoço da mulher.

Jane riu. 'Você me faz tão feliz.'

Maura levou a mão no pescoço da morena e acariciou, a voz se perdendo no sono. 'E você a mim.'

A morena sorriu e abraçou sua mulher, num ato que a fez perceber claramente algo. Maura e Harriet eram todo o seu mundo. E... 'Tudo o que eu preciso para ser feliz cabe dentro dos meus braços.'

Maura riu docemente. 'O que seria? Um fardo de cerveja e uma bola autografada pelo Red Sox?'

Jane riu enquanto beijava a cabeça da loira. 'Não! Você, você e Harriet. As duas únicas pessoas que preciso para ser feliz!'

Maura ergueu os olhos para ela, e seu olhar estava agora carregado de afeição. 'Você acha que consegue abraçar três de uma vez?' Ela sorriu. Ela sorriu e Jane sabia o que aquele sorriso significava.

Ela quer um bebê.

'Deus,' ela riu, 'eu abraçaria até mesmo quatro!'

A médica sorriu com a lembrança — ou pelo menos ela achou que estava sorrindo, considerando o quão preguiçosa estava naquela manhã. Minutos depois ela sentiu os lábios quentes da detetive beijando seu pescoço: primeiro levemente, com carinho, depois com mais insistência. Maura resmungou e passou um braço em volta da morena.

'Nunca se cansa?' As palavras saíram preguiçosas.

'O que? Eu só quero te fazer carinho.' E ela riu em seguida. Se entregando.

'Uhum. Nós duas sabemos que isso não é verdade.' A loira abrira os olhos e pousara as mãos nas costas da detetive que agora estava em cima dela.

'É sim! Eu não tenho culpa se isso leva a outras coisas...' E o sorriso que Maura conhecia tão bem estava estampado no rosto da morena.

Ela revirou os olhos. 'Você é impossível.'

'Irresistível.' Ela corrigiu quando correu a mão pelo seio nu da mulher e sentiu o mamilo endurecer rapidamente.

'E tão humilde.' Maura mordeu o lábio inferior enquanto sorria, e apertou a coxa entre as pernas da morena, pegando-a desprevenida.

'Oh!' Ela gemeu e arregalou os olhos para a loira. 'E você diz que sou eu quem começo com isso?'

'Eu só estou adiantando a sua brincadeira.' Ela riu de novo e, segurando o pescoço da morena, a puxou para um beijo. As línguas se entrelaçaram e a respiração ficou mais pesada a medida que os corpos buscavam um pelo outro — dançavam um com o outro. Quando elas quebraram o beijo para pegar ar, a loira apertou as pernas na cintura e beijou o ouvido da morena. O ar quente arrepiou Jane, mas não mais do que as palavras.

'Jane, dessa vez não precisa ser gentil.' Ela afastou o rosto apenas para encarar a morena, apenas para que Jane visse o sorriso maroto nos lábios, a sobrancelha levantada em perversa sugestão.

'Deus... É por isso que eu amo você.' E o sorriso safado no rosto da morena, o cabelo rebelde e incontrolável modelando o rosto, as mãos segurando firme em sua cintura, prometiam a Maura que ela teria exatamente o que desejava. Ela aproximou o rosto da loira, o suficiente para os lábios se roçarem, e então falou com a voz firme e autoritária. 'Eu vou pegar o strap-on.' A loira balançou a cabeça em sim, levemente. 'E você nem pense em gozar até que eu diga que você possa.' E as palavras soaram roucas e diretas no ouvido da médica. Uma onda de prazer percorreu suas costas e ela inclinou a cabeça ligeiramente para trás, antes mesmo de Jane pressionar seu centro. Uma arfada de ar escapou de seus pulmões.

Oh sim, ela adorava aquele jogo.

Jane traçou uma linha invisível de beijo do pescoço da loira, descendo entre os seios e abocanhando um deles. Maura arqueou as costas com o movimento abrupto. Ela entrelaçou os dedos no cabelo negro e segurou Jane contra seu corpo, e a cada sugada a loira sentia a umidade aumentar entre as pernas.

'Jane, você disse que ia pegar algo, se lembra?' Ela disse entre arfadas. A morena mordiscou o mamilo e soltou lentamente, em pura provocação, depois encontrou seu rosto com o dela.

'Por que a pressa, Maur? Achei que você tinha...' Mas a frase morreu no meio porque o celular começou a tocar. Jane franziu as sobrancelhas e Maura enroscou suas pernas na cintura da morena.

'Não. Não agora.'

Jane deu de ombros e sorriu maliciosamente. Ela poderia fazer Maura gozar em tão pouco tempo, se ela quisesse, mas Jane gostava da doce tortura... Ela gostava de...

Se ao menos o barulho do celular a deixasse em paz.

'Merda!' Ela resmungou quando inclinou o corpo para o lado para apanhar o aparelho. E se fosse importante? Ela precisava saber. Maura rolou os olhos em reprovação, mas esperou pacientemente pela mulher.

'Rizzoli.' A morena falou com a voz rouca. Ela lançou um olhar para Maura e a expressão de seu rosto passou de irritação para assombrada. Qualquer vestígio de luxúria tinha desaparecido e sido preenchido por tormento. A médica sabia que o que tinham planejado para o resto da manhã não iria mais acontecer.

Maura se apoiou nos cotovelos e correu os olhos pelo rosto da morena, preocupada. Algo tinha acontecido com Angela e Harriet? Ela sentiu o coração disparar. 'Jane?'

A detetive estendeu a mão num gesto de espera e balançava a cabeça enquanto anotava mentalmente cada palavra ouvida.

'Onde?' Ela perguntou. 'Ok. Eu vou... Ok. Obrigada.'

Quando ela desligou o celular e voltou a atenção para a loira, o peito subia e descia descompassadamente.

'Jane, o que aconteceu? Alguma coisa com Harriet? Angela?' Maura tinha se sentado na cama agora e estava segurando nos braços da morena.

'Eles encontraram... Encontraram ele, Maura.' As palavras saíram secas, arranhando a garganta da morena. Ela viu Maura se encolher um pouco enquanto a tensão se instalava em seu corpo. Jane suspirou e a colocou entre seus braços, um tanto quanto aliviada, um tanto quanto ansiosa. Se ao passo de que parecia ótimo terem finalmente pego o agressor da invasão, lembrar de tudo o que acontecera, ainda mais nesse momento em que tudo estava começando a finalmente se apagar, reabria as feridas. 'Você sabe que está a salvo.'

A cabeça da loira se mexeu levemente em seu ombro. 'É só que... E se a história se repetir, Jane? E se quando transferirem ele para a prisão o matarem? E se outra pessoa vir atrás de nós?'

Jane já havia considerado isso. Elas estavam com uma criança que deveria ser a mercadoria de alguém. A mercadoria... Ela franziu o cenho, irritada. Mas para eles, Harriet era apenas isso: uma transação de bens. E crianças eram vendidas por um alto valor, um valor que a pessoa por trás de tudo isso não recebido. A detetive sabia tão bem como perda de dinheiro deixava pessoas furiosas. Ela se perguntou até onde essa máfia iria, e se eles mandariam mais alguém atrás delas. Quem sabe conseguiriam alguma resposta agora que haviam capturado o homem? E se o medo de Maura se confirmasse? Afinal de contas a mãe da menina havia sido morta mesmo sob a proteção do programa de testemunhas.

'Maura, eu sei que Korsak e Frost vão fazer o que for possível para... para acabar logo com isso. Ok? Nós já pegamos dois deles, Maur. Eles estão perdendo números... quer dizer, quantos mais eles estão dispostos a perder?'

A loira deu de ombros. Como ela poderia saber? 'Você pode ligar para sua mãe e chamá-la de volta? Não gosto da idéia de Harriet... Não quero ela lá fora.'

Jane compreendia e compartilhava do sentimento. 'É claro, querida. E tem mais uma coisa...'

Os olhos verdes da loira se encontraram com o dela. 'O que é?'

'Você e Harriet precisavam identificá-lo. Nós temos que ir até a delegacia e...'

'Eu sei.' Ela disse e abaixou a cabeça, esfregando as mãos uma na outra num sinal de nervosismo.

'Eu vou estar com vocês o tempo todo. Ok?'

...

Harriet balançava a perna para frente e para trás, esperando ansiosa por Jane. Sentada na cadeira da detetive, ela não tinha muito o que fazer — a ponta do lápis arranhava a folha de papel em branco, aquela que ela supostamente deveria estar desenhando, mas sua atenção estava focada na conversa dos adultos ou, ao menos, no que ela estava tentando ouvir dela. O que não era muito.

A menina observava Jane gesticular e falar sobre algo com Frost e Korsak. Maura estava ao seu lado, esfregando as mãos no vestido a todo momento, como se quisesse alisar as dobras invisíveis dele. Os sussurros eram abafados pelo barulho ruidoso do transito, de telefones tocando na sala, detetives e policiais conversando ao redor. Derrotada pela incapacidade de ouvir qualquer coisa, ela abaixou os olhos e riscou linhas na folha.

Alguns passos de distância, Jane tentava negociar o que iria acontecer dentro de alguns minutos.

'Ela precisa mesmo fazer isso?' A detetive resmungou em voz baixa, se referindo à Harriet.

'Jane, você sabe que a confirmação dela ajuda na execução do caso. A de Maura já é suficiente, mas como o júri vai reagir quando souber que a própria criança o reconheceu? Você sabe como isso mexe com eles. Ele vai pegar uns bons anos.' Korsak disse.

A detetive não estava muito convencida, ela não queria expor Harriet de novo, entretanto ela não podia ignorar que o reconhecimento do invasor feito por duas pessoas distintas aumentavam as chances de condená-lo. 'Tudo bem. Mas eu entro com elas, e eu explico para ela o que vai acontecer.' Ela olhou para Maura em busca de apoio. A loira balançou a cabeça em sim.

'Certo.' Frost disse e logo depois Jane se virou para eles e andou até sua mesa.

A detetive segurou a criança em seus braços e depois se sentou na cadeira, colocando-a em seu colo. O olhar curioso de Harriet encontrou o dela. Aquela menina era tão nova e já tinha passado por tanta coisa... Jane queria levá-la embora dali e protegê-la, e que fosse para o inferno todo aquele caso, mas a detetive que existia nela não lhe deixava a razão faltar. Prazeroso ou não, ela não podia negar que Korsak tinha razão. Ela respirou fundo e tentou um sorriso para a menina.

'Ei, tartaruga. Eu vou precisar de sua ajuda agora, ok?'

'Tá bom.' Harriet parecia disposta a ajudá-la no que quer que fosse. Ela juntou os joelhos junto ao peito e abraçou as pernas mantendo o olhar fixo no da morena.

'Ok... Você se lembra...' Jane suspirou. Era difícil. 'Você se lembra do homem que entrou em casa e machucou sua mãe?'

Os olhos azuis escureceram e a menina ficou séria. 'É, eu me lembro.'

'Você acha que o reconheceria se o visse de novo?' Jane passou as mãos no corpo pequeno da menina, num instinto de proteção.

'Acho que sim.' E ela parecia incerta agora.

'Ok. Nós... Conseguimos pegá-lo, Harriet. Ele vai para a cadeia e ele nunca mais vai aparecer de novo.'

As sobrancelhas da menina se arquearam para ela e ela mordeu o lábio. Jane tomou o silêncio como um bom sinal e continuou falando.

'Mas nós precisamos que você o veja uma última vez. Ele não vai ver você, querida.' Ela se adiantou em dizer quando a menina pareceu assustada. 'Eu vou com você, e Maura também. Ele vai estar segurando uma plaquinha com um número e tudo o que você precisa fazer é dizer que número é. O que você acha?'

Ela pareceu ponderar por um minuto. 'E depois eu nunca mais vou vê-lo?'

'Nunca mais. Ele vai morar na prisão, e ninguém pode sair da prisão, garotinha. É impossível.' Jane sorriu para ela enquanto os olhos se estreitaram em pensamento.

Harriet olhou para trás, para Maura que parecia ansiosa e pálida até mesmo para a percepção dela, e depois voltou o olhar para Jane novamente. 'Ele nunca mais vai vir atrás de nós?'

'Nunca mais.'

'Acho que posso fazer isso.' Ela disse ainda parecendo insegura, mas querendo a todo custo colaborar com a morena.

Jane se levantou e a colocou num abraço apertado. 'Você é tão corajosa, tartaruguinha.' Ela esperou que a menina a soltasse e olhasse em seus olhos de novo. 'Eu cuido de você, ok? Nada de ruim vai acontecer. Eu prometo.' E ela deu um beijo na bochecha de Harriet.

Jane balançou a cabeça para os três e logo elas estavam sendo conduzida para a pequena sala de observação. O quarto era apertado e mal iluminado e a sensação de ser posta em um caixão deixava Maura ainda mais ansiosa. As persianas do outro lado do espelho de duas faces estava fechada e Korsak aguardou a confirmação de Jane.

Ela olhou para Maura que estava ao seu lado e a loira acenou com a cabeça. Jane apertou o braço em torno do corpo de Harriet e olhou para homem. Um maneio de cabeça e Korsak deu dois soquinhos no vidro. Alguém do outro lado da sala subiu as persianas. Jane passou os olhos em cada homem que estava lá, segurando uma placa numerada do número um ao quatro. Ela ainda estava estudando o segundo demoradamente quando Harriet arfou e se jogou contra seu peito, escondendo o rosto no seu pescoço e apertando os braços nela.

'Harriet?' Maura colocou a mão em suas costas, mas a menina não se movia.

'Eu achei.' Ela sussurrou, inegavelmente assustada.

'Tudo bem, querida. Lembra que ele não pode ver você? Ele também não pode te ouvir.' Jane ofereceu.

'Medo.' Num murmurio ela estendeu a mão para fora e fez o número quatro.

'Esse é o número que ele tá segurando, querida? O quatro?'

'Sim!'

'Maura?' Jane se virou para a loira que parecia tão desconfortável quanto a menina.

'É ele, Jane. Número quatro.'

'Korsak?' A morena chamou pelo mais velho.

'É isso.' Ele bateu mais duas vezes no vidro e as persianas voltaram a se fechar. Antes de sair da sala ele apertou de leve o ombro de Jane.

'Maura, você tá bem?' A detetive pousou uma mão nas costas da loira. Ela não parecia bem.

'Só... Vamos sair daqui?' O desconforto que sentia a deixava fraca. Estar mais uma vez no mesmo ambiente do que aquele homem trazia de volta medos que tinham sido enterrados, mas que agora voltavam do túmulo para assombrá-la. Um mau pressentimento agarrou sua pele e arrepiava os pelos do corpo, e ela não conseguia se livrar da sensação. Aquele homem iria ser preso, mas aquela questão não parava de rodar em sua mente: e se mandassem outra pessoa atrás delas? Isso não acontecia com pessoas que se envolviam com a máfia? Elas teriam alguma paz de agora em diante? A mão invisível do medo agarrou seu estômago e apertou sem piedade. Ela sabia que era um medo quase irracional, neurótico até, mas ela não conseguia se controlar.

'Maura, acabou.' A morena passou a mão na cintura dela e elas caminharam para fora da sala, e se Maura não tivesse se apoiado nela, ela teria dificuldades para se locomover. Ela sabia que Jane estava atormentada, e isso também a incomodava. O instinto de proteção estava em alerta total, e Maura sentia que além do cuidado adicional havia algo de mais ali; algo que Jane não estava contando.

A detetive puxou a cadeira para ela e ela se acomodou, e logo depois Harriet estava em seus braços. 'Tá tudo bem, garotinha.' Maura beijou sua cabeça e a abraçou, e Harriet encostou a cabeça em seu ombro e não disse mais nada.

'Eu sei que foi difícil. Me dê mais alguns minutos e eu peço para alguém levar vocês para casa.' A detetive disse enquanto acariciava o braço da loira em conforto.

Maura agarrou rapidamente o braço dela. 'O que você quer dizer com nos levar para casa? E você?'

'Eu quero interrogá-lo, Maura.' Ela disse naturalmente.

'Você não está mais no caso, Jane.'

A morena a cortou. 'Eu vou interrogá-lo, Maura. Vocês são minha família e Cavanaugh não pode me negar isso.' Ela disse com a teimosia de sempre.

'Ele pode, e você pode ser suspensa se — '

'Maura, eu preciso saber, ok? Eu preciso esclarecer algumas coisas. Tenho certeza de que Korsak — '

'Esclarecer que coisas? Existe algo que você não me contou?'

Bela escolha de palavras, Rizzoli. Ela correu a mão pelo cabelo revoltoso. 'Não, não tem nada.' Ela mentiu. Omitiu? Ela nem sabia dizer ao certo ainda. 'Eu juro. Você sabe de tudo o que eu sei.'

Maura não pareceu muito convencida, ainda mais porque mesmo que Jane não soubesse de algo novo, ela tinha certeza de que a morena tinha pelo menos algum novo palpite. 'Ok.' Ela disse em voz baixa, cansada e estressada demais para argumentar contra.

Jane apertou a mão da loira uma última vez e mordeu o lábio inferior em pensamento. 'Eu já volto. Vou conversar com Korsak e arrumar alguém para levar vocês.'

A detetive se virou e andou até os dois homens que estavam discutindo alguma coisa em voz baixa, encarando o quadro do caso que ela havia começado a montar. Agora a foto do homem que tinha acabado de ser identificado — Jordan Farris — estava colada ali. Ela estudou o quadro com cuidado, e quando Korsak se virou para ela e entrou em sua frente para esconder as informações, ela fez uma careta.

'Ah, qual é?'

'Você sabe que não tá mais...'

'Trabalhando nesse caso. Me diga algo novo.' Ela disse, emburrada. 'Korsak... Eu entendo os motivos, mas eu posso, por favor, interrogá-lo?' Ela tentou a versão educada, sabendo que as chances seriam maiores. Mesmo assim...

'Nem em sonho.' Frost respondeu. 'Eu não quero ter que impedir você de matar ele. Não. De jeito nenhum.'

Ela olhou para o parceiro sem nenhuma expressão no rosto, o que era ainda pior do que qualquer outra. Era como se ela estivesse dando uma segunda chance, fazendo de conta que não escutara corretamente a primeira resposta.

'Jane, não sou eu quem faço as regras. Você não pode interrogá-lo e...'

'Ele tava no mercado.' Ela falou tão baixo quanto pode. Os homens se viraram para ela e franziram a sobrancelha. 'Ele tava no mercado. Quando Harriet foi levada para casa do outro casal, Constance estava aqui. Nós fomos no mercado e ele falou comigo. Ele estava de olho o tempo todo em nós, e talvez tenha pensado que na época Harriet ainda estivesse com a gente. Ele poderia ter sequestrado ela lá, Korsak! De baixo dos meus olhos.'

Os dois homens pareciam entre duvidosos e assombrados.

'Ele tem uma tatuagem de dragão no braço. Uma tatuagem vermelha. Vocês podem checar.'

'Ele tem.' Frost deu de ombros, porque embora não fosse algo que elas tivessem conseguido ver da sala de observação, era algo que Frost tinha visto quando apreendeu o homem.

'Me deixa interrogá-lo, Korsak.' E ela estava implorando agora. 'É Maura, Harriet. Como eu devo protegê-las sendo que não sei direito do que isso se trata?'

O homem mais velho pareceu incerto, dividido entre a amizade que tinha por Jane e a obrigação do trabalho. Ele falou quando pareceu finalmente encontrar uma solução. 'Você pode assistir, Jane. É o máximo que posso fazer. O resto você confia a mim.'

Ela sorriu. Era melhor do que nada. 'Obrigada, Korsak.' Ela notou pelos cantos dos olhos que Frankie acabara de entrar na sala.

'Não faça eu me arrepender disso.' O velho advertiu.

'Eu não vou!' Ela disse enquanto se distanciava para se encontrar com seu irmão. 'Ei, Frankie!' Ela levantou a mão para chamar a atenção do mais novo.

'Jane?' Ele soou surpreso.

'Não. A fada madrinha.' Ela disse com sarcasmo.

Ele revirou os olhos e suspirou. 'Oh sim, eu senti tua falta também.'

A morena segurou o braço do irmão. 'Me faz um favor? Você pode levar Harriet e Maura para casa?' Ela apontou com o polegar atrás de suas costas, onde as duas ainda estavam sentadas, conversando sobre alguma coisa.

'Posso, claro.' Ele disse imediatamente.

'E... você pode ficar e se certificar de que elas estão bem?'

'Posso ficar durante... Uma hora? Depois preciso voltar para cá.'

'Sem problemas, é o suficiente.' Ela sorriu para o homem. 'É mais do que suficiente. Obrigada, Frankie.'

'Não por isso, Janie.'

Ela espremeu os olhos. 'Me chama de Janie mais uma vez e eu atiro em você.' Ela deu um soco no braço dele para provar seu ponto, mas riu logo depois quando se virou. Ela andou até Harriet e Maura e explicou que Frankie iria levá-las para acasa, e de quebra lhe fariam companhia durante um tempo. Harriet pareceu empolgada, sabendo desde que passara a morar com elas de que Frankie gosta tanto de jogar basquete quanto Jane. A menina se atirou no colo do tio enquanto tentava comprá-lo, sem saber que não precisava, para um jogo assim que chegassem em casa.

'Eu e você. Mamãe no outro time.' Porque parecia perfeitamente razoável para ela de que ela ficasse no time dos — com certeza — vencedores. Maura era péssima naquele esporte.

Jane riu mas não fez nenhum comentário, sabendo que a loira não estava em nenhum estado para provocações. 'Eu vejo vocês em casa, ok?'

'Okaaaay.' Harriet respondeu enquanto acenava do colo de Frankie.

A detetive se apressou e beijou a bochecha de Maura antes dela entrar no elevador, e acenou a cabeça num sinal de que tudo ficaria bem. Maura sorriu — o melhor que pôde — e as portas se fecharam.

Agitada, Jane se apressou para a sala de interrogatório. Antes de entrar, entretanto, ela parou por um minuto e respirou fundo. Ela não podia perder a cabeça. Ela não podia deixar se afetar pelo que quer que o sujeito dissesse. Ela sabia que as provocações viriam, e que ela iria ouvir coisas que a irritariam ou a machucariam. Ainda assim, era algo que ela precisava fazer. Ela virou a maçaneta da porta e entrou, tentando ignorar a presença do outro homem no quarto. Ela focou apenas em Korsak e Frost, até o momento que ela cruzou os braços, se encostou na parede, e com um olhar sério encontrou seus olhos com o do criminoso.

Ele estava sorrindo ironicamente. As mãos em cima da mesa davam a impressão de que ele estava se sentindo em casa, como se ela fosse a convidada. Jane não gostava daquilo, ela não gostava nenhum pouco. Algo dentro dela — a velha detetive Rizzoli — gritava que aquilo não acabaria bem.