Notas iniciais
O de hoje: leve. Vocês merecem! Aos novos leitores: bem-vindos! Prometo que vou responder a todos os comentários, ando meio sem tempo, mas quero agradecer mais uma vez pelas palavras de carinho, dicas e até mesmo as ameaças de morte! hahahaha Suas palavras são o que me fazem seguir em frente. Espero que vocês gostem dessa capítulo. Hoje me dei conta de que não faltam muitos para o final dessa história, e é realmente triste saber que daqui alguns, estaremos nos despedindo :( Mas calma! Tem algumas surpresas ainda =P Bom, é o suficiente por agora. Boa leitura!

A viagem de volta para casa tinha sido relativamente tranquila, ainda mais considerando o fato de que Harriet tinha dormido praticamente antes mesmo do carro deixar o estacionamento do hospital. Maura segurou a menina nos braços durante todo o percurso, e deslizava os dedos pela testa e cabelo da criança com carinho. Ela estava feliz, tranquila. Era quase inacreditável que em tão poucas horas elas estavam traçando o mesmo trajeto, passando pelas mesmas ruas, sentindo coisas tão diferentes de agora. Era, tecnicamente, o oposto. O oposto de tristeza, preocupação, agonia. Até mesmo o caminho era oposto. Elas estavam se afastando cada vez mais do hospital, e Maura pensou em como o mundo poderia ser engraçado as vezes. Hope tinha toda razão, ela não conseguia deixar de dar crédito para a mulher. Coisas boas e inesperadas acontecem, e porque não tirar proveito delas?

A menina respirou fundo em seu peito e apertou a mão na barra de sua blusa, como se conferindo de que Maura ainda estivesse ali. A loira acariciou suas costas e apoiou seu pescoço com a mão quando Jane virou a última esquina antes de chegar em casa.

Bastou apenas o movimento da mulher menor saindo do carro para despertar a menina. Primeiro ela só abriu os olhos e os piscou lentamente para a noite escura. Quando Maura fechou a porta do carro com o pé — Jane estava carregando todas as outras coisas — a menina ergueu a cabeça e apertou os braços em torno do pescoço dela. Não era como se Maura planejasse que ela dormisse por toda a noite, porque ela sabia que tão logo Angela e Constance vissem a menina, a conversa iria despertá-la de qualquer jeito.

O momento de preguiça durou apenas um minuto. Quando Jane abriu a porta, os olhos da garotinha se arregalaram ao ver Joe, e ela impulsivamente se inclinou para frente — quase caindo do colo de Maura — para receber as lambidas da cachorrinha na mão. E então ela se endireitou quando escutou a voz de Angela.

'Harriet?!' Ela levou a mão na boca e nenhuma das mulheres conseguia ler sua expressão.

Talvez elas devessem ter ligado antes e informar de que ela estava bem, recuperada e... de volta.

'Olha só quem voltou!' Jane abriu um sorriso, o tipo que poderia livrá-la de um problema, e apontou para a garotinha.

'Oh meu Deus!' A mulher mais velha finalmente se moveu para frente e esticou os braços, e quando Harriet estava segura em seu abraço ela encheu a menina de beijos. 'Eu senti sua falta!'

A menina riu com as carícias e apoiou as mãos nos ombros de Angela. 'Você sabe que eu tive uma aventura?' Ela disse empolgada.

'Não me diga! Quer me contar?' Angela riu.

'Eu não me lembro, na verdade.' Ela deu de ombros, parecendo menos animada agora. 'Acho que a Jane sabe melhor.' Ela apontou para a morena enquanto olhava Angela nos olhos.

A mulher mais velha afirmou com a cabeça e depois lançou um olhar significativo para Jane — um que a detetive preferiu ignorar por enquanto.

Ainda atenta demais às novidades que poderia encontrar, Harriet virou a cabeça quando sentiu uma outra presença se aproximar.

Todas as cabeças se viraram para Constance que estava agora próxima a elas, parada, olhando de Harriet para Maura, de Maura para Jane e de volta à Harriet.

'Mãe, essa é Harriet. A criança que te contei. Se lembra?' Maura disse enquanto caminhava, parando ao lado de Angela.

'É claro. Olá, Harriet.' Ela estendeu a mão para a menina.

'Harriet, essa é minha mãe.'

A menina desviou os olhos de Maura e estendeu a mão para Constance. 'Oi.' Ela apertou os olhos e de repente parou de falar. Maura imaginou que a presença de sua mãe tivesse causado algum tipo de timidez na menina, mas então...

'Você é artista, né?' Ela segurou a mão de Constance um pouco mais.

'Sim, eu sou.'

'Maur me contou. Você sabe desenhar?' Ela espremeu os olhos de novo, avaliando a mulher.

'Bem, eu... Eu sei.'

'Será que você desenha para eu pintar? Eu gosto de pokemóns.'

'Eu, ahn...' Ela olhou perdida para Maura que agora tinha uma mão no rosto obviamente escondendo a risada.

'Igual esse!' Ela puxou o capuz que engoliu metade de sua cabeça e apontou para ela mesma. 'Esse é o Squirtle. Conhece?'

'Eu temo que não.' Constance disse honestamente, quase se desculpando diante da empolgação da menina.

'Mas você sabe desenhar pokemóns?' Ela tentou de novo.

'Me parece um tanto...'

'Tudo bem se não souber. Eu também acho difícil. Eu gosto das coisas do mar, você sabe desenhar peixes e sereias e tartarugas?'

'Eu... eu posso tentar, se te agradar.' Ela ofereceu um sorriso sincero e esfregou as mãos na roupa — do mesmo jeito que Maura fazia quando estava nervosa, se sentindo julgada e tentando desesperadamente agradar alguém.

'Legal! Daí a gente pode pintar juntas.'

'Adorei sua idéia, vamos fazer isso amanhã, quem sabe?'

'Perfeito.' Ela jogou os ombros para cima, descontraída e se virou mais uma vez para Maura. 'Gostei da sua mãe.' Ela disse baixo como se fosse um segredo, arrancando risada das pessoas ao redor e parecendo desentendida por isso. 'Será que posso dar um oi pro Bass agora?'

'É claro, Harriet. Cuidado com os degraus.' Maura acenou com a cabeça para Angela e a mulher colocou a criança no chão que saiu correndo silenciosamente, procurando pelo cágado.

'Eu posso ver porquê você gosta dela.' Constance lançou um olhar admirado para Maura, e a loira sorriu timidamente. 'Inteligente, elétrica e extrovertida. Me lembra um pouco de quando você era criança, exceto pela parte de que você era introvertida.'

'Ela é uma ótima criança, Constance. Sabe como ganhar as pessoas.' Jane disse enquanto colocava a mão nas costas de Maura. 'E quanto à parte do elétrica... eu acho que ela não vai dormir essa noite.' A morena fez uma careta — de piedade — e olhou para a loira.

'Fique tranquila, Jane. Tão logo o nível de adrenalina abaixe, ela vai dormir rapidamente, do mesmo jeito que dormiu no carro. E dessa vez, provavelmente, pelo resto da noite.'

'Ufa!' Jane disse e Maura riu.

'E antes que isso aconteça... Vou dar um banho nela.'

Jane concordou e Maura pediu licença com um aceno de cabeça para as mulheres. A criança tinha passado o dia no hospital, e Deus sabe há quanto tempo ela já estava sem banho. Além disso, a água morna iria ajudar os músculos a relaxarem, fazendo consequentemente com que a menina relaxasse e dormisse logo. E elas precisavam desse descanso. Horas sentadas no hospital, mais todo a tensão do dia tinha deixado seus corpos doloridos, e uma noite de sono cairia muito bem.

Quando Maura sumiu de vista do corredor, Jane sentiu um tapa da mãe arder no braço.

'Que diabos?' Ela disse enquanto recolhia o braço e esfregava a pele.

'O que você tá pensando, Jane? Depois de tudo o que aconteceu? Vocês ficaram...' Angela respirou fundo, irritada. 'Vocês ficaram arrasadas quando essa menina foi embora. E Maura!'

'Mãe, eu e Maura, nós...'

'Você perdeu algum parafuso? Bateu a cabeça no chão hoje mais cedo, Jane?' Angela continuou não dando sequer uma oportunidade de defesa para a filha.

'Mãe, se você me deixar fal...'

'E quando levarem ela de novo? Já não foi o suficiente? O que você pretende fazer?'

'Nós vamos adotá-la!' Jane disse irritada, como uma criança que bate o pé no chão para ser escutada.

'Oh.' Angela e Constance disseram juntas e se entreolharam.

'Nós não discutimos muito sobre isso ainda, mas nós vamos adotá-la.' A detetive disse de uma vez, agora que a mãe tinha se calado.

'Oh, Jane! Eu finalmente vou ser avó!' Angela disse animada e a morena ergueu uma sobrancelha.

'O que você tem a dizer sobre TJ, mãe?'

A mulher, irritada novamente, deu outro tapa no braço dela. 'Você sabe o que eu quero dizer!'

'Jane, essa notícia é maravilhosa. Vocês devem estar muito felizes.' Constance sorriu e apertou o ombro dela.

'Bom... Era para Maura estar aqui contando isso junto comigo, mas eu não tive muita escolha.' Ela rolou os olhos quando Angela riu e bateu as mãos, empolgada demais.

'Harriet já sabe? Vocês já contaram para ela?' Constance perguntou em expectativa.

Jane lambeu os lábios e balançou a cabeça. 'Não. Não vai ser fácil... A única razão pela qual consegui trazer ela hoje foi por causa do caso. Nós vamos entrar em contato com o advogado amanhã cedo, mas ela fica com a gente até... Bem, nós precisamos nos legalizar pela guarda provisória dela, para depois oficializar a adoção.'

Angela abriu passou os braços em torno da morena. 'Vocês vão ser ótimas mães, Jane. Essa menina é bem sortuda.'

'Eu não sei... Se ela nos vê como mães. Quer dizer, ela acabou de perder a mãe dela e...' Ela deu de ombros. Harriet tinha acabado de perder a própria mãe, não era algo fácil de ser elaborado ou mesmo colocado de lado. Ter Jane e Maura não significa ter uma mãe nova — nesse caso, duas. Não era substituição, não era simples.

'Não seja boba, Jane. Ela pode não entender isso agora, mas futuramente ela vai amar vocês como as mães que serão.' Constance sorriu para a morena. Ela sabia melhor do que ninguém. Ela não pedira pelo bebê de anos atrás que entregaram em seus braços, uma pequena recém-nascida cheia de energia e exigente, mas a medida que o tempo foi se passando ela descobriu que amava a menina — que agora era uma mulher — mais do que poderia imaginar. E mesmo considerando todo o tempo que não tinha passado ao lado dela, Constance não conseguia imaginar como sua vida teria sido sem Maura. Ela amava a filha, e as falhas que cometera com ela não eram nada mais do que falhas, erros que qualquer mãe está sujeita a cometer. E Maura a amava de volta, Constance sabia pelo modo tímido que a loira confidenciava algumas coisas ou às vezes pedia por conselhos, como se se sentisse constrangida por depender, ainda que pouquíssimo, dela.

A morena sorriu para Constance e balançou levemente a cabeça concordando. 'Pode ser. Agora... Tem algo para comer nessa casa? Eu tô morrendo de fome.'

...

Ao contrário do que Maura esperava, Harriet estava mais desperta do que nunca. A médica enterrou a mão na cabeça quando em sua terceira tentativa de vestir a menina, a criança pulou para longe de seus braços pulando com toda vontade na cama e caindo sentada, apenas para se levantar e começar a pular de novo.

'Harriet, você precisa colocar uma roupa ou vai pegar um resfriado!' Ela alertou, mas nada adiantava. A garota continuava pulando e rindo, até que Maura curvou os ombros em derrota.

'Jane pode me vestir!' Ela anunciou, feliz. 'Ela pode?'

'Bem, você vai deixar ela te vestir?' Maura virou as palmas das mãos para cima, implorando por alguma coerência vinda da menina.

'Siiiiiiim!' E a demora no 'i' fez Maura rir e se distrair, dando oportunidade para Harriet se desviar novamente e pular fora da cama.

E sair correndo pela casa, pelada.

Maura tentou acompanhá-la, mas ela era rápida demais. Quando a loira alcançou os degraus da escada, Harriet já estava descendo na metade deles. 'Harriet! Cuidado com...' Ela sentiu o coração gelar quando a menina saltou os três últimos degraus com um único pulo, caindo com os pés e as mãos no chão. Tão logo ela se levantou, correu para a cozinha como se não fosse nada. A médica suspirou e escutou o grito de alegria da menina quando Jane que já estava sozinha na cozinha — Angela e Constance haviam se retirado para dormir — a ergueu nos braços, finalmente dominando o pequeno monstrinho em que ela havia se tornado.

'O que é isso?' Jane perguntou espantada ao ver a menina sem roupa.

'Você me coloca na sua blusa.' Ela riu quando Jane beijou sua barriga causando-lhe cócegas.

'Qual é? Maura tá tentando te colocar num vestido de festa?' Ela riu e ficou imediatamente séria quando encontrou o olhar de Maura aniquilando o dela. As mãos na cintura pareciam um gesto ameaçador e Jane achou melhor não provocar mais.

'Argh, eu não posso com vocês duas.' A loira disse, finalmente entregando a blusa para Jane vestir Harriet.

Jane colocou a menina em pé numa cadeira e a ajudou a se vestir. Menos de trinta segundos e ela estava pronta. Inquieta, Harriet pulou para o chão e correu até onde Maura estava, abraçou suas pernas e ergueu a cabeça para ela. 'Quer saber? Eu sentia tua falta.' Ela disse docemente arrancando um sorriso da loira. Como Maura podia permanecer irritada depois disso? A alegria e euforia da menina se dava por conta do regresso à casa e da companhia das duas mulheres, e dado essa razão Maura não podia ficar mais feliz. A mulher se abaixou e tomou Harriet nos braços num abraçado apertado, levantando-a do chão.

'Eu também, Harriet.' Maura pressionou seus lábios na bochecha macia da menina.

'Nós todos sentimos.' Jane disse se aproximando. Ela passou um braço nas costas de Maura e um em Harriet, abraçando as duas de uma vez.

'Eu vou ficar aqui para sempre?' A pergunta soava mais como uma certeza, mas ainda assim ela precisava da afirmação das mulheres.

Maura e Jane trocaram um olhar e depois sorriram para ela. 'O que você acha? Você gostaria?' Jane perguntou.

Ela balançou a cabeça veementemente em sim. 'Quero, quero sim.'

'Nós estamos trabalhando nisso.' Maura ofereceu.

'Se ela me levar de novo', e por 'ela' Harriet queria dizer Christine, a assistente social, 'será que posso levar vocês comigo?'

Maura riu, mas os olhos encheram de lágrimas. 'Harriet...' Ela tentou falar, mas a voz falhou.

'Ninguém vai tirar você da gente, Harriet. Me ouviu?' Jane apertou o abraço em torno das duas, e era uma promessa que ela estava fazendo para Maura, para a criança e para ela mesma. Existia a possibilidade de elas não conseguirem a guarda dela, Jane sabia. Era um risco que elas estavam correndo, mas valia a tentativa. E agora, mais do que nunca era definitivo: qualquer um que tentasse tirar a menina dali, ameaçando levar toda a felicidade que ela tinha trazido de volta em poucas horas, estaria em sérios apuros. Jane lutaria com tudo o que tinha, e também Maura o faria. De uma maneira geral, nenhuma delas via motivo para que o juiz não concordasse com a adoção. E é claro, elas tinham cartas na manga. Elas eram Rizzoli-Isles, e qualquer um conhecia Jane por seu heroísmo e Maura por sua influência e inteligência. E acrescentando mais uma Isles na lista, Constance era uma mulher extremamente bem conectada e poderosa. Elas tinham mais pontos em seu favor do que contra.

Harriet balançou a cabeça e passou um braço no pescoço de Jane. 'Posso dormir com vocês hoje?'

'Desde que você durma e não fique pulando na cama.' Maura respondeu antes de Jane.

'Combinado.' A menina abriu um sorriso sapeca e se remexeu no colo de Maura até que a loira a soltasse no chão novamente. 'Podemos assistir desenho?'

Jane suspirou. 'Apenas enquanto a gente tiver tomando banho, depois vamos todas dormir, ok?'

'Tá bom.' Ela correu para sala e pulou para cima do sofá.

'Nós temos muita coisa pra resolver amanhã.' Jane se virou para Maura e segurou sua cintura.

'De fato. Ligo para nosso advogado o mais cedo possível.'

'E eu saio para comprar algumas roupas, ela não tem nenhuma aqui.'

Maura sorriu para ela. 'Preparada para isso tudo?'

Jane riu. 'Pra ser honesta? Não. Mas aceito o desafio, e esse era um pelo qual eu tava esperando de qualquer jeito.' A morena roubou um beijo de Maura. 'Eu te convidaria para o banho, mas...' Ela inclinou a cabeça em direção de Harriet. Ela sentiu o tapa de Maura em seu quadril e riu.

'Você pode ir primeiro.' A loira disse, contente por estar adiando o banho junto à Jane por um motivo que a deixava também satisfeita. Harriet seria a filha delas. A garotinha delas. Na verdade ela já pertencia à elas, Maura e Jane não precisava de um papel para tornar o sentimento real: Harriet estava nos corações, na casa e no futuro delas.

...

'Gel colone sucata.' Jane ouviu Harriet dizer enquanto se aproximava das duas que estavam no sofá — Harriet sentada na barriga da Maura, que estava deitada. A risada de Maura lhe encheu os ouvidos e a de Harriet seguiu um pouco mais incerta, como se não tivesse certeza do que estava rindo.

'Geochelone sulcata.' Maura disse de novo, esperando que a garotinha repetisse certo dessa vez.

'Gel quelone sucata.' Maura riu ainda mais, e dessa vez Harriet levou a mão na boca e mordeu os dedos, rindo da risada da loira.

Jane não queria interromper a cena, desejando ser invisível apenas para presenciar a situação entre as duas, mas tão logo Harriet percebeu sua presença, ela levantou os braços e disse em voz alta,

'Jane! Gel quelone sucata!' E riu mais ainda, o tipo de risada que chacoalha o corpo e se perde o ar. Ela não tinha idéia do que estava dizendo, mas soava tão engraçado porque Maura ria, e ela ria, e se elas estavam rindo e se sentindo bem, Jane também podia participar.

A morena riu e caminha até elas, se sentando na beirada do sofá. 'Vejo que Maura já tá te ensinando grego.' Ela provocou.

'Não é grego. É o nome científico para cágado, Jane.' Ela disse se sentando e colocando Harriet no colo da morena para que pudesse se levantar do sofá.

'Oh, é mesmo, como pude me esquecer?' Ela perguntou em sarcasmo.

'Gel quelone sucata.' Harriet disse séria, como se estivesse ajudando-a se lembrar de algo óbvio. O que, claro, fez Jane rir mais, e Maura se curvou para plantar um beijo demorado na bochecha da menina, ainda entre risadas, antes de deixar a sala para sua vez no banho.

'Ok, tartaruga. O que você tá assistindo?' Jane se encostou no sofá e Harriet sentou-se ao seu lado.

'Nada. Tava só batendo papo.'

Batendo papo, onde Harriet tinha aprendido essas coisas? Jane riu. 'Ah, é claro. Vamos escolher algo então.' A morena pegou o controle remoto e começou a passar lentamente os canais. Cenas de filmes, seriados, jornais, apareciam e sumiam na tela conforme ela trocava de canal. Ela sentiu a cabeça de Harriet encostar no seu braço e observou enquanto os olhos da menina brilhavam em reflexo as imagens da tv e ela brincava distraidamente com os dedos. As bochechas rosadas despertava a urgência de abraçá-la, e a respiração pesada traía toda a aparente empolgação, entregando o estado de sono da menina. Jane se sobressaltou quando de repente Harriet levou as mãos nos olhos numa tentativa de bloquear a imagem da tv. A morena — que tinha parado de trocar de canal — voltou sua cabeça para a tela novamente, e viu cenas de um grande dragão atacando um aldeia, num filme antigo.

'Não! Sem monstros!' A menina quase implorou.

Jane imediatamente desligou a tv. 'Tá tudo bem, Harriet. É só um filme bobo.'

'Sem dragão! Medo!' Ela disse de novo, enquanto se encolhia no sofá.

Jane segurou sua cintura e puxou a menina para seu colo. 'Ei querida, dragões não existem. E mesmo se existissem, eu não deixaria nenhum te pegar, ok?'

'Eles machucam.' Ela resmungou enquanto apertava a cintura de Jane.

'Só em filmes... que são de mentirinha.' A detetive acariciou suas costas e esperou até que ela se acalmasse. Harriet estava cansada e os sinais do sono estavam aparecendo agora. Talvez se esperasse mais um pouco, ela começaria a chorar ou iria ficar mal-humorada e irritada por qualquer motivo insignificante. Resolvendo que agora era a melhor hora para levá-la para cama, garantindo à ela e Maura alguns minutos de calmaria até que Harriet finalmente dormisse, Jane colocou a menina no chão e se levantou.

'Ok, tartaruga. Hora de dormir.'

'Xixi.' A menina disse, segurando sua mão.

'Tudo bem. Vamos.'

Poucos minutos depois as duas estavam deitadas na cama, Jane estava deitada de barriga para cima e a garotinha estava com a cabeça apoiada em seu ombro, mordendo a ponta dos dedos enquanto os olhos piscavam pesadamente, encarando a porta do banheiro onde Maura estava.

'Harriet', Jane sussurrou, 'tudo bem dormir agora.' Ela começou a correr os dedos pela cabeça da menina.

'Maua.' Ela disse, a palavra saindo distorcida por causa dos dedos na boca.

'Ela logo vem. Amanhã vai ser um dia longo, querida, e você tá tão cansada.'

Harriet murmurou mais alguma coisa, ininteligível, e Jane sorriu ao ouvir o som infantil. Talvez ela devesse continuar falando com ela, talvez fosse o modo mais rápido de fazê-la dormir.

'Nós podemos passear no parque com a Joe, o que você acha? E tomar sorvete. Maura não pode saber, porque ela vai dizer que tá frio e que tem muito açúcar, mas quem se importa?'

A menina tirou a mão da boca e a descansou em seu peito. Jane segurou a pequena e fofa mão e deu um beijo na palma, devolvendo-a aonde tinha encontrado. A menina se remexeu em seus braços e inclinou levemente a cabeça para cima, como se interessada no que Jane estava dizendo, só que de olhos fechados. Os dedos que estavam na cabeça passaram a acariciar a bochecha e ela continuou falando.

'E nós podemos assistir desenhos, e se você quiser a gente pode jogar basquete. E já te falei que nós vamos comprar roupas amanhã? Eu e você. Só nós, porque se Maura for junto ela vai querer levar você em todas as lojas da cidade, e acredite Harriet, isso não é legal.'

A menina suspirou e mexeu a boca de um jeito sugestivo, como se estivesse tentando rir, mas sendo carregada pelo sono. Jane pressionou os lábios em sua testa.

'Provavelmente minha mãe vai querer passar um tempo com você, mas já te aviso: não dê muita trela.' Jane franziu o cenho. Trela? Você voltou no tempo, Rizzoli? Ela revirou os olhos e continuou. 'Você sabe, ela pode ser muito intrometida e ela nunca sabe guardar um segredo. Eu já vou te alertando.'

A menina suspirou mais uma vez e não se moveu. Ela era absolutamente fofa. O tipo de criança que era apontada pela beleza e desejada pela personalidade. Ela e Maura eram sortudas.

'Mas acho que ela tem toda razão de querer ficar perto de você. Quem não gostaria?' Ela beijou a testa da criança de novo, dessa vez mais demorado. 'Sorte minha Maura ser tão teimosa. Se não fosse por ela você jamais teria vindo parar aqui, e eu jamais descobriria o quanto posso gostar de uma tartaruga.' Ela riu baixo quando Harriet levantou as sobrancelhas, já perdida em seus sonhos. 'E eu tô falando de você, e não de Bass, só para ficar claro.'

Maura finalmente abriu a porta do banheiro e Jane levou o dedo indicador aos lábios para pedir por silêncio e depois indicou o dedo para a menina.

'Oh.' Maura murmurou, surpresa ao notar o quão rápido a menina tinha adormecido nos braços de sua mulher.

'Eu te ensino o truque.' Jane sorriu orgulhosa de si mesma e esticou a mão para Maura. 'Só falta você.'

A loira tomou sua mão e subiu na cama. 'Espero que seu truque não se desgaste e comece a falhar depois de um tempo.' Ela se inclinou para beijar a cabeça de Harriet e depois os lábios de Jane.

A morena fez um bico em pensamento. 'Melhor tirar proveito enquanto podemos?' Ela perguntou incerta. Elas não tinham passado muitas noites com a criança, e agora que Maura tinha mencionado ela se perguntou se elas perderiam noites de sono por causa da menina. Jane apostava que não, mas quem é que poderia dizer com certeza? De um jeito ou de outro, ela ainda escolheria passar noites em claro do que não ter a menina ali com elas. Ela esperou até que Maura se acomodasse na cama e passasse um braço em sua cintura — como sempre fazia — só que agora acolhendo Harriet também, para que ela passasse seu braço pelo da loira.

Agora sim, tudo estava certo. As três juntas, entrelaçadas umas nas outras, conectadas por amor, contentamento, paz e até mesmo sono. O mundo parecia estar girando corretamente agora, e a noite não parecia tão escura e assustadora como as anteriores. Jane abriu os olhos para Maura, que tinha os seus fechados e uma expressão serena no rosto. Ela sorriu e acariciou a bochecha da mulher com o polegar. Jane a amava, e vê-la finalmente em paz acalmava sua própria alma. Maura sorriu para ela e abriu os olhos que brilharam à meia luz — a luz da lua que banhava o quarto. Ela se inclinou para frente e beijou a morena, seus lábios se demorando nos dela, e depois se aninhou o mais perto que pôde sem sufocar a criança. Nenhum 'boa noite' foi preciso, era desnecessário palavras para afirmar o que estava no olhar.

Jane fechou os olhos e num último pensamento apenas agradeceu. Por Maura, por Harriet, por Morris, Evans e até mesmo Christine. Pelo dia que começara tão angustiante e terminara tão promissor. E pela noite que agora estava tão silenciosa, como se estivesse tomando partido e se aliando ao conforto que elas mereciam.

As tempestades haviam se passado, ela sabia. Agora ela receberia a calmaria seguinte de bom grado.