Sobre amor, amizade e confiança
12 Planos para um futuro não tão imediato
Notas iniciais
Eren estava sentado assistindo televisão com Armin e Mikasa. Uma vez na vida, ao menos, eles não tinham duas toneladas de dever de casa para terminar depois da escola. Tio Hannes estava fazendo o jantar, enquanto tia Hannes estava no computador trabalhando. Na primeira vez que Hannes fizera a comida, os três ficaram desconfiados de sua habilidade, mas no fim ele sabia cozinhar muito bem (embora a tia Hannes fosse melhor). “Ei, vocês pensavam que cozinha é lugar de mulher, não é? Lugar de mulher é aonde ela quiser, garotos. Armin, Eren. Se vocês quiserem ser bons maridos um dia, ajudem suas esposas. E Mikasa, não aceite um homem que ache que você tem obrigação de fazer tudo de tarefa doméstica, embora eu ache que você não aceitaria mesmo se eu não dissesse algo”, Hannes dissera.
“Nossa, amor”, tia Hannes rira, “você foi realmente fofo agora”.
“Eu sei”, ele dissera ao se levantar para trocar um beijo rápido nos lábios de sua esposa. Armin, Eren e Mikasa fizeram sons de desconforto, embora não estivessem realmente desconfortáveis na ocasião. Era quase como estar em família novamente.
Eren se lembrou da cena e sorriu. Mikasa o olhou com interrogação nas feições, mas Eren apenas deu com os ombros e ela voltou a assistir televisão. Era uma reprise de “The Office”, a versão americana, da época que ainda era boa. Os três riam, embora já conhecessem as piadas.
O episódio logo terminou e Armin desligou a televisão. Olhou para a cozinha, ansioso. Como se pudesse adivinhar, Hannes gritou: “O jantar ainda vai demorar mais um pouco!”
“Tudo bem!”, respondeu a tia Hannes, sorridente.
“Bem, pela primeira vez desde que a gente entrou no colégio a gente vai chegar no jantar com todos os deveres feitos”, Armin disse. “O que a gente faz então?”
“Morre de tédio?”, Mikasa sugeriu.
“Vocês já decidiram o que vão fazer na faculdade?”, Eren perguntou subitamente. “E para onde vão?”, adicionou. Aquilo havia o incomodado durante todo o dia, desde que ouviu Krista falando da faculdade da sua meia-irmã.
“Eu penso em fazer Engenharia Civil como o meu pai”, disse Armin. “Mas tem vezes que eu quero fazer algo diferente. Eu não faço ideia”.
“Eu ainda não sei”, Mikasa respondeu. Inclinou-se na direção de Eren antes de prosseguir. “E você? Já tem alguma ideia?”
“Eu acho que eu não tenho cabeça para seguir a profissão do meu pai, medicina. E nem da minha mãe, direito. Então eu também não faço ideia. Eu... só gostaria de uma coisa. Duas, na verdade”.
“O quê?”, Armin e Mikasa perguntaram quase juntos. O tom de Eren era quase sombrio.
“Bem, é meio embaraçoso”, ele disse. Então olhou para os lados, para checar se os Hannes estavam por perto. “Eu gostaria... que a gente... fosse pro mesmo lugar...”
“Oh, Eren”, disse Armin, genuinamente emocionado. “Depois de tudo que a gente passou... é claro que a gente não vai se separar”.
“Eu sei, mas essas coisas acontecem. Amigos viram conhecidos. Minha mãe só falava com a melhor amiga da infância dela aniversários e no Natal”.
“A minha também”, Mikasa admitiu.
“Eu nem sei quem eram os melhores amigos dos meus pais”, Armin disse, com uma nota melancólica. “Talvez eu devesse perguntar ao meu avô quando formos visitá-lo”.
“Bem, eu não quero que o mesmo aconteça com a gente”, Eren disse baixinho, quase infantilmente. Por mais coisa que ele tivesse passado, não passava disso – uma criança assustada. Os três eram crianças assustadas.
“Eu prometo que a gente não vai se separar”, Mikasa disse. “Eu promete que aonde você for, eu vou também. E você também, Armin”. Ela estendeu a mão.
“Eu também prometo”, Armin retrucou, colocando a mão por cima dela. Eren sorriu e se juntou aos três. Ali estava feita. A promessa.
Os três continuaram no sofá, esperando o jantar em quase silêncio. Cada um pensando no futuro, Eren imaginou. Foi Mikasa quem finalmente abriu a boca para falar: “qual a outra coisa?”
“Hã?”
“Você disse que eram duas coisas”.
“Ah, certo”, Eren coçou a cabeça. “Bem, eu não consigo parar de pensar nisso também. Faculdade é cara. Muito cara. E a gente vive de favor aqui no tio Hannes. A gente precisa arrumar um jeito de pagar a faculdade e pagá-los. Trabalhar, conseguir uma bolsa...”, ele hesitou. “Alguma coisa”, acrescentou frustrado.
“Eu também já pensei nisso”, Armin comentou. “Eu não posso deixar de me sentir culpado. É como se eu fosse um peso morto para eles”.
“Eu era um peso morto para vocês, Eren?”, Mikasa perguntou com uma voz frágil. Armin a olhou com os olhos arregalados. Eren não titubeou.
“Mikasa, claro que não!”, Eren disse, em um tom alto demais. Depois, abaixou sua voz e prosseguiu. “Pelo contrário, mas nosso caso era diferente. Você era, e é, da família. Eu sempre quis dizer que-”.
“Crianças, jantar”, disse Hannes, que se aproximara deles por trás. Eren e os outros se assustaram e olharam para trás. Ele não demonstrou ter ouvido algo, porém.
Ao se levantarem, Eren se aproximou de Mikasa e falou baixinho em seu ouvido: “você nunca foi um peso para a gente, tá? Papai e mamãe te amavam”, ele disse. Quase adicionou que ele a amava, que a amava de verdade. Mas se acovardou. Mikasa olhou para ele e sorriu, sincera. No caminho até a mesa, Eren foi com a mão no ombro da amiga. Tentou não pensar em como ela estava cheirosa naquele dia. Em vão.
Ao sentar-se à mesa, reparou que Armin lhe dera um sorriso enviesado. Sentiu suas bochechas ficarem vermelhas e deu um chute na canela do amigo, que disfarçou o gemido de dor com uma tosse. O jantar passou em quase silêncio, com a tia Hannes tentando iniciar uma conversa, sem frutos.
Ao fim da janta, após os três ajudarem a arrumar a mesa e lavar a louça, eles foram chamados pelo tio Hannes. “Ei, eu preciso passar no mercado daqui do fim da rua. Estamos sem... leite. E ovos. Sem leite e ovos. Vocês vão comigo”, ele disse. Não pediu para que eles fossem juntos, Eren notou, Hannes apenas informou.
“Tim, pode deixar o leite e os ovos para amanhã!”, tia Hannes ralhou. “Já é tarde”.
“Ei, não custa nada. Bem, não custa nada além do preço dos ovos e do leite”, ele disse. Porém, Eren percebeu que ele deu uma piscadela para a esposa. Eren olhou para Armin e Mikasa, mas eles estavam distraídos colocando suas jaquetas. Fazia frio naquela noite específica.
Os quatro saíram em silêncio. Antes de chegarem ao mercado, Armin quebrou o silêncio: “pode falar o que foi, tio Hannes. Eu sei que tem leite na geladeira”.
“Não, eu bebi tudo. Mas você está certo, eu quero falar algo com vocês”. Ele se agachou um pouco, ficando na altura de Eren, Mikasa e Armin. “Eu ouvi o que vocês estavam conversando, crianças”.
“Ma-”, Eren começou.
“Ah, garoto, deixa eu terminar”, ele interrompeu. “Eu fico muito emocionado que vocês tenham essa consideração por mim e pela Mercedez, mas vocês não precisam fazer isso. Você não sabe, Eren, mas seu pai já me ajudou bastante. Quando eu era mais novo, ele me ajudou a sair de um caminho ruim. Eu... bebia muito”, tio Hannes disse. Seu rosto mostrava dor e arrependimento.
“Eu, hã...”, Eren disse, incerto. Era estranho ver um adulto numa posição vulnerável.
“Bem, Grisha me ajudou a me focar mais nas coisas certas”, ele prosseguiu, sem nem notar que Eren tentou falar. “E depois ele salvou a vida da minha mulher. E consequentemente a minha. Ele nos ajudou quando descobrimos que Mercedez e eu não podíamos ter filhos. Carla foi muito boa com minha mulher. Eu e Mercedez devemos muito a eles. Seus pais foram padrinhos do meu casamento”.
Eren trocou o pé de apoio, desconfortável. Ele não sabia que eles não podiam ter filhos.
“Mikasa”, Hannes prosseguiu, “sua mãe nos apresentou assim que eu me mudei após terminar a faculdade. A mim e a Mercedez. Eu nunca agradeci a ela o suficiente. Ela e seu pai também foram padrinhos no meu casamento, sabiam? Seu pai até me emprestou a gravata depois do acidente bizarro com o triturador do lixo que... Bem, essa é uma história para outra ocasião”.
Eren e Mikasa se entreolharam, uma pergunta muda entre os dois. Nenhum deles sabia dessa informação. Quanta coisa eles não sabiam sobre os pais deles?
“Armin, eu só conheci seus pais depois, mas eles estavam lá no casamento. Eles faleceram um pouco antes de nós dois sabermos que não poderíamos...”, ele pausou por um instante, seus olhos formando lágrimas. “Eles estariam lá, sem dúvida. Os Arlert sempre nos convidavam para jantar...”, ele balbuciou.
“Tio Hannes, eu-”, Armin tentou conciliar.
“Bem, não interessa o que vocês pensam. Vocês não devem nada a nós. Pelo contrário. E sei que pensar no futuro é assustador, mas vocês não precisam se preocupar. Vocês acham mesmo que os pais de vocês iam lhes deixar sem nada? Vocês três possuem dinheiro guardado para quando ficarem mais velhos. Podem usar para o que quiserem: faculdade, moradia, para viajar... Enfim. Eu talvez devesse ter falado disso antes, olhando em retrospecto. Foi mal. Mas vocês não precisam se preocupar com essas coisas... ainda”. Ele hesitou por um segundo. “E mesmo se não tivessem dinheiro, eu e Mercedez tentaríamos ajudar vocês três. De algum jeito, sem dúvidas”.
Eren se precipitou em dar um abraço nele, pegando-o desprevenido. Armin e Mikasa seguiram seu exemplo logo depois. E assim os quatro ficaram por um tempo. Chorando, abraçados, em frente ao mercado.
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