Sobre amor, amizade e confiança
1 Apresentações
Notas iniciais
Três adolescentes estavam em pé, diante de sua nova turma. Atrás deles, a coordenadora pedagogia com um sorriso simpático conversava baixinho com o professor Levi, até que ela lhe deu um papel e ele fez um gesto com a cabeça para os três. Petra, então, se virou para a turma:
“Pessoal, estes são os novos alunos que vocês terão nesse ano, espero que vocês os recebam bem e os ajudem com a adaptação”, ela disse. Dos colegas de turma, Annie notou, ninguém parecia dar atenção especial aos três. Ninguém geralmente dá. Ela, no entanto, estudou os novos colegas. Era sempre um hábito de Annie ao conhecer uma pessoa nova – olhar para o seu rosto intensamente, a procura de algo que ela nem sequer saberia dizer o que era. Como se pudesse descobrir algo da personalidade deles com um simples olhar.
O primeiro rapaz, à esquerda, era um garoto loiro e que parecia tímido. A garota na outra ponta parecia levemente oriental e tinha uma expressão neutra, quase entediada. O do meio, no entanto, de cabelos negros e olhos verdes expressivos, olhava para a turma como em desafio. Não era preciso ter um estudo em psicologia para saber que ele exercia algum tipo de liderança entre os três.
“Estes são Armin”, (ela fez um sinal ao rapaz loiro, que sorriu nervosamente), “Eren”, (ele apenas manteve o olhar, escaneando toda a turma), “e Mikasa” (a garota, Annie percebera, também observa todos, mas discretamente). “Por favor, podem se sentar. Qualquer dúvida ou dificuldade, só falar comigo na minha sala”, ela sorriu e depois se virou para Levi: “E Levi, eles ainda não tem os livros ou material algum além dos cadernos, algum problema?”
“Não, eu empresto algum dos meus”, ele disse, levantando-se e indo em direção ao armário. Não havia lugar para os três ficarem juntos e eles tiveram uma rápida troca de olhar. Eren deu com os ombros e foi o primeiro a se sentar, justamente no lugar em frente à Annie. Mikasa se sentou na primeira cadeira, em frente a Jean. Armin se sentou do outro lado, atrás de Connie e Sasha.
“Muito bem, muito bem”, disse Levi, com Petra já saindo da sala. “Eren, Armin... e Mikasa”, ele disse, enquanto entregavam os livros. “Vocês vão devolvê-los depois sem nenhuma rasura, dobra ou rasgo. Nem a lápis, entendido? O material daqui é sagrado”.
“Certo”, disse Armin, baixinho. Eren e Mikasa apenas acenaram com a cabeça. Levi, então, retornou ao seu posto em frente a turma e começou a dizer:
“Muito bem, aos que não me conhecem, meu nome é Levi Ackerman...”, ele deu uma breve pausa, “e eu sou o professor de Literatura de vocês. As coisas que vocês têm que saber sobre mim são: primeiro, eu gosto de uma sala limpa e organizada, então nada de puxar carteira para conversar com o colega do lado, exceto se eu autorizar previamente. E nada de comer biscoito em sala ou fazer guerrinha de papel. Segundo, eu gosto de me considerar um professor que cobra bastante e os que foram meus ex-alunos daqui sabem disso. Terceiro, eu acho que ler é fundamental, então por isso a meta deste ano será dois livros por mês, com um redação para cada livro que debata os pontos que eu colocar no quadro previamente. Quarto, o livro que vocês tem em mãos é o primeiro livro que vocês irão ler”.
Annie olhou para o seu livro, por puro reflexo. ‘Um Conto de Duas Cidades’, de Charles Dickens. Ouviu alguns alunos resmungando baixinho.
“Sim, eu sei, que maravilha de livro para começar”, ele disse, fingindo não ouvir as reclamações. “Alguns alunos”, ele olhou para Marco Bott rapidamente, “podem ter notado que não estou seguindo exatamente o cronograma. Bem, aqui nesta classe eu sou o cronograma, entenderam?”
Ele então procedeu para o quadro, onde escreveu rapidamente diversas coisas. Ao se virar, percebeu a mão de Mina Carolina levantada. Apenas fez um sinal para que ela falasse:
“É para copiar, professor?”
“Bem, eu vou discutir estes temas aqui, então sugiro que copiem e façam notas do que acharem válido do que for dito em sala de aula”. Vários alunos pegaram seus cadernos, inclusive Annie. Ela nunca tivera aula com Levi, mas sabia que ele não era do tipo que você poderia empurrar com a barriga e passar mesmo assim. “Bem, alguém aqui já leu algum livro do Charles Dickens?” Várias mãos se levantaram. Annie, que já lera ‘Um Conto de Natal’, foi uma delas. “Muito bem”, ele sorriu. “E quem já leu este livro em particular?”, perguntou. Todas as mãos se abaixaram, exceto uma. Armin, o garoto novo, permaneceu com a mão estendida. Levi sorriu discretamente.
“O que achou do livro... Armin Arlert, certo?”
“B-bem, é uma ficção histórica e--”
“Não”, Levi cortou. “Não quero que você classifique o livro, senhor Arlert, não quero que você diga algo decorado de um rodapé. Quero que você me diga o que achou?”
“Bem, eu...”, Armin pensou um pouco, com as bochechas vermelhas. “Eu fiquei em dúvida, professor. Algumas partes me pareciam progressistas, mas outras me pareciam... elitistas”.
“Elitistas?”, ele perguntou com certa surpresa. “Por quê?”
“Bem, ele parece achar que apenas a aristocracia tem poder de decisão e que as classes mais pobres dependem apenas dela para agir”, Armin disse.
“Bem, esse é um ponto interessante e que espero rediscutir no fim da aula, mas era justamente onde eu queria chegar nessa aula de hoje: luta de classes”, ele disse. Então, virou-se para o quadro e começou a escrever diversas coisas, enquanto os alunos prosseguiram a copiar rapidamente.
A aula se passou rápido. Levi gostava de cobrar, mas também mantinha a atenção da turma presa em si. O que era um feito e tanto, visto que era a primeira aula do primeiro dia do ano letivo. Ele fazia que todos discutissem e participassem. Ao fim da aula, eles sequer haviam começado a ler o livro, mas pareciam que já haviam o discutido completamente.
Depois de Levi eles foram até a sala de biologia, que Annie soltou um suspiro conformado ao perceber que teriam aula com a excêntrica professora Hange Zoë. Ela mandou todo mundo sentar em trios, então Annie se juntou com Bertolt e Reiner como sempre. Percebeu que os três alunos novos sentaram juntos. Observou os três conversando. Eren realmente parecia ser o líder, tinha um jeito confiante e intenso de falar. Armin era tímido, mas gentil. Mikasa era fria e calma. Annie se percebeu incomodada com ela e, mesmo sem trocar uma palavra com a garota, já sentia não simpatizar com ela.
“O que foi?”, perguntou Bertolt, ao perceber o olhar perdido dela.
“Nada”, ela disse.
“Você estava encarando os novatos”, disse Reiner. “O que achou da garota nova, Bert?”
“Eu, hã...”, Bertolt pareceu desconfortável. “Eu nem sei”.
“Bonitinha, né?”, Reiner não pareceu ouvir o amigo. “Meio tímida. Talvez depois devêssemos chamá-los para almoçar na nossa mesa, não? O que acha, Annie?”
“Tanto faz”, Annie disse, olhando rapidamente para os três.
“É duro ser de escola nova”, ele disse distraidamente. Annie refletiu por um momento. Um ano antes, ela esteve na mesma situação que eles, só que na aula de História de Ilse Langnar. Até hoje Annie não era exatamente entrosada com o resto dos alunos. Reiner e Bertolt eram seus colegas mais próximos, até por serem vizinhos, enquanto o resto ela no máximo trocava cumprimentos e ocasionalmente fazia trabalhos juntos. A loira se sentiu um pouco triste com o pensamento – nunca fora boa em fazer amigos. Bertolt também era assim, ela sabia. Fora ela e Reiner, Annie achava que ele não falava com ninguém. Reiner, porém, era o mais extrovertido dos três com larga margem. Ainda assim, preferia andar com os dois.
Parecia que Bertolt diria alguma coisa, mas foi interrompido pela chegada de Hange, que assustou metade da turma. “OLHA SÓ O QUE NÓS TEMOS AQUI! MINHA NOVA TURMA, QUE BELEZA, QUE BELEZA! ESPERO QUE A GENTE SE DÊ MUITO BEM!”, ela disse com grande entusiasmo. Então, abaixou a voz para quase um sussurro. “Aqui nós conheceremos o maravilhoso mundo das ciências biológicas”. Então, ela fez uma cara assustadora. “Preparem vossas almas, porque seus corpos agora me pertencem!”. Ela pausou por uns segundos, enquanto alguns alunos arfaram sobressaltados. Então ela escangalhou de rir. “Eu só estou brincando, paspalhos. Vocês acham que sou quem? Keith? Levi? Não, não. Vamos nos divertir bastante aqui. Se vocês estudarem com firmeza e demonstrarem gosto por Biologia, não terão problemas”.
Annie revirou os olhos.
“Só tem maluco aqui nesse colégio?”, ela ouviu Eren perguntar a Mikasa. Esta respondeu algo no ouvido de Eren, mas Annie não pode ouvir. Eren, porém, riu. Annie só pensou em como ele ainda mal podia esperar para ver.
Depois disso, almoço. Reiner não seguiu com a ideia de chamar os três para almoçar juntos, de modo que eles sentaram sozinhos. “Então, Levi e Hange nas segundas de manhã? O que acham?”, o rapaz perguntou.
“Poderia ser pior”, Bertolt disse. “Pelo menos as aulas deles certamente serão interessantes. Já imaginou se fossem Kitz, Rico ou Dennis?”
“Ainda podemos ter aula com os três”, Annie observou.
“Temos Geografia ainda hoje”, Reiner disse ao terminar de mastigar. “Vamos torcer para que seja o Mitabi e não o Dennis”.
“Qualquer um menos o Dennis”, Bertolt concordou.
“E Educação Física aos sábados”, Reiner prosseguiu, ávido para manter uma conversa. “Com a nossa sorte, certo que vai ser o Shadis”.
“Eu gostaria de poder entrar em algum time só para evitar ele”, Bertolt admitiu.
“Com essa altura, os times de vôlei e basquete te aceitam sem problemas”, Reiner disse. Bertolt era o mais alto do ano, embora o próprio Reiner fosse bem alto também. Devido uma regra imposta pela prefeitura havia cinco anos, agora havia uma idade mínima para se entrar em times esportivos. A ideia era cortar gastos – a cidade estava com problemas financeiros sérios na última década.
“Ei, eu vou ali falar com o Connie rapidinho”, disse Reiner. “Vocês vêm?”
“Eu passo”, Annie disse. Bertolt apenas fez sinal com a cabeça de negativo. A loira percebeu que Reiner fez algum gesto para o amigo, mas quando o olhou, ele já estava de costas. Bert parecia nervoso e o resto do almoço passou em quase silêncio.
Depois, aula de saúde com o competente Ian Dietrich, que apenas se apresentou e passou exercícios de revisão para serem entregues no final da aula. Depois tiveram sociologia com Eld Jinn, que já fora professor de Annie. Ele apenas falou um pouco sobre o cronograma e as avaliações, antes de mandar os alunos lerem uma parte do capítulo do livro e discutir brevemente no final da aula seu conteúdo.
No fim, Dennis Eibringer deu o último tempo de Geografia, para lamento de quem o conhecia. Dennis parece divertido no começo, mas depois se descobre que ele é extremamente desinteressado e que pouco ajuda o aluno. De fato, ele apenas se apresentou e pediu para os alunos lerem um capítulo do livro e ficou jogando no celular. Ian e Eld, em contrapartida, ficaram toda hora andando pela sala, conferindo se todos estavam fazendo a tarefa e tirando dúvidas. Já Dennis... apenas não se importou.
Na saída, Annie seguiu para o ônibus com Reiner e Bertolt. Os dois falavam mal de Dennis, mas Annie seguiu em silêncio. Ela ia distraída de tal modo que quase esbarrou nos dois ao não notar que eles haviam parado.
“Ei, novatos”, chamou Reiner. Annie olhou para Reiner, um pouco desconfortável. Debateu-se se deveria ir para o ônibus logo ou esperá-lo, mas por fim cruzou os braços e se recostou no armário. Bertolt ficou ao lado do amigo, após olhar com o canto de olho para Annie. “Ei, vocês querem ajuda para chegar no ônibus?”
Só então que os três olharam. Eles estudaram o rosto de Reiner por um breve instante. Armin foi quem falou: “Hã, obrigado, mas hoje a gente tem carona. Mas, ei, valeu. Meu nome é Armin, aliás”, ele estendeu a mão ao se aproximar.
“Reiner”, o outro a apertou. “Estes são Annie e Bertolt”, ele apontou, antes de apertar a mão do outro rapaz e da hesitante garota.
“Meu nome é Eren e esta é minha...”, ele hesitou. “Esta é Mikasa”, ele concluiu.
“Prazer” foi apenas o que Mikasa disse.
“Então, vocês são novos, certo? O que acharam daqui e dos professores?”
“Aqui é maior que qualquer colégio que eu já estudei”, disse Armin, fascinado. “Os professores parecem ser bons, mas ainda não deu para ver muita coisa”.
“Aquela Hange parece não bater muito bem”, Eren falou subitamente.
“Eu não poderia descrever a biruta melhor”, concordou Reiner, rindo abertamente. Bertolt também riu, surpreendentemente, e Annie deu um leve sorriso. Uma visão rara, Annie sorrir e Bertolt rir.
“Ela é meio excêntrica, mas é uma boa professora”, Bertolt finalmente falou.
“Bem, nós estávamos conversando aqui e estávamos pensando em chamá-los para sentar com a gente no almoço”, Reiner disse. Annie notou que Bertolt rapidamente ficou rígido, tímido. “Se vocês quiserem, claro. Nós sabemos que é meio estranho ser aluno novo, ainda mais quando se é da nossa idade”.
“Ei, valeu, cara”, Armin agradeceu. “Obrigado mesmo”.
“Eren, já está quase na hora...”, Mikasa disse baixinho. Eren tirou o celular do bolso e o inspecionou rapidamente.
“Temos que ir, Armin”, ele disse ao amigo. Depois, se virou para os outros três: “Então a gente se vê amanhã... Reiner, né?”
“Até mais”, Reiner disse, fazendo sinal de joia com a mão. Bertolt e Annie acenaram brevemente com a cabeça, assim como Mikasa. Armin deu um curto aceno com a mão. Os três novatos saíram quase correndo em direção ao fim do corredor lateral.
“Ei, porque você fez isso, Reiner?”, Bertolt perguntou.
“Fiz o quê?”
“Chamar os três para almoçar”.
“Tem algum problema?”, ele olhou surpreso para os amigos.
“Não, é só que...”, Bertolt coçou a cabeça. “Eu não esperava”.
“Bem, a gente falou mais cedo sobre almoçar com eles, mas eu acabei esquecendo. Achei que não fazia mal nenhum, afinal eles são novos e querem se enturmar. Que mal tem?”
“É, você tem razão”, disse Bertolt, depois de pensar por um instante.
“E eles parecem ser gente boa”, Reiner disse como se encerrasse o assunto;
“Vocês notaram que eles foram em direção à sala de professores?”, Annie falou baixinho.
“Disse alguma coisa, Annie?”
“Deixa para lá”, a garota deu com os ombros.
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