Eu sinto sua falta.

Não como antes. Eu não lembro mais de você quando olho meu remédio para anemia, guardado num canto do meu guarda roupa, mesmo que você sempre implicasse comigo para comer direito. Não lembro de você toda vez que olho minha pasta de jogos, aqueles dois que nós decidimos comprar juntos. Não lembro quando calço meu tênis que seu gato colocou uma barata dentro daquela vez, e nem quando olho para a cortina da sala, que você instalou para mim.

Mas ainda sinto sua falta.

Acontece nos momentos mais inesperados. Uma vez, antes de dormir, senti falta de você me falando “boa noite momo”. Uma vez eu estava indo pegar minha bicicleta no estacionamento e senti falta de como confiava em você a ponto de te dar minhas chaves. Uma vez senti falta de te esperar antes da faculdade naqueles bancos da entrada. Várias vezes senti a falta de ter você do meu lado nos fins de semana, deitado comigo na cama, fazendo nada. Eu sempre fui do tipo de pessoa que, quando vai encontrar alguém, arma um plano de fazer algo com aquele tempo. Nunca imaginei que iria gostar tanto de apenas ficar deitada ao lado de alguém.

Você me ensinou tantas coisas – muitas boas, muitas ruins. Você e eu aguentamos várias coisas juntos, passamos por tanto, que ás vezes ainda é estranho saber que não existe mais um “nós”, e que ele nunca mais vai existir. Eu lutei contra isso no começo, tanto. Desde que ficamos juntos, desde antes disso, eu sempre ouvi aquela vozinha que dizia que nós não daríamos certo. Que não éramos algo para durar, que haviam coisas demais entre nós, e apesar de te amar, eu ainda tinha dúvidas sobre nosso relacionamento, eu ainda acreditava nessa voz. Nos últimos meses, no entanto, ela sumiu, substituída por outra que dizia que nós havíamos vencido, que conquistamos o direito de ficar juntos. Eu nunca tive tanta certeza de que te amava quanto nos últimos meses. Nunca fiz tantos planos para o futuro. E então, quando eu mais acreditava no “nós”, tudo acabou.

Eu apenas não podia aceitar que o momento em que eu finalmente me entreguei seria o momento em que eu te perderia. Apesar de tudo, eu queria tentar, eu queria que desse certo.

Não deu.

Pensei muito sobre como toda a nossa história se desenrolou, em como tudo interferiu a ponto de chega onde chegamos. E percebi o quanto eu fui imatura. O quanto, apesar de eu ter te dado outra chance, eu nunca realmente te perdoei até ser tarde demais. O quanto eu sempre te culpei e descontei em você da pior forma possível tudo que me magoou. O quanto eu não soube me decidir – não queria ficar longe de você, não aguentava ficar perto de você. O quanto isso nos atrapalhou. E depois do nosso maior problema, o quanto eu pude ser ambígua.

Como eu podia gostar tanto de uma pessoa e ainda assim ter tanta raiva dela? Como eu podia querer vê-lo sofrer pelo que fez e ainda assim me sentir tão mal por como você ficava? Eu ainda não entendo essas perguntas. Não entendo como eu pude continuar, o que eu esperava agindo daquele jeito, o quanto eu era imatura para lidar com aquela situação e, possivelmente, ainda sou. Mas agora, acho que te perdoei, pelo menos. A mágoa está aqui, mas também a certeza de que o que você fez, não fez por mal. Você nunca quis realmente me machucar. Mas nunca sabemos o que vai machucar o outro.

Comecei a fantasiar sobre voltar ao passado, contar a mim mesma todos os meus erros, dizer para muda-los, para tentar fazer as coisas serem diferentes. Idiota, mas eu o amava. E apesar de todas as dúvidas que sempre tive, se talvez eu o tivesse realmente perdoado desde o início, percebesse que a dúvida sempre foi mágoa.

Só recentemente eu me peguei pensando... Isso mudaria algo?

O problema nunca foi só eu. Um relacionamento nunca é algo de mão única, e eu estive errada tantas vezes, mas você também. De que adiantaria eu te perdoar, se você nunca se perdoou? De que adiantaria tentar ser mais compreensiva, quando você errou tantas vezes? No início, eu sempre te culpei. No fim, eu sempre me culpei. Mas agora eu finalmente percebi que o problema não era eu, nem você, o problema foi o “nós”. Eu era inexperiente demais para lidar com seus problemas, você estava pesado demais para conseguir lidar com os meus, e ambos somos pessoas maravilhosas, apenas não... Juntas.

Você foi uma pessoa ruim comigo várias vezes, assim como eu fui com você. Mas isso não nos torna pessoas ruins. Apenas fomos pessoas que não deram certo juntas, e depois de tanto tempo, eu me sinto aliviada por não ter ninguém a quem culpar.

Não tenho mais raiva de você, como tive um dia. Você foi um babaca ás vezes, mas você não é um babaca. E eu também fui idiota com você, mas sei que você não me acha idiota.

Eu sinto muito por várias coisas... Queria ter ficado mais próxima da sua família do que fiquei. Queria ter conhecido seu sobrinho, que eu achei que seria meu também. Queria ter sido mais paciente, ter escolhido as brigas certas, ter dito “sim” no lugar dos “não” e “não” no lugar dos “sim”. Queria ter sequestrado seu gato, eu sinto tanta saudade dele. Mas eu sei que você me perdoa, assim como te perdoo. E espero que ambos sejamos felizes – mesmo sem o “nós”.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!