Notas iniciais
Dois dias e meio depois da triste decisão

Antes de entrar no quarto dela respiro fundo várias vezes. Tento esquecer a cara do babaca lá fora e a expressão horrorizada da mãe de Hillary, quero só ver como ela vai ficar quando souber da verdade.

A enfermeira diz que já posso entrar e uma sensação de culpa me inunda.

Se eu estivesse aqui Hillary não teria feito aquilo.

Se eu tivesse desistido da chata viagem teria respondido as mensagens dela.

Se eu tivesse contado alguma piada, talvez, seu corpo ainda estivesse intacto.

Se.

E quando a vejo me sinto forçado a dar meia volta e ir embora. Odeio formalidades mas agora sinto que precisamos ser sinceros e falar verdades.

E apenas peço desculpas.

***

— O quê? _ ela diz e sua voz parece mais grossa que o normal.

A expressão de desentendida dela me confunde.

— Me desculpa por...

— Não. Não. Não quero ouvir isso. Por favor Luiz. Já estou cansada disso.

— Mas eu pensei que...

— Tá. Tudo bem. Esquece. Será que a gente pode fingir que nada disso aconteceu? Que não estamos aqui de verdade e... sei lá, podemos?

Suspiro.

Mundos aleatórios? É comigo mesmo.

— Claro que podemos. Sobre tudo?

— E sobre nada.

Puxo uma cadeira e me sento ao lado de sua cama e iniciamos uma conversa de velhos amigos que a muito tempo não se viam.