Sobre Reis e Peões
4 Turmalina
Notas iniciais
Muita coisa havia mudado para Hilbert desde o incidente em Nimbasa. Mais especificamente depois de ter desmaiado no meio da praça, após o uso excessivo de Névoa dos Sonhos. Para sua sorte, ninguém pareceu dar muita atenção a ele; poderia ter sua licença cassada caso alguma autoridade tivesse percebido o que ocorrera.
Sua crise de consciência, contudo, fez com que ele se tornasse uma nova pessoa. Começou a se dedicar mais aos treinamentos, colocando como meta pessoal derrotar Cheren em uma batalha. Hakun e Loony aprovaram a mudança; eles pareciam sentir que o treinador passara um período distante de si mesmo.
Tal confiança adquirida por Hilbert fez com que ele decidisse expandir sua equipe; a quantidade de companheiros de viagem havia dobrado em um único dia. A presença de Audino entre seus Pokémon parecia neutralizar seus pensamentos negativos, coisa que vinha evitando de fazer com Loony. O medo de ter uma recaída era real, de modo que Hilbert passou a incentivar que ele se alimentasse dos sonhos de Pokémon selvagens até que ele se sentisse novamente preparado, ao que o Munna concordou ao entender os motivos. Além dele, o Emolga que fora capturado enquanto se contorcia ao ser atacado por Loony havia se juntado a eles. Era meio retraído com o resto da equipe, à exceção de Audino, o qual parecia ter uma incomum intimidade com este.
Devido a isso, decidiu batizar a dupla com nomes bastante sugestivos; Nuts e Volts, respectivamente.
Os resultados dessa nova etapa da jornada de Hilbert eram visíveis. Hakun evoluíra, tomando uma forma mais imponente como Pignite. Os resultados nos ginásios também eram visíveis pela quantidade de insígnias, provas de capacidade dadas pelos líderes. Hilbert não se lembrava de como havia conseguido a insígnia em Nacrene após ter perdido a batalha contra Lenora; talvez fosse por pena. Não chegou a batalhar contra Burgh, o líder de ginásio de Castelia, mas recebeu a insígnia pela sua coragem em ajudar a resgatar o Snivy de Bianca que havia sido roubado. Hilbert não conseguia mais se sentir confortável com situações como essas.
A compensação veio nos dois ginásios seguintes. Depois de duas memoráveis batalhas contra Elesa e Clay, o treinador reconquistara sua autoconfiança. E mais do que isso; carregava agora cinco insígnias em seu estojo. Hilbert não tinha muita vontade de competir pelo título de campeão da liga, ao contrário de Cheren; estava disputando pelas insígnias apenas como rivalidade a seu colega, o qual não encontrava desde a frustrante batalha no deserto. Este, porém, tinha como único objetivo a fama e o poder que conquistaria caso se tornasse campeão, ainda que o atual ocupante do cargo não houvesse sido derrotado em mais de uma década.
Apesar de ter se acostumado com a solidão, Hilbert não se sentia confortável em viajar sozinho. Tinha seus Pokémon, era verdade; não podia ter uma conversa de verdade com eles, contudo. Por mais que eles o entendessem, não podiam responder de maneira inteligível; no máximo através de atitudes e comportamentos.
E então lembrou-se de N. O garoto de cabelos verdes conversara com seu Hakun quando de seu encontro em Accumula; tudo levava a crer que o havia compreendido. Ele fizera o mesmo com o Purrloin que havia sido abandonado naquele dia. Definitivamente, sua vida seria muito mais fácil se Hilbert tivesse o mesmo dom.
A caminhada daquela manhã parecia triste depois dessas lembranças. Faziam exatamente vinte dias desde o último encontro entre os dois, na roda panorâmica de Nimbasa. E lembrar-se do que ocorrera naquele dia trouxe à tona uma das coisas que não havia mudado para o rapaz.
Hilbert parecia ter um desejo secreto de encontrá-lo outra vez. Sabia que não se entenderiam. N insistiria que o comportamento do treinador era errado; que seus Pokémon seriam menos felizes andando com ele do que seriam caso estivessem livres. O encontro seria desconfortável, porém o treinador sentia algo de especial quando o via, os cabelos verdes caindo sobre os ombros com aquele rosto sereno…
E cada vez que pensava nisso, a vontade de pedir para Loony drenar sua mente com o Dream Eater voltava. Não havia nada de errado nisso, porém tinha medo de ter uma recaída e voltar a usar a Névoa dos Sonhos.
O garoto voltou a olhar para a frente, enquanto se aproximava de uma caverna de pedras cinzentas. O caminho mais curto para a cidade de Mistralton era através da caverna; com sorte ele conseguiria atravessá-la antes do cair da noite.
A imagem de N, porém, não lhe saía da cabeça. Seria o trecho mais perigoso da viagem, visto que Pokémon como Drilbur ou Woobat poderiam atacá-lo a qualquer momento. Seria o trecho no qual ele mais precisaria se concentrar…
Hilbert acabou se rendendo à habilidade de Loony, sentando-se próximo a caverna. Sabia que não conseguiria prosseguir se não tirasse isso da cabeça.
Dentro de minutos, o aroma cítrico pôde ser sentido novamente.
~
Com a mente vazia, Hilbert decidiu por seguir viagem. Conseguiu controlar o impulso de inalar a Névoa dos Sonhos, sabendo que não lhe faria bem.
Caminhava cada vez mais fundo na caverna, surpreso com os grandes cristais azulados que flutuavam alguns centímetros sobre o chão, que refletia o brilho das gemas. Nunca havia presenciado tamanha beleza, porém não deixava que essa o desconcentrasse.
Seu olhar atento encontrava alguns Pokémon metálicos que se misturavam perfeitamente ao ambiente. Os Klink lembravam engrenagens de antigas máquinas; se moviam como tais. O ruído mecânico das rodas batendo umas com as outras parecia cada vez mais alto em seu ouvido…
Não era à toa que o caminho havia sido considerado perigoso. Treinadores despreparados talvez perdessem a sanidade ao tentar atravessar o curto percurso. Hilbert, porém, concentrava-se apenas em seu destino, certo de que alcançaria a cidade de Mistralton muito em breve…
— Tic-tac!
O treinador tentou pular para trás, mas sentiu que seus pés não tocavam mais o chão. Os ruídos metálicos se misturavam à voz humana que percebera ao pé do ouvido…
Quando se deu conta, Hilbert estava sendo carregado por três pessoas, vestidas exatamente da mesma maneira; uma faixa de tecido marrom, justa, cobria os rostos e peitos, usavam também calças da mesma cor, além de longas luvas negras. Todos possuíam cabelos brancos, que lhes caíam pouco acima da cintura. A um olhar mais atento talvez fosse possível encontrar diferenças sutis entre cada um deles, mas tal privilégio não foi concedido ao treinador, que tentava gritar por socorro apesar de ter sua boca tampada por um deles.
Com os braços também inutilizados, não conseguia alcançar suas pokébolas na mochila, logo estava sem nenhuma maneira de se defender. Os três avançavam com ele para longe do caminho principal, indo em direção a uma fenda, invisível a um olhar desatento…
— Soltem-no!
Hilbert não pode deixar de se sentir alegre ao ouvir aquela voz. O rapaz de cabelos verdes se encontrava também na caverna, caminhando em direção contrária. Tentava imaginar o que N estaria fazendo naquela gruta, fazendo uma nota mental para perguntá-lo; estaria feliz mesmo que não o fizesse, visto que a presença do rapaz afugentara o trio, que corria após soltar o treinador, que caíra sentado.
— N!
— Que sorte a sua que eu estava por aqui, Hilbert! Você não sabe o perigo que estava correndo.
— Não preciso imaginar — respondeu ele, levantando-se e limpando o excesso de poeira. — Quem são esses caras?
— Eles são a Trindade das Sombras. — explicava N. — Trabalham para os Plasma. Assassinos do mais alto escalão. Me pergunto o que eles queriam com você.
— Não há muito que eles podem querer se não meus Pokémon… Você deve saber mais sobre eles do que eu…
— Exatamente. Eles não mandariam a Trindade atrás de você sem um bom motivo…
Hilbert tentava se lembrar de alguma coisa que pudesse ter atraído a atenção dos Plasma. O máximo de interação que tivera com eles foi em Nimbasa; isso porque a perseguição havia sido frustrada pelo mesmo garoto que agora o salvava.
— Você me disse que estava com os Plasma. Porque me salvou?
— Eu disse que concordo com o ponto de vista dos Plasma, não com as atitudes. — N respondeu. — Eles dizem tentar criar a paz ao separar humanos e Pokémon, mas só estão criando guerras.
— Então, porque você me impediu em Nimbasa?
— Muitos valores diferentes se misturam. Não existe o branco ou o negro; o mundo é um lugar cinzento…
Lá vem ele com essas filosofias de novo…
— Olhe para os lados, o que você vê? — perguntou N
— Pedras. Pedras azuis, flutuando sobre o chão cinzento.
— Sua visão ainda é muito sólida pra compreender, Hilbert. — N parecia desapontado. — Eu vejo fórmulas. Vejo o magnetismo que mantém as pedras flutuando. Principalmente, vejo um local puro, um local aonde a ganância humana ainda não interferiu na pureza dos Pokémon…
— Dá pra parar de falar nisso por um segundo que seja, N? — Hilbert se irritou com o colega.
— Não enquanto você não abrir seus olhos. Este é o mundo ideal; um pequeno mundinho aonde as pessoas não existem, veja a harmonia… Você consegue compreender?
O castanho decidiu não responder. Não queria ser grosseiro com aquele que havia acabado de salvar sua vida.
— Hilbert, olha pra mim. — N se virou, com um tom de voz mais suave. — Você tem um sonho? Algo que você não descansará enquanto não realizar?
O treinador sabia a resposta. Receoso consigo mesmo pela negativa, demorou um instante até conseguir admitir em um gesto silencioso que não tinha nenhum grande objetivo. Derrotar Cheren não era um sonho, era apenas uma obsessão de curto prazo que lhe mantinha acordado.
— Patético. Como se uma pessoa que não sonha pudesse me entender…
N começou a se afastar, com a intenção de concluir a conversa em um tom mais amigável.
— Tome cuidado, Hilbert. Eles sabem mais do que você a seu respeito.
— O que você quer dizer com isso?
O esverdeado olhou para o castanho uma última vez, antes de rumar para a saída.
— Se isso é um jogo de xadrez… digamos que o seu peão está para ser promovido…
— Dá pra você ser mais claro uma vez na vida?
— Nos vemos em breve, Hilbert.
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