Sobre Reis e Peões
3 Nimbus
Notas iniciais
A cidade de Nimbasa podia não ser a maior da região de Unova, porém definitivamente era a mais agitada. Não podia nem mesmo ser comparada a Castelia, a grande metrópole que ficou para trás, repleta de pessoas presas em seus ternos e nos cubículos dos enormes prédios comerciais. O centro de diversões de Unova, assim, se encontrava a frente.
Hilbert se pegava imaginando a respeito do que iria fazer primeiro. Não que sua jornada tivesse ficado em segundo plano; sua chegada em Nimbasa se daria em questão de minutos, após mais que dois cansativos dias de viagem por um deserto escaldante, o qual dividia espaço com as obras de construção de uma grande rodovia, eram motivo o bastante para que o garoto tirasse um dia de folga.
Ele aproveitava o amanhecer, ainda antes de adentrar a cidade, para realizar um de seus exercícios mais criativos, ao mesmo tempo em que libertava Loony de sua pokébola.
O Munna que Hilbert havia capturado em Striaton havia mudado completamente suas atitudes perante ao jovem desde o início do treinamento de ambos. A relação de confiança que se desenvolveu acabou fortalecendo tanto Pokémon quanto treinador.
Hilbert sentava-se à sombra de um bloco de concreto, fechando seus olhos e lembrando-se dos momentos recentes em sua jornada.
Primeiramente, visualizou Bianca. Ela estava perdida na cidade de Castelia; desajeitada e fora de sua zona de conforto, a garota havia tido sua pokébola com o Snivy roubada. O breve momento de tensão se desfez com a interferência de Burgh, um jovem e esperto curador de arte do museu da cidade, que percebeu o que havia acontecido e conseguiu deter o bandido, membro dos famigerados Plasma, um clã de ladrões de Pokémon.
A lembrança se esvaiu da mente do garoto de forma súbita, enquanto um aroma acre tomava conta do ambiente.
— Desculpe por isso, Loony. — Hilbert falava com seu Pokémon, de volta à realidade. O Munna havia utilizado seu poder mais conhecido, o Dream Eater, alimentando-se dos sonhos do garoto. Tal habilidade não era exclusiva da espécie; contudo, ao fazê-lo, os Munna (e sua forma evoluída, Musharna) liberavam uma pequena quantidade de vapor em tons de roxo, denominada Névoa dos Sonhos. A substância em questão havia se popularizado como alucinógeno entre os jovens, ao ponto de ter seu uso recreativo proibido. Loony ainda tinha uma peculiaridade a mais; sua Névoa dos Sonhos apresentava sempre um aroma único, com relação direta ao sonho do qual ele se alimentara.
— Vou lhe dar algo melhor agora. — Hilbert comentou, enquanto fechava os olhos novamente.
O Munna assobiou em resposta a seu treinador. Havia se afeiçoado a Hilbert justamente por este ter lhe apresentado sonhos que lhe agradavam ao paladar; não somente isso, mas ao fazê-lo, Loony conseguia compreender as intenções do garoto, percebendo que este não lhe desejava mal.
A cena havia mudado; encontravam-se já no deserto. Hilbert e Hakun estavam em uma batalha amigável contra Cheren e seu Darumaka. Os dois Pokémon se atracavam em meio à quente areia do deserto; Tepig estava menos acostumado ao calor que seu adversário, que se encontrava em seu habitat natural. A tensão do momento parecia palpável a cada um dos treinadores, principalmente Hilbert, considerando que Hakun estava em ligeira vantagem…
A lembrança tornou a se apagar da mente do garoto, enquanto o aroma de leite fresco penetrava por suas narinas. Hilbert sentiu-se aliviado por sua lembrança ter sido consumida a tempo; o resultado da batalha não era exatamente sua lembrança mais agradável, considerando que havia sido derrotado por Cheren, que se mostrara um treinador muito mais exímio.
Loony voltou a assobiar, aparentemente ainda com fome. Hilbert, porém, havia esgotado seu estoque de lembranças. Ele sabia que não deveria interromper o Munna, considerando que o treinamento era ao mesmo tempo sua fonte de alimentação; decidiu por ariscar com o que poderia imaginar…
Hilbert via-se em Nimbasa, de acordo com o que se lembrava dos comerciais de televisão. Adentrava o parque de diversões, ainda indeciso de qual atração visitaria primeiro. Olhava em especial para a montanha-russa, antes de distrair-se com a presença de N, que olhava fixamente para o garoto.
— Venha, vamos para a roda panorâmica.
Os dois seguiam de mãos dadas. Hilbert ainda receoso, enquanto o garoto de cabelos verdes continha um grande sorriso. Ele parecia empolgado em vê-lo…
A mente de Hilbert se esvaziou pela terceira vez, enquanto um aroma agradavelmente cítrico preenchia o ambiente. O treinador percebia que seu Pokémon sorria, finalmente satisfeito. Com um frasco que carregava, levantou-se, com o intuito de armazenar a Névoa dos Sonhos para algum momento que fosse oportuno, ao mesmo tempo em que evitava respirar. Não se sentia à vontade para ficar sob o efeito da droga logo pela manhã.
Não quando planejava chegar a Nimbasa já na próxima hora. Hilbert preparava-se para retomar o percurso antes que o sol esquentasse de fato. Por um lado, teve muita sorte de conseguir fazê-lo sem nenhum contratempo, antes que o calor começasse a incomodar mais uma vez. Por outro, sua chegada a Nimbasa não poderia ser mais conturbada.
Não fosse ele uma pessoa tão altruísta, haveria de ignorar o que vira por sua própria segurança. No entanto, não pode deixar de se agitar quando viu um senhor sendo abandonado caído ao chão, enquanto dois rapazes em uniformes medievais corriam. Hilbert reconheceu as roupas de longe; eram as vestes utilizadas pelos Plasma.
— Hakun, emergência! — Hilbert atirou sua pokébola, ao que o Tepig lançava labaredas para o céu. Era um sinal universal de perigo; considerando a situação em que parecia estar o idoso caído ao chão, seria dizer pouco.
O treinador então correu até este, tentando ajudá-lo. Apesar de machucado, ele não tinha nenhum ferimento grave que necessitasse de cuidados especiais.
— Eles roubaram meus Pokémon! — disse ele. — Eu estou bem, mas tenho medo do que pode acontecer com eles…
— Fique calmo, senhor. — Hilbert ajudava-o a se levantar. — Tudo vai dar certo.
— Precisam de ajuda? — O grito de outro treinador, que sobrevoava o local sobre um Mandibuzz, despertou a atenção de ambos. Hilbert notou que a sinalização de Tepig dera resultado imediato. Outros dois treinadores apareciam ao longe, por terra.
— Dois membros dos Plasma atacaram esse senhor e fugiram com os Pokémon dele. — Hilbert respondeu, preocupado em não perder os ladrões de vista. — Cuidem dele, eu vou atrás dos bandidos!
O jovem não perdeu tempo, desatou a correr; tinha certa vantagem em relação aos Plasma, considerando seu porte físico e idade. Ainda assim não conseguiu alcança-los, perdendo a dupla de vista enquanto passava em frente ao parque de diversões da cidade.
— Droga, onde será que eles foram?
Olhava para os lados, sem muito sucesso. Eles provavelmente haviam se escondido em algum lugar; provavelmente dentro do parque, naquele momento apinhado de crianças e, em menor quantidade, adultos. Suas roupas extravagantes poderiam passar despercebidas mais facilmente em meio à multidão.
Foi quando Hilbert, assim como em seu devaneio matinal, encontrou aquele rosto conhecido lhe encarando de súbito.
— Há quanto tempo, Hilbert!
Os cabelos verdes de N pareciam ainda mais brilhantes naquela manhã. Seu sorriso era sincero, seus braços se entendiam procurando por um abraço…
— Desculpe, estou ocupado agora, N. — Hilbert sentia-se mal pela situação que criava, porém tinha assuntos mais urgentes naquele momento. — Estou procurando por duas pessoas…
O rapaz conseguia perceber a preocupação no rosto de Hilbert, respondendo imediatamente.
— Vem comigo, eu te ajudo a procurar!
N arrastou o colega pelo braço, em direção a uma das atrações do parque, a mesma que visualizara mais cedo.
— Pra onde está me levando?
— Vamos para a roda panorâmica! — N explicou. — De cima dá pra ver o parque todo, vai ser mais fácil de achar seus colegas!
Hilbert não conseguiu responder, não antes de entrarem na cabine, que imediatamente se fechou. Droga!
— Não são colegas, são bandidos! Dois capangas dos Plasma roubaram os Pokémon de um senhor, estou tentando recuperá-los…
— Confia em mim, Hilbert. Eu falei que vou te ajudar!
A roda começava a subir, assim como a pressão do treinador. Hilbert olhava pelo vidro da roda gigante, preocupado não só com os ladrões que perdera de vista. O castanho se desconcertava com a presença do esverdeado; mais ainda quando se dava conta do porquê havia imaginado aquela cena no treinamento de Loony.
— Você se preocupa demais com Pokémon, Hilbert. — N comentou. — Tente relaxar um pouco.
— Não é por eles, N! É pelo senhor que foi atacado.
— Você o conhece? Já havia o visto antes?
A memória de Hilbert parecia dizer que sim, ainda que os vagos pensamentos não se conectassem. Na ausência de resposta, N continuou.
— Tudo há um motivo na vida. O que será que esses ladrões ganhariam roubando Pokémon de um senhor indefeso? Qual seria a motivação deles?
— Não importa, o que eles fazem é errado.
A roda ainda não havia terminado de ganhar altura quando a pergunta que desmontou o jovem treinador foi pronunciada.
— Afinal, o que é certo ou errado?
O olhar sério de ambos os treinadores, que se encaravam, denunciava o tom que a conversa tomaria.
— A história sempre é contada pelo lado vencedor, Hilbert. Enquanto não conhecemos as motivações do outro lado, julgamos apenas pelo que nos doutrinaram desde sempre… Se você se desse a oportunidade de ouvir o que eles têm a dizer, tenho certeza que mudaria de opinião.
Ele só pode estar de brincadeira, pensou o castanho. Me fez perder meu tempo pra isso…
— Eu tomei meu lado nessa ideologia. Não tenha raiva de mim pelo que vou dizer, mas acho que os Plasma têm razão em querer separar os Pokémon dos humanos…
Por mais que o desejasse, Hilbert não conseguia sentir raiva do rapaz com quem estava na roda panorâmica. Insistia em olhar para fora, sem sucesso em encontrar os malfeitores, enquanto as palavras de N começavam a pesar por sua cabeça. Acabou por sentar-se ao chão da pequena cabine, sem saber o que pensar ou dizer.
— Este mundo é um jogo de xadrez. — o esverdeado continuou. — Podemos pensar que somos os reis de nossa vida, mas somos apenas peões em um grande tabuleiro.
— Se for assim… — o castanho tomou coragem de responder. — Estamos jogando em times opostos. Confrontamos nossas ideias, um de nós há de sair vencedor.
— Não somos nós quem decidimos os confrontos… você é muito inocente pra perceber isso…
A roda panorâmica estava parando, depois de uma revolução completa. Principalmente na cabeça de Hilbert.
— Nem tudo é igual ao xadrez. — N completava, ao sair da cabine. — Pelo menos nesse tabuleiro, existe a opção de mudar de lado…
O treinador percebera não ser o mesmo depois daquela conversa. Derrotado, seguiu silenciosamente atrás de um local em que não seria incomodado.
Naquela tarde, sua reserva pessoal de Névoa dos Sonhos fora esvaziada.
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