Sobre Reis e Peões
5 Neblina
Notas iniciais
A noite de Hilbert poderia ser descrita com uma única palavra: conturbada.
O jovem não fora mais importunado em sua travessia pela caverna, conseguindo encontrar sua saída já durante a noite. Com a cidade de Mistralton permeando o horizonte, ele decidiu proteger-se para dormir, sabendo que o centro Pokémon estaria fechado àquele horário. Porém, a dificuldade para dormir foi real; misturavam-se o medo, a preocupação, o cansaço e, principalmente, a culpa.
Não eram sentimentos bons. Tinha medo de ser sequestrado ou morto pela Trindade das Sombras enquanto dormia. Preocupava-se com seus Pokémon, que provavelmente teriam o mesmo destino. Suas pernas latejavam devido as horas de caminhada ininterrupta pelo terreno irregular da caverna; ele acreditava que o magnetismo da caverna havia acentuado a fadiga.
Nenhum desses, porém, superava o desejo de ter conversado mais com N quando teve oportunidade.
A situação pela qual passara seria o pretexto perfeito para saber mais sobre o garoto de cabelos esverdeados. Seu jeito misterioso parecia aumentar o charme. Cada vez mais, Hilbert sentia dificuldade em retrair os sentimentos que começava a nutrir pelo garoto, que provavelmente não seriam correspondidos. Do contrário, ele teria dado alguma dica.
Se ele falasse sobre mais coisas que não liberação Pokémon…
A preocupação logo voltou, fechando o ciclo. Não entendera o que ele quis dizer no final daquela conversa com o “peão que está para ser promovido”. Estava claro para Hilbert que N sabia mais do que queria dizer.
Naquela briga de sentimentos, contudo, o cansaço logo venceu.
~
Ao contrário da noite anterior, o dia da chegada de Hilbert a Mistralton não poderia ter começado melhor. Encontrou Bianca assim que chegou ao centro Pokémon; ela parecia ter evoluído tanto quanto o garoto durante a jornada. Junto com ela, encontrava-se a professora Juniper, a mesma que havia presenteado o trio de Nuvema com seus primeiros Pokémon. Após uma breve conversa, descobriu que as duas iriam juntas investigar a mesma caverna de onde ele havia partido na véspera. Bianca parecia inclusive mais animada com a pesquisa que fariam do que a própria professora. Ele, contudo, preocupava-se com a possibilidade de elas esbarrarem com a Trindade das Sombras, mas considerando que iriam estar em um pequeno grupo de cientistas, decidiu por não comentar a respeito.
Agora mais tranquilo ao saber que sua colega havia se encontrado, ele decidiu partir ao ginásio da cidade, dedicado às batalhas aéreas. Afinal, seu objetivo ainda era derrotar Cheren; ele imaginava que o colega já houvesse ganho aquela insígnia. Hilbert acreditou que teria muitas dificuldades, considerando que nunca havia treinado naquela modalidade; Volts, por outro lado, parecia ter tanto domínio de si que não teve muito trabalho para derrotar não apenas um, mas dois Pokémon adversários, para a surpresa da líder do ginásio, Skyla.
Hilbert achava que nada poderia estragar aquele dia, enquanto saía do ginásio com mais uma insígnia em seu estojo.
Como era de se esperar, ele estava enganado.
— Imaginei que estaria vindo para cá… — A voz de N, que fora reconfortante dadas as circunstâncias do encontro anterior, agora se tornava inoportuna.
— Você de novo…
— Aposto que você venceu a líder do ginásio, pela sua cara. Você está mesmo feliz com isso?
Hilbert encarou o colega, louco para responder de maneira grosseira. Não o fez, entretanto, com medo de afastá-lo sem conseguir as respostas que tanto queria.
— Claro que estou. Assim como o Volts.
O Emolga, que repousava sobre o ombro do garoto após a batalha, sorriu para N, que pareceu se interessar pelo Pokémon elétrico.
— Posso conversar um pouco com você? Como se sente?
À reprovação do Pokémon, Hilbert interviu.
— Tudo bem, Volts. Ele é amigo.
— Eu que digo tudo bem. — N respondeu. — Ele disse que não confia em mim.
— E por que você está dizendo isso pra mim?
— Por que eu não deveria dizer?
Os dois se encaravam, sorrindo um para o outro. O coração de Hilbert pulsava rápido ao olhar para o rosto do colega, porém não admitia a si mesmo que era esta a razão; preferia pensar que se sentia desconfortável com o que o garoto ocultava.
— Afinal, o que você quis dizer pra mim ontem?
— Não posso lhe contar. Nunca se sabe quem pode estar ouvindo…
— O que de tão importante pode estar acontecendo comigo que nem eu posso saber?
— Lembra-se da nossa conversa no museu de Nacrene?
— Lembro que você esbarrou em mim e nós discutimos…
— Você é um caso perdido, Hilbert… — N colocava as mãos à cabeça, pensativo. — Você é um perigo para si mesmo desse jeito. Eu te recomendo estudar um pouco mais sobre a lenda do Dragão Original…
O castanho lembrava-se vagamente da exposição no museu, com os artefatos encontrados em uma escavação realizada no Castelo Rélico. Não a considerou interessante para se recordar dos detalhes, entretanto.
— Se você realmente acredita que o treinamento Pokémon é uma coisa boa, — N continuou — nós teremos que nos confrontar em breve. Mas ainda que eu não deseje lhe ver como adversário, quero que se prepare.
O esverdeado virou as costas, abandonando Hilbert com mais perguntas do que respostas.
— Treinadores e seus Pokémon serão separados, queiram vocês ou não. Mas eu fico triste de pensar que pessoas como você vão se machucar…
~
O garoto acabou por seguir seu percurso, não para o centro Pokémon, mas para a saída leste da cidade. Sentiu que ficaria melhor caso se isolasse. Sentira-se desconfortável não exatamente com as palavras de N, que foi embora sem responder aos questionamentos.
Afinal, porque eu fico assim toda vez que o vejo?
Será que ele pensa algo a meu respeito, ou é apenas um devaneio?
E porque o Volts não foi com a cara dele? Será que ele percebeu alguma coisa que eu não vi?
Hilbert ainda tentou conseguir a resposta da última pergunta, sem muito sucesso. O Emolga não tinha sofrido nenhum dano que necessitasse de cuidados, mas o cansaço era perceptível. As tentativas de entender o que ele dizia foram infrutíferas, mesmo com a ajuda de Loony, já que as capacidades psíquicas do Pokémon se limitavam a drenar os sonhos do garoto.
O que ele acabou fazendo, logo depois. Pois N conseguia fugir de Hilbert na vida real, mas nunca em seus sonhos, cada vez mais cítricos; o último deles com efeitos colaterais que iam além do aroma da Névoa dos Sonhos que Loony exalava.
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