Sobre Reis e Peões
6 Espiralado
Notas iniciais
A lua brilhava com grande intensidade, apesar dos flocos de neve que teimavam em cair naquela noite em Icirrus. Hilbert sentia-se pouco à vontade para dormir no centro Pokémon, em especial na situação que ele se encontrava.
Ao seu lado, N se encontrava deitado sob um pedaço de lona cuidadosamente armado próximo ao lago. Ainda estavam dentro da cidade, porém afastados o suficiente dos locais mais movimentados, de modo que dificilmente seriam importunados.
Hilbert preparava-se em seu saco de dormir; sentia-me melhor ao ar livre, apesar do clima que tendia a esfriar naquela época do ano. Dirigiu-se ao colega, já adormecido, enquanto tocava seus lábios com o dele, carinhosamente desejando por uma boa noite…
Tudo desaparecera em um instante. Hilbert sabia exatamente o que havia acontecido; se culpava pelos pensamentos cada vez mais frequentes que tinha a respeito. Abrindo os olhos, agradeceu pela presença de Loony, o qual liberava um grande rolo de Névoa dos Sonhos, dando ao ar um já conhecido aroma cítrico.
— Devo estar lhe incomodando com isso, Loony… Me desculpe…
O treinador sentia-se culpado por fazê-lo passar por esta situação. Seu desejo aos poucos se transformava em uma obsessão, que lhe consumia cada vez mais a concentração em sua jornada. Loony concordara em evoluir para Musharna, com a ajuda de uma Pedra Lunar utilizada pelo garoto com este fim. Do contrário, certamente não teria a capacidade de usar o Dream Eater por tantas vezes.
Uma semana havia se passado desde a última vez que Hilbert e N se viram. O que antes era apenas um desejo secreto parecia ganhar forças em sua mente, ao ponto de incomodar a todos na equipe. Por sorte, tais pensamentos não o incomodavam durante as batalhas de ginásio. Havia derrotado Brycen, líder de ginásio de Icirrus e ator aposentado, em uma batalha extremamente rápida. Hakun, o Emboar recém-evoluído, não dera a menor chance para os Pokémon gélidos do mestre da atuação.
Ainda assim, não havia alcançado Cheren, que aparentemente havia passado pelo ginásio — e derrotado seu líder — no dia anterior. O fato de estarem tão próximos o incomodava de certa forma. Desejava batalhar logo contra ele, apesar de estar praticamente certo de que o rival já se encaminhava para a cidade de Opelucid, local do ginásio mais desafiador conhecido pela liga de Unova.
Hilbert pretendia partir ao nascer do sol, quando o clima era mais agradável. Havia uma estação de trens na cidade, a qual pretendia usar. Era certo que Cheren pegaria a estrada, cortando caminho pela vegetação e aproveitando a ocasião para treinar mais; o jovem de cabelos castanhos, contudo, estava disposto a gastar parte de seu dinheiro em troca do tempo reduzido de viagem, com a única intenção de ser o primeiro a chegar até o ginásio restante (e, claro, vencê-lo antes de Cheren).
Nada do que havia planejado, porém, iria ocorrer. A causa era a mesma que provocava um forte estampido que o fez perder a linha de seus pensamentos.
O forte barulho parecia vir do norte da cidade, local aonde se situavam algumas construções históricas. Hilbert não dera a devida importância ao fato em um primeiro momento; mudou de ideia ao ver o topo da grande torre sendo destruído por um trovão.
Considerando o quão inusitado era o fato, em especial pela ausência de nuvens carregadas, o treinador decidiu por empacotar suas coisas e ir atrás para verificar. A torre era de visitação fechada ao público; tudo levava a crer que era obra de intrusos, os quais ele podia imaginais quais seriam.
Hilbert não tinha a intenção de intervir, apesar da curiosidade.
Ao chegar à base da torre, percebeu que não fora o único a ter essa ideia; havia um grande grupo de curiosos, que observavam a cena de longe. Mais próximos da entrada, porém, quatro pessoas conhecidas de Hilbert se posicionavam para adentrar na construção.
Brycen, Juniper, Bianca e Cheren, respectivamente. O primeiro foi quem notou a presença de Hilbert.
— Ótimo, o grande treinador chegou. Está disposto a entrar na torre conosco?
O jovem ficou sem reação.
— Não é perigoso demais? — perguntou ele.
— Vale o risco, acredite. — Brycen respondeu.
— A torre Duodraco. É certeza que esse ataque é obra dos Plasma… — Juniper completou.
— Fiquem você e Bianca aqui. Caso apareça alguém, ou qualquer coisa, se protejam primeiro e nos avisem depois. — Cheren completou, olhando para a professora. Depois, virou-se para os rapazes. — Brycen, Hilbert… não há tempo a perder, vamos correndo!
Eles percorreram um longo caminho dentro da torre em busca de um meio para chegarem ao topo, encontrando-a totalmente deserta. O Darmanitan de Cheren ajudava a iluminar o caminho com suas chamas, porém ainda assim tinham dificuldade de encontrar as escadas.
— O que tem de tão importante aqui? — perguntou Hilbert, quase tropeçando em um pedaço de mármore caído ao chão.
— Tudo. — respondeu Cheren, que estava mais próximo. — Já ouviu falar de Reshiram e Zekrom?
— Acho que sim.
— Então… As lendas contam que os dragões desapareceram depois de destruir toda a região de Unova… Mas isso é só metade do que aconteceu.
De novo essa história…
— Os dois dragões nunca deixaram de existir; apenas foram transformados em pedra. Eu pensava que era só uma lenda, mas o trovão que atingiu a torre prova o contrário.
— Dá pra ser mais direto? Não estou conseguindo pensar…
— Zekrom está no topo da torre, como sempre esteve. E algo ou alguém o despertou ainda a pouco.
Hilbert não havia se interessado pela lenda, nem mesmo após ouvir o conselho de N. Aliás, preferia nem pensar nisso, visto que toda vez que pensava o assunto, a imagem do garoto de cabelos verdes lhe tomava a consciência, permeando-a com seus desejos carnais…
— Achei!
O grito de Brycen logo trouxe o garoto à realidade, enquanto tomava consciência do perigo. Se Zekrom era um dragão tão poderoso quanto a lenda supunha, ele seria capaz de destruir a torre (ou pior, a cidade de Icirrus inteira) sem muito esforço.
Eles subiam as escadas, incertos do que encontrariam no final do percurso. Um andar abaixo do topo, porém, uma barreira humana se fez presente no caminho do trio.
Cerca de uma dezena de membros dos Plasma, devidamente uniformizados, colocavam-se no caminho entre eles e o topo da Torre Duodraco.
— E agora? — Hilbert perguntou, enquanto Cheren e seu Darmanitan o alcançavam.
— Eu vou abrir caminho; Hilbert, você vai na frente. Brycen, cubra minha retaguarda. Daruma, Flare Blitz!
Apesar da vontade de questionar a decisão, não o fez; sabia que cada segundo era crucial. O treinador pegou o vácuo deixado pelo Pokémon de fogo, que abriu caminho literalmente por entre a barreira humana; eles se afastaram no último segundo possível, fugindo da bola de chamas que se tornara o Darmanitan; na curta abertura de tempo que se deu, Hilbert alcançou as escadas, subindo-as e chegando ao andar aonde se encontraria a estátua do Pokémon dragão, conforme fora descrito por Cheren.
Isto é, caso estátuas se movessem liberando faíscas azuladas.
O dragão negro encarou o visitante com ferocidade, tratando-o como oponente. O rapaz já não se encontrava em estado de reagir perante ao poder que este emanava. Ainda que conseguisse chamar um de seus Pokémon a tempo, tinha plena consciência de que mesmo os quatro juntos não seriam páreo para Zekrom.
O que mais assustou Hilbert, contudo, foi ver quem se encontrava ao lado do dragão, sorrindo.
Ele esfregou os olhos, incrédulo. Aqueles cabelos verdes eram inconfundíveis.
— Nos encontramos de novo, Hilbert…
Não é possível…
— Eu sempre cumpro o que prometo. Você deve se lembrar… Eu falei que teria a ajuda de Zekrom… e aqui está ele! Com seu poder, o mundo ideal, aonde humanos e Pokémon se separarão, irá finalmente se tornar realidade!
N gargalhava, encarando o intruso. Hilbert ouvia alguns estampidos no andar de baixo, resultado da resistência oferecida pelos Plasma.
— Não será. — Hilbert teve uma súbita reação. Não podia fazer nada sozinho, mas se ganhasse tempo o bastante, teria melhores chances com a ajuda de Cheren e Brycen.
— E mesmo com todos os meus argumentos você ainda se coloca contra mim. Típico de uma pessoa com a mente tão fechada como a sua.
— Nem todos os treinadores são maus como você pinta, N. — Hilbert falava pausadamente. — E nem todos os Pokémon odeiam seus treinadores. Foi por isso que Volts não confiou em você.
N deu um passo para trás, surpreso com a reação de Hilbert.
— Vamos, pergunte a eles. — O treinador liberou cada um de seus Pokémon. — Pergunte se estão satisfeitos em viajar com um treinador. Veja se algum deles concorda com suas opiniões…
— Mesmo depois de tudo o que lhe mostrei… — N parecia relutar em dizer a frase seguinte. — Talvez você seja o outro escolhido, afinal…
— O que quer dizer com isso?
Passos podiam ser ouvidos ao fundo. Era provável que alguém estivesse subindo as escadas naquele instante.
— Você nunca se perguntou como está se saindo tão bem em sua jornada mesmo sendo tão desleixado e ingênuo? Nunca percebeu que seus Pokémon crescem muito mais fortes que os de outros treinadores?
Hilbert começou a se questionar mais uma vez. Cheren o havia derrotado na única batalha em que haviam realizado, contudo pediu para que ele fosse na frente. Brycen havia se referido a ele como “o grande treinador”. Talvez houvesse sentido na afirmação de N.
— Vamos supor que você esteja certo. O que isso muda?
— Você é uma exceção à regra, Hilbert. Treinadores são cruéis por natureza, fazem seus Pokémon sofrerem em batalhas desnecessárias.
Hilbert olhou para trás de relance. Brycen e Cheren se aproximavam.
— E o que você tem a dizer… deles? — perguntou o castanho, apontando para trás.
— Ora, então são vocês… — N olhou para os que adentravam o recinto. — O sem-talento e o louco…
Nenhum dos dois reagiu à provocação, assustados com o dragão negro que os encarava.
— Brycen, sei muito sobre você. O mais patético dos líderes de ginásio, todos riem de você e de sua incapacidade. — N apontava o dedo para o velho, que tentava manter a postura firme apesar da humilhação. — Nem se mexa, Cheren, você pode falar menos ainda. Doze horas de treinamento diárias, só parando pra comer e dormir. Você deve se lembrar de nosso encontro em Driftveil, quando conversei com seu Dewott. Ele ainda tem raiva de você?
A julgar pela expressão no rosto do garoto de cabelos negros, a acusação de N deveria ser verdadeira.
— São pessoas como eles que você quer proteger, Hilbert?
— Não dê ouvidos a esse louco! — Cheren gritou.
— Os dragões foram selados em pedra porque representavam um perigo para toda Unova. Ninguém podia controlá-los; o poder deles é imensurável. Ainda assim, Zekrom confia em mim. Apenas aqueles de coração puro e moral inabalada podem controlar tamanho poder…
Cheren ameaçou reagir, mas foi contido com o olhar penetrante de Zekrom. Sua aura de poder era intimidadora o suficiente; ele se demonstrou disposto a reagir a qualquer movimento mais brusco do trio.
— Hilbert, eu vou lhe dar uma chance. Estou indo para a liga de Unova. Irei derrotá-los um a um, naquela que será a última vez em que Pokémon serão machucados por causa dos humanos. Zekrom é extremamente poderoso, mas há um Pokémon que pode enfrentá-lo de igual para igual.
— Reshiram…
— Você está aprendendo, Hilbert. Se você estiver disposto a ir até as últimas consequências, procure por Reshiram e vá até mim na liga. Aí poderemos colocar meus ideais e suas crenças à prova.
Hilbert encarou N por uma última vez, antes que este se retirasse do recinto, montado no grande dragão negro.
— Eu só quero que pense no que considera certo antes de tomar sua decisão…
O castanho desabou no momento em que N e Zekrom partiram.
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