Sobre Reis e Peões
1 Cumulus
Notas iniciais
— Por que eles sempre desaparecem na minha frente, Hakun?
Hilbert se encontrava ligeiramente chateado com seus colegas. Não que desconhecesse a animação de Cheren e Bianca, pelo contrário; conviviam desde a infância juntos, na cidade de Nuvema. Ele imaginava, porém, que pudessem se conter por alguns momentos, em especial naquele que era o primeiro dia de jornada de cada um deles.
O pequeno Pokémon que o acompanhava grunhiu, ainda sem se afeiçoar tão bem seu treinador. Haviam se conhecido ainda naquela manhã, porém o pequeno porquinho alaranjado havia se afeiçoado com facilidade a seu novo colega. O Tepig parecia ansioso em descobrir o mundo que se situava além dos limites de Nuvema. Tanto quanto Hilbert, que coçava seus cabelos castanhos por baixo do boné.
— Isso mesmo, Hakun, vamos alcançá-los!
O jovem rapaz começou a correr, tentando chegar até a cidade de Accumula antes do anoitecer. A cidade não era tão longe de Nuvema, afinal; Hilbert já a havia visitado algumas vezes, sempre acompanhado de sua mãe, quando esta precisava fazer algumas compras mais elaboradas. Tais ocasiões eram raras; o garoto lembrava-se vagamente de cada uma delas, contudo.
A sensação de viajar sozinho, porém, era única. Esta se tornaria uma realidade na vida de Hilbert, o qual finalmente teria sua jornada, agora que havia atingido sua maioridade.
Ele se encontrava já cansado quando finalmente alcançou os primeiros prédios da cidade de Accumula; esta era ainda bastante rústica comparada às grandes metrópoles da região, porém grande o suficiente para encher os olhos de Hilbert, com suas construções de vários andares inexistentes em Nuvema. O Tepig, entretanto, parecia não estar conseguindo acompanhar seu treinador, fazendo com que Hilbert decidisse por levá-lo em seu colo.
O centro comercial era bastante extenso; Hilbert agradecia mentalmente à sua mãe pelas visitas anteriores nas quais ele a acompanhava; do contrário, teria muita dificuldade de encontrar a construção que procurava naquele momento. Antes de chegar aonde queria, contudo, foi interrompido por um rosto conhecido que se punha em sua frente:
— Que bom que chegou, vem comigo!
O garoto de cabelos negros puxava Hilbert pelo braço; este ria com a reação do colega, ainda que estivesse surpreso enquanto o seguia. Cheren, o garoto que o guiava naquele momento, era um de seus impulsivos colegas de infância, um dos dois que lhe acompanhara enquanto partiam de Nuvema na manhã daquele dia.
— Pra onde estamos indo? — Hilbert perguntou, curioso com a pressa do colega.
— Parece uma palestra, sei lá. — Cheren respondeu. — Um expert em treinamento Pokémon está fazendo um discurso na praça, tem um aviso no centro Pokémon convocando todos os treinadores… E estamos atrasados!
Os dois rapazes corriam, desviando-se de uma pequena multidão que se formava no entorno de um palco improvisado ao centro da praça. Ao centro do palco, um rapaz de meia-idade e longos cabelos loiro-esverdeados discursava; ao julgar pela reação do público, entretanto, seu robe extravagante em tons de roxo e dourado parecia muito mais atraente do que seu discurso acalorado.
— Então, senhoras e senhores… Pokémon são diferentes dos humanos. Eles são seres vivos com um potencial desconhecido. Somos nós que temos uma grande responsabilidade para com eles, não o contrário, como muitos de vocês fazem. Alguém aqui sabe qual é essa responsabilidade?
Ele virava-se para a plateia, procurando por alguém que pudesse responder a essa pergunta. A cada segundo que se passava, ele parecia decepcionar-se. Até que uma tímida voz fez-se presente do meio da multidão:
— Liberação Pokémon?
O semblante do rapaz recuperou-se imediatamente ao ouvir a resposta.
— Correto, senhorita. Liberação Pokémon. Nossa missão é permitir que eles sejam livres, tão e como nós humanos somos! Devemos tratá-los como iguais, sem essa relação de dominação que impomos a eles com isso! — ele tirou uma pokébola de seu bolso, atirando-a ao chão com o intuito de liberar um Pokémon felino de pelagem roxa, o qual possuía um tamanho relativamente reduzido. Mesmo considerando seu sorriso desdenhoso e olhar penetrante devido ao destaque avermelhado sobre seus olhos, não representava ameaça a nenhum dos presentes.
No instante seguinte, o rapaz que discursava pisou com força sobre a pokébola que jazia aberta próxima a si, destruindo-a. O Purrloin irritou-se ao ver o que seu treinador acabava de fazer, mas não se mostrou disposto a confrontá-lo, decidindo pelo caminho da fuga. O felino distanciou-se do palco com um salto, correndo pelo meio da multidão.
— Pode ir embora, Purrloin! — continou discursando o rapaz. — Vá para sua liberdade!
— Patético.
Hilbert e Cheren olharam para o lado, procurando ver o autor da última frase. Encontraram outro jovem treinador ao lado deles, que se destacava no meio da multidão pelos seus cabelos verdes, longos e brilhantes, amarrados em um rabo-de-cavalo que saía por trás de seu boné.
— Ele está assustando todo mundo, não vai conseguir convencer ninguém desse jeito.
De fato, o rapaz parecia perceber que a reação do público perante a sua demonstração não havia sido das melhores; decidiu então colocar um fim em seu discurso.
— Termino meu pronunciamento por aqui, na esperança de que vocês comecem a repensar o relacionamento que tem com seus Pokémon… e a maneira que devem proceder a respeito. Tenham uma boa tarde.
Ele virava as costas ao público, sendo aplaudido por uns e vaiado por outros, enquanto a multidão se dispersava com pensamentos dúbios a respeito do que ouvira.
— O que você achou, Cheren? — Hilbert perguntava, ainda se questionando se a experiência valera a pena.
— Perda de tempo; se eu soubesse que seria assim, teria ficado no centro Pokémon…
— Sei lá, não foi de todo ruim… — Hilbert comentou. — Mas eu nunca faria isso com o Hakun… — Ele fazia carinho em seu Pokémon, enquanto esse grunhia em aprovação.
— Com licença… — o rapaz de cabelos verdes que estava ao lado deles os interrompeu. — Você estava dizendo que…
— Nada demais, eu achei que… — Hilbert virou-se para o desconhecido, porém foi logo interrompido.
— Não estou falando com você, mas sim com o Tepig!
Hilbert e Cheren se entreolharam, controlando-se para não chamar o garoto de louco ou algo do tipo, enquanto este gemia, como se realmente compreendesse os grunhidos de Hakun.
— Então você é Hilbert, não é? — o rapaz voltou-se agora para o treinador. — Prazer, meu nome é… bem, pode me chamar de N por enquanto.
— Prazer, eu acho…
— Seu Pokémon me disse que você pretende completar a Pokédex. — N continuou, ignorando o cumprimento de Hilbert, que agora estendia a mão no vazio. — Imagino que vá precisar de muitas pokébolas…
— Calma aí! — Cheren interviu. — Você fala rápido demais!
— Eu fico me perguntando… — N ignorou Cheren. — Será que os Pokémon são felizes com isso?
— O Hakun nunca reclamou, até porque eu o deixo fora da pokébola sempre que ele quer…
N virou-se imediatamente para o lado, agora alheio à resposta de Hilbert. O Purrloin que fora liberado pelo rapaz que discursava encontrava-se chorando sob um banco não muito distante do local em que estavam; o garoto de cabelos verdes andou até ele, abaixando-se para conversar.
— Esse cara é meio estranho, não? — comentou Cheren.
— Eu prefiro não julgar… — respondeu Hilbert, um instante depois, enquanto observava o garoto, agora se aproximando novamente. De alguma maneira, N conseguira conquistar a confiança do felino, que se aninhava em seu colo.
— Veja só ele. Nunca foi feliz com seu treinador, não foi a toa que fugiu…
— Pois eu acho que existem treinadores e treinadores — Cheren respondeu. — Cada um sabe aquilo que faz.
— Você fala isso porque é um iniciante. — N retrucou. — Quero ver se vai manter esse discurso depois. Conheci muitos treinadores durante minhas viagens, vi cada coisa que me fez sofrer pelos pequenos Pokémon que eram explorados sem dó em batalhas sem sentido…
Hilbert e Cheren voltaram a se entreolhar. Não encontram nenhuma resposta boa o suficiente para o argumento do rapaz.
— Eu vou cuidar desse pequeno agora… Mas quero que se lembrem do que vou dizer agora. — N fez uma pausa calculada, enquanto encarava os dois rapazes. — Pokémon são nossos amigos; enquanto eles estiverem presos por pokébolas, eles nunca vão atingir a perfeição. Pensem nisso antes de fazerem aquilo que vocês acham que é o certo…
— Você tem suas convicções. — Hilbert comentou, enquanto N se afastava, dando as costas. — E eu tenho as minhas.
— Apenas pense nisso… — N respondeu, sem se virar.
— Melhor irmos também, Hilbert. — Cheren concluiu o assunto. — Bianca deve estar esperando no centro Pokémon.
Os dois amigos caminhavam pelas ruas de Accumula, sem a mesma motivação de antes. Cheren parecia tranquilo, porém Hilbert ainda martelava as palavras do garoto de cabelos verdes em sua cabeça. Podia não concordar com o que ele dizia, mas considerou a experiência deveras interessante para o primeiro dia de jornada.
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