Sobre Eu e Você
1 n. uno
Ele estava preso mais uma vez em casa. Havia no mínimo seis garotas esperando por ele do lado de fora, e tudo o que ele queria fazer era ir ao mercado comprar refrigerante. Maldita hora para o refrigerante acabar. Ao olhar para fora da janela, ouviu-as gritar seu nome a plenos pulmões, acenando câmeras digitais e fazendo corações com as mãos. Não que ele não gostasse, mas excesso de assédio quando não se está de bom humor é terrível. Já desistira de sair, mas elas já sabiam que ele estava ali, e não era muito provável que fossem embora antes de conseguir falar com ele. Nesse caso, todas as alternativas eram ruins. Era melhor trazer a paz e o silêncio de uma vez.
“PE LANZA!” elas berravam alto, quase chorando quando ele abriu a porta e deu um passo em direção a elas. So much for trying to be a normal teen. O garoto sorriu cordialmente e as abraçou uma a uma, beijando-as na bochecha para que tirassem fotos. Demorou menos do que ele esperara. Foi somente ao avistar uma garota mais longe que ele tornou-se curioso. Era a única que não viera atacá-lo. De fato, parecia que nem ao menos se dava conta de que havia alguém ali além das garotas ululantes. Ele sorriu. Também era a única que não estava trajando calças coloridas. Não, uma saia xadrez verde e preta, uma camiseta cinza e botas – apesar do sol escaldante do meio do dia refletido no asfalto – completavam o vestuário da menina. Mais velha do que as outras, ela estava sentada no meio-fio, observando quietamente as pré-adolescentes pulando para cima e para baixo, gritando em conjunto.
“Esqueceu a câmera?” ele perguntou, dando um passo na direção dela.
Ela o estudou com os olhos por um momento antes de sorrir de lado. “Não, vim com minha prima. A de calça laranja.” Ela apontou para as outras. “Não a deixaram vir tão longe sem companhia. Bobagem dela, digo eu. É apenas um cantor bobinho.” Ela deu de ombros.
Mesmo ofendido, o garoto sentou-se ao lado dela. “Minha voz não é tão ruim assim.” ele murmurou.
“É você?” os olhos castanhos se arregalaram e ela levou as mãos à boca. “Perdão! Eu não tinha idéia!”
Lanza simplesmente riu. “Você não sabe mesmo quem eu sou?” ela meneou. “Pe Lanza? Vocalista do Restart?” ela balançou a cabeça novamente. “Em que mundo você vive? Somos a maior banda de Happy Rock do país!”
“Happy Rock?” ela riu. O sorriso desapareceu do rosto dele e, de supetão, ele se levantou. Ela segurou o braço dele, reprimindo a risada. “Desculpa, eu não queria tirar com você. Só não estou... ahm... familiarizada com tudo isso.”
O rapaz não tentou se livrar do toque da garota, e olhou para o final da rua por alguns instantes. “Quer entrar? Eu posso te mostrar nossa música, nosso clipes.”
“Acho melhor não.” Ela sorriu debochada, tornando a olhar para as fãs. “Elas já devem estar pensando em me matar só pelo fato de eu estar envolvida em uma conversa com você que não contêm a frase ‘eu te amo’ ou ‘uma foto’.” Disse, largando do braço do garoto. “Alice, a propósito. Alice Cassidy. Cassidy não é o sobrenome verdadeiro, mas é o que eu uso.” Alice estendeu a mão, deixando as pulseiras de látex preta e rosa cair mais para trás em seu pulso. Lanza tomou a pele alva na sua, sentindo o calor eminente passar para sua mão. “Uma banda, huh? Que tipo de banda é essa que não pratica? Onde estão os outros integrantes?”
“Não aqui, obviamente. Acabamos de voltar de uma turnê pelo país, acho que merecemos um descanso.” Disse ele, puxando-a pela mão para que levantasse também. “Eu estava indo ao mercado comprar refrigerante. Quer ir comigo?”
Alice olhou para sua prima, hesitante. Abriu e fechou a boca sem dizer nada, e ponderou o convite por um segundo. “Acho que tudo bem. Ela deve conseguir voltar para casa de buenas, achou uma vizinha.” Ela sorriu, virando para encarar o rapaz. “Nicky!” ela gritou para as meninas “Eu não vou voltar com você, ok?” a outra acenou, então ela girou nos calcanhares. “Certo. Mostre-me o caminho.”
“É comum esse assédio?” ela perguntou, chutando um pedregulho depois de alguns segundos de desconfortável silêncio.
“Não muito.” Respondeu ele. “Mais quando voltamos das turnês. Sempre aparece uma ou duas na minha casa ou na casa dos outros três.” Disse, rindo. “É divertido, até.”
“Pare de mentir, não vou te delatar para alguma revista adolescente.” Alice sorriu, ficando um passo à frente e girando nos calcanhares para encará-lo, andando de costas.
“Eu gosto, é sério!” exclamou, rindo defensivamente. Ela apertou o olhar. “Certo, talvez pudesse ser um pouco menos, mas não me incomoda tanto assim. Fora isso, eu sou um cara normal, sem nada de muito especial.” Ele tentou sorrir, esperando que ela não tornasse ao início da conversa. Ela não o fez, e Lanza não se atreveu a dizer algo a mais.
Eles entraram no pequeno mercado a duas quadras de onde partiram e o garoto rumou direto para o corredor de bebidas e pegou uma garrafa de gasosa de laranja(RS GASOSA). Alice apareceu atrás dele no caixa, segurando uma lata prateada e a carteira na mão. Ela notou-o fitando a lata e riu. “O quê? É energético.”
“Não parece Red Bull.” Ele estranhou.
“Porque não é Red Bull. É igual a isso, só vendido com outro nome por um preço consideravelmente menor.” Disse ela, agitando de leve a carteira.
“Certeza de que não é um Red Bull ruim?” ele perguntou, ainda olhando para a lata duvidosa. Alice limitou-se a rir. “Certo, vá fundo.”
Dois passos para fora, ela violou o lacre e tomou um grande gole, enchendo-se de taurina. Havia algo de diferente em Alice. Talvez fosse o fato de ela não ser uma fã fanática como tantas outras, ou o fato de que ela parecia não se importar muito com ele. Era uma companhia, e nada mais ao ponto de vista dela. Bem, isso não era importante. Se não fosse a certeza de que ele não voltaria a vê-la, talvez não estivesse querendo voltar para casa e colocar a gasosa no congelador para tomar em pouco tempo.
“Meh.” Ela suspirou. “Acho melhor eu voltar para casa, antes que dêem por minha falta.” Continuou, dando um passo para trás. “Foi legal conhecer você. A gente se vê.” Sorriu Alice, acenando com dois dedos na testa.
“Você tem celular?” a pergunta saiu sem aviso prévio, num misto de ansiedade e uma ponta de esperança. Ela pediu-lhe o aparelho dele e gravou o contato. “Quer anotar o meu, por via das dúvidas?” Alice contraiu os lábios, passando a mão pela saia, num gesto que dizia que ela estava sem o dela, acenou novamente e traçou seu caminho, subindo a rua.
O garoto checou a agenda, encontrando “Alice RB ruim” e chamou o número. A menina mal atravessara a rua quando ele viu-a tirar algo da bota direita e levar à altura da orelha. “Sim?” soou a voz do outro lado da linha.
Ele sorriu. “Achei que estava sem o celular.” Disse, fazendo-a virar para vê-lo de longe. “Por que não quis meu número?” indagou, tentando manter o sorriso.
“Não achei necessário.” Foi a resposta. “Até mais, Lanza.” ele viu o traço de um sorriso aparecer na face dela antes de desligar e retomar seu rumo. ‘Diferente, no mínimo’, ele pensou, ‘Isso pode ser interessante. ’
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Notas finais
Aliás, sei lá como age o guri, mas foi assim que o personagem se desenvolveu em minha mente.
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