Capitulo XII.



De fato, não houve uma resposta e talvez não houvesse uma. Victor ficou em silencio por um longo momento. E depois, desapareceu no quarto. Na solidão, Kurt se encolheu ao pensar que aquela pergunta fora muito intima. Ao fazê-lo, uma pontada dolorida veio da coxa o lembrando da violência na cama.

Afinal, Dentes-de-Sabre poderia abusar de outro amor.

O coração acabaria em pedaços e talvez, até ele.

E surpreendeu-se ao vê-lo, ainda mais caminhando em sua direção. O estado confuso em que o mutante mais velho se encontrava nunca fora visto antes. E mãos puxaram delicadamente o rosto para um beijo. Longe de ser uma retribuição. Não havia luxuria, apenas paixão intensa, uma nunca experimentada por ambos.

E a partir disso, sentiu que estaria tudo bem.



Do banho demorado a melhor noite de sono, Victor retomou aquela pergunta somente ao começo da tarde. A briga com Wolverine foi um fator relaxante, embora encontrar Kurt todo machucado o abalou mais do que podia imaginar. O lado bom- se tivesse algum – era que Noturno estava “oficialmente” marcado. Então, qualquer outro macho que se aproximasse
com intenção não vista por olhos possessivos ia acabar como presunto no IML.

–Mas... – olhou inacreditável para um Kurt passeando livremente pela sala. -O que?

E Dentes-de-Sabre ia amaldiçoar deus e o inferno. O garoto devia estar na cama, em todo cuidado especial para que o corte não abrisse. Ele saiu apenas alguns minutos para olhar a secretária eletrônica e pegar uma cerveja.

–Eu encontrei ontem – murmurou entre um sorriso de satisfação enquanto esticava a camiseta. E acrescentou baixinho – Quando fui procurar fio e agulha.

E só agora o canadense reparou que o elfo usava as roupas do “primeiro encontro”. Nada mal por sinal.

–Desculpe por isso.- aproximou-se dele, cautelosamente. E deu um olhar de gatinho bonzinho não tão convincente.

Embora Kurt já tivesse perdoado, mas não esquecido.

–Mas eu quero te ver só com minha camisa –cada palavra sussurrada sedutoramente. Depois, falou no melhor tom de seriedade que conseguiu, o que não foi lá grande coisa para intimidá-lo- Na cama, descansando.

As mãos impediram que as garras tirassem o cinto da calça jeans.

–Eu preciso de roupas. – Kurt retomou ao assunto nada discreto.

Seria uma discussão longa.


E passou mais de vinte minutos tentando convencer Dentes-de-Sabre que precisava de roupas. Andar com camisas cobrindo até as coxas- e somente elas- era desconfortável. Mais desconfortável ainda, era explicar os porquês quando estava sentado no colo daquele maníaco sexual que não sabia conter as mãos.

A discussão chegou ao um ponto em que Kurt teve que tomar uma decisão radical antes que começassem uma briga que acabasse em gemidos e o assunto inacabado.

–Sem roupas- cruzou os braços em torno do peito- Sem sexo.

Um riso baixinho esnobe.

–Desde quando é preciso de roupas... – a voz sumiu. Uma expressão curiosa e não ao menos surpresa tomou o lugar do sorriso malicioso. Até que os olhos se contraíram em desagrado — Você não faria
isso.

Kurt pareceu imutável com um olhar desafiador.

–Não se esqueça que eu posso me teleportar.- a cauda balançou refletindo esse desejo. E como Noturno não conseguia permanecer sério por muito tempo com a egoísta fonte de prazer, acrescentou sedutoramente- Além do mais, você nunca saberá o que tem por baixo.

E deu o mais lindo sorriso sacana que Victor já viu.



Pela condição imposta, Victor o levou até o Instituto Xavier, apesar dos mil e um protestos. A verdade, ele pouco ligava em ser visto com o x-man, mas existe uma denominada imagem social a conservar que o garoto insistia tanto. Talvez pela aparência, talvez por ser alguém deliciosamente provocante, Noturno não gostaria de prejudicar a reputação do maior psicopata mutante de Nova Iorque.

O que diriam se Victor Creed fosse visto com um demônio? E por esse motivo, Kurt tentou se exprimir no acento passageiro do conversível vermelho.

Irritando muito Dentes-de-Sabre... Apesar do x-man estar estupidamente bonito todo encolhido na tentativa de não ser visto.

Somente ao se aproximarem dos portões, a cabeça alemã ergueu-se aos poucos. Ambos concordaram que Creed estaria à espera no lado de fora da instalação, assim evitando problemas evidentes.

Vinte minutos. O máximo de tempo antes de Dentes-de-Sabre invadir a Mansão X e posteriormente, em um cômodo particular, invadir as calças do Noturno.

Subiu as escadas, cada passo contendo o nervosismo. Kurt não estava preparado para um interrogatório qualquer. Tantas perguntas pelo desaparecimento o incomodariam, principalmente em torno de em que o Incrível Noturno estaria tão ocupado.

A porta se abriu e um vento amigo lhe deu boas-vindas.

–Pela Deusa!- até mesmo a voz surpresa de Ororo soou como uma música. Um sorriso enorme formou em seus lábios azuis.

E a viu em pleno esplendor. Os cabelos brancos em harmonia com uma brisa aliviada. Os olhos brilhantes tocados pela magoa. Os lábios contendo o sorriso involuntário. E braços vieram em sua direção, o som conhecido das pulseiras tilintando.

O abraçou tão forte. A cauda entrelaçou-se em seus tornozelos, inconscientemente.

–Nunca mais faça isso- disse perto do ouvido. Afastou o rosto até encarar os olhos sem jeito- Você me deixou tão preocupada!

Sentiu-se culpado por isso.

–Estou bem, Ororo.- sorriu despreocupado, feliz em vê-la. Naquele tempo todo, não percebeu a falta que Tempestade fazia. A melhor amiga sempre esteve ao seu lado. Preocupá-la foi uma maldade terrível. – Eu juro.

Ela voltou a apertá-lo. Dessa vez, um sentimento preocupado o envolveu.

Imaginou o sufoco que ela estaria passando. Então conversaram um pouco sobre o momento. Enquanto Ororo relatava poucas coisas, o alemão tentava escolher as palavras certas para dizer, sem detalhes, que estava dormindo com um canadense nada sutil, Victor Creed.

Ela tocou no assunto Vampira, e ele esqueceu-se completamente da frase quase pronta. No e-mail, dizia que a irmã adotiva conheceu um rapaz interessante com um falar provocativo. Ao menos, não jogava cartas. Já Kitty estava aproveitando a viajem, comprando uma enorme
quantidade de roupas e saindo todas as noites.

E há um dia, Scott Summers retornou a escola, a pedidos da esposa. O ex-líder não explicou a vinda repentina, passou a tarde inteira no escritório do professor. Depois, andou bufando até a rajada ótica. Afinal, havia planos para uma nova equipe de X-men. Toda ajuda e experiência dos “originais” sempre foi bem recebida.

Um sorriso brincalhão dela acompanhado por uma pergunta sobre ele.

Noturno engoliu em seco. Bagunçou os cabelos e olhou para o chão.

–... Eu vim para pegar umas coisas e ...

Charles Francis Xavier não deu a oportunidade para explicar. Ele apareceu na entrada principal, com a mesma cadeira de rodas e a manda por cima das pernas. Apenas uma expressão diferente no rosto, não por menos, ameaçadora.

E simplesmente falou:

–Fique a vontade para fazer as malas, Kurt.