Sobre Dores, Sexo E Álcool.

18 Capítulo XVII (Final)


Capitulo XVII.

Anna Marie Raven estava aos pés do que segundos antes foi uma porta. Irritada era pouco. Ela estava puta e disposta a detonar com Creed de todas as formas possíveis. E posteriormente, pedir certas explicações.

E estava acompanhada por Wolverine. Um guarda-costas cheirando a álcool só por uma margem de segurança. Quando se trata daquele individuo em particular, fluindo o descontrole homicida, toda precaução é pouca.

De acordo com Victor, o anão não serviria para muita coisa.

–Creed.- ela o chamou, sem se preocupar em conter a raiva pulsando em seu corpo- Se você o machucou, eu arranco sua cabeça!

Então ela olhou para Kurt e percebeu que ele parecia que estava bem. Ele poderia dizer que estava bem, mas ela não ouviria. Ainda mais em relação aquele maníaco que os X-men tentavam conter. A expressão em seu rosto praticamente dizia para que o irmão nem tentasse conversar com ela.

Ela não queria papo, queria bater. Vampira iria derrubar o lugar. Mas ela começou a gritar, provocar e interromper Kurt em todos os momentos. Os pedidos que ele voltasse para casa eram sinceros e ignorou completamente quando foi lhe dito que não estava cativo ou forçado a isso. Seus punhos não iriam perdoar Creed.

E as vozes exteriores foram silenciadas no mundo de Wolverine. Olhou para Noturno a procura de alguma explicação ou a confirmação do que o professor anunciou a antiga equipe – ao julgar primeiramente, inacreditável.

Inacreditável que Kurt ainda estava vivo e sem um arranhão que não estivesse incluída na relação sexual.

Inacreditável que ele abandonou a família para se juntar a Dentes-de-Sabre. Pegou as coisas e largou o compromisso em defender o mundo na normalidade em que uma pessoa diz “saúde” após outra espirrar.

Ele percebeu o braço levemente na frente de Kurt. Os músculos rígidos e tensos, as garras prontas para qualquer ataque. Uma posição de defesa em resposta involuntária pelo próprio instinto de proteger o companheiro. Tão sutil que se é difícil de ser notada por aqueles que não possuem esse animal primário dentro da alma.

“Cê quis que eu visse tudo o que você tinha... O que eu nunca poderia ter.”

A voz interna de Creed martelava em sua cabeça. As pancadas não eram fortes, mas incomodavam. Fizeram com que se lembrasse da Raposa Prateada e das vezes que a protegeu do mesmo jeito em alguma briga de bar ou na estrada. A mesma posição do braço, longe o bastante para segurar um golpe, perto o suficiente para empurrar o parceiro para trás, evitando que ele se machucasse.

E talvez fosse a primeira vez que via Dentes-de-Sabre não sucumbir à posição de ataque. Aparentemente tranquilo, esperando pela provocação certa. Os olhos atentos em Vampira, para as reações corporais, mas a atenção não estava somente direcionada a ela. No apartamento, havia dois inimigos em potencial e um deles poderia quebrar a defesa.

Mas Logan não iria se meter nessa briga. Sabia que não era mais dele, apesar da própria vontade que se recusava a ficar no canto como observador. Ele perdeu para Dentes-de-Sabre no ultimo encontro, afinal, ele não era o melhor no que faz. Batalhar agora apenas iria trazer mais dor. E, por mais estranho que pareça, ele entendia o motivo da agressividade contida.

A voz ainda soa no fundo da mente, formando um eco.

“Ele não precisa mais de você”

Procurou por um rastro que comprovasse o contrario. Ele precisava disso. Mas o antigo companheiro de bebidas estava envolvido demais em Creed. Só pelo cheiro, pelo comportamento do corpo, pela posição da cauda... Kurt estava feliz na relação.

–Vampira, se acalma.- sussurrou para ela, a segurando pelo ombro. Era difícil de aceitar, mas sabia que não haveria como separar um do outro. Ele chegou tarde demais e mesmo antes, talvez ele não tivesse uma chance.

Entretanto, Logan não a viu retirar a luva.

–Agora não, Wolvie. – Anna Marie o tocou. Foi rápido e doloroso. Sentiu o poder regenerativo percorrer as veias e se tornar temporariamente dela. Reprimiu algumas lembranças e se perguntou quem seria a mulher de aparência nativa. Protegeu as mãos novamente, chega de surpresas.

Guardaria as perguntas para depois. Então, após trazer Noturno de volta ao Instituto, ela teria todo o tempo do mundo. Ela deu um passo em frente, os punhos fechados e vibrando de ódio.

–Adivinha- a voz saiu demorada pelos lábios cobertos de batom, ela o fez para provocar.- Eu não tenho pena de monstros.

Uma risada devagar cheia de maldade. Sabia que Vampira já fora um e amou um. E Logan estava fora da jogada, tonto e com as energias drenadas pelo toque. Então estava tudo bem em quebrar alguns ossos sem uma interrupção desnecessária e baixinha.

Creed iria se divertir um pouco.

–Ei docinho, que tal ter a melhor noite da sua vida?- sedutor e perigoso. Assim como a voz, foram os movimentos
dele ao se afastar de Kurt.

A última coisa que desejava era que ele se machucasse por uma briguinha entre dois mutantes que não sabem se comportar. Caso houvesse um arranhão ou uma marca que ele não deixou na pele azul, não haveria mais Vampira dentro de poucas horas. As garras riram quando ela se lançou sobre ele.

Foi rápido em desviar do ataque. O punho carregado de força e adrenalina estava direcionado para seu rosto e antes que pudesse acertar o alvo, ele girou o corpo e a pegou pelo braço. Aproveitou a velocidade em que Anna Marie estava para lança-la em direção a parede do outro lado.

Agora, ele tinha um buraco que ligava a sala de estar ao quarto. E um grito de raiva vindo dele. Nada que intimidasse o inferno.

Ela apareceu em pleno voo, como um jato em alta velocidade. O pegou de surpresa, Vampira o levantou ao acertar o queixo após socar o peito largo como uma placa de metal. O pegou pelos cabelos loiros e acertou o pescoço com o joelho. Sentiu Dentes-de-Sabre perder o ar e continuaria a bater até que o corpo dele tivesse que se reconstruir. Depositou uma série de socos e chutes constantes até que precisou tomar fôlego.

Reprimiu um grito de dor ao sentir as garras rasgando a pele e o uniforme, descendo abaixo dos seios até o umbigo. O sangue quente descia pelo corpo trazendo uma sensação desconfortante de repulsão enquanto os tecidos se refaziam. A dor desaparecia a medida que a raiva voltada
em suas veias.

Ela se afastou segurando o abdômen. Precisava de alguns segundos longe daquele maníaco para avaliar bem a situação e talvez pensar em algum plano. Se precipitou em incapacitar Wolverine, uma ajuda agora seria de bom grado.

Pois... Dentes-de-Sabre estava mais resistente. Ele suportou bem os impactos na cabeça, a força utilizada iria deixá-lo pelo menos tonto. E esse resultado não se concretizou.

Ela se arrepiou ao ouvir uma risada mais profunda.

–Ficou bravinha ou se acha o macho?- o sorriso no rosto de um perfeito assassino insano.

E viu o próprio sangue escorrendo entre as garras. Pingava no chão conforme ele se movia lentamente, sem se aproximar ou se afastar. Rodeando a vitima como um predador instintivo e sádico.

Ele também estava mais veloz. Com um impulso, chegou até ela antes que o reflexo pudesse a proteger. Creed a socou na região estomacal sem conter a força e adorou cada barulho de ossos rangendo e um gemido de dor. Ela atingiu as garrafas de bebidas e se banhou com a maioria. O cheiro mesclado de todos os tipos de álcool a deixaram tonta e confundiram seus sentidos. Por poucos segundos, ela não sabia o que estava acontecendo mais.

E foi empurrada contra a parede. As costas se chocaram acompanhadas por um estrondo. A dor percorreu toda a pele, rastejando lentamente por cada poro. A respiração dele bateu contra o rosto e teve vontade de cuspir em resposta.

–O que, você acha que ele não quis? –apertou o pescoço. Sobre os dedos, sentiu a falta de ar dela- Todos aqueles gemidos implorando por mais...

Aquilo bastou. Ela o chutou para longe. As garras arranharam a pele. A versão de sua historia, e na qual acreditava, era Kurt como vitima de ameaças e abusos sexuais. Apesar das palavras calmas ditas antes que ela partisse para ignorância, a versão que escolheu como verdadeira era melhor.

Noturno namorou a dona do Limbo, mas jamais permaneceria por vontade própria com um inimigo tão cruel e que representava tudo o que os X-men combatiam. Além disso, essa possibilidade a insultava.

Ela precisava de uma distração. Pegou a mesa de vidro próxima a ela e jogou contra a direção de Dentes-de-Sabre.

De longe, Kurt acompanhava a luta. No fundo, não desejava que houvesse um vencedor. Ele não conseguia decidir entre a irmã adotiva e o suposto amor de sua vida. Aquela luta acontecia de uma maneira que interrompê-la seria impossível, causaria mais dano quando na verdade, a intenção era o oposto. E, bem, pessoalmente estava irritado pela intolerância da própria família.

No momento, o desejo que a luta acabasse não fazia parte dele. Fosse por Vampira, fosse por Victor. Em determinado segundo, uma mesa entrou na batalha e soube na hora que alguém iria se cortar. Sumiu em uma nuvem roxa de enxofre.

Reapareceu com uma margem de segurança perfeita para o salvamento de civis. O segurou pelos ombros e o cheiro familiar de charutos trouxe boas lembranças. Imaginou a cozinha, o lugar mais calmo e distante dos acessos de raiva de Vampira e Creed. E se teleportou em poucos segundos.

O carregar como passageiro sempre trazia um pouco de tontura pelo peso dos ossos. O encostou contra o armário, ouvindo resmungos tão conhecidos que provocaram um sorriso pequeno. E o olhou bem, se surpreendendo no final.

Wolverine parecia muito mais velho e cansado desde a última vez que o viu. Talvez esse cansaço fosse o motivo estressante que o impedia de se restaurar. Se o conhecia bem, se passaram varias noites sem dormir e quando dormia, algum pesadelo o assombrava. Pelo lado bom, Logan já estava recobrando a consciência.

Veio a sensação que se passaram anos sem se verem. Sentiu um aperto no coração. A amizade e o companheirismo que um tinha pelo outro nunca mais seria a mesma. Esse laço especial com Logan fora a melhor coisa que acontecera antes de Victor.

Mas não abandonaria o fator de felicidade para viver outro erro.

Ouviu apenas uma mistura de sons. Um ultimo estrondo e Vampira estava com o rosto no chão. O uniforme em pedaços, a pele com manchas de sangue e a aparência de um animal abatido. Ao vê-la, difícil era permanecer impessoal com todos os sentimentos familiares à tona.

Ela nem precisava ceder a esse trabalho. Todos sabiam que a luta acabara. Mas Anna Marie era teimosa pra cacete. Tal mãe, tal filha.

–Ele faz o que ninguém fez pra você, Vamp.- o tom se suavizou, soou quase humano. E nela, havia nenhuma mentira ao dizer- Ele acalma meus demônios.

Vampira reuniu forças para se levantar. Sentia-se humilhada. Os braços exaustos fraquejavam ao ponto de encontrar dificuldades em se apoiar nos joelhos. O álcool fez com que alguns fios do cabelo grudassem em seu rosto. Sentiu o gosto de sangue e uísque nos lábios. A perda e a dor se encontravam nessa mistura amarga.

O fator de cura se esgotou há poucos minutos e ela sentia a ardência em cortes rasos em que a regeneração não fora completa. Mesmo tendo um corpo resistente, nas lutas contra Dentes-de-Sabre, sempre sofria alguns estragos. Talvez nessa, fosse pra valer.

Ela o viu se aproximar. O sorriso sádico de um animal sedento por sangue e diversão. Ela sentiu um pouco de medo. E tentou se recompor para, pelo menos, evitar outro golpe critico. Ela não gostaria de sair daquele inferno jorrando litros de sangue.

Sentiu a vibração aumentando conforme Dentes-de-Sabre se aproximava. Ela conseguiu sustentar o peso do corpo nos joelhos e o próximo esforço seria de se manter em pé. Uma questão de minutos insuficientes até ser alcançada.

Houve o improvável, entretanto.

Com a respiração pesada e lenta, Creed parou.

A fúria inesgotável de Dentes-de-Sabre estava sendo domada por Kurt. Ele o segurava com a palma da mão contra o peito, sem o mínimo esforço. A cabeça virada para o lado, mal enxergando os antigos colegas de equipe. A mudança corporal de Victor foi notada plenamente, as poucos os músculos se relaxavam e o rosto abandonava a selvageria e brutalidade.

E Wolverine estava horrorizado com a cena.

–Kurt...- finalmente disse algo. Soou como um derrotado sem esperanças. Ele permaneceu calado por faltar palavras adequadas para se dirigir ao elfo. E não sabia mais se poderia ainda o chamar por esse apelido.

Noturno não teve chance para uma única palavra, apesar de tudo.

–Vem, Logan.- Vampira cortou o momento, a voz dura, fria e impregnada de rejeição- Parece que o Kurt deixou de ser um de nós.- Apesar de mancando, ela o puxou pelo braço, praticamente o arrastando para fora do apartamento destruído.

A partir daquele momento, não havia mais irmão adotivo para Vampira.

Uma ultima troca de olhares.

Eles se conheciam o bastante para que as palavras fossem desnecessárias. Logan conhecia aquele olhar e entendia o que Kurt estava fazendo com Dentes-de-Sabre. A dor martelava seu coração cada vez mais forte. Ele concordou de leve com a cabeça, em uma aceitação forçada.

Então, tudo voltou ao silencio. Em meio da destruição do que antes Kurt chamou de lar. Ao longe, era possível ouvir as sirenes que se aproximavam. Eles teriam o inferno para explicar o que houve, caso alguém insistir. E não era a maior preocupação no momento para Victor.

Virou-se para Kurt, sabia que o amante quebraria a qualquer momento. O abraçou apertado, um braço envolvendo a cintura e o outro por cima dos ombros, os dedos acariciando o couro cabeludo. O sujou um pouco com sangue ainda fresco de sua pele. Esforçava-se para trazer alivio ao companheiro, algum conforto mesmo que seja mínimo. Para que soubesse que não estava sozinho e nunca mais estaria.

Escutou um sussurrar baixinho:

–O que acontece agora?- a voz tremula batendo contra o peito, os seis dedos apertando ainda mais suas costas.

Victor se inclinou para trás. O encarou sentindo toda a dor, tristeza e sofrimento daquele coração puro. O ar fora retirado de seus pulmões.

Beijou com ternura a testa de Kurt.

“Eu não sei.”



“E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
[...]
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante”
–Vinicius de Moraes, Soneto da Separação.



Sobre dores, sexo e álcool.

Notas finais
Meus agradecimentos especiais a Aislyn, Boozinha Luthor, Kaline Bogard, Moritzan, Scarlett, e as novas leitoras, Andhy e Cherry di Angelo Melark Horan (minhas sinceras desculpas por terminar logo agora a fanfic). Os comentários e o apoio de cada uma de vocês foi o fator vital para Sobre dores, sexo e álcool. Foi o que me impulsionou a atualizá-la, embora todos os contratempos.
Ela finalmente chegou ao fim e sou grata por ter conhecido cada uma de vocês.
Sentirei saudades.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!