Sob o olhar do gelo
1 Entre o gelo e o coração
Notas iniciais
A neve caía fina sobre a cidade, transformando cada telhado em um traço branco e silencioso. Era início da noite quando Vasiliça, enrolada em seu casaco de lã azul-marinho, atravessou a praça em direção à pista de gelo que só abria no inverno. As luzes penduradas em fios altos criavam um brilho dourado sobre o gelo, como estrelas caídas do céu.
Ela havia passado o dia inteiro restaurando ícones antigos num pequeno ateliê próximo dali. Estava cansada, mas algo dentro dela sempre a puxava para a pista quando o mundo esfriava — talvez fosse nostalgia, talvez fosse querer sentir que ainda podia voar.
E foi ali que ela o viu.
Maxim.
O patinador profissional que todos admiravam, mas que poucos realmente conheciam. Ele treinava sozinho, traçando movimentos precisos, quase poéticos. O corpo dele se movia com força e suavidade ao mesmo tempo, como se o gelo fosse parte dele. Cada giro parecia um suspiro que a noite prendia para observar.
Vasilisa ficou olhando, sem perceber que sorria.
Quando Maxim finalizou uma sequência, deslizou até a borda — bem onde ela estava.
— Você sempre observa de longe, — ele disse, com aquele leve sotaque que deixava tudo mais suave.
— Nunca pensa em entrar?
Vasilisa corou levemente.
— Eu não patino como você…
— Ninguém patina como eu, — ele respondeu com uma piscadinha suave, — mas isso não é motivo para não tentar.
Ele estendeu a mão para ela.
E o mundo ficou pequeno o suficiente para caber entre os dois.
Relutante e encantada, Vasilisa aceitou. Maxim a conduziu para a pista. O toque dele era firme e quente contra seus dedos frios.
— Confie nos seus pés, — ele disse, posicionando-se atrás dela, — e confie em mim.
Quando ela deslizou pela primeira vez, o coração acelerou. O equilíbrio vacilou e Vasilisa quase caiu, mas Maxim a segurou pela cintura, aproximando os dois de um jeito que tirou o ar dela.
— Eu te disse que não deixaria você cair.
O rosto dele estava tão perto que ela podia ver pequenos cristais de neve presos em seus cílios. O mundo inteiro derreteu um pouco naquele instante.
Maxim guiou os passos dela com paciência.
Devagar…
mais devagar…
até que o gelo começou a obedecer.
— Você faz parecer fácil — ela murmurou.
— É porque eu estou com você, — ele respondeu, sem hesitar.
Eles patinaram em círculos lentos, seus corpos sincronizados sem esforço. O silêncio entre eles não pesava — era confortável, íntimo, cheio de algo que ainda não tinha nome.
Quando Vasilisa finalmente se arriscou a olhar nos olhos dele, Maxim já estava olhando para ela.
E então, com a neve caindo ao redor como um véu brilhante, ele a puxou com delicadeza para mais perto, segurando-a pela cintura.
— Vasilisa… — ele sussurrou.
— Desde que te vi pela primeira vez, eu soube que você tinha algo que o gelo entende. Algo raro. Algo que eu quero por perto.
Ela sorriu, tímida.
— E o que é isso?
Maxim inclinou o rosto, a voz baixando como se confessasse um segredo ao inverno.
— Você me dá paz. E a paz… é o que faz alguém dançar melhor.
Antes que ela pudesse responder, ele deslizou a mão até a dela, entrelaçando os dedos.
E ali, no meio da pista iluminada, com a cidade dormindo ao redor, Maxim inclinou-se e a beijou — um beijo lento, gentil, que aquecia mais do que qualquer fogo.
O gelo sob seus pés parecia deslizar sozinho.
A noite parecia respirar fundo.
E os dois… pareciam feitos um para o outro desde o primeiro instante.
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