Sob o olhar das feras
9 Capítulo 9 - O espetáculo imolado
Soava sete baladas, o final da missa foi anunciado com a cantoria final e o pessoal saindo para a procissão. Saiu um coroinha carregando um bastão com um crucifixo na ponta, tudo dourado, seguido por outros dois com velas enormes acesas, o padre em seguida e os fiéis atrás, além de um seminarista, o novo padre decidiu revelar o noviço que Afonso se esforçou tanto para esconder.
—O primeiro ataque dos lobos parte do clero vai sumir, fique vendo. – Era a voz de Daniel para a esposa. Eles se abrigavam na delegacia, encarando toda a festa do lado de dentro enquanto mantinham Floriano atrás das grades. Era um dos braços direito do prefeito, que se viu perdido com a ausência do companheiro. Para piorar a situação, segundo o Xerife, eles não imaginavam que pessoas tão próximas poderiam ser os monstros, então descartavam possíveis investigações.
—Ainda bem que eu fiz meu trabalho. Se não, hoje seria muito pior porque não saberíamos nem metade do que acontece.
—Por quanto tempo vocês me manterão aqui? – A voz do preso era de cansaço. – Acham mesmo que um a menos fará diferença? O caos está plantado, a festa terminará em velório.
—Floriano, você sabe que qualquer coisa do que falar não o fará aparentar um vilão, mas um bocó com frases prontas de livros de ficção. – Soraia se abaixou para falar com ele, pois nem se esforçava para tirar o corpo do chão. – Além do mais, ainda não fizemos o seu jantar. Se não quiser sobreviver com legumes congelados, eu sugiro que fique em silencio e colabore conosco.
—Querida, uma coisa não falamos com os demais, não faz tanto tempo que começaram os ataques à aldeia. Como o Patriarca transformou os dez amaldiçoados tão rápido?
—Falei com Matias, ninguém sabe. O inverno começou há tempos, pensamos que os ataques começaram mais cedo, ainda mais que muito dos descendentes eram homens e caçadores, principalmente Batista, os filhos do Jorge e Pedro. Provavelmente, atacados durante os trabalhos. Já Floriano e Cícero, foi a primeira noite, ambos saíram da casa do prefeito tarde da noite. Os coroinhas estavam com Afonso quando a Igreja foi incendiada e o Patriarca foi visto nos telhados do prédio.
—Foi tudo pensado... Vamos aguardar, a festa já vai começar.
A cantoria do lado de fora revelava o término da procissão, a fogueira foi acesa. O pouco que sobreviveu de leitões, frangos ou bovinos foram abatidos para aquela festa. Emanuele via a sua mãe próxima do novo pároco, com olhar superior sobre os demais, ela estava mais luxuosa do que antes.
—Está estranho, minha mãe sempre bajulou Afonso, mas nunca se eleganteou desse jeito com as roupas.
—Ela entregou Olga à forca. Nem imaginamos o que se passa naquela cabeça.
—Além de um enorme vazio, não faço ideia. – Nisso, o coral da Igreja começou a tocar músicas mais alegres e uns começaram a dançar ao redor da fogueira. – Para quem critica as atitudes das "bruxas", isso está parecendo o que eles mais menosprezam.
Como era esperado, uivos ao fundo eram ecoados pelo vento. Contudo, a cantoria e a bebedeira das pessoas impediram que fossem percebidos. Eles não viram nada, mas os homens de Sampaio viram ao fundo: dois lobos viam correndo por cima dos telhados, que cediam e caiam com o peso de suas patadas. Eles deram um sinal ao Xerife, cuja presença na festa era necessária e ao lado do padre estava.
—Sampaio, algum problema? – Perguntou o Prefeito.
—Meus homens me chamaram, viram algo estranho, retorno em breve. – Ele recebeu um olhar de desconfiança do gestor.
No entanto, não conseguiu sair do lugar, um enorme círculo de fogo surgiu no perímetro da praça. Gritos e correria começaram, aquilo era obra do piromaníaco. Ele olhou para Emanuele e Matheus, os quais corriam rua abaixo em direção ao pandemônio que se formou. Daniel estava na delegacia, Soraia veio na direção do Xerife.
—Floriano está se transformando. – A audição do Prefeito captou aquilo.
—Floriano não é um deles, libertem o homem! – Um forte estrondo veio do pequeno cubículo, o tiro veio da delegacia. Daniel saiu ensanguentado, desmaiou imediatamente, o disparo adveio do novo revólver do homem. A garganta do homem estava aberta, um rio de sangue escorria.
—Daniel! – A esposa desabou sobre o corpo do marido falecido. – Não, meu amor, não! – Lágrimas despencavam sobre o rosto desfigurado do homem. Sampaio surgiu de dentro da delegacia.
—Floriano está morto, ele destruiu as grades e atacou Daniel, o homem conseguiu aniquilar o monstro... Soraia... Eu sinto muito...
Entretanto, a calmaria estava longe de ressurgir. Os dois lobisomens estavam imponentes no telhado da Igreja, seus uivos ecoaram pelo terreno todo. Como era o esperado, os últimos quatro surgiram. O Padre estava ao lado de seus coroinhas quando esses começaram a se transformar, uma enorme marca de presa surgia na testa, simbolizando a possessão de ira que caía sobre seus ombros. Cícero, um dos musicistas da banda, transformou-se também, o símbolo de uma garra surgiu em sua fronte, como marca de uma pata, sinal do Guerreiro.
Eles uivaram juntos. Os aldeões mais corajosos ultrapassavam o círculo de chamas, porém seus corpos acendiam em labaredas. Aqueles que permaneceram para trás, encolhiam-se perto das paredes, era inútil, os ataques começaram. As enormes feras de pelagem preta e presas amareladas avançavam nas pessoas. Os homens do Xerife sacavam seus revólveres e atiravam, nada os impedia.
—É a Lua Cheia. – Emanuele surgiu junto de Matheus e Matias. – Ela dá mais força aos lobos.
—Vão até a delegacia, peguem o que acharem de armamentos, precisaremos da ajuda de todos. – Nisso, uma navalha voou de cima de uma das casas e acertou a fronte do único sem uma marca no rosto. A figura miúda, mas forte, estava suntuosa ali, com uma roupa cinza e rosto coberto. – O assassino!
Apesar de cambalear no início, o lobo não parou. Simplesmente seus olhos esverdearam e sua fúria disparou em direção de seu alvo. Seu pulo foi intenso e forte, o uivo veio em seguida de sangue, sua bocarra perfurou o rosto do assassino. Ambos caíram no chão, estáticos e mortos.
—Esse era o filhote, levaria aquele que o tentou matar. – Enquanto iam até a delegacia pegar o que sobrou no arsenal, Soraia foi averiguar quem eram os dois. O filhote era Clara, a última filha de Cristina, a mais nova dos amaldiçoados. O assassino, infelizmente, teve o rosto desfigurado, não saberiam quem era tão cedo.
Vários disparos iniciaram das janelas das casas na tentativa de barrar os lobisomens. Entretanto, nada os obstruía, mais e mais corpos eram jogados no chão pela fúria dos demônios que o Padre tanto incriminou.
Matheus, Emanuele e Matias surgiram de dentro da delegacia com facões, nenhuma utilidade teria a uma distância grande, somente combate corpo-a-corpo. Teriam que colocar a coragem para fora e iniciar o combate. Os lobos viram os novos combatentes e os encararam com calma, como se rissem. Mesmo assim, seus olhos brilhavam fúria.
Tudo queimava, casas caíam, pessoas tremiam de medo ou de tristeza em cima de seus conhecidos mortos, muitos mutilados pela fúria dos lobisomens. Emanuele tinha uma visão periférica ótima e via tudo aquilo com tristeza no olhar, por que eles fariam aquilo? O que acendia aquela fúria no olhar daquelas criaturas? Eram humanos, apesar de tudo. Todavia, um sentimento de cólera agigantava na alma deles.
—Sei o que está pensando. – Era a voz do Patriarca. Embora conhecesse a criatura e quem era por trás daquela maldição, a voz mais grave a impedia de o reconhecer. – Por que fazemos isso? É um castigo, sabe o motivo, nossos ancestrais sofreram demais. Nós, os licantropos, fomos abusados pelos homens, como lutadores, guerreiros, mas sempre vistos como inferiores, seres malditos perante Deus.
Enquanto os quatro tomavam as suas costas para proteção, o Patriarca avançava, com lentidão e serenidade. Sua pelagem começou a ruir, em humano ele se transformava. Muitos dali sabiam quem era o homem que surgia, a surpresa, ainda assim, foi geral. A figura de Sebastião, pai de Emanuele, assustou todos, menos a filha, que tinha lágrimas nos olhos, de tristeza e raiva.
Fale com o autor