Sob o olhar das feras

8 Capítulo 8 - O reinado do terror


Aquilo era esperado, a reação de Emanuele foi se sentar no chão, perto do corpo do irmão, e chorar sem parar. Era pior que um pesadelo, pois ocorreu na realidade. O medo tomou conta de seu interior, sua mente bagunçada parecia causar uma revolução em seus pensamentos, as palavras não se ordenavam, eram lembranças explodindo porque não conseguia racionar direito.

O que sua mãe pensaria? Ter um filho morto? Pior, ela nem ninguém imaginaria que ele era um lobisomem, porque a única testemunha era Sampaio que desapareceu com o filho no colo para a casa de Jorge na esperança do médico conseguir salvar o garoto.

Quando todos retornaram e se depararam com o corpo de Tadeu no chão, com um tiro na lateral do crânio, imaginaram o que ocorreu. Além disso, ainda marcava em sua testa um símbolo amarelado, mas já sem forma alguma. Ninguém conseguia digerir que aquilo acontecia.

—César, conte tudo. – Resmungou Matias.

—Ela pegou um diário, começou a ler e se deparou que os videntes não conseguem sentir a presença do mal que veio pelo sangue. Ou seja, se algum familiar dela fosse lobisomem, ela não saberia identificar. Logo, percebemos que o pai e o irmão dela era, mas a idade do pai dela não batia com o Ano de Gelo, então ele é o Patriarca. Nisso, o Mago estava nos bisbilhotando, partimos atrás dele e conseguimos matar. Não deixamos o corpo lá fora porque o Xerife viu, tentou matar o monstro, mas acertou o próprio filho.

—Eu usei um dos elixires de Olga para salvar a criança, ela não merecia morrer. Na verdade, aquilo poderia causar uma revolta em Sampaio e nos entregar, além de que a morte de meu irmão pode causar o aprisionamento ou a execução minha, da minha mãe e do meu pai. Claro, meu pai é o Patriarca, então seria a nosso favor. Porém, o que impediria de mim e da minha mãe irmos para o mesmo barco?

—Ela está certa. – Pensou Daniel. – Ele ficará em dívida com você por ter salvado o pequeno. Contudo, ele pode se mancomunar com o novo Padre e os levar à forca.

—É uma hipótese, mas teremos que esperar para ver. – Emanuele pegou o diário que deixou no chão. Outro papel caiu, só que esse aparentava ser mais novo. – É um bilhete de Olga.

"Pessoal, não tive tempo de falar, mas achei esse diário no meio de uma investigação minha na Igreja. Acho que será útil. Foi escrito pelo bisavô do novo Padre, que é sobrinho de Afonso. Tomem cuidado com o padreco, ele é cruel e possui veneno em seu próprio sangue, faz o que tem em mente sem pensar se terá consequências graves ou não. Ouvi dizer que ele está recebendo informações de Gertrudes, a mulher está entregando todo mundo que não segue os comandos clericais."

—Cada instante que passa, quero pegar minha mãe e dar ela de brinde aos lobos. – O rosto da garota avermelhou. – Será que ela não pode ficar rezando o rosário o dia todo ao invés de atrapalhar?

—Bom, em briga de família é melhor a gente nem se intrometer. – Matheus andava de um lado para o outro. – Ainda restam sete deles e não imaginamos quem são os outros seis. Claro, talvez os desestabilizemos se Sebastião for eliminado, mas não sabemos onde ele está.

—Com a morte do filho, certeza que ele não aparecerá tão cedo. – Alguém bateu na porta, era Soraia pelo reflexo do vidro.

—Pessoal, fechem as janelas, tenho informações. – Ela parecia exausta, tinha suor escorrendo pelo seu rosto redondo e avermelhado. – Ah, eu trouxe biscoitos de mel. Comam enquanto digo tudo.

—Alguém quer chá?

—Eu quero é comida, na verdade.

—Faz quanto tempo que passou do almoço?

—E vocês estão pensando realmente no almoço? Com tudo isso acontecendo?

—Somos humanos, não podemos fazer nada se nossos estômagos roncam de fome.

—Bem, não tem nada aqui, faz tempo que não vou na horta ou no viveiro, nem tenho como comprar.

—Pessoal, por favor, Soraia quer falar. – Ela encarava o corpo no chão. Parecia assustada, nunca tinha visto um em sua frente que não estivesse sem vida.

—Bem... É... Andei vasculhando na Igreja, fiz até amizade com o Padre novo, sobre as certidões de nascimento de quem completa vinte anos por esse tempo ou nesse ano mesmo. César, você tem uma irmã que faz aniversário no fim do ano, não é?

—Sim, a Clara... Ela desapareceu desde a morte de Pedro, será que ela pode ser um deles?

—Eu suspeito, porque ela foi a última a nascer do ano e sua mãe não lembra quem é o pai, apenas se recorda de que era um homem casado.

—Com meu pai traindo desse jeito, não duvido nada. Ela então é o filhote, ou a filhote nesse caso.

—Sim, ela é literalmente a última a nascer naquele ano. – Eles tomaram uma pausa para beber um pouco de chá. – Além delas, tem dois garotos da rua que são lobisomens também. Eu os já vi transformados durante o dia.

—Devem ser dois guerreiros.

—Imaginei, Floriano e Cícero, são amigos desde a infância, as mães são beatas e moravam umas três casas abaixo da minha. Também tem mais três, mas eles não tinham uma certidão normal, a folha era toda avermelhada, parecia que informavam alguma coisa. – Ela pegou um papel e leu. – Eles são o Pascoal, a Lurdes e a Dalila.

—Pascoal não pode consumir açúcar, ele passa mal sempre quando come demais nas quermesses.

—Eu sei qual é a doença, mas não lembro o nome. E eu sei que é crônica.

—Então os três são possuídos... Misericórdia, vai ser um caos a noite em que estiverem revoltados.

—No diário está dizendo que eles ficam mais raivosos em noite de Lua Cheia.

—Que por sinal, é hoje à noite. – Aquilo pôs medo em todos. Era o dia do padroeiro da cidade, o centro estará numa movimentação enorme, principalmente após a missa em que o novo padre tomará a posse e haverá uma festa. – Acho que ou colocamos um final nisso, ou eles vão pôr um final na gente.

—Pessoal, um detalhe está me intrigando. – Emanuele sentou-se na poltrona e todos a encaravam. – Pedro e Clara são irmãos, ambos lobisomens, mas como nasceram no mesmo ano?

—Eles nasceram no mesmo ano, Clara foi quase na virada do ano, assim como meu irmão nasceu bem no início do ano. E, claro, tenho minha irmãzinha, tem menos de 10 anos.

—Impressionante que uma mulher conseguiu dar à luz dos filhos no mesmo ano. – Resmungou Soraia. – O corpo não costuma aguentar. – Todos se entreolharam, mas ninguém disse mais nada.

A reunião não foi encerrada, mas Emanuele saiu. O corpo de seu irmão foi colocado do lado de fora com todo o cuidado que conseguiram ter. Precisa ir atrás de Sampaio, ele saberia o que fazer. Provavelmente entregaria Tadeu como monstro, sua mãe entraria em colapso, certeza que a denunciaria como fizera com Olga, não havia amor no coração daquela mulher quando os filhos adentravam em um lado que ela via como demoníaco.

Enquanto caminhava pelas pequenas ruelas cobertas de neve, ela via o pessoal conversando e rindo, todos pensando como a festa daquela noite seria uma paz. A presença dos monstros e dos ataques parecia nada para eles, o que aconteceu para aquela paz reinar repentinamente? A casa de Jorge, a que ele usava como local para cuidar dos feridos, estava lotada, havia muitos ali, principalmente com o Xerife bravejando para que todos saíssem.

—O que aconteceu? – Ela perguntou, alguns aldeões a ignoraram, menos um.

—Parece que alguém deu um tiro no filho do Xerife, mas uma boa alma o salvou, ele disse que foi um anjo.

—Se um anjo veio visitar o Xerife, é sinal que o castigo sobre a nossa aldeia foi revogado. – Isso explicava a calmaria súbita.

—Acho que deviam ouvir o homem, vão às suas casas, a festa de hoje não será realizada com todo mundo parado aqui. – A população dispersou com certa velocidade, alguns evitavam se aproximar da garota. Sampaio saiu, viu a menina e a chamou.

—Preciso falar com você. – Ambos adentraram a casa. Jorge cuidava do pequeno, retirando a bala e tentando parar o ferimento. – O que você deu a ele? – Ela sabia que o homem não a ignorara, imaginou que seu irmão morto no chão também foi avistado.

—Jorge, o que eu faço? – Ele não falou nada claro, um resmungo. Valeria a pena contar tudo e conseguir um aliado? Ou seria apenas um passe para mais um inimigo? Dali, poderiam o chamar de louco, então contou tudo, não revelou nomes, não revelou aliados, apenas o essencial para compreender toda a situação pela qual passavam. – Isso é tudo. – Ele demorou para reagir, parecia estagnado no ar. Na mente de Emanuele, ele poderia agir de todas as formas possíveis, principalmente entregando-a ao padre e a condenando à forca ou à fogueira.

—Então, o seu irmão é um lobisomem... Não estou enganado... – Ele falava consigo mesmo, parecia ignorar completamente os dois que ali presenciavam tudo. – Ainda faltam sete deles vivos... Estou... Sem chão... – Ele quase desmaiou. A garota o segurou e o fez sentar em uma poltrona que ali perto havia. – Nunca fiquei tão sem ideia de como prosseguir. E matamos uma aliada na forca, coitada da Olga. Fico ainda pior porque eu abstive o meu voto.

—Como assim? – Fora Jorge que ficou intrigado.

—O Conselho da Cidade, somos nós que decidimos as sentenças: o Padre, o Prefeito e eu. Apesar de eu ter anulado o voto, os outros dois foram a favor da sentença, então era impossível reverter a situação. – Ele se calou, tinha lágrimas nos olhos. – Olga ajudou muito meu filho quando ele ficou doente uma vez e ajudou novamente, mesmo depois de morta. Aquela mulher era um anjo, que deixou discípulos para seguir o seu legado.

—Bom, é o famoso ditado: não adianta chorar pelo leite derramado. – A voz de Jorge era impassível. O sofrimento pela sentença de Olga pode ter sido pouco, ao menos por fora, visto que por dentro ele chorava sem parar com a morte de uma das mães que ele teve na vida, a vizinha que sempre cuidou dele quando a mãe não podia. – Precisamos lutar juntos. Hoje à noite pode ser o fim dessa vila, ainda mais com a possibilidade de três serem tão cruéis como esperamos. Manu, fale com os demais, precisamos elaborar um plano de ataque e defesa. Xerife, mantenha-nos informado quanto às decisões de tal Conselho.

A noite caiu rapidamente, sabiam que qualquer coisa poderia advir daquele céu estrelado, sem nuvens e com uma lua cheia amarela ainda maior do que se lembravam. As pessoas se reuniam na Igreja, a missa do padroeiro era extensa, começara às três da tarde, previsão para se encerrar com uma leve procissão às sete, momento em que a fogueira seria acesa.

Em algumas casas, os homens de confiança de Sampaio se posicionavam. Emanuele, Matias e Matheus conferiram todos, confiança era o núcleo daquela missão. Daniel e Soraia estavam na delegacia, a prisão de Floriano se realizou de última hora, manter um a menos à solta seria o suficiente para desequilibrar os demais.

—Matheus, ainda tenho medo. Não identificamos nem o assassino, muito menos o incendiário.

—Eles vão aparecer essa noite, isso é certeza. Aquela ideia da fogueira ainda está muito estranha, nunca fizeram isso no dia do padroeiro, por que esse ano vai ser diferente?

—Acha que é alguém que trabalha na Igreja?

—Os três possuídos são coroinhas, eles estão servindo hoje.

—Mas faz mais de três horas que a missa começou, o sofrimento deles deve ser demais.

—Sim, como aguentam, não sei, ainda mais com a benção de água benta que ocorrerá hoje. – Elesvestavam perto da praça, em um ponto mais alto que viam tudo, mas ninguém poderia os ver. – Escute, a missa já acabou. Esperemos, pois o terror está para começar.