Sob o olhar das feras

10 Capítulo 10 - O fim de um ciclo...


—Pai... – O olhar de Emanuele caiu sobre seu pai, havia lágrimas de raiva misturadas com as de tristeza. Um tsunami de informações em sua mente causava uma tontura enorme, estava frente a frente com um lobisomem, o Patriarca, aquele que comanda todos.

—Filha... – A voz grave de Sebastião estava mais reconhecível. Ele tinha enormes arranhões em seu corpo e em seu rosto. Os cabelos estavam mais escuros do castanho que era antes, os olhos permaneceram com a coloração avermelhada de sangue.

O arredor queimava, muitos estavam mortos, outros feridos. As chamas dançavam ao redor deles, o suor de todos causado pela luta pela sobrevivência escorria por suas testas, têmporas e rostos.

—Por quê? – A voz raivosa de Emanuele estava rouca, mas sua vontade era de exalar aquele grito a fim de que ecoasse pelo silêncio da noite. – Por que toda essa destruição? Apenas um castigo por um passado aos lobisomens?

—O instinto dos lobo-homens é incerto, alguns conseguem seu controle em pouco tempo, outros mantem o olhar em fúria de forma inabalável. Os Possuídos, como são chamados, conhecem a essência de sua ira, de sua revolta, portanto preferem exaltá-la de forma brutal, como você mesma pode presenciar. – Eles andavam de um lado para o outro, desenhando um círculo no chão. Todos assistiam àquela cena, muitos perplexos, outros indignados. – O Mago, por exemplo, controla sua natureza, tanto que ele foi pego enquanto vasculhava a vila pela manhã.

—Isso precisa parar!

—Acha mesmo que meus lobos vão sair daqui sem mais um banquete? – O olhar famintos que os lobisomens expunham em seus semblantes era assustador, as presas escorriam sangue e os olhos imploravam pela matança.

—Essa luta é nossa, deixe a vila fora disso!

—Manu, ele não vai escutar... – Matheus tentava dialogar atrás dela. – É inútil esse atraso.

—Deixe que o Xerife e seus homens recolham os corpos dos sobreviventes, eles serão tratados!

—Ah, então vocês possuem um médico agora? – Ele mirou sua visão à cabana de Jorge. – O farmacêutico decidiu agir contra a natureza dos filhos.

—Você pode tornar a atacar! – Sebastião se assustou com a proposta da filha. – Só que terá de me matar antes! – Ela ergueu aquele facão. Imaginava uma luta injusta diante de seus olhos, os moradores sabiam disso, os demais da alcateia também. – Apenas eu e você, sem nenhuma interferência do Xerife, dos Possuídos, nem de ninguém!

—Ela está louca? Mathias, a menina não terá chance nenhuma. – Soraia não abandonou o corpo do marido, porém sentia por todos, sabia que nada revolveria permanecer ali. Entretanto, era absurdo o que Emanuele oferecia.

—Acha mesmo que uma mundana terá sorte contra um Patriarca? Minha força é o dobro de um lobo comum! – Ela posicionou o facão ao lado do corpo, revelando sua persistência no desafio. – Bom, acho que podemos começar? – Ele gritou para a lua, que se tornou um uivo com os pelos nascendo em seu corpo, os dentes afunilando para uma bocarra afiada. Enfim, ele avançou.

O corpo miúdo da jovem é veloz, esquivou-se para o lado e, com um chute, acertou a pata dele. Sem danos, ele virou e mordeu o pé de Emanuele, a dor latejou pelo corpo todo como um raio que atinge o solo. Uma força veio de seu interior e, rotacionando o troco, chutou com o outro pé. Um olho foi atingido, em cheio, e sangue escorria como lágrimas.

Enfurecido, percorreu o terreno com a menina presa em sua mandíbula, fazendo-a bater a cabeça em qualquer obstáculo preso ou móvel. Seus olhos avermelharam em meio ao sangue que escorria, uma névoa abafou sua vista, causando náusea. Com força, atirou-a como um cadáver.

Inerte ficou por um longo tempo, não tinha espasmos, não tinha reação, nada a fazia se mover, todos gritavam pela menina.

—Ela não está morta! Acalmem-se! – O corpo da menina ali estava, ensanguentado e ferido, muitos arranhões e perfurações da mordida e de pregos perdidos.

—Como ela pode estar viva? Jorge, como?

—Acho que ele sabe o que está fazendo, está testando a garota. Afinal, é filha dele, sabe dos limites ou não.

—Ela é humana, ele é um monstro.

—Soraia, ele a pôs nesse mundo como uma vidente de aura. Ainda assim, há sangue de lobisomem no corpo dela. Ele quer testar isso, certeza que deseja descobrir se a filha herdou esse poder dele. – Olhares mais intrigados despencaram sobre a massa estática no chão. De longe, podiam ver que os dedos se moviam, buscando algum objeto para se segurar.

—Ela vai sobreviver. – A garota se levantou, muito lentamente, houve gritos de comemoração. Matheus reparou no Patriarca, podia ver alívio em seu semblante. Caso humano estivesse, um sorriso estaria estampado em seu rosto.

—Ainda... Não... Terminei... – E cuspiu sangue do chão.

—Ela é corajosa, parece uma guerreira. – Soraia parecia vibrar com a cena.

—Matheus, está tudo bem? – Mathias se aproximou dele.

—Tudo está estranho, muito estranho. – Ela se ergueu, tinha um olhar de glória e fúria, sabia o que queria. Seu pai, o Patriarca, também. Com um uivo, os demais lobos ficaram mais confortáveis com a cena, o desejo de combate desaparecera.

—Podemos terminar com isso? – Emanuele não titubeou, sua voz estava imponente, um raio percorreu o céu escuro. O lobisomem avançou, com as patas pesadas tremendo o chão. A jovem fez igual com sua arma em mãos. A bocarra acertaria seu rosto em cheio se não usasse o facão para se defender, era uma colisão do metal com as presas.

O olhar dela percorria toda a cena, parou diante de um monte de entulho, tornou a atenção ao combate logo em seguida. Constatou que não tinha chances, apenas soltou seu peso e permitiu que o monstro a empurrasse.

—Vai desistir? – Antes de uma resposta, ela se esquivou e o lobo cambaleou para frente. Rapidamente, ele se posicionou para ataca-la. Ao contornar o corpo, ela vasculhava o mesmo monte. Quando o monstro pulou para cima dela, ela sacou uma arma e mirou.

—Que eu consiga... – Seu resmungo nem foi ouvido, pois um disparo saiu de lá. Nisso, o corpo do Patriarca caiu, quase em cima de sua mirrada pessoa. Tudo pareceu rápido demais, os outros lobos sumiram da vila, em direção da Floresta, o morto estava em sua frente, com um tiro bem na fronte. Ela não tinha reação, apenas sentiu o mundo escurecendo e mais nada.

*

—Ela acordou! – O abrir de seus olhos nunca foi comemorado, mas aquele momento era especial. Soraia abraçava Jorge com muita força, comemorou como nunca. – Ela acordou!

—Soraia, deixe-a descansar. Depois vamos festejar. – Eles saíram do quarto. Não era o seu, pode reconhecer. Um cômodo simples, sem nada, apenas uma casa e algumas cadeiras, sendo que uma estava ocupada.

—Eles não me viram aqui. – César estava de braços cruzados, com uma roupa extremamente folgada, toda amarelada e calças de lã. – Ainda faz frio lá fora. – Ela não tinha palavras, vários dos ferimentos estavam melhores, poucos ficaram para trás. – Para quem ficou alguns dias dormindo, você se recuperou bem.

—Dias...

—Sim, quase uma semana depois da Lua Cheia. Cansaço, sabíamos, mas e o medo de não acordar? – Ele sorriu para ela. – E como você está? Não aceito um "bem".

—Bom, estou viva, e isso que importa. – Ele riu, resposta típica da Emanuele. – Graças a você, lógico. – Ele criou uma indagação em sua cara. – César, eu sei que o tiro que matou meu pai foi seu. De onde eu estava e para onde apontei, não teria saído viva, ou acertado bem na testa dele. O tiro veio de outro lugar e, pela escuridão e pelas chamas, apenas o melhor pistoleiro da cidade poderia ter feito isso.

—Acho que alguém desvendou o segredo. – Ele afagou seu cabelo, levemente envergonhado. – Mas todos imaginam que foi você, não quis tirar a sua glória. Afinal, você o enfrentou bravamente.

—Sim... Nem sei de onde eu tirei a coragem para fazer aquilo.

—César, o que faz aqui? – Jorge estava parado diante da entrada, com os braços cruzados e nervosos. – Não falei para deixar a menina descansar?

—Sim, só vim trazer uns livros para ela. Quem sabe ela não queria descansar lendo. – Ele colocou uns dois em cima do colo da garota, que se sentou na cama. – Dica da Olga para mim... Bom, antes de tudo. – O olhar de todos entristeceu, principalmente o de Emanuele. Algumas lágrimas caíram e só pararam quando o barulho da porta batendo, além de uma discussão do lado de fora.

Não tinha interesse em ler nada naquele momento. Contudo, a curiosidade do que cada livro falava a fez abrir. Nisso, uma carta caiu em seu colo. Estranhando, leu com certa pressa. Um sorriso foi esboçado no final, além de mais lágrimas. Assim que a guardou, novamente a porta se abriu.

—Mas eu não falei para deixar a menina descansar? – Jorge parecia revoltado do lado de fora.

—Ainda bem que ele não é um lobisomem, porque se não, estaríamos perdidos. – Risadas rolaram. Soraia adentrou com um prato com biscoitos. – Chocolate, uma informação foi me dada que são os seus favoritos. – Emanuele se esforçou para levantar. A não ser pelo tornozelo ferido com a mordida com Patriarca, ela estava em pé, plena e cheia de vida. – Ela pode mesmo levantar?

—Fiquei sete dias deitada e dormindo, acho que posso me levantar um pouco. – Ela tropeçou, conseguindo se segurar na cama. – Com ajuda, claro. – Mathias e César adentraram para ajudar e a levaram para fora, onde uma pequena festa foi feita para festejar o seu despertar.

—Fizemos isso para comemorar, finalmente você acordou e os lobisomens desapareceram. – Todos pareciam alegres, realmente.

—A vila diminuiu assim? Ou poucos vieram?

—Tivemos muitas perdas, muitos idosos principalmente. Com o incêndio e o ataque, foram mais de cem vidas perdidas. Claro, a vila não era tão pequena. Faremos uma contagem a partir da semana que vem, não há mais grávidas ou pessoas doentes. O velório e o sepultamento deles ocorreram por esses dias.

—E minha mãe? – Ela não tinha interesse em ver a mãe. Entretanto, uma voz dentro dela perguntava.

—Manu, não sabemos, ela simplesmente desapareceu.

—Aliás, como uma pessoa daquela idade some sem deixar rastros, minha gente? – Sampaio apareceu. – E como a nossa heroína está? – Sorrindo encabulada, respondeu depois de engolir um dos biscoitos. – Que bom, mas acho que posso parabeniza-la daqui umas semanas. Afinal, alguém completa dezesseis anos.

—Espere, Manu, é seu aniversário?

—Daqui três semanas, mas não estava com cabeça para isso há alguns dias.

—Vamos organizar uma festa.

—Outra? – O Padre apareceu atrás de todos, tinha parte do rosto queimado e uma mão faltava, fora atacado. – Bom, acho que podemos rever e fazer a nossa festa do dia do padroeiro no aniversário dessa beleza aqui. – E fez um cafuné na cabeça da jovem. – Licença a todos.

—Pronto, ela já tomou um ar puro. Agora, para dentro. Ela precisa descansar. – Jorge estava irritado.

—Tchau, pessoal, boa festa, comam por mim. – Ela adentrou. Refletiu tudo o que aconteceu nos últimos tempos, principalmente sobre o sumiço de sua mãe.

*

—Cadê Emanuele? Onde aquela garota se meteu? – Soraia corria com uma caixa de papelão para cima e para baixo. – O vestido dela está pronto. Ela vai ficar tão feliz com esse vestido, vai amar. César, você viu a menina?

—Não, desde ontem eu não a vejo. – Ele sabia para onde a menina foi, manteve silencio sobre a ida dela.

—Alguém ache essa menina, já está escurecendo!

Um cavalo percorria as planícies que rodeavam a pequena vila. A pessoa que estava em cima vinha toda com uma roupa pesada de lã e algodão, ainda um forte frio poderia cair sobre aquela região, principalmente com uma nova nevasca. Uma enorme árvore surgiu mais à frente, aproximando-se ainda mais conforme a velocidade do animal aumentava.

—Isso, garoto, pode parar. – Desceu e ficou encarando a noite extensa, com um céu escuro, com poucas estrelas. A lua se escondia atrás de alguma nuvem. – Acho que estou longe o suficiente.

*

Após a missa, todos saíram para festejar o tão aguardado Festival do Padroeiro. Claro, a principal anfitriã sumiu do nada.

—Isso é obra daquela cruela, ela que prendeu a menina em casa! – Soraia bravejava gritos para todos os lados. – Maria Gertrudes, solte a Emanuele agora! Matias, você viu a menina, provei o vestido nela ontem, disse que iria para casa e nada!

—César, você sabe de alguma coisa, não é? – Matheus parou atrás do homem, que bebia sob a sombra do telhado da delegacia. Assumiu o lugar de Daniel. Como não havia presos, nem criminosos, muito menos pirralhos revoltados, bebia quase toda a noite.

—Claro que eu sei, e você sabe também. – Matheus encarou a noite estrelada. Repentinamente, as nuvens sumiram, não nevaria naquela madrugada, ficou feliz, ela partiria em paz.

*

A lua preenchia o céu com uma claridade amarelada, completamente cheia. Então, a pessoa retirou a capa que a protegia, deixando-a cair no chão. Em sua memória, cada palavra ecoava:

"Minha querida,

"Eu sei que tivemos as nossas diferenças, tivemos as nossas intrigas, eu sei que você chorou, mas não desanime, o mundo é muito maior do que você possa imaginar, é muito mais incrível do que você já viu. Contudo, o que eu descobri nesses últimos tempos arrasou meu coração, deixou-me completamente desnorteada. Felizmente, consegui escrever isso antes da Inquisição me levar, eu sei que isso acontecerá. Quando eu não sei, mas eles me pegarão.

"A última parte da maldição caíra sobre o vilarejo, ela está chegando. Caso o Patriarca não seja derrotado, o final para todos será escrito e nosso cotidiano, encerrado brutalmente. Durante a primeira noite com Lua Cheia após dezesseis voltas entorno do Sol, você tomará o lugar de seu pai, como a última filha e como legítima herdeira do Patriarcado dos Lobisomens. Emanuele, você será a Matriarca, uma vez que seu irmão assumiu o lado mágico dos licantropos. Manu, eu sinto muito, mas você terá de partir, terá de largar a tudo e a todos.

"Pelo que imagino, o assassino e o incendiário desaparecerão com os lobisomens, não haverá motivos para mais ataques. Nem se preocupe com aqueles que ficam, todos saberão o que fazer caso os dois permaneçam vivos ou impunes.

"Encerrando, pois o papel é pouco, e meu tempo, curto. Tome cuidado, assuma o poder da alcateia e guie os remanescentes para um lugar longínquo, mantenha todos em segurança. Seja você, Emanuele, a pessoa que encerrará a sina, você consegue, é inteligente e corajosa, gostaria de ter tido mais tempo ao seu lado.

"Com amor, Olga."

Chorou muito, e a carta voou com o vento. Uivos surgiram atrás da árvore, o cavalo se assustou e fugiu, retornaria ao vilarejo. Os demais lobisomens apareceram, os últimos quatro que fugiram na noite do ataque. Emanuele sentiu seu corpo queimando, pelos surgindo, dentes afiando e garras crescendo. No final, seu corpo tornou-se preto, como a pelagem de seu pai, e os olhos mais vermelhos que sangue, brilhavam como rubis.

Encarou os companheiros, eles se curvaram, mostrando respeito e lealdade. Após um coral de uivos, eles partiram para longe, nem imaginando o que haveria em seu futuro.

Notas finais
Agradecimentos: Não sei como descrever a sensação novamente de poder entregar mais uma história completa a vocês. Quem acompanhou desde o início as postagens, sabe como eu era totalmente perdido com o rumo das minhas histórias, com o rumo que eu gostaria de entregar os enredos a vocês. Esse ano, devido a diversos empecilhos, precisei encerrar o livro Velhas Cicatrizes antes do esperado, entregando apenas a parte 3 da série Relatos do Cotidiano. Felizmente, meu bloqueio criativo foi encerrando e fui tomando novamente a coragem de lançar novos livros a vocês. Com isso, pude entregar Sob o olhar das feras, o primeiro especial de terror com mais de 5 capítulo, uma história mais completa, em que pude trabalhar um pouco uma linha já esquecida há um tempo por mim, a fantasia, aproveitando um estilo que a muitos agradam: as histórias de lobisomens. Eu só tenho a agradecer a todos que me acompanharam até aqui, não apenas nessas, mas em outras histórias. Realmente, muito obrigado, do fundo do meu coração. Mais histórias estão a caminho, em 2021 a parte 4 de Relatos do Cotidiano estará com vocês, para verem o resto da história dos nossos personagens, além de capítulos e contos solos. Aguardem, novos projetos estão a caminho e antigos serão retomados.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!