Notas iniciais
Eu espero que vocês gostem.

Quando você é adolescente, você sempre pensa que quando chegar aos 18 uma grande parte da sua vida terá se resolvido. você terá uma casa para morar, um emprego fixo no qual você trabalhe pouco e ainda sim ganhe mais que o necessário pra viver, e já estará cursando uma faculdade, a faculdade que você desejar cursar sem que sua família dê palpites se será uma boa ideia cursar isso e não aquilo. Você poderá tomar todas as decisões por si própria, você terá 18, e poderá fazer o que bem quiser. Eu sinto te informar que as coisas não são bem assim. Desculpa jogar um balde de água fria nas tuas expectativas, mas se te serve de consolo, eu também pensava assim. E hoje em dia, eu queria muito que alguém tivesse me falado naquela época o que estou te falando agora. Não é nada legal você ter as expectativas frustradas nessa altura do campeonato.

Aqui estou eu, com 18 anos, ainda morando com meus pais, ainda no 3º ano do Ensino Médio, e trabalhando horrores em um estágio pra ganhar apenas 450,00 por mês. De dia eu trabalho, de tarde eu estudo e de noite, faço um curso técnico de Administração. Não estou onde gostaria de estar com essa idade. Nada do que eu estou fazendo estava nos meus planos. A verdade é que é uma grande merda você crescer, e não sair muito de onde estava. É como se você tivesse crescido no tamanho, aumentado a idade, mas ficou parada no mesmo lugar. Os teus sonhos ainda são somente sonhos, sabe? E eu que achava que com os meus 18, já poderia fazer de tudo para realizá-los. Nem tudo na vida sai como a gente planejou e eu vim aprender isso só agora.


— Tá tão pensativa, isso me assusta.


Fui tirada de meus pensamentos melancólicos porém super verdadeiros, quando Lely, minha tia, falou comigo. Estávamos no nosso horário de almoço e eu passei tanto tempo viajando nos meus pensamentos, que esqueci que a deixei falando só.


— Eu sei, quando eu paro pra pensar na vida, parece que vou pra outra dimensão.

— E essa dimensão é boa ou ruim?

— Não sei.

Lely era mais uma amiga do que uma tia. Ela é a Irmã minha mãe, mas sempre pareceu ser a minha. Estávamos juntas a todo momento e quando eu passei a estagiar onde ela trabalha, ficamos ainda mais próximas. O tipo de intimidade que temos, é a que eu gostaria de ter com a minha mãe. Ela trabalha como professora das crianças do nível 2 em um grande e conceituado colégio e eu passei a estagiar na área administrativa do mesmo. Meu dia a dia se resume em vim para o colégio no qual faço o estágio, auxiliar na parte administrativa do mesmo, entro de 07:00 da manhã e fico até as 12:00, almoço, troco de roupa na área destinada aos funcionários, e vou à pé até á escola onde ainda estudo. Repeti o 6º ano e na época não me atrapalhou em muita coisa, porém me fez atrasar 1 ano e aqui estou no 3º, quando já era pra ter terminado. A minha aula começa de 13:00 e vai até às 17:30, quando acaba, troco somente a blusa da farda da escola pela blusa da farda do curso e vou novamente caminhando até o prédio onde tenho as aulas de Administração. Minha aula só acaba de 22:00, no mesmo horário em que passa o último ônibus pro meu bairro. Todo dia eu passo por esse perrengue, todo dia eu tenho que juntar todas as forças que tem dentro de mim e correr o mais rápido possível pra conseguir pegar o ônibus, e quando consigo, ainda vou em pé. Morro com meus pais na Zona norte. Meu trabalho, meu "emprego" e minha escola ficam no mesmo lugar, na Zona Oeste. Lely também mora longe do emprego, só que ela tem carro. Ela tem também, dois filhos lindos que ficam com a minha vó, na Zona Norte, pertinho da minha casa. Nisso eu tenho sorte, porque quando ela vem deixar os meninos na minha vó antes do trabalho, eu pego uma carona com ela. Não tenho que enfrentar busão logo cedo, obrigada Deus.


— Hoje você está desligada, viu?!


Não me contive em abrir um sorriso.


— Estou relaxando a mente pra depois. Daqui a umas horas, só vai entrar conteúdo de matéria escolar nela.

— Graças a Deus eu já passei dessa fase, é muito ruim.

— Nem me fale.


— Como seus pais estão reagindo com você chegando em casa só pra dormir?

— Eles não podem falar muita coisa, né? Não estou vadiando. Estou procurando um futuro melhor pra mim. Mas sim, eu ainda escuto piadinhas do tipo: "se quer morar nessa casa, tem que fazer as coisas. Lavar uma louça, varrer uma casa, nem que seja de madrugada. Mas quando chegar, eu quero que faça."

— Eu acho muito imoral uma coisa dessa, e você sabe que não precisa mais passar por isso. Já tem 18.

— E o que eu posso fazer, Lely? Não ganho o suficiente pra me sustentar. 450,00 é só o aluguel da casa. Como vou me alimentar, e passagem pra ir e vim todo dia?

— Você gasta somente de ida pra casa, sua bonitinha. Te dou carona sempre na vinda pra cá.

— Eu sei, mas ainda sim irei gastar. Eu não tenho condições. Morando com eles dois, eu não preciso ter que pagar por um aluguel, pelo menos não ainda.

— Eu não duvido nada que daqui uns tempos teu pai vai começar a te cobrar aluguel, já que tu não tá sendo mais empregada em casa. Sabe o que eu acho? que você deveria começar a procurar anúncios de casas ou apartamentos por aqui por perto. Um lugar por aqui que você não precise de ônibus pra o trabalho, a escola e o curso. Não precisa nem ser uma casa somente pra ti. Você pode procurar por algum anúncio de alguém que queira uma pessoa pra ocupar um quarto sobrando. Não deve ser tão caro.

Não é uma má ideia.


— Lely, você até que pensa com a cabeça às vezes. Talvez eu realmente ache algo por aqui.

— Quando foi que eu não usei a cabeça?

— Quando engravidou com 15 anos.

— Tu diz isso, mas hoje em dia só falta comer a merda do teu primo.

— Eu não disse que ele tinha sido um erro, foi uma loucura por causa da idade.

— Realmente, mas nessa idade é a época em que a perereca mais fica coçando querendo dar.


Gargalhei alto.

— Como é que eles contrataram você pra ser professora dos babys?

— Essa sou a eu que você conhece. Os meus alunos e meus colegas de trabalho, conhece a Lely responsável e séria.

— Se eles conhecessem a você que eu conheço, sua carta de demissão já estaria assinada.

— Exatamente por isso que eles conhecem a outra, e eu continuo empregada.

O toque alertando que o horário de almoço havia acabado, foi tocado. Como eu só trabalhava meio período, o toque significava pra mim, não somente o fim do horário de almoço, como o fim do expediente. Eu já estava indo me aprontar para ir à escola, quando Lely me chamou novamente.

— Eu espero que você comece logo hoje a procurar os anúncios de quartinhos pra alugar, caso contrário eu corto sua piriquita a fora.

— Não era perereca?

— Perereca é para as mais experientes/mãe de família como eu. Você ainda é piriquita.

— Tudo bem, dona Perereca. Eu prometo que vou procurar.

Ela soltou uma piscadinha e saiu. Meu dia a dia corrido me mantém longe de casa, o que pra mim é bom. Eu sempre tive uma relação conturbada com meu pai, e a relação com a minha mãe passou a ficar conturbada também desde que ela começou a aceitar coisas erradas que ele faz com nós. Do tipo, ser grosso, humilhar, querer fazer de mim, da minha irmã e da minha mãe, empregadas pra ele. Não é de hoje que eu sofro com essas coisas, por isso eu sempre planejei sair de casa o quanto antes depois que eu fizesse 18. Mais um plano que eu novamente falhei ao tentar botar em pratica.


(...)

Fui para a escola, e me concentrei o tempo todo nas minhas atividades e seminários. Eu não estava nem no meio do ano ainda, e já estava lotada de coisa pra fazer.
(...)

O meu horário na escola terminou e eu fui direto para o cursinho. Teria um trabalho pra apresentar hoje e depois seria liberada. Nunca fiquei tão empolgada pra ir pro curso. Mas hoje, quanto mais cedo eu chegasse e apresentasse o trabalho, mais cedo eu iria pra casa.

(...)

Querendo ou não, passar a manhã no trabalho, a tarde na escola e a noite em um cursinho, estava me matando. Eu costumo chegar em casa e me deparar com todo mundo dormindo, hoje como cheguei mais cedo, ainda tava todo mundo de pé. Moro com meus pais Marcello e Beatriz e minha irmã de 14 anos, Anna Liss.

— Chegou cedo hoje, que milagre!

— Nem me fale, Li. Tô morta.

— Até mesmo quando chega cedo, filha?

— De qualquer jeito é cansativo, mãe.

— Que bom que você chegou cedo hoje. Hoje é seu dia de passar o pano na casa. Anna passou ontem e sua mãe passou antes de ontem. Hoje é seu dia.

— Marcello, você não ouviu quando ela disse que está cansada?

— Fica quieta, Beatriz. Ela não quer continuar morando aqui? Tem que fazer as coisas. Não está nos pagando aluguel, de algum jeito precisa contribuir se quiser continuar debaixo do nosso teto.


— Não basta eu ter que entregar todo o meu salário na suas mãos, para segundo você, ajudar com as despesas?

— Eu e sua mãe bancamos você desde que nasceu até agora, você nos dá 450,00 por mês e acha que é o suficiente? Não é só a sua boca que tem que ser alimentada aqui dentro.

— Sem problemas, eu faço. Mas fique sabendo, que você terá que arrumar outra empregada pra passar quando eu não estiver. E não vai demorar muito tempo, porque eu já achei um lugar pra morar.

— Ótimo, mas enquanto estiver aqui, tem que fazer.

Eu estava completamente cansada, mas ainda podia fazer o que ele havia mando. Não porque eu queria, mas porque não tinha jeito. Eu estava sob o seu teto, mas não por muito tempo. Depois de fazer o que ele mandou, eu vou procurar um quartinho perto do trabalho e não vou me cansar até encontrar. A minha vida não começou a se resolver de fato quando eu fiz 18 anos. Mas isso não significa que já é tarde demais para resolvê-la.

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Notas finais
Comentem o que acharam, o que ficou bom e o que precisa ser melhorado.