Sob o céu de Paris
6 Capítulo 3 - Parte 1: Antes de Paris
Notas iniciais
Capítulo 3 — Parte 1: Antes de Paris
Eram dez horas da manhã, e uma jovem de vestido branco estava do lado de fora da Igreja Batista Tabernacle Baptist Church, de braços dados com seu pai que gentilmente acariciava-lhe a mão, dizendo o quanto ela estava linda. De repente as portas se abriram, e um ar de encantamento tomou conta de todo o ambiente. A Igreja estava adornada com camélias brancas e rosas. Os bancos estavam todos ocupados por mulheres elegantemente vestidas com vestidos longos e chapéus de abas largas e homens de terno e gravata. Todos olhavam para ela, mas nenhum olhar era mais importante do que o dele — o homem que a aguardava no altar. Entre lágrimas de alegria e emoção, o olhar da noiva e do noivo se encontraram. Ele a recebeu no altar e lhe jurou amor e fidelidade. Era o dia do casamento de Olívia e Jeremy e, naquele momento, o mundo era perfeito.
Olivia e Jeremy se conheciam desde sempre, ambos nascidos na pequena cidade de Beaufort, Carolina do Sul e, apesar de não serem amigos próximos durante a infância e adolescência, como em toda cidade pequena haviam muitos eventos que proporcionavam encontros casuais, como quermesses, bailes e pequenas reuniões entre amigos na lanchonete. Ele era do time de basquete na escola, um atleta conhecido na cidade por seu bom desempenho nos jogos, e muitas garotas sonhavam com Jeremy Collins: alto, louro e carismático. Olívia por outro lado era uma garota discreta que, apesar de admirá-lo de longe, preferia não fazer investidas tão agressivas. Além disso, ela era quase quatro anos mais nova do que ele, e naquele momento ele ainda a via como uma garotinha. Uma ou duas vezes ela foi ao cinema no mesmo grupo que ele, mas não houve nenhuma grande interação. Após terminar o período escolar, ele conseguiu uma bolsa para estudar em uma universidade em Nova York. Ela por sua vez, cursou a universidade local e se formou com honras em arquitetura. Com seu excelente desempenho acadêmico, Olívia recebeu uma proposta de trabalho como analista de projetos junior logo após a formatura, em uma renomada empresa de Nova York. E foi aí que os caminhos de Jeremy e Olívia voltaram a se cruzar.
Era uma divertida noite de sábado, Olívia e sua amiga Eliza, a quem havia conhecido na universidade, e com quem havia se mudado para Nova York, estavam em um bar comemorando pois haviam conseguido, finalmente, organizar seu apartamento. As garotas estavam rindo e bebendo, quando Olívia ouviu uma voz grave atrás de si
— Olívia?
Ela se virou e se deparou com seu amor platônico da escola, mas agora ela não era mais uma menininha insegura. Olívia era uma mulher. E ele parecia extasiado com o que estava vendo à sua frente. O álcool borrou uma parte das lembranças daquela noite, mas Olívia se lembrava de dançar com ele por toda a noite, se lembrava da forma como as mãos dele se encaixavam em sua cintura e de como ele a havia beijado intensamente por várias vezes. No dia seguinte ela acordou com um recado dele em sua secretária eletrônica dizendo que o perfume dela havia ficado em sua camisa, e que não conseguia parar de pensar nela. Ele pediu para encontrá-la novamente, ela aceitou com muita alegria. Jeremy era encantador: bonito, alto, inteligente, cavalheiro, detalhista. Sabia captar o que ela gostava e sabia como usar isso a seu favor na conversa. Ele já tinha passado pela fase “atleta da escola”, “universitário popular”, e agora estava em uma fase bem mais madura, construindo uma carreira sólida como advogado, e o que ele queria era uma mulher para se casar e formar um lar. E Olívia parecia ser a mulher ideal para isso, ela era bonita, doce, romântica e familiar.
Uma semana e meia depois do reencontro, Olívia estava na cama dele, irremediavelmente envolvida em seus braços. No mês seguinte, todos os amigos e familiares próximos já sabiam do relacionamento. Buquês de rosas vermelhas, chocolates e presentes se tornaram rotina, e ela estava adorando cada segundo. Após seis meses, o pedido perfeito: Jeremy, de joelhos no Central Park, ofereceu o anel mais brilhante que Olívia já tinha visto. A vida não podia ser melhor do que aquilo. Claro que, após o casamento, eles voltariam à sua cidade natal, afinal, Jeremy havia recebido uma proposta de negócios irrecusável, e isso implicaria que Olívia teria de deixar seu emprego. Mas isso não era um grande problema para ela. Ela podia ver seu futuro com ele: uma vida plena como esposa, mãe e dona de casa. Isso era o que Jeremy queria, e Olívia o amava.
E assim, no dia 16 de junho de 2018, Olívia disse sim no altar da Igreja Batista de sua cidade natal, diante de Deus e dos homens. A Lua de Mel em Cancun foi como um conto de fadas, e no dia a dia Olívia pensava ter descoberto o que acontece após o “felizes para sempre”. Ela estava inquestionavelmente feliz. Ele por sua vez a via como a mulher ideal, aquela sobre a qual os homens dizem “para casar”. Todos os dias o esperava com o jantar na mesa, sorrindo e apaixonada por ele. Ele amava como ela o fazia sentir que estava fazendo a coisa certa com sua vida, e como ela o completava. Três anos depois do casamento decidiram que era o momento de ter filhos, e em pouco tempo Olívia estava grávida. O casal, radiante com a perspectiva de aumentar a família, se amavam como nenhum outro casal no mundo. Escolheram o nome “Anthony” ao saberem que seria um menino, decoraram um quarto em tons de azul pastel, ursinhos de pelúcia e um bercinho branco. Até que, o mundo perfeito desabou.
Aos oito meses de gestação era difícil dormir em qualquer posição, mas naquela madrugada o desconforto era… estranho. Olívia acordou às duas e quarenta da manhã sentindo uma pressão em seu ventre, ela se levantou para beber um pouco de água, mas antes de chegar à porta do quarto, sentiu uma pontada tão forte que a fez se encurvar e gritar. Com a dor, ela caiu no chão frio de joelhos. Jeremy acordou com seu grito, e ao ver a camisola de Olívia suja de sangue, sentiu sua espinha gelar. Ele a tomou nos braços e dirigiu ao hospital o mais rápido que pôde. Seria a hora do bebê nascer? Não parecia estar certo, ela esperneava e chorava, e clamava a Deus para salvar seu bebezinho. No hospital, a levaram em uma maca diretamente para a ala cirúrgica, e Jeremy teve de esperar. Ele olhava para o relógio, para as paredes, andava em círculos, pegava mais um café. A espera era angustiante. Horas depois ele recebeu a notícia: Anthony havia nascido sem vida, Olívia estava em estado grave pela perda de sangue. Ela se recuperaria fisicamente nos próximos dias, emocionalmente seria mais complicado. Os médicos disseram que foi devido a pressão arterial alta, algo que Olivia teria desenvolvido durante a gravidez, um vilão que atuou silenciosamente até ser tarde demais. Seu filhinho teve um velório privativo no hospital, somente os pais e avós, e posteriormente foi enterrado em um pequeno caixãozinho branco no túmulo da família de Jeremy.
Voltar para casa sem seu filho, foi um dos piores dias da vida deles. O vazio era quase palpável. O quarto permaneceu da forma que haviam decorado, fechado à chave, e a chave ficava debaixo do travesseiro da mãe enlutada. Ela passava o dia inteiro deitada na cama, deixou de pentear os cabelos, e de cuidar da casa, e em alguns dias, Jeremy teve de dar banho nela. Ela chorava, e chorava dolorosamente, e nada a consolava, por meses tudo era dor. Quase um ano depois, Eliza conseguiu convencê-la a procurar um psicólogo, e foi quando ela finalmente começou a processar a perda. Mas aquele brilho, aquele frescor que Olívia tinha, já não existia. Ela começou a se reaproximar de Jeremy, como precisava dele! Ela se apegou ao marido como uma âncora, para firmá-la no chão. Ele por outro lado, a amparava como podia, mas seu coração havia se afastado.
Ele havia lidado com o luto à sua própria maneira. Não havia o que ele pudesse fazer sobre o que tinha acontecido, e a sensação de impotência era esmagadora. Um dia ele foi até o túmulo do filho e disse ali tudo o que havia sonhado como pai, disse que sentia muito por não poder viver tudo aquilo, chorou tudo o que precisava chorar e voltou para casa, para encontrar sua mulher em um estado lastimável. Ele não sabia o que fazer com ela, pois nada parecia funcionar, então decidiu pedir ajuda à melhor amiga dela, Eliza, enquanto se empenhava em sua carreira, que parecia ser a única coisa que ainda estava inteira em sua vida.
Com o tempo, e conforme Olívia se recuperava, tentaram reconstruir o que havia se perdido. Ela voltou a cuidar da casa, a preparar o jantar, a sorrir para ele na porta quando ele chegava. O amor ainda estava ali — pelo menos para ela. Para Jeremy, algo havia mudado. Ele tinha se acostumado ao silêncio entre eles, às conversas curtas, aos abraços sem calor.
Quando Jeremy recebeu o convite para lecionar Direito Penal na Universidade de Beaufort, aceitou sem hesitar. A sala de aula lhe dava a sensação de controle que já não tinha em casa. Lá o ouviam, os olhares o seguiam — e ele se sentia vivo de novo. Ele se empenhou totalmente a essa nova função, era uma forma de manter sua mente ocupada. Olívia não conseguiu mais engravidar, e com o passar do tempo, ela se conformou com isso. Talvez fosse acontecer em algum momento, mas ela decidiu que não iria pensar demais sobre esse assunto. O amor de Jeremy lhe bastaria.
Mas, havia um detalhe que Olívia ainda não conhecia. Um detalhe chamado Ashley Danna Hale.
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