Sob o Véu da Noite

8 Capítulo 8: Lobos à Espreita


O vento quente da tarde soprava sobre Atenas, carregando o cheiro acre de incenso e poeira. A pele de Roxana ardia sob o sol implacável, enquanto caminhava pelas ruas de paralelepípedos sob passos ligeiros. Seus dedos tamborilavam no punho da adaga escondida sob o manto. Há dias percorria os becos da cidade, seguindo rumores como migalhas envenenadas: "Homens que atravessam muralhas", "Navios fantasmas no Pireu", "Moedas de prata em troca de silêncio". Tudo ilusões.

A cidade parecia engolfada pelo orgulho e pelo cansaço. Com o tempo, sua missão diplomática se dissolveu em irrelevância. Ela sabia que, mesmo com o apoio de Péricles, era um esforço vazio. Não teria voz. O verdadeiro terror continuaria em Lesbos até que os espartanos finalmente fincassem seus estandartes em terra, como um troféu de guerra. Ou os piratas, bárbaros e maltrapilhos antes deles.

Por mais que tentasse, não conseguia ignorar a informação de Alcibíades. Sentia raiva dele por tê-la contado sobre o navio, se não pretendia ajudá-la. Aquilo tinha se tornado sua nova obsessão. Fazia algum tempo desde que tinha desistido de obter informações sobre a sua irmã. Seu desaparecimento significava sua morte, ela sabia. Mas, seu coração insistia em impedir qualquer tentativa de luto. O ciclo não se completava. A despedida nunca aconteceu.

Depois de meses interrogando comerciantes e viajantes que iam e vinham do porto de Lesbos, conformou-se que Anfípolis era um passado que deveria esquecer. Desde que Deucalião resgatou-a de seus captores, e Safo lhe acolheu em sua casa, sentia que era uma traição abandoná-los em busca de uma aventura egoísta e potencialmente suicida. Ainda assim, não se conteve em incluir um parágrafo adicional na carta que enviara aos magistrados atenienses. Se existe alguém que saberia sobre o paradeiro da sua irmã, eram eles. E Roxana descobriu que sabiam, mas não queriam lhe dizer. Fora da bolha da aristocracia, ninguém parecia saber da existência do maldito barco de escravizados que fora capturado uma lua atrás em Erétria. A agonia do não saber foi substituída pelas algemas do não poder. E isso ela não aceitaria. Se Péricles não a concederia um salvo conduto, ela encontraria uma maneira de sair da cidade.

De beco em beco, Roxana observava a cidade se despedaçar, como um vaso trincado, prestes a estilhaçar-se. E Atenas não fazia nada. Tentara buscar aliados entre os poderosos, mas encontrou apenas sorrisos educados e olhares vazios. Por isso, voltou-se para a escória: contrabandistas, desertores, ladrões. Homens que sobreviviam nas sombras, que entravam e saíam da cidade sem que ninguém soubesse como. Mas até entre eles, o medo imperava. Esquivos, desconfiados, encaravam-na como se fosse uma espiã, uma armadilha disfarçada de mulher.

Na esquina de um prostíbulo decadente, encontrou o primeiro contrabandista, um homem de olhos amarelos e dentes podres, enrolado em trapos que cheiravam a peixe salgado.

— Dizem que você transporta pessoas — sussurrou Roxana, deslizando uma moeda de prata sobre a mesa embolorada.

O homem riu, cuspindo vinho barato. — Transporto cadáveres, não estrangeiros. Saia antes que eu te venda aos espartanos.

Ela recuou, mas não desistiu. No mercado negro, entre barris de ópio e escravos acorrentados, abordou uma mulher com cicatrizes de chicote nos braços.

— Preciso sair de Atenas. Tenho ouro. — Roxana abriu a bolsa, mostrando as moedas cunhadas com a efígie de Lesbos.

A mulher cuspiu no chão. — Sua espécie é caçada aqui. Vá se oferecer aos magistrados, não a mim.

Até os mendigos a evitavam. Num beco próximo ao porto, um garoto esquelético apontou para sua túnica branca.

— É cor de fantasma. Troque por trapos, ou vão te matar antes do pôr do sol.

Roxana ignorou o conselho. Não sou uma de vocês, pensou, ajustando o broche de prata no manto. Mas, ao entrar na ágora, percebeu que o garoto tinha razão. As tendas estavam vazias, as carroças viradas, e os poucos que restavam fitavam-na com ódio, uma estrangeira bem-vestida em meio à ruína.

Frustração fervilhava sob sua pele enquanto seus passos ecoavam na grande praça. A vastidão deserta e as carroças abandonadas davam ao lugar um aspecto fantasmagórico. Havia algo errado. O silêncio pesava, carregado de presságio. Sentiu-se observada e, quando procurou a origem do olhar, viu uma menina esfarrapada, pequena e esquiva, escondendo-se atrás de uma das colunas de um edifício quadrado. O vento balançava as cortinas das janelas fechadas ao redor da Ágora.

Roxana aproximou-se, oferecendo um figo maduro. — Você sabe onde encontro... pessoas que saem da cidade? — perguntou, escolhendo as palavras com cuidado.

A menina pegou o figo, mas não respondeu. Seus dedos sujos apontaram para o leste. O som ritmado precedeu à imagem de um destacamento ateniense que agora atravessava a ágora, escoltando uma fileira de carroças pesadas, cobertas com lonas que tremiam sob o peso de algo volumoso. Os bois bufavam, seus cascos golpeando o chão com esforço. Os soldados estavam atentos, tensos, como se sentissem a mesma eletricidade pairando no ar.

— É uma armadilha — sussurrou uma voz infantil às suas costas.

O Roxana virou-se em busca da origem da voz, mas a menina desaparecera. Um movimento no alto chamou sua atenção. Sobre uma mureta, a pequena figura segurava uma tocha acesa, a chama tremulando ao vento. Atrás dela, escondida na sombra, uma grande pira de madeira aguardava o toque incendiário.

Seu coração disparou. Entendeu tudo num instante.

Girou sobre os calcanhares para correr, mas não foi rápida o suficiente. Algo cortou o ar num assobio agudo. A flecha raspou seu braço, abrindo um talho ardente na pele e cravando na pilastra atrás dela. O sangue escorreu quente, tingindo o linho branco de vermelho vivo. Cambaleou e caiu de joelhos, os olhos arregalados, enquanto o mundo explodia ao redor.

Flechas choviam das janelas cobertas, cortinas sendo arrancadas pelo vento e pelo impacto. Os soldados gritaram, tentando se reorganizar, mas foram pegos entre dois ataques: de um lado, arqueiros escondidos no alto; do outro, uma massa desordenada de famintos, brandindo paus, foices e o que mais pudessem segurar como arma. O destacamento foi engolido pela selvageria. Homens tombavam, esmagados sob a própria multidão. O cheiro de sangue se espalhava com o calor da tarde.

As carroças, agora expostas, revelavam seu tesouro. Grãos, frutas, carne seca. Roxana viu mãos desesperadas agarrando os mantimentos, enquanto outras incendiavam tudo o que não podiam carregar. Os corpos dos soldados foram jogados nas fogueiras improvisadas. As labaredas subiam, cuspindo fagulhas pelo ar.

Roxana tentou se mover, mas algo na multidão a percebeu. Roupas finas, jóias, o cheiro de perfume raro. Ela era o inimigo.

— Peguem-na! — Gritou uma mulher de dentes manchados. Meia dúzia de homens a avistaram e partiram em sua direção, armados com espadas ainda manchadas de sangue dos soldados.

Um camponês a agarrou pelo cabelo, arrastando-a para o chão. — Sangue de ouro! Sangue de ouro!

Roxana lutou, mas mãos ásperas rasgaram seu manto, expondo as cicatrizes nas costas. O cheiro de suor e vinagre invadiu suas narinas enquanto vozes gritavam.

— Queimem as carroças! Queimem os ladrões!

Num movimento desajeitado, ela se virou para morder o antebraço do homem que a agarrava, e o apunhalou no coração. Com um coice, afastou-se e se desvencilhou dos outros dois.

Forçou-se a levantar. Seu manto escorregava pelo ombro, rasgado, manchado de vermelho como um estandarte profano. Atravessou a praça em disparada, desviando dos destroços.

Ela virou a cabeça e viu a sombra da garotinha desaparecer da varanda. Uma flecha passou por cima dos ombros de Roxana e atingiu mais um de seus perseguidores. Do outro lado da praça, uma pira de lenha seca acendeu-se e o fogo explodiu, envolvendo uma carroça em segundos. Seu passo vacilou e ela tropeçou no manto. Caiu de bochecha no chão a tempo de ver um novo grupo de soldados emergindo de um beco do outro lado da ágora. As moscas já zuniam, antecipando a carnificina.

Roxana engatinhou para trás, mas um homem a puxou pelos tornozelos.

— Você vai pagar por cada grão que roubaram!

O sorriso lascivo do homem que a agarrava se desfez num urro de dor no momento em que sentiu um ataque às suas costas. A garotinha tinha vindo ao seu resgate, e agora segurava uma adaga enferrujada que enfiara entre as costelas do homem. Corra!, tentou gritar Roxana, as palavras se engasgando em sua garganta. Não houve tempo. Num instante, o homem recuperou-se e desferiu um tapa com as costas da mão em seu atacante, mas atingiu o vento. Não havia mais ninguém lá.

Roxana piscou os olhos com força, testando sua sanidade e se desvencilhou a tempo de chutá-lo no rosto. Levantou-se com dificuldade. Seu corpo protestava, os pulmões queimando. Sabia que não conseguiria correr o suficiente. Seu olhar encontrou a porta entreaberta de um edifício vazio. Atirou-se para dentro, os dedos tremendo ao tentar trancá-la. Madeira velha, ferrugem. A porta rangeu, resistiu, mas não foi suficiente. O impacto do lado oposto a jogou ao chão.

Então, as mãos vieram. Foram sobre ela como garras. Pressão no pescoço, no peito, nas pernas. Terminaram de rasgar seu manto, seguraram seus braços. Ela tentou se desvencilhar, mas o peso dos corpos a esmagava. O mundo girava. Não. De novo, não.

Quis fugir da própria mente. Pensar em algo distante. Mas nada aconteceu. Nada a tirou dali. Sua carne era uma prisão. A pele queimava, viva, presente. Sentia tudo. O tempo perdeu o significado, reduzido ao peso, ao sufocamento, ao desespero.

Num instante, tudo cessou. Seu corpo era um fogo congelado. Reabriu os olhos a tempo de ver os seus algozes a fitarem boquiabertos. Um riso insano escapava do fundo de sua garganta, do fundo de seu pulmão, do fundo de seu coração, e do resto de seu espírito. Ela apoiou-se nos braços arruinados por arranhões. Seus olhos eram brasas.

— VOCÊS ESTÃO MORTOS!

Atrás deles, a porta do armazém arrebentou. Luz alaranjada invadiu o recinto, revelando sombras emaranhadas sobre ela. Os homens viraram-se para a silhueta na entrada. O mundo parou. Os corpos sobre Roxana se tornaram tensos. Algo mudou. Nenhuma resposta veio. O ar carregou um assobio cortante. Então, a lâmina dançou.

A figura na porta avançou como um vendaval, a espada reluzindo em arcos rápidos e precisos. Gargantas cortadas, gemidos abafados. O peso sobre ela se aliviou conforme os corpos caíam, um a um. O chão virou um mar de sangue. Uma luz muito mais tomada pelas sombras do que iluminadora delas invadia a sua retina, e junto dela, uma pessoa se aproximou, afastando os mortos com a bota.

Ele ajeitou o manto sobre o ombro, embainhou a espada. Roxana o reconheceu antes mesmo que ajoelhasse ao seu lado.

— Você…? — ela sussurrou

Ele não respondeu. Seus dedos, surpreendentemente suaves, ajustaram o manto rasgado sobre seus ombros nus. Roxana engasgou, um som quebrado, um resto de orgulho que a fazia resistir. Falhou. Uma lágrima solitária escorreu e se desfez num choro soluçante no momento em que ele ergueu-a nos braços, ignorando os gritos do lado de fora. No caos da ágora em chamas, ele a carregou como se fosse leve, contornando cadáveres e pilhas de trigo queimado.

Roxana viu seu próprio reflexo na lâmina da espada dele: cabelos desgrenhados, sangue no queixo, olhos inchados.

Antes que a sua consciência se dissolvesse na escuridão, Roxana teve um último pensamento: ainda bem que ele gostou da minha poesia.