A noite que Kallias e Amara fugiram de Shilah foi a mesma noite em que o Rajá descobriu o desaparecimento de sua filha. A fúria que tomou conta dele foi tão violenta que seus servos recuaram para as sombras, temendo sua ira. Além da desonra de uma princesa desaparecida que o consumia, havia a suspeita terrível de que ela havia fugido com o soldado macedônio, o estrangeiro que havia sido permitido dentro de seus muros.

O Rajá convocou seus melhores guerreiros, homens que havia criado desde a juventude, cavaleiros que conheciam cada ravina e cada trilha das montanhas circundantes. "Tragam-me minha filha viva," ele ordenou, a voz cortante como vidro. "E tragam-me o 'grego'. Quero que ele veja o que acontece com aqueles que desonram a casa de Shilah."

Simultaneamente, no acampamento macedônio, a ausência de Kallias havia sido notada durante a revista matinal. Um infante não simplesmente desaparecia sem deixar rastro. O comandante responsável pela sua unidade, um homem chamado Philippos que havia servido com Kallias por anos, foi interrogado. Ele não sabia nada, mas a suspeita era inevitável. Kallias havia sido visto frequentemente nos limites do acampamento, próximo aos muros do palácio. A conclusão era óbvia: deserção.

Alexandre, em sua tenda, recebeu o relatório com frieza calculada. Não se podia ser tolerar deserções. Se um soldado conseguisse fugir impunemente, outros poderiam ser tentados. Ele ordenou que um destacamento de cavalaria fosse enviado para rastrear o desertor. "Tragam-no vivo," disse ele, uma nota de curiosidade perversa em sua voz. "Quero saber o que poderia ser tão importante para fazer um homem abandonar a glória de meu exército."

Kallias e Amara não sabiam que eram procurados por dois exércitos. Eles apenas cavalgavam pela noite, guiados pela intuição e pelo desespero, seguindo as trilhas que levavam para o norte, em direção às montanhas do Indocuche¹. O frio aumentava a cada hora, e Amara, apesar de sua determinação, começava a mostrar sinais de fraqueza. A gravidez tornava cada movimento uma luta contra o próprio corpo.

"Precisamos parar," ela sussurrou, quando o amanhecer começou a tingir o céu de cinza. "Kallias, eu não consigo mais."

Ele a ajudou a descer do cavalo, encontrando um pequeno abrigo formado por rochas salientes. Eles se esconderam ali, e Kallias saiu para procurar água e qualquer coisa que pudessem comer. Quando retornou, encontrou Amara tremendo, não apenas de frio, mas de medo.

"Ouvi vozes," ela sussurrou. "Homens a cavalo. Passaram perto daqui há poucos minutos."

Kallias sentiu o gelo descer pela espinha. Eles haviam sido descobertos mais rápido do que ele havia previsto. Ele sabia que o Rajá enviaria perseguidores — era uma questão de honra para qualquer pai. Mas a presença de cavalaria macedônia era mais preocupante. Isso significava que Alexandre havia descoberto sua deserção.

"Precisamos continuar," ele disse, ajudando-a a se levantar. "Não podemos ficar aqui."

Eles cavalgaram novamente, mas desta vez não havia mais a cobertura da noite. O sol estava alto, e suas silhuetas eram visíveis contra a paisagem árida. Kallias escolheu uma rota mais difícil, através de desfiladeiros e vales que ofereciam cobertura, mas que também tornavam a viagem mais lenta e mais dolorosa.

Foi no meio da tarde que os primeiros perseguidores os alcançaram. Um grupo de cavaleiros indianos, reconhecíveis pelos seus turbantes e pela forma como cavalgavam, apareceu no topo de uma colina. Kallias viu-os e imediatamente mudou de direção, gritando para Amara que acelerasse.

"Pai!" ela gritou, reconhecendo a bandeira de Shilah entre os cavaleiros. A emoção era complexa , já que havia medo, culpa, arrependimento e, ainda assim, uma determinação inabalável de não voltar.

Os cavaleiros de seu pai começaram a descer a encosta, gritando em prakrit. Kallias não entendia as palavras, mas o significado era claro: render-se ou morrer.

"Não olhe para trás!" Kallias gritou, puxando as rédeas de seu cavalo para um galope mais rápido. Eles entraram em um desfiladeiro estreito, onde os cavalos precisavam avançar em fila única. Isso lhes dava uma vantagem temporária ,porque seus perseguidores não podiam atacar em formação.

Mas quando saíram do outro lado do desfiladeiro, encontraram uma nova ameaça. Uma patrulha macedônia, composta por cerca de uma dúzia de cavaleiros, estava acampada perto de uma fonte. Eles viram Kallias e Amara e imediatamente começaram a se organizar para interceptá-los.

Kallias estava preso entre dois exércitos. Atrás dele, os cavaleiros de Shilah se aproximavam. À sua frente, os macedônios bloqueavam o caminho. Ele tinha apenas segundos para tomar uma decisão.

"Segure-se," ele gritou para Amara, e puxou seu cavalo para um desvio abrupto, em direção a um penhasco que parecia oferecer uma trilha perigosa. Era uma aposta desesperada, pois a trilha era estreita e instável, porém era a única chance que tinham.

Os cascos do cavalo dispararam sobre a terra solta, e pequenas pedras caíram no abismo abaixo. Amara gritou, com pouco de medo e muita determinação. Ela se agarrou a Kallias, confiando sua vida e a vida de seu filho a ele.

Os perseguidores indianos hesitaram diante do penhasco. Nenhum deles estava disposto a arriscar a vida seguindo por aquela trilha. Mas os macedônios, treinados para enfrentar obstáculos impossíveis, começaram a descer também.

Kallias e Amara galoparam pela trilha, o coração acelerado, os pulmões queimando. Atrás deles, os sons dos cascos macedônios ecoavam. Eles estavam ganhando terreno.

Então, tão repentinamente quanto havia começado, a trilha abriu-se para um vale largo. Kallias viu, à distância, as primeiras casas de uma pequena aldeia. Ele sabia que não poderia entrar ali — os macedônios os encontrariam. Mas havia uma floresta densa ao norte, e além dela, as montanhas se erguiam como uma barreira.

"Para a floresta!" ele gritou, desviando novamente.

Eles entraram na densa vegetação, onde os cavalos tiveram que desacelerar. Os sons dos perseguidores ficaram mais altos, mais próximos. Kallias sabia que não poderiam continuar a cavalo por muito mais tempo. Eles precisavam se esconder, desaparecer.

Encontrou uma pequena caverna, parcialmente oculta por uma cascata. Ele ajudou Amara a descer do cavalo e a entrou na caverna, levando os animais consigo. Eles se encolheram na escuridão, respirando pesadamente, enquanto os sons dos perseguidores passavam por eles. Um dos perseguidores era Phillipos, o grande amigo de Kallias, que ao passar pela cascata, desconfiou, afinal, era algo que ele mesmo faria no lugar do seu 'irmão de armas', porém ele sabia que fosse Kallias seu perseguidor, este o deixaria escapar e assim, como num gesto de adeus ao velho amigo, Phillipos fingiu não saber dessa possibilidade de esconderijo e seguiu em frente com o grupo, disposto a atrapalhar nas buscas com falsos palpites.

Horas se passaram. O dia se transformou em noite. Finalmente, quando o silêncio se estabeleceu, Kallias saiu cautelosamente para verificar se ainda havia perseguidores. A floresta estava vazia. Os cavaleiros haviam perdido o rastro, muito graças a Phillipos.

Ele retornou à caverna e encontrou Amara tremendo de frio e exaustão emocional. Ele a abraçou, e ela desabou contra ele, as lágrimas finalmente transbordando.

"Conseguimos," ele sussurrou. "Conseguimos escapar."

Mas ambos sabiam que a jornada estava apenas começando. Eles não podiam ficar ali por muito tempo. Os perseguidores poderiam voltar. Precisavam continuar em direção ao norte, em direção à Báctria, onde poderiam desaparecer entre as multidões e começar uma nova vida.

Naquela noite, na caverna escura, Kallias e Amara abraçaram-se, sabendo que haviam cruzado um ponto de não retorno. Não havia volta para Shilah, não havia volta para o exército de Alexandre. Havia apenas o futuro incerto que se estendia diante deles, e a determinação de enfrentá-lo juntos.

A perseguição nas montanhas havia testado seu amor de uma forma que nenhum sussurro no escuro poderia ter feito. Eles não eram mais apenas um casal fugindo. Eram dois sobreviventes, unidos não apenas pela paixão, mas pela coragem de escolher um ao outro diante de todas as probabilidades.


Notas finais
1 - O Indocuche, Hinducuxe, Hindu Kush, Hindū Kūsh ou Hindukush, é uma cordilheira no atual Afeganistão e Paquistão Ocidental.