Sob o Luar de Shilah: Quando dois mundos se tocam.
2 A Barreira e a Ponte.
A trégua se estendeu por mais dias do que o previsto, transformando a tensão inicial em uma rotina cautelosa. O exército de Alexandre, aguardando ordens ou o resultado das negociações, começou a interagir marginalmente com os habitantes locais.
Pequenos mercados improvisados surgiram nos limites do acampamento, onde mercadores corajosos de Shilah trocavam alimentos frescos e tecidos por moedas gregas e espólios de guerra. Para Kallias, essa era a oportunidade que ele secretamente desejava. Enquanto seus companheiros buscavam vinho ou companhia, ele perambulava pelas barracas, tentando absorver a cadência do idioma local, o prakrit¹, que ele havia aprendido, com dificuldade, algumas palavras básicas com os guias locais, mas a pronúncia escapava à sua língua acostumada ao grego koiné² e o macedônio. Naquela tarde, o sol castigava a terra, e o mercado estava cheio de poeira e vozes sobrepostas. Kallias parou diante de uma barraca que vendia pequenas esculturas de madeira e cerâmica.
Ele pegou uma figura que parecia um elefante estilizado, fascinado pela habilidade do artesão. Tentou formular uma pergunta sobre o preço, enrolando a língua em sons que soaram quase cômicos. O mercador riu, balançando a cabeça, e respondeu em uma torrente de palavras incompreensíveis.
A poucos passos dali, oculta por um véu modesto que a disfarçava como uma mulher comum da cidade, Amara observava a cena. Ela havia escapado das restrições do palácio, acompanhada apenas por uma serva de confiança, movida pela necessidade de ver o inimigo de perto, de entender a ameaça que pairava sobre seu lar. Ela observou o soldado macedônio, o mesmo do pátio, lutando com as palavras.
Havia algo estranhamente cativante na vulnerabilidade dele, na tentativa desajeitada de se comunicar em vez de simplesmente tomar o que queria pela força.
Movida por um impulso que não soube explicar, Amara se aproximou da barraca. Ao fazê-lo, a multidão a empurrou levemente, e uma pequena cesta de frutas que ela carregava escorregou de suas mãos, espalhando mangas e figos pela terra batida.
Kallias reagiu com reflexos de soldado. Antes que Amara pudesse se abaixar, ele já estava no chão, recolhendo as frutas com mãos grandes e calejadas, mas surpreendentemente cuidadosas. Ele limpou a poeira de uma manga na borda de sua curta túnica antes de colocá-la de volta na cesta. Quando ele se ergueu para entregá-la, seus olhos se encontraram novamente.
Amara prendeu a respiração. De perto, ele parecia maior, mais imponente, o cheiro de couro, suor e metal misturado com o aroma doce das frutas. Mas os olhos castanhos eram os mesmos: calmos, observadores e agora, cheios de reconhecimento. Ele sabia quem ela era, mesmo sob o véu simples. A postura de Kallias mudou, tornando-se mais rígida, mais respeitosa.
“Me desculpe,” ele disse, a voz grave e hesitante, usando umas das palavras em prakrit que havia praticado mentalmente dezenas de vezes. A pronúncia era terrível, dura e gutural, mas a intenção era inconfundivelmente clara.
Amara sentiu o calor subir às suas bochechas. Aquele bárbaro, um homem treinado para matar, estava se esforçando para falar o idioma dela, para demonstrar cortesia. A barreira entre eles, construída por séculos de isolamento e guerra, pareceu vacilar por um instante.
“Sua pronúncia é péssima,” ela respondeu, em um grego koiné perfeito, fluido e melodioso.
Kallias arregalou os olhos, a surpresa desarmando sua compostura militar. Ele quase deixou a cesta cair novamente. “Você fala…”
“Meus tutores acreditam que conhecer a língua daqueles que marcham sobre nossas terras é uma necessidade,” Amara cortou, a voz suave, mas firme, recuperando sua postura de princesa, mesmo disfarçada. Ela estendeu a mão para pegar a cesta.
Quando seus dedos roçaram os dele, uma corrente elétrica pareceu disparar através do contato efêmero. Foi apenas um toque fugaz, pele contra pele, mas foi o suficiente para que ambos recuassem ligeiramente, assustados com a intensidade da sensação.
A tensão do “quase” pairou entre eles, espessa e inegável.
“Não marchamos sobre suas terras com intenção de destruição,” Kallias disse, a voz baixa, quase um sussurro, como se temesse quebrar o feitiço do momento. “Apenas… passamos.”
“Uma tempestade também apenas passa,” Amara retrucou, segurando a cesta contra o peito como um escudo. “Mas deixa ruínas em seu rastro.”
Ela virou-se rapidamente e desapareceu na multidão, deixando Kallias parado no meio do mercado poeirento, com o eco de sua voz em grego e a memória de seu toque gravados em sua mente. A semente da curiosidade havia germinado, desafiando toda a lógica e o dever.
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