Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro 15 de julho de 1895 — 09:17 a.m.

Seis longos dias haviam se esvaído desde que os pais de Nayla interceptaram o idílio proibido entre ela e Joaquim. Desde aquela noite fatídica, uma névoa de silêncio e contrição estendera-se sobre os aposentos da jovem, que se via confinada à clausura de seu quarto, privada do direito de professar qualquer palavra em sua defesa.

O peito de Nayla abrigava um rancor amargo voltado contra si mesma, uma indignação por sua própria passividade diante do infortúnio alheio. No dia seguinte ao confronto na Casa Pastoral, ela esgueirara-se sorrateiramente pelas sombras da manhã, impelida pelo desejo urgente de alertar Joaquim. Contudo, ao aproximar-se das cercanias do modesto quarto do rapaz, seu coração estacara. Escondida atrás da estrutura de madeira do coreto, ela testemunhara uma cena que lhe ferira a alma.

O Xerife Luiz, ladeado pelo Pastor Elias e pela Missionária Abigail, postava-se diante de Joaquim e Nora. Os irmãos mantinham as cabeças baixas, sob o peso da vergonha, enquanto uma pequena multidão de curiosos se formava ao redor, ávida pelo espetáculo da desonra alheia.

— Eu sempre soube que trazer-vos ao mundo fora um equívoco de minha parte, mas expor-me a tamanha humilhação excede os limites da minha tolerância! — vociferava Luiz, desferindo um empurrão violento contra o ombro de Joaquim, que cambaleou para trás. — Portai-vos como homem, rapaz! Em que instante de vossa insolência presumistes que alguém de vossa estirpe teria direito a um futuro ao lado da filha de um clérigo? É risível como falhei em vossa formação!

Os pastores assistiam ao vilipêndio sem que uma única palavra de moderação cruzasse seus lábios, o que despertou em Nayla uma revolta incandescente. Lembrou-se instantaneamente do versículo que tantas vezes ecoara nas paredes de sua casa:

"Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram".

Que amarga ironia perceber que a máxima bíblica, para seus pais, parecia uma vestimenta moldada apenas para aqueles que consideravam dignos.

Nora parecia ter definhado nos últimos dias; seu corpo esguio denunciava o cansaço e a privação, mas o olhar de seu progenitor reservava-lhe apenas escárnio.

— Tão formosa quanto vossa falecida mãe e tão insensata quanto vosso irmão! — desdenhou o Xerife. — Entregastes vossos favores para, ao fim, colher o desprezo de um homem que jamais a aceitará por esposa. Sois a personificação da minha desonra!

Com essas palavras cáusticas, o homem deu as costas, seguido pelos pastores. Nayla correu de volta, impulsionada pelo pavor de ser descoberta, alcançando a Casa Pastoral antes deles. Desde então, o silêncio sobre Joaquim fora absoluto. O consórcio com Davi fora postergado por tempo indeterminado, mas o fantasma do compromisso ainda pairava sobre seu porvir.

Em meio àquele cenário de ruínas emocionais, o Sr. Augusto Valadares encontrou a brecha necessária para estreitar seus laços com a família. Aos seus olhos condescendentes, as indiscrições de Nayla não passavam de um capricho provinciano. Que importava um flerte de vilarejo? No instante em que ela tomasse assento ao seu lado no trem rumo à serra, o nome de Joaquim desvaneceria como a fumaça da locomotiva.

A verdade que impelia Augusto era de ordem prática e urgente: sua opulenta residência em Petrópolis clamava por uma senhora. Seus criados, aproveitando-se de suas frequentes ausências, estendiam-se em liberdades que ele não toleraria por muito tempo. Ademais, o tempo avançava implacável sobre sua juventude e ele carecia de herdeiros legítimos. Nayla, com seu vigor juvenil, decerto lhe daria varões robustos.

Naquela manhã, Augusto adentrou a mercearia do Pastor Elias com a elegância que lhe era peculiar.

— Meu estimável amigo, que o dia lhe seja propício! — saudou ele, aproximando-se do clérigo que inspecionava as prateleiras.

Elias esboçou um sorriso sincero. — Seja bem-vindo, Augusto! Trazeis boas novas de vossa busca? Encontrastes a dama que procuráveis?

Augusto franziu levemente o cenho, desviando os olhos verdes para as hortaliças frescas. — Temo que sim, meu amigo.

— Que maravilhosa notícia! E quem seria a felizarda de vossa escolha?

Augusto sustentou o olhar do pastor. — Vossa filha, Nayla.

A fisionomia do Pastor Elias contraiu-se em uma expressão de perplexidade e embaraço. — Porventura Nayla o tem cortejado indevidamente? — indagou, a voz banhada em vergonha. — Peço-vos escusas, Augusto... Eu já não reconheço as inclinações de minha menina.

— De modo algum! — atalhou o aristocrata. — Mal trocamos olhares de soslaio, mas possuo a certeza de que ela possui os dotes necessários para ser a guardiã do meu lar.

Elias suspira, conduzindo o amigo a um canto mais reservado do estabelecimento. — Ignoro se as notícias do tumulto que assolou nossa casa nesta última semana chegaram aos vossos ouvidos...

— Estou a par de cada detalhe — interrompeu Augusto, com um aceno desdenhoso. — E tais leviandades não alteram em um ápice a minha admiração por vossa filha. Aquele que nunca abrigou uma paixão imprudente na juventude que atire a primeira pedra. Isso não constitui um estigma. No momento em que ela for introduzida na sociedade de Petrópolis como a Senhora Valadares, o passado será sepultado.

— Ela permanece prometida a Davi, meu caro. Minha palavra foi empenhada — ponderou Elias, relutante.

— Davi não solicitou o adiamento das núpcias? — arguiu Augusto, com um sorriso sutil. — Creio que a família do jovem está apenas a ganhar tempo para encontrar uma aliança mais conveniente e menos... comentada. — Augusto balançou a cabeça. — Esqueçamos isso por hora. Concede-me, ao menos, a vênia para acompanhá-la em um breve passeio pelo coreto ao crepúsculo? A jovem definha em seu confinamento; um pouco de ar puro lhe devolverá o viço.

O Pastor permaneceu em silêncio, pesando as repercussões de tal concessão.

— Partirei em quarenta e oito horas, Elias. Não trarei mácula alguma à integridade de vossa filha.

Diante da promessa de cavalheirismo, Elias cedeu, conjecturando que a sofisticação de Augusto talvez funcionasse como o remédio necessário para dissipar as quimeras que Nayla nutria por Joaquim.

Quando Abigail informou à filha que naquela tarde ela sairia para passear pelo coreto acompanhada de Augusto, Nayla sentiu um frio desagradável percorrer-lhe a espinha.

— Posso saber o propósito de tal caminhada, mamãe? — A pergunta saiu cautelosa, quase receosa da resposta que poderia ouvir.

Abigail limitou-se a dar de ombros enquanto organizava algumas peças de roupa sobre a cama.

— Ordem de teu pai. Particularmente, considero um absurdo vê-la passeando acompanhada de mais um rapaz, porém Elias acredita que isso lhe fará bem. Disse também que permanecerá na mercearia, observando-os de longe.

Após responder, Abigail deixou o quarto sem acrescentar mais nada.

Assim que ficou sozinha, Nayla soltou um longo suspiro cansado antes de voltar-se lentamente para o espelho e começar a arrumar-se para a saída daquela tarde.

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Quando a tarde começou a desvanecer, o firmamento transformou-se em um majestoso degradê de matizes alaranjados e violetas. A lua e as primeiras estrelas reivindicavam seu domínio enquanto o sol se despedia no horizonte.

Nayla e Augusto caminhavam em direção ao coreto envoltos em um silêncio cortês. Ela trajava seu vestido bege de mangas longas e ornamentação sóbria, os cachos livres para dançar conforme a melodia do vento. Augusto exibia um traje de igual sobriedade, e o silêncio entre ambos era pontuado apenas pelo persistente tic-tac do relógio de bolso que ele carregava no colete.

— A vila parece desprovida de vida a esta hora, não acha? — observou Augusto, contemplando as janelas cerradas das residências.

— Amanhã celebraremos o estudo bíblico matinal — explicou Nayla. — Os moradores recolhem-se mais cedo aos sábados para que a fadiga não lhes roube a atenção devida à Palavra.

— Considerais minha solicitação para este passeio uma inconveniência? — indagou ele, detendo-se e indicando um banco de madeira à lateral do coreto.

Nayla sentou-se, esboçando um sorriso melancólico. — Não, Sr. Valadares. De fato, o ar livre me era necessário. Parece-me que estive cativa por séculos.

— Eu a desejaria como esposa, Nayla — declarou ele, sem preâmbulos, fazendo com que o sangue subisse às faces da jovem.

— Sinto... sinto muito, Sr. Valadares, mas minha mão já foi empenhada — respondeu ela, uma pontada de repulsa atingindo-lhe o estômago ao evocar a figura de seu noivo.

— Estou ciente e, por tal razão, tomarei o trem de volta em dois dias. Se não for a senhorita a adornar minha casa, nenhuma outra o fará — afirmou Augusto, fixando seus olhos claros na moça.

Desejando dissipar a tensão daquele galanteio, Nayla desviou o olhar para o horizonte. — Sabia que um de meus maiores anseios é conhecer Petrópolis?

Augusto sorriu, embora houvesse uma nota de advertência em seu tom. — Temo que a realidade da serra não corresponda às vossas expectativas românticas, senhorita. Lá, os carros de praça e as carruagens disputam o espaço nas vias a todo o tempo; os transeuntes movem-se com uma pressa febril e os mercadores clamam seus produtos até a exaustão. Há miséria nos cantos escuros e as chaminés das fábricas tingem o céu de um cinza perpétuo.

Nayla franziu o cenho, surpresa. — Da forma como descreveis, o cenário carece de atrativos, mas o fascínio que a cidade exerce sobre meus sonhos permanece inalterado.

O riso compartilhado humanizou a figura de Augusto aos olhos de Nayla. Ele não possuía a baixeza de Davi, mas a perspectiva de se tornar a "Senhora Valadares", servindo chás à aristocracia, imobilizada em espartilhos sociais, parecia-lhe um pesadelo quando comparada à liberdade que sentia ao lado de Joaquim.

Subitamente, as palavras de Augusto cortaram seus pensamentos como um punhal de gelo.

— Aquele cavalheiro ali adiante... não é o vosso prometido?

Nayla seguiu a direção do olhar de Augusto. No beco escuro que flanqueava a praça, sob a cumplicidade das sombras, Davi e Nora entregavam-se a um abraço passional, trocando beijos ardentes.

Nayla levou as mãos aos lábios, os olhos arregalados diante do sacrilégio. Augusto, por sua vez, achou a ironia da situação soberba e soltou uma gargalhada contida.

— Meu Deus... o que significa isto? — murmurou a filha do pastor, sua mente correndo em socorro de Nora.

Tudo se aclareava naquele instante. Davi era o algoz invisível de Nora; o homem que a mantinha no cativeiro da vergonha, exilando-a do direito ao respeito. Nora comparecera àquele beco resoluta a romper os grilhões, a declarar que não aceitaria a condição de amante secreta de um homem comprometido com alguém tão generoso quanto Nayla. Todavia, quando os braços de Davi a enlaçaram e suas promessas hipócritas de perdão foram sussurradas, a jovem rendera-se, subjugada pelo afeto cego que nutria por ele. Davi, em contrapartida, não abrigava sentimentos genuínos; a magreza e o desalento de Nora já lhe causavam enfado, e ele pretendia usar aquela noite para descartá-la em definitivo.

Augusto ergueu-se, engolindo o riso, percebendo que o destino lhe entregara o palco perfeito para sua cartada triunfal. Antes que Nayla pudesse detê-lo, o aristocrata cruzou a distância que os separava do beco, segurou Davi pelo colarinho e desferiu-lhe um soco formidável no rosto.

— Davi! — gritou Nayla, correndo em direção ao conflito. O alvoroço cruzou a praça e alcançou a mercearia, fazendo com que o Pastor Elias abandonasse seus afazeres.

Nora estacara, trêmula e desamparada. Ao fitar Nayla, as lágrimas romperam em sua face empalidecida. — Perdoa-me... por tudo o que há de mais sagrado, perdoa-me! Eu tentei resistir, eu...

Nayla interrompeu o pranto da infeliz, envolvendo-a em um abraço protetor. — Shiuu... guardai vossas desculpas, Nora. Não há mágoa em meu peito por este enlace; minha dor reside em ver que permitistes que um homem sem escrúpulos como Davi destruísse vossa dignidade desta forma. Deveríeis ter me confiado a verdade há mais tempo.

No solo de terra batida, Augusto e Davi atracavam-se, erguendo uma nuvem de poeira que alarmou o Pastor Elias ao aproximar-se. — Nayla! Que desatino é este?!

A filha do pastor, mantendo Nora sob seu acalento, fitou o pai com determinação. — Não interfirais, papai! Permiti que o Sr. Valadares lhe dê a lição necessária. Davi merece cada gota desse castigo pela ruína que semeou em minha vida e na de Nora.

No íntimo de Nayla, uma alegria indômita começava a florescer. O casamento forçado desmoronava diante de seus olhos, irrevogavelmente cancelado pela torpeza do noivo.

Augusto ergueu Davi, cujo rosto já vertia o sangue da punição, e o prensou contra a parede de adobe. — Nunca mais ouseis aproximar-vos da Senhorita Nayla. Vossa indignidade não merece a pureza dela.

Humilhado e incapaz de sustentar o olhar de profunda decepção e ojeriza que o Pastor Elias lhe direcionava, Davi desvencilhou-se e correu pelas ruelas escuras, desaparecendo na noite.

Augusto recompôs os trajes, espanando a poeira das mangas, e voltou-se para o clérigo. — Peço-vos escusas por meu arrebatamento, meu bom amigo. Minha honra de cavalheiro não tolerou ver a noiva de vossa casa ser ultrajada de forma tão vil sob os olhos de todos.

O Pastor Elias permanecia estático, o semblante obscurecido pelo peso de uma semana de escândalos e pela ruína das conveniências que edificara. Nayla, sem pedir licença, começou a conduzir Nora em direção à Casa Pastoral, oferecendo-lhe o amparo que o mundo lhe negara.

Elias passou a mão pela fronte, exausto. Sabia que aquela noite exigiria uma conferência de emergência com Abigail. O destino de Nayla precisava ser traçado, e o tempo jogava contra a estabilidade daquela família.