Conservatória, Distrito de Valença, Rio de Janeiro25 de março de 1895 — 06:00 a.m.

O canto persistente do galo e o aroma adocicado do bolo de milho, recém-tirado do forno de lenha, trespassaram as frestas da porta e despertaram Nayla. A jovem sentou-se no leito, o coração ainda calmo pelo repouso, e uniu as mãos em um gesto de entrega que aprendera antes mesmo de saber ler.

— Bom dia, meu Senhor e Salvador — sussurrou, a voz suave preenchendo o quarto. — Sou grata pela vossa divina permissão de viver mais este dia sob a Tua proteção. Que o pão sobre a nossa mesa nunca falte, fruto da Tua providência, e que a Tua graça e misericórdia sejam o meu baluarte. Amém.

Nayla levantou-se e caminhou até a janela de madeira. Ao abri-la, o sol da manhã inundou o aposento, revelando uma Conservatória banhada em ouro. O céu, de um azul imaculado, abraçava as colinas verdes, e o movimento das folhas ao vento parecia um louvor silencioso à Criação.

No andar de baixo, o Pastor Elias e a Missionária Abigail trocaram um olhar de cumplicidade ao ouvirem o som dos passos da filha.

— Com certeza, Conservatória recebeu bem este "bom dia" — comentou Abigail com um sorriso contido, terminando de dispor as louças de porcelana sobre a toalha de renda.

— Nossa filha carrega um propósito que vai além destas montanhas, Abigail — respondeu o Pastor, fechando por um momento sua Bíblia de estudos para o culto dominical.

Nayla surgiu à mesa minutos depois. O traje marrom, embora simples, possuía um corte impecável que lhe conferia uma elegância modesta. — A benção, papai. A benção, mamãe.

— Deus te abençoe, minha princesa — respondeu Abigail, enquanto o Pastor Elias recebia o jornal das mãos do entregador.

— As notícias dizem que o movimento na estação ferroviária aumentará com as novas cargas de café — comentou o pai, franzindo o cenho com uma preocupação típica de quem zela pela moral da pequena vila.

Nayla, enquanto servia-se de uma fatia de bolo, sentiu o entusiasmo borbulhar. — Não acham isso promissor, papai? Imagine poder ir a Petrópolis ou à Capital Federal sem o sacrifício das diligências e o cansaço dos pobres cavalos. O progresso é uma ferramenta, se usada para o bem.

Abigail tocou suavemente a mão da filha, retirando o prato por um breve segundo. — Oremos primeiro, Nayla?

— Oh, perdoe-me, mamãe. Minha mente corre mais rápido que meus pés.

A família Barbosa era o pilar da fé protestante na região. Descendentes de portugueses, mantinham-se com a labuta na terra e uma pequena mercearia, mas o respeito que impunham vinha do exemplo. Elias, um homem de mãos calejadas e olhar firme, era o pastor da única igreja reformada local. Abigail, com sua doçura firme, moldava Nayla para ser uma mulher de virtudes, enquanto a jovem de 17 anos já liderava o ensino bíblico para as crianças, escondendo, sob a obediência, um coração sedento por ensinar e conhecer o mundo além dos cafezais.

O Pastor Elias inclinou a cabeça, fechando os olhos por um instante em uma prece silenciosa de gratidão. Só então, com um gesto solene, Abigail devolveu o pedaço de bolo às mãos da filha, selando o fim do devocional matinal.

— Quais são os planos para o dia de hoje, minhas senhoras? — perguntou Elias, limpando os farelos da barba com um lenço de linho.

— Vou visitar a jovem Olímpia — respondeu Abigail, com o olhar transbordando compaixão. — O pequeno nasceu há dois dias e a pobre está desamparada. Sem parentes por perto e sendo seu primeiro rebento, ela mal sabe como embalar o choro. Precisa de auxílio e de uma palavra de conforto.

Elias assentiu com gravidade. — É papel da Igreja ser a família de quem não a tem. Eu passarei o dia na mercearia, e ao cair da tarde, encontrarei os irmãos para os reparos no telhado do templo. A última tempestade castigou as telhas da igreja. — Ele deu um longo gole em seu café e fixou os olhos em Nayla. — E quanto a você, minha filha?

Nayla estava ali, mas sua mente já havia embarcado no vagão de madeira da estrada de ferro. Ela se via percorrendo as ruas de Petrópolis, admirando a arquitetura imperial, os jardins bem cuidados e, acima de tudo, a Escola Normal. Imaginava-se com um giz nas mãos, ensinando o alfabeto a crianças que, como ela, buscavam luz no conhecimento.

— Nayla? — Elias passou a mão à frente dos olhos da menina.

— Ah! Sim... perdoem-me. Eu estava... perdida em pensamentos.

Abigail balançou a cabeça, o olhar severo mas zeloso. — Anda muito dada a devaneios, mocinha. Espero que sejam pensamentos que edifiquem. O seu pai lhe fez uma pergunta.

— Vou auxiliar a família Alves com a produção de quitutes para a feira — recompôs-se a menina, com um sorriso doce. — À tarde, estaremos na praça para o trabalho de evangelização com os músicos. Precisará de mim no comércio, papai? Ou a senhora, mamãe, deseja auxílio com as lidas domésticas?

— Cuide apenas de suas obrigações habituais — disse Abigail. — Encontraremos-nos na praça ao pôr do sol.

A família encerrou o desjejum e cada um seguiu seu rumo. Nayla, contudo, decidiu tomar o caminho mais longo até a casa de sua amiga, Ana Gertrude. Seus pés a guiaram, como se tivessem vontade própria, em direção à estação ferroviária.

No caminho, cruzou com o leiteiro, o Sr. Honório: — A paz do Senhor, Senhorita Barbosa.

— A paz do Senhor, Honório. Senti sua falta no último serviço religioso. Está tudo bem?

O homem suspirou, retirando o chapéu em sinal de respeito.— Minha esposa partiu às pressas para acudir um primo que retornou da guerra em Canudos... ele não voltou o mesmo, senhorita. A mente parece perdida.

Nayla sentiu um aperto no peito.— Que o Príncipe da Paz console sua família, Honório. Colocarei o primo de sua esposa em minhas intercessões.

Nayla seguiu adiante. Ao parar a alguns metros da estação de Conservatória, seu coração saltou. "Está linda!", pensou. Os operários ainda trabalhavam na manutenção dos trilhos, e para Nayla, aquele ferro frio representava a ponte para o seu destino.

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— Esqueça essa quimera, Nayla! É uma loucura — exclamou Ana Gertrude, mergulhando as mãos na farinha de trigo.

Nayla cruzou os braços e sentou-se na cadeira de palha, suspirando. — Mas eu sinto que meu propósito reside no ensino, Ana. Imagine-me em Petrópolis, lecionando em uma sala de aula de verdade! As moças instruídas, a vida pulsando na cidade... Eu sinto que preciso disso tanto quanto do ar.

Ana negou com a cabeça, concentrada na massa. — Você precisa é se aprofundar nas Escrituras, casar-se com o Davi e garantir que a obra de seu pai continue em Conservatória. É esse o caminho natural para uma moça de sua posição.

— Eu não vou me casar com o Davi! — Nayla bufou. — Amo nossa vila e quero servir como missionária, mas isso não me impede de ser professora. Pense bem: eu estaria ajudando a formar o caráter das próximas gerações. Poderia levar meninas como nós a sonharem com a instrução superior!

Ana colocou um cesto de maçãs e uma faca de prata à frente da amiga. — Corte as frutas e deixe de sonhar, Nayla. O seu dever é aqui, como esposa e serva da nossa congregação.

Um bico formou-se nos lábios de Nayla enquanto ela descascava as maçãs. — Papai diz que tenho um grande propósito. Talvez os planos do Senhor para mim sejam extraordinários e não caibam apenas em uma cozinha — sussurrou ela, fechando os olhos e buscando a paz que só a presença divina lhe trazia.

Ana deu um pulinho, tentando mudar de assunto. — Quase me esqueci! Eulália escolheu os hinos para hoje: Grandioso és Tu e Mais Perto Quero Estar. Estou ansiosa pela exortação que o Davi trará. E você?

Nayla forçou um sorriso. — Amo adorar ao Senhor, e hoje levaremos o refrigério do Evangelho aos que sofrem com as sequelas da guerra. Mas, quanto a ver o Davi... confesso que meu entusiasmo é nulo. Eu não sinto afeição por ele, Ana. Nenhuma.

— Ele é um bom cristão, Nayla — retrucou a amiga com compaixão. — Trabalhador, zeloso e de família honrada. Não encontrará pretendente mais adequado.

— Mas ele me proibiria de estudar! E eu não o amo. Nos romances que leio, o amor é um sentimento que faz a alma vibrar, algo profundo e arrebatador...

Ana revirou os olhos. — Por favor, Nayla! Estamos na vida real, não em um folhetim de livraria. Davi e a igreja são o melhor que a realidade pode lhe oferecer. Não jogue isso fora por causa de fantasias.

A realidade, densa como a massa que Ana sovava, parecia prensar Nayla contra a parede. Três verdades a perseguiam: ela era mulher, de classe modesta e o peso de um compromisso arranjado já pairava sobre seu futuro.

A tarde passou entre aromas de canela e maçãs caramelizadas. Sebastiana, a mãe de Ana, entrou na cozinha com a pequena Benedita, que correu para o colo de Nayla.

— O cheiro está divinal! — disse Sebastiana. — Nayla, que tal levarmos uma destas tortas para os músicos hoje? Será um agrado pelo trabalho na praça. Podemos entregá-la ao Davi e dizer que foi feita pelas suas mãos delicadas — a mulher piscou, com uma intenção clara.

Nayla sentiu um nó no estômago. O peso daquela torta em suas mãos parecia o peso de um contrato que ela ainda não estava pronta para assinar.

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A noite caiu sobre Conservatória com um ar límpido e gelado. A praça central, com seu coreto iluminado por lampiões de querosene, tornava-se o centro do universo de Nayla. Ela usava um vestido azul-noite, com rendas claras que destacavam sua pele.

— Psiu! — o chamado súbito a fez saltar. Era Davi, o jovem auxiliar de seu pai, com um sorriso que sempre a deixava desconfortável.

— Davi! Que susto — repreendeu ela, ajeitando o chapéu.

— Queria agradecer pela torta de maçã que enviou com Ana Gertrude. Foi um gesto nobre.

Nayla sentiu a pontada de culpa. — A ideia foi de Ana e da mãe dela, Davi. Eu apenas ajudei na feitura. Mas folgo em saber que apreciou.

Antes que ele pudesse prosseguir com as galanterias que ela tanto evitava, Eulália, a regente, a chamou para a oração inicial. Um círculo se formou e Nayla, com os olhos fechados, elevou a voz: — Senhor, meu Pai Celestial... que nesta noite o nosso louvor seja um incenso suave perante o Teu trono. Usa-nos como instrumentos de Teu refrigério para os corações quebrantados pelas perdas e pelas guerras deste mundo. Que Conservatória sinta a Tua presença. Amém.

Enquanto os hinos solenes como "Castelo Forte" ecoavam, Nayla movia-se entre a multidão, oferecendo palavras de esperança às viúvas e aos aflitos. Sentia-se completa, mas uma sede estranha a fez buscar um pouco de água próximo à lateral do coreto.

Ao tentar atravessar o aglomerado de pessoas, esbarrou com força nas costas de um desconhecido. O impacto foi tal que seu nariz ardeu e os olhos marejaram instantaneamente. — Oh, mil perdões! — exclamou, levando a mão ao rosto.

O rapaz se virou lentamente. Suas vestes eram simples, mas bem ornamentadas; o paletó escuro era de um corte moderno, ainda que demostrasse sinais de uso. Mas foram os olhos dele que paralisaram Nayla. Não eram os olhos de quem buscava uma esposa por conveniência, mas os de alguém que via o mundo com uma curiosidade devoradora.

Ele deu um sorriso de canto, observando a jovem diante de si, que parecia ter esquecido como se respirava. — A culpa foi inteiramente minha, senhorita. Eu estava distraído... com a música.

Ele não quebrou o contato visual. O silêncio entre eles, no meio do alvoroço do evangelismo, foi mais barulhento que qualquer hino. — Oi? — disse ele, com uma voz que soava como um convite para o desconhecido.

— O-oi — Nayla conseguiu responder, sentindo que, a partir daquele instante, o "propósito" de que seu pai tanto falava ganharia contornos que ela jamais ousara imaginar.


Notas finais
Espero que gostem do volume 1 dessa duologia que amei tanto construir.