Sob a luz das estrelas
5 Capítulo 5: Livros e beijos quentes
Notas iniciais
É mas tenho ainda muita coisa pra arrumar . Promessas que me fiz e que ainda não cumpri . Palavras me aguardam o tempo exato pra falar. Coisas minhas, talvez você nem queira ouvir . Já sei olhar o rio por onde a vida passa . Sem me precipitar, e nem perder a hora . Escuto no silêncio que há em mim e basta . Outro tempo começou pra mim agora -Ana Carolina- Pra Rua me levar.
Rapunzel fungou e passou a costa da mão pela bochecha espantando uma lágrima. Olhou em volta e viu Eugene dormindo no sofá com as mãos descansando na barriga. Pascal o acompanhava no sono deitado em seu peito. Era a primeira vez que o camaleão não ficava junto dela e a loira se perguntou se foi dura de mais. Se aproximou e pegou os livros que tinha deixado empilhados e os abraçou contra o peito. Pascal abriu um olho e mirou seu rosto:
–O que?- Perguntou num movimento de lábios sem som. O camaleão revirou os olhos- Ele também foi grosso.- Sussurrou e saiu dali. Tudo que não precisava era lembrar da briga que teve com Eugene. Quando alcançou o último andar das escadas encarou o homem em seu sofá. Ele parecia calmo daquele jeito e ela gostou de vê-lo dormir. Continuou analisando os traços dele. Era bonito. Talvez não do jeito convencional, afinal o nariz era realmente um pouco comprido, mas fazia uma combinação perfeita com o resto do rosto. Ele tinha uma beleza quase selvagem. Era diferente das pessoas que viu ao longo de sua jornada. A jovem chegou à conclusão de que selvagem não era a palavra ideal- Livre.- Ela murmurou observando-o. A beleza dele era livre, se é que aquela frase fazia algum sentido. Então se lembrou das coisas que ele lhe disse e voltou para a sua cama. Estava muito magoada com tudo que ouviu. Ele não tinha o direito de despertar todas aquelas dúvidas em si. Ela não era parecida com a mãe porque segundo a mais velha, era feia igual ao pai, mas Eugene tinha dito que ela era linda. Ele a achava linda e se ele a achava linda tanto quanto ela o achava significava que era bonita e que sua mãe tinha lhe feito se sentir feia de propósito e aquilo seria muita maldade. Depois ele acusou sua mãe de ter lhe roubado de uma família. E foi demais para ela. Sua mãe podia ser meio estranha, mas Eugene não sabia o que era ter uma família e tudo o que ele disse foi lhe irritando de maneira sem igual. Se sentia culpada por pensar tantas coisas ruins da própria mãe. Era uma heresia cogitar que ela não fosse sua mãe. Ela tinha lhe protegido de gente que queria usar seu cabelo, ela tinha acabado com a própria vida pela segurança dela. As mães faziam aquilo por seus filhos. Ela viu, em todas as histórias que leu, que as mães eram capazes de sacrifícios por seus filhos. Ainda assim sentia-se estranha, as dúvidas cada vez rondando mais sua mente. As palavras de Eugene lhe atingindo feito fogo em aço, marcando definitivamente.
–Ele não tem esse direito.- Resmungou e abriu o livro de Flynnigan Rider. Na contra capa uma grafia bonita e muito parecida com a sua estava marcada. Como se tivesse sido escrita tempos atrás- Eugene, espero que esse presente lhe traga bons momentos como me trouxe na infância. Que ele encha seus dias de esperança e que aqueça seu coração diante o mundo lá fora. Seja um bom menino. Eleonor Vontun. – A loira parou a leitura e franziu o cenho. Ela tinha ouvido aquele nome em algum lugar.- Vontun.- Repetiu queimando a informação em sua memória para nunca mais esquecer.- Seja lá quem for gostou dele.- Rapunzel murmurou tocando a grafia bonita e parecida com a sua. Virou a página para começar a leitura, mas não conseguia parar de pensar em tudo que Eugene lhe disse. Confiava nele com sua vida. Ele lhe levou para ver as lanternas quando podia ter lhe amarrado em algum lugar ou lhe torturado até que ela dissesse onde tinha escondido a coroa. Ele podia ter feito da viagem a pior possível. Mesmo que no começo tivesse tentado convencê-la a voltar quando chegaram a capital ele se preocupou em comprar-lhe comida e a tinha levado de barco para que tivesse a melhor vista do reino. Ele realmente se importou com seu sonho e a beijou. Ao fazer isso roubou outra coisa além da coroa. Roubou seu coração. Não podia ignorar as coisas que ele dizia, mas Eugene era relativamente novo em suas rotinas, a mãe sempre sabia o que dizia e foi a única figura em sua vida até então- A mãe sabe mais.- Murmurou virando a primeira página.- Mas ela mentiu.- Então toda a confiança que tinha em sua mãe começou a ruir aos poucos. Não queria testar a mais velha. Não queria colocar a mãe no status de pessoa não confiável, mas depois de tudo o que aconteceu não podia mais ser a mesma. Seu conflito ainda existia e Eugene tentava ajudá-la.- Até quando ele vai me esperar?- Se perguntou sozinha. Tinha medo de que ele fosse embora novamente. Ele tinha dito que não a deixaria mais, mas se nunca estivesse pronta para deixar a torre? Se nunca estivesse pronta para assumi-lo para sua mãe? Ele a deixaria cansado de esperar e de coração partido? Suportaria aquilo? Se arrependeria? Sua mãe entenderia? Sufocou as lágrimas que queriam vir. Teria de se achar em meio aquela confusão. Eugene não tinha dado provas de mentiras, muito pelo contrário, tudo que ele dizia parecia ser verdade. Sempre uma prova atrás da outra. Tudo o que a mãe disse sobre o mundo era mentira e por mais que a preocupação de não magoá-la fosse grande um espirito de rebeldia surgia em Rapunzel. Uma vozinha intrigante que lembrava muito Flynn Rider lhe dizia que a mãe não tinha se importado em magoá-la. Não queria escutar o que Eugene tinha lhe tido na cozinha, mas ele tinha razão em estar irritado por sua mãe lhe tratar daquele jeito. E uma vez tratada com tanto e carinho e devoção pelo homem que dormia no andar de baixo queria que a mãe tivesse o mínimo para com ela, porque era bom sentir-se amada e querida e não um fardo como se sentiu durante todos aqueles anos.
Rapunzel não conseguiu se concentrar nos livros e foi até o parapeito. Eugene estava sentado cochichando algo com Pascal. Ele pareceu perceber sua presença e levantou a cabeça:
–Rapunzel.- Murmurou inseguro. Ela continuou parada e ele se levantou, nem lembrou de colocar as botas que tinha largado no chão- Eu sinto muito.
–Eu sinto muito também.- Ela murmurou andando em direção aos degraus. Ele começou a subir a escada, olhando-a atentamente. Rapunzel cruzou as mãos na frente do corpo numa postura recatada- Eugene. Eu entendo porque ficou irritado. Você tem razão em algumas coisas que disse. Minha mãe deveria me tratar melhor. Não é minha culpa ter nascido e ela deveria entender isso.- Ele assentiu quase eufórico- Mas...
–Mas?- A olhou com receio e parou no último degrau:
–Mas você exagerou ao acusá-la de me trancar na torre por uso próprio.- Ele segurou um revirar de olhos- Acredito que aos poucos posso torná-la a par da situação. Ela precisa me ouvir. Eu sei que irei magoá-la ao dizer a verdade, mas... Ela precisa entender que eu cresci e que quero fazer da torre uma casa onde eu volte ao fim do dia e não um lugar onde não posso sair nunca.- Ele a olhou apreensivo:
–Tem certeza que quer falar sobre nós?- Ela negou:
–Não agora.- Ele suspirou aliviado e ela se perguntou o motivo- Eu preciso convencê-la de que podemos sair.
–Bem...-Ele se aproximou e puxou-a pela cintura- Estou perdoado?
–Nunca estivesse brigada com você.
–Você apenas gosta de acertar as pessoas na cabeça?- Ela riu sem jeito e tocou o lugar machucado. Ele se encolheu levemente:
–Ouch.
–Eu posso...- Pegou o cabelo:
–Não faça isso.- Pediu- Não quero. Seu cabelo é algo... Algo que não deve ser usado levianamente. Eu não sei, depois que disse que isso suga suas forças eu...
–Mas só por coisas grandes.- Ela lembrou e ele a abraçou:
–Uma vez o capitão Farrow me disse. Nunca grite com a sua mulher se quiser sobreviver ao casamento. Acho que agora entendo o que ele queria avisar.- Os dois riram- Essa dor vai ser meu lembrete do conselho.- Rapunzel meneou a cabeça negativamente enquanto ria:
–Quero te mostrar meu quarto!- Ela falou feliz e foram andando. A cama era grande e muito antiga. Parecia de um período distante. As paredes eram coloridas alegremente com os primeiros desenhos de Rapunzel. Traços infantis e irregulares. Flores de crochê enfeitavam as cortinas da cama- Eu que fiz.- Apontou para a cortina e as flores. Quando tinha menstruado Rapunzel ficou tão apavorada pensando que sua mãe brigaria com ela que deu um jeito de esconder sua cama para lavar os lençóis antes que a mulher percebesse. Claro que um dossel enorme chamou a atenção da mãe e elas tiveram a conversa sobre as coisas mortais que os homens guardavam nas calças. Agora ela sabia que aquilo era tudo mentira:
–Você ainda tem algum espaço para pintura?- Ela negou:
–Se tiver deve ser escondido.- Murmurou desanimada- Mas posso dar uma mão de tinta branca aqui e começar tudo de novo.
–E porque não fez?- A loira passou a mão pela parede:
–Bem. São minhas primeiras tentativas.- Sorriu nostálgica- Não quero perdê-las.- Eugene assentiu. Sentaram na cama dela e ele viu o livro de Flynnigan Rider. Pegou-o com cuidado:
–Um novo volume desses também não me faria feliz.- Murmurou e ela sorriu para ele. A jovem adorava o jeito que se entendiam- Já leu?
–Não. Podemos ler juntos? Gostaria de ouvir a sua voz nas falas do Flynn.
–Flynningan. Flynn é a versão melhorada desse cara.- Falou arrogante. Rapunzel riu e revirou os olhos- Mas eu topo. Vai ser divertido!- A jovem bateu palmas feliz e ajeitou as almofadas na cama. Eugene se aconchegou nelas e a loira se empoleirou entre as pernas dele, usando seu peito de apoio para as costas. Ele ficou surpreso, esperando que ela fosse ficar ao seu lado, mas gostou de estar tão próximo. Abriu o livro e Rapunzel sorriu empolgada- Essa é a história de como eu morri.- Murmurou- Mas não se preocupe, ela é muito engraçada, tem bastante aventura e uma garota bonita. Na verdade essa confusão toda começou por causa dela. Mas vamos voltar ao início. Tudo começou quando eu resolvi embarcar num navio para o leste...- Ele continuou narrando o primeiro conto do livro. Tinha se esquecido de como era divertido. Ler aqueles contos em voz alto o fez lembrar de quando era um garoto e uma mescla de magoa e alegria se apossaram de seu coração. A empolgação de Rapunzel com a narrativa fantástica o fez se animar e ele começou a interpretar cada um dos personagens em suas falas. Rapunzel resolveu ajudá-lo quando começaram a terceira estória. Ela fazia as vozes femininas e infantis e Eugene se divertiu muito. Passaram o restinho de tarde e uma pequena parte da noite encenando os contos de Flynnigan Rider. Em dado momento ele largou o livro e começou a inventar as próprias aventuras. Rapunzel riu e ajudou-o. A coisa desenrolou numa comédia absurda e sem sentido e ambos acabaram rolando na cama numa luta de cócegas que Eugene estava perdendo vergonhosamente:
–Ok Goldie!- Ele murmurou quando, sem ao menos perceber, ela tinha parado montada em cima de si- Eu me rendo.
–Como sempre.- Disse arrogante. O moreno sorriu de canto e num movimento brusco girou jogando-a para baixo. Rapunzel sorriu calorosamente e sem esperar mais ele a beijou. A jovem suspirou ao sentir o corpo firme acima do seu. A língua dele invadiu sua boca e ela sentiu o calor familiar dominar todo seu corpo conforme os movimentos lentos e torturantes a provocavam. Sentiu as mãos dele correrem para suas pernas e gostou da sensação de fogo que ele deixou em sua pele. Movimentou sua língua contra a dele sentindo a maciez molhada da boca contra a sua. Adorava dar beijinhos em Eugene, mas gostava muito mais dos beijos de boca aberta. A respiração dele contra seu rosto e o jeito que uma das mãos fazia carinho em sua face formava um conjunto de sensações inebriantes. Tudo isso resultava em algo quente no seu baixo ventre que deixava sua roupa intima molhada e o quadril com uma necessidade de encostar ao dele. Sem passar vontade inclinou o corpo para cima e a fricção de sua pélvis contra a dele pareceu aplacar um pouco todo aquele calor ao mesmo tempo em que aumentava. Testou o movimento de novo e a mão grande em sua coxa a apertou. Eugene gemeu e ela resolveu testar de novo. Podia sentir algo firme contra si, mas não estava tão assustada quanto da primeira vez. Não quando ele a beijava daquele jeito.
O moreno deslizou a boca até o pescoço alvo e esticou a língua. Precisava provar o gosto da pele dela contra si. Sentiu-a suspirar e não aguentou. Desceu a outra mão e com rapidez levantou as pernas dela deixando-os mais próximos ainda. Ousou, num instinto frenético, movimentou os quadris para frente e gemeu com a sensação de pressão prazerosa, mas tudo acabou quando ela ficou tensa:
–Você está ok?- Perguntou tentando deixar a mente clara. Ela suspirou e o encarou insegura- Goldie está tudo bem certo? Lembra, eu não tenho nada mortal que vai te machucar... Você gosta dos nossos beijos?- Ela assentiu- É a mesma coisa, só que até melhor.
–Como quando me beijou de boca aberta e eu me assustei, mas foi bom?- O moreno balançou a cabeça afirmativamente. Saiu de cima dela e lhe deu um beijo na testa- Jantar?- Ela ficou decepcionada. Queria continuar aquele abraço frenético. Sentia que logo poderia satisfazer a pressão incomoda e prazerosa que sentia no baixo ventre, mas precisava de mais tempo para descobrir:
–Não quer mais me beijar?- Perguntou timidamente. Eugene olhou-a atentamente. Os cabelos bagunçados, a manga do vestido escorrendo sedutoramente pelo ombro, as saias levantadas até um pouco acima dos joelhos. Céus, como ele queria beijá-la mais, de preferencia nos seios que subiam e desciam sem parar, mas ela não era uma mulher experiente e ele não era mais um homem de bordel. Precisava levar as coisas com calma:
–Goldie.- Murmurou sentindo a voz rouca. Viu os pelos do braço dela arrepiarem. Segurou a nuca da garota e colou a testa a dela. Os lábios quase tocando-a novamente- Eu quero te beijar o tempo todo em todos os lugares do seu corpo.- Ela corou e ele lhe deu um beijo molhado- Mas...-Dispensou outro beijo cheio de segundas intenções- Quero que leia aquele livro primeiro. Quero que saiba o que estamos fazendo.
–Achei que estávamos dando momentos de prazer um ao outro.- Ele quase gemeu diante a resposta:
–Mas isso é outro tipo de prazer. Não é um prazer de comer uma torta ou fazer uma pintura.- Sua voz estava quase manhosa ao explica-la, tamanho desejo sentia- É algo intimo, feito entre um casal que tem sentimentos um pelo outro. Por casais que se amam.- Ela ofegou:
–Você me ama?
–Inferno Goldie.- Murmurou roucamente- Pensei que isso tivesse ficado claro quando eu disse que era meu novo sonho.- Ela suspirou feliz e puxou-o pela gola para um beijo inocente:
–Eu também te amo Eugene.- Ele sorriu e levantou:
–Eu faço o jantar hoje.- Murmurou e limpou uma sujeira imaginária nas calças. Não queria que ela olhasse para lá e visse seu estado. Não quando ela ainda não entendia todo o processo:
–Minha mãe não cozinha tão bem, só sopa de avelã, mas...-Riu e deu de ombros- Vou correr o risco com você.- Ele piscou um olho só e ela sentiu o corpo esquentar:
–Fique na sala e espere eu te chamar.
–Então será surpresa?
–Vou improvisar com o que tem.- Ela assentiu:
–Tem umas tiras de carne de sol* guardadas no armário. Minha mãe gosta de comer frita. Mas não o faça para mim, por favor.- O homem assentiu. Sabia que ela não gostava de carne e quase tinha vomitado quando viu o churrasco na capital- Mas se quiser para você pode comer. Meu organismo não se dá muito bem com coisas mortas.- Eugene nunca tinha parado para pensar em carne como algo morto. Mas ela tinha razão. Eles desceram de mãos dadas e Pascal sorriu aliviado ao vê-los conversando animadamente. Tinha ficado preocupado quando ele subiu e eles não voltaram mais. Rapunzel sentou no sofá com o livro sobre anatomia no colo:
–Adivinha quem vai fazer o jantar hoje Pascal?- O camaleão apontou com a cabeça para Eugene que já se encontrava na cozinha- Isso mesmo e será uma surpresa! Vamos ler comigo?- Pascal assentiu e se empoleirou no ombro dela. A jovem abriu o livro- Não recomendado para moças solteiras.- Ela sabia o que solteiro e casado significava. Ela tinha lido livros o bastante para entender o conceito de um casamento embora não entendesse quem era deus e qual o papel dos padres naquilo tudo- Hum. Certo.- Soltou um risinho travesso- Estamos quebrando as regras então. Igual Flynn Rider!- Murmurou empolgada e começou a folhear o livro. As duas primeiras páginas explicavam o que aquele livro iria ensinar. Depois folheou mais. As figuras começaram a aparecer com lições detalhadas de tudo. O primeiro capítulo era “A mulher e seu funcionamento” e a jovem finalmente entendeu porque ela menstruava:
–Olha Pascal, a mãe mentiu de novo.- Sussurrou- Ela tinha me dito que meu sangue é uma prova de que não fui enfeitiçada por um homem para fazer coisas erradas. Por isso não entendi bem.- O camaleão assentiu preocupado- Era mentira dela!- Rapunzel finalmente compreendeu porque ficava triste ou irritada um pouco antes de seu período. Era seu organismo avisando que teria o sangue. O próximo capítulo se chamava “O homem e seu funcionamento” e ela ficou extremamente arrebatada pelas imagens das folhas. Um silêncio descomunal tomou conta da sala- Olha isso Pascal.- Murmurou depois de ler e reler diversas vezes as páginas cheias de informação- É desse jeito que se faz bebês! Bebês! Olha a cara dela!!!- Apontou para o desenho do homem e da mulher nus- Não parece estar sofrendo. – Pascal soltou um chiado concordando- Então é isso aqui que eles têm? Mas esse parece muito feio e esses pelos são feios... Será que o do Eugene é mais bonito?- Perguntou ao amigo que deu de ombros- Bem, ele é mais bonito que os homens do Snugly talvez isso também seja...Todos tem você vê? Da mesma forma que a mãe e eu temos nossas partes intimas. Isso é tão interessante!- Ela estava feliz de aprender sobre aquilo. Não se sentia mais anormal por ter certas sensações- Foi assim que vim ao mundo! Foi assim!
Eugene riu quando ouviu as considerações espantadas de Rapunzel. Estava um pouco ansioso com as descobertas dela e seu jantar. Não sabia muito bem cozinhar, mas teve uma coisa que foi obrigado a fazer no navio. Sopa de batatas e legumes com caldo de fubá para deixar a comida com mais sustância. Também aprendeu a fazer pão de farinha de trigo e a limpar com eficiência. A ameaça de ser deixado no primeiro porto que aparecesse se fizesse algo errado foi o suficiente para se dedicar. Ele gostava muito daquela refeição por razões mais sentimentais do que de sabor. Foi a primeira refeição ligada a um sentimento agradável. Sabia que não era um senhor banquete e que Rapunzel sabia fazer coisas bem melhores que o ensopado simples dele, mas não a queria cozinhando para ele todas as vezes. Desconfiava de que ela sempre fazia tudo em casa e queria que ela soubesse o que era ser paparicada. Para variar um pouco. Um ensopado demorava para sair e por isso ele se ocupou com a massa do pão. Com muito menos cuidado que sua Goldie ele encheu boa parte da mesa e de sua própria roupa e rosto de farinha. Depois de um tempo lutando com os ingredientes e o forno se viu no meio de uma tremenda bagunça. Estava sujo de fuligem e farinha e usou muito mais colheres e potes do que Rapunzel. Correu para o ensopado que a esta altura estava borbulhando e enchendo a torre com um cheiro bom. Tentou se limpar com um pano que estava no lugar de lavar pratos e conseguiu ao menos tirar a fuligem e a farinha do rosto. Tirou o ensopado do fogo tomando cuidado para não se queimar, já tinha tido experiências ruins no navio e uma pequena mancha rosada no pulso esquerdo comprovava o quanto podia ser descuidado com água quente e comida:
–Bem. Então é desse jeito que os bebês chegam ao mundo Pascal.- Um chiadinho e Rapunzel suspirou- Ela mentiu sobre isso também.- Eugene franziu o cenho ouvindo a reclamação chateada dela. Suspirou sentindo um cansaço mental. Ele chegou à conclusão que não deveria ter dito todas aquelas coisas a ela, mas não pode deixar de ficar irritado. Apoiou a mão no queixo e analisou sua situação. Ele deveria ser mais cuidadoso. Não era mais um moleque de 18 anos para sair falando qualquer merda para garotas e quebrar seus corações. Ele era um homem de 26 anos que amava Rapunzel e amá-la significava ser mais cuidadoso. Sabia que não podia evitar magoá-la, uma hora ou outra ele faria algo estúpido, mas queria ter certeza de que fosse algo pequeno e remediável e não coisas grandiosas que lhe tirassem completamente a confiança. Sentia-se meio tonto ao pensar no quanto a amava. Com certeza era o absurdo de amar uma menina tão jovem que o deixava mais intrigada. Sentiu-se atraído quando ela ainda tinha 17 e aquilo era muito, muito errado e sujo, mas mais uma vez lá estava ele, metido em coisas erradas. Não resistiu beijá-la quando ela cantarolou “finalmente 18” e mais tarde naquele mesmo dia aproveitou o momento e deixou seu coração comandar a situação.
Eugene sabia que não deveria se sentir tão culpado pela diferença de idade. Muitas moças de família se casavam com 16 anos e seus maridos tinham geralmente o dobro ou o triplo em idade. Era um costume na sociedade tão antigo quanto andar. Os homens aproveitavam a vida de solteiro o máximo que podiam e depois se casavam com uma moça jovem e fresca para gerar herdeiros. Isso era comum nos casamentos da alta sociedade, mas entre os pobres as diferenças de idade caiam consideravelmente e casamentos por amor eram mais comuns. Entre os mais pobres seria considerado até imprudente arrumar uma moça tão jovem. Os pais de família só deixavam suas filhas serem cortejadas quando completavam maior idade. Eugene foi criado em meio à plebe. Ele era um deles e odiava aquilo, com todas as suas forças, mas algumas coisas ficavam. Sentir-se mal por ter desejado uma moça de 17 anos quando era muito mais velho foi só uma consequência da sociedade em que viveu. Ele sabia disso, se fossem ricos provavelmente já estariam caminhando para o segundo ou terceiro filho.
O homem coçou o queixo e ficou intrigado com o silêncio que vinha da sala. Esticou o pescoço e viu Rapunzel sentada com o livro apoiado nas pernas. Ela estava muito concentrada. Tinha colocado boa parte do cabelo para o alto e o resto estava esticado pela sala. O cabelo gigante não o assustava mais, estava tão acostumado com ele que seria estranho vê-la sem, mas ele não gostava de tudo aquilo. O jeito que o cabelo pesava na vida dela, seria bem mais fácil cortar tudo e ser livre. Continuou observando-a. O vestido fresco de verão e sem mangas destacava suas curvas femininas e delicadas, sua forma estava muito mais sedutora sob a luz amarelada do lampião. O dedão do pé se mexia sem parar enquanto ela lia concentrada. Ele teve vontade de morder lhe o pé e seguir para cima, dando mordidas na panturrilha, coxas e... Levantou e respirou profundamente. Ele amava aquela menina, sabia que ela era jovem e inexperiente, sabia que aquilo só podia ser um castigo do universo por todas as suas perversões e descaso com moças mais recatadas, sabia que teria de ser mais controlado e paciente, pelo menos até que ela o acompanhasse em suas fantasias. Abriu o forno de pedra e tirou o pão quentinho de lá. Colocou-o em cima da mesa junto com a panela de ensopado. Engoliu em seco. Seria um longo caminho com Rapunzel, mas valeria cada segundo, cada mísero dia, porque ela era a única que tinha conseguido tocar duas partes antagônicas de si, a única que conseguiu resgatá-lo da própria escuridão. Não tinha como ignorar algo assim:
–Goldie.- Chamou- Está pronto.- Logo Rapunzel sentou a mesa. Para ela era totalmente novo ser servida. Eugene parecia ansioso para agradá-la e esperou que ela provasse do ensopado antes de comer- Então?- Perguntou com expectativa:
–Eugene isso está delicioso. O que usou?
–Segredo. Só te conto se me pagar com beijos quentes.- Ela sorriu entendendo a referencia dele. Os beijos que trocaram no quarto não foram quentes, eles foram uma sucessão de chamas e labaredas em seu corpo:
–Acho que vou ganhar essa informação muito fácil.- E pegou um pedaço de pão. Não era tão saboroso quanto seu pão de milho, mas era algo diferente e acompanhava bem o prato principal- Você aprendeu tudo isso no navio?- Ele assentiu:
–Mas vou confessar que caprichei mais para você. –Ela sorriu feliz. Comeram entre conversas e flertes. Rapunzel adorava o clima de brincadeira sedutora que sempre pairava entre eles e mesmo que ela não tivesse noção de que era um flerte, ela sabia ser algo reservado apenas para si. Uma brincadeira secreta entre os dois. O jeito provocante e risonho que ele lhe tratava a fazia sentir-se única e feliz. Quando terminaram de comer ela sorriu camarada e pediu:
–O que foi fazer na capital além de arriscar o pescoço por uns livros?- Ele ficou tenso e torceu a boca numa careta- Eugene?
–Eu...-Suspirou. Era hora de espantar mais alguns fantasmas se quisesse que aquilo desse certo- Escuta Rapunzel. Eu não sou órfão porque meus pais morreram ou porque perdi minha família em algum acidente ou sei lá qual outro motivo que possa ter pensado. Eu sou um bastardo.
–O que é um bastardo?
–Bem, às vezes as pessoas quando querem te xingar te chamam assim, mas justamente porque é uma ofensa.- Ela o questionou com o olhar- Sou um filho fora do casamento. Minha mãe teve um caso de sexo com alguém e ficou grávida. Ela não me quis. Nem ela nem ninguém. Me deixou no orfanato. Eu sabia que era um bastardo porque as pessoas que abandonam seus filhos aos cuidados dos padres precisam assinar documentos que não os de o direito de roubar a criança da futura família. Não existe outra família Fitzherbert em Corona. Não existe uma família Fitzherbert em Corona.- Concertou. Aquilo ainda o chateava- Nunca quis saber da minha mãe até começar a planejar roubar a coroa. Eu precisava de uma rota de fuga. Levantei os registros na biblioteca e confirmei o que já suspeitava. Ela partiu para a Inglaterra logo depois de me largar aqui. Se eu tenho avós ou tios devem estar todos por lá.- Rapunzel não o olhou com piedade como as freiras faziam. Ele odiava os olhares de piedade. Ela o olhou com raiva:
–Como alguém pode fazer isso com um bebê? Como alguém pode abandonar o próprio filho? Isso é tão cruel. Tão egoísta. Olha o que isso fez a você.- O encarou atentamente e deslizou a mão por seu rosto de maneira carinhosa- 26 anos e você ainda se magoa.
–Eu fiquei abalado Rapunzel. Não vou negar.- Confessou- Mas algo mínimo.
–Agora eu entendo porque não é um cara de backstory. Sinto muito.- Ele sorriu fracamente e tocou a mão pequena que lhe segurava o rosto. Beijou-lhe a palma sem desviar o olhar do dela:
–Eu não sinto.- A loira o olhou confusa- Foi por esse caminho que encontrei você.- Ela sorriu emocionada- E não mudaria uma virgula do meu passado se isso me afastasse de você.- Rapunzel piscou, algumas lágrimas caíram de seus olhos. Sua mãe sempre lhe dizia o quanto gostaria de mudar o passado, pois ele a levou a se isolar na torre. O coração da loira encheu-se de uma sensação quente de ternura. Aquele homem a sua frente estava derramando todo o amor que levava ao peito e ela só podia o amar de volta. Deslizou de sua cadeira até o colo dele e beijou-o lentamente, com devoção e sentimento. Ouviu-o suspirar contra sua boca e o carinho lento e paciente tornou-se uma troca mutua de confiança. Separaram-se lentamente, extasiados com o clima que surgiu. Era como se nenhum mal pudesse atingi-los simplesmente porque se amavam:
–Eugene.- Fez um carinho no rosto dele e o encarou com amor- Eu não consigo entender como alguém pode não gostar de você.- Então eles se beijaram novamente. A boca dele fazendo um movimento lento e torturante, aprofundando a língua em sua boca, deixando tudo mais intenso. As mãos correram pela cintura e ela o puxou pela gola da camisa. Suas mãos pequenas enfiaram-se embaixo do colete e empurraram com cautela a peça incomoda. Eugene se afastou e a olhou surpreso. Ela sorriu timidamente, mas não se deixou intimidar. Inclinou o rosto e tomou os lábios dele num beijo calmo. O moreno descansou as mãos nas costas dela e a puxou contra si. Rapunzel gostou da sensação da camisa fina dele contra seu vestido. Era mais intimo e a sensação de compartilhar um belo segredo com ele predominava:
–Hey Goldie.- Sussurrou afastando a boca mediocremente da dela. A mão deslizou o cabelo loiro para trás da orelha desobstruindo a visão – Você é linda. Entendeu?- Beijou-lhe. Seus olhos mergulharam um no outro- Hum?- Ela assentiu- Você é inteligente.- Beijou-lhe mais uma vez- E só você é capaz de mover sua vida ok?- Outro beijo casto- Entendeu?- Ela assentiu- Você já é uma mulher, alguém por quem vale a pena esperar, alguém com quem se quer estar perto. Não um fardo. E você é perfeitamente capaz de cuidar de si. — Beijou-a com carinho e ela assentiu entre o gesto. Seu coração acreditando piamente nas palavras dele. Eugene aprofundou o beijo e enterrou uma das mãos na nuca loira. Se afastou antes de tornar o beijo mais exigente – Quer ler um livro?- Ela o olhou confusa:
–Eu pensei que estávamos bem aqui.- A encarou feliz e sorriu enquanto assentia:
–Nós estamos não é?- E não conteve o sorriso largo que estampou seu rosto. Ela riu quando ele lhe mordeu o ombro- Eu te amo.- Murmurou sem conseguir se conter. A jovem o abraçou e ficaram quietos ouvindo a respiração um do outro. Por fim decidiram se aconchegar na cama com o livro preferido da infância de Rapunzel. Ao terminarem o livro conversaram sobre assuntos triviais que despertavam curiosidade na loira. Ela estava tentada a sair novamente ele podia sentir a ansiedade na voz dela, o quanto estava odiando ficar presa ali. Ela estava com vontade de pegar um navio e sumir no mundo como ele tinha feito, para viver aventuras e sentir o gosto da liberdade. Ela queria viver aventuras ao lado dele, explorar o mundo além do país dos oceanos. Ela queria o mundo ao lado dele e por deus ele lhe daria se ela insistisse mais. Ao mesmo tempo ela ainda estava presa à torre por todas as amarras psicológicas que a mãe tinha lhe imposto. Ela precisava vencer aquilo para conseguir se livrar daquela nociva mulher. Eugene estava disposto a descobrir a verdade sobre Gothel.
Quando Rapunzel começou a bocejar ele percebeu que precisava voltar para o sofá. Levantou disposto a sair:
–Onde você vai?-Perguntou olhando-o atentamente:
–Dormir no sofá?
–Minha cama é grande. Pode dormir aqui.- O tom dela deixou bem claro que a proposta era apenas aquela e Eugene não sabia se aguentaria uma noite inteira ao lado dela tendo que se comportar:
–Eu não sei se é uma boa ideia.
–Não seja bobo. Aposto que não dorme numa cama confortável em meses.
–Ok. Vou só pegar uma água lá embaixo. Fique a vontade para...Por sua roupa de dormir.- Ela assentiu. Ele desceu rapidamente e quase pisou em Pascal que estava subindo as escadas. Tomou grandes goles de água tentando acalmar a ansiedade em seu corpo. Subiu novamente e Rapunzel já se encontrava na camisola. Parecia uma camisa gigante e desajeitada que lhe escondia qualquer curva. A gola era alta e as mangas compridas. Ele retirou as meias e pensou em tirar a camisa, mas não sabia se seria uma boa ideia:
–Pode ficar confortável Eugene. Não sei o que homens usam para dormir, mas se quiser te empresto uma camisola.
–Não Obrigado.- Riu pensando no quantos seria ridículo ele com uma camisola- Posso tirar a camisa?- Ela assentiu e ficou olhando-o atentamente. Eugene retirou a camisa e viu o rosto dela corar. Ele não era forte, era apenas definido. Um tipo esguio e com músculos firmes, mas nada muito protuberante. Rapunzel parecia ver uma comida apetitosa a sua frente e ele sentiu o corpo esquentar diante o olhar dela:
–Boa noite. –Ela guinchou e soprou a chama da lanterna do quarto. Eugene tateou a cama e deitou. Tomando cuidado de ficar por cima do cobertor fino e deixando-a se enfiar embaixo deles. Eles entrelaçaram as mãos e ficaram de frente um para o outro. A escuridão os impedia de enxergar. O cheiro de flores dela bem como o som da respiração compassada o fizeram pegar no sono. Era a primeira vez que estava numa cama com alguém e não tinha nada a ver com sexo. Aquela sensação era muito melhor. Um sentimento de que podia contar com ela em sua vida.
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