Sob a luz das estrelas
3 Capítulo 3: Do conflito ao regresso
Notas iniciais
Por mais estranho que pareça, ela é infinita para mim
Rapunzel gritou quando deixou o pote de farinha cair no chão. Era de barro e quebrou:
–Hora Rapunzel! O que há com você?- Gothel bufou e andou até a cozinha. Rapunzel abaixou para pegar os pedaços e cortou o dedo na extremidade pontuda. Sentiu um nó se formando na garganta:
–Eu sinto muito eu... Eu sinto muito.- Então a jovem rompeu num pranto sentindo. Gothel a olhou como se fosse outra pessoa na cozinha da torre e não sua flor. Rapunzel era uma menina sensível, podia-se ver de longe, mas desde os quatro anos não chorava em sua frente, muito menos sem um motivo aparente, não daquele jeito. Quando Gothel era mais dura Rapunzel fazia um bico e engolia o choro, podiam-se ver as lágrimas represando nos olhos, mas não aquele choro sentido, como se tivesse perdido algo muito importante. Se aproximou da garota sentindo-se atordoada- Não vai mais acontecer só...-Ela soluçou e deixou as lágrimas rolarem:
–Oh Rapunzel é só um pote de farinha e o corte no dedo você pode resolver com seu cabelo. Não faça drama minha flor.
–Eu sinto muito.- Ela murmurou:
–Está em seu período querida?- Rapunzel assentiu- Então está explicado.- Abaixou a abraçou a garota passando a mão pelos cabelos, sentindo-se mais segura ao tocar na fonte de sua vida- Oh Rapunzel, precisa se controlar. Não vou aguentar esses chiliques todo o mês só porque está em seu período. Está vendo porque não a deixo sair minha flor? Se um corte no dedo é o suficiente para chorar feito uma descontrolada o que acontecerá se cruzar com um daqueles homens horríveis? Eu faço isso porque eu te amo. E você?
–Eu te amo mais.- Respondeu automaticamente:
–Isso, mas eu te amo muito mais.- Sorriu vitoriosa e pela primeira vez em anos Rapunzel se incomodou:
–Vou limpar.- Murmurou. Gothel saiu da cozinha e revirou os olhos. Voltou ao livro que lia e não notou Pascal correndo para Rapunzel.
A jovem estava emocionalmente catatônica. Após ser deixada por Eugene na torre ela se dividia diariamente entre a vontade sair ou manter-se com sua mãe. Além disso, não conseguia tirar o sentimento de angustia e saudade toda a vez que pensava em Eugene. Algumas noites os pesadelos sobre seu ladrão sendo enforcado ou morto lhe visitavam. Nesses dias ela costumava ficar mais calada durante seus afazeres. Ela nunca mais cantarolou uma só música depois de sua aventura. Conhecer o mundo e deixá-lo lhe trouxe melancolia. A garota não conseguia mais se encaixar as rotinas de sua pequena casa. Queria sentir a grama entrando nos pés, a água do riacho molhar sua pele e o vento bater-lhe no rosto conforme corria. Ao mesmo tempo que uma angustia desesperada a afligia por estar presa a culpa inundava suas entranhas toda vez que tinha de falar com a mãe.
No dia em que a mulher retornou Eugene a tinha deixado há poucas horas e a impressão de seus toques e beijos ainda eram quentes. Foi difícil disfarçar e sua mãe a encheu de perguntas sobre seu olhar triste e suas expressões sonhadoras. Pascal a alertou sobre o quanto estava sendo óbvia e ela tratou de fingir quando estava perto da mais velha. Rapunzel não gostava de fingir e notou que desde a primeira mentira sobre as tintas de presente ela não tinha sido capaz de parar de mentir para sua mãe. Ela estava cansada de ser repreendida por sonhar com um brinquedo em forma de sol ou por curiosidade com o pai e a vida da própria mãe. Ela não sabia sobre a infância de sua mãe ou mesmo sobre seus amores e perdas. Quando finalmente percebeu, com uma dor no coração, que Eugene não voltaria nunca mais ela se permitiu curtir um pequeno período de luto. Sua mãe estava um tanto quanto desconfiada de suas alterações de humor e tinha deixado a torre por curtos períodos voltando sempre à noite. Nesses momentos de solidão ela deitava em sua cama e chorava.
Cansada de sentir saudades de algo que nunca foi seu ela decidiu fazer seu próprio caminho, seus próprios segredos. Quando a mãe saia durante o dia ela descia e andava em volta da torre, sentindo a grama e molhando os pés no riacho atrás de sua casa e ousando até mesmo um banho na cachoeira. Aquilo a distraiu e a encheu de felicidade. Mas não era o mundo, era apenas um pouco de liberdade, algo para começar a aprender sozinha.
Outro mês tinha iniciado quando o incidente com o pote de farinha aconteceu. Eugene parecia uma lembrança distante. Ele se parecia muito mais com as lanternas agora, quando ela não tinha ideia de como poderia chegar até elas e descobrir o que significavam. Gothel ainda estava no andar debaixo quando ela deu boa noite e subiu. Deitou em sua cama e deixou algumas lágrimas caírem. Não tinha conversa com a mãe. Não adiantava o quanto tentasse introduzir assuntos além daquela torre. Ou ela se zangava e gritava ou ela a cortava antes que pudesse começar, num tom frio e sem gentilezas. Rapunzel não sabia o que a chateava mais.
A jovem enfiou o rosto contra os travesseiros. Nem sobre Pascal ela pode falar. Sua mãe não tinha interesse em seus sonhos ou no que pensava. Ela sabia por que Rapunzel certamente empurrou-os em cima dela num vomito constante de palavras. Enfiou a mão embaixo do travesseiro e puxou a pequena bandeira de Corona que Eugene tinha lhe comprado. Deitou de barriga para cima e esticou o tecido a sua frente. Piscou espantando as lágrimas, ela não tinha mais condições de chorar por algo que não aconteceu e provavelmente jamais aconteceria. Levou as mãos ao peito, sentindo a pequena bandeira contra a pele.
Em dois dias ela pode falar muito mais com Eugene do que falou a vida inteira com sua mãe. Em dois dias ele confiou seu verdadeiro nome e alguns relatos de sua infância a ela. Rapunzel sentia como se conhecesse mais Eugene do que a própria mãe. Ela sabia o sonho que ele tinha, do que ele gostava, o que o incomodava e ele quis saber tudo isso sobre ela e mais, a consolou quando ela ficou aterrorizada sobre não ter mais objetivos após alcançar as lanternas. A jovem suspirou. Um mês tinha corrido desde que tudo aconteceu e seu novo sonho não podia ser mais absurdo e impossível. Ela nem sabia para onde ele tinha ido, se ele estava bem, talvez ele nem pensasse mais nela. Rapunzel se perguntou se ele realmente nunca iria esquecê-la como tinha dito. Suspirou. Queria muito conversar com sua mãe e se abrir como fez com Eugene. Queria dizer sobre seus medos e a vontade que tinha de ver o mundo novamente. Mas Rapunzel sabia que não podia, porque a primeira coisa que sua mãe lhe diria era sobre sua associação tenebrosa com o ladrão mais procurado de Corona. Depois ela diria sobre o quanto ela era desajeitada e crédula e que daquele jeito ela certamente não duraria no mundo exterior. E Rapunzel sabia que tinha argumentos contra sua durabilidade no mundo lá fora, mas de alguma forma, contar o segredo a sua mãe seria como partilhar os momentos maravilhosos que viveu com Eugene. Ela não queria partilhar aquilo, sentia que se o fizesse as memórias ficariam mais fracas e sumiriam e no fim ela acabaria se questionando se realmente viveu todas aquelas coisas incríveis.
Escondeu a bandeira de volta na fronha do travesseiro. Tinha sucumbido a todo aquele conflito algumas horas antes e quando sua mãe lhe questionou o que houve ela quase gritou que não poderia mais viver daquele jeito. Mas no fim ela não sabia se podia ou não. Andar na grama quando sua mãe estava fora era um começo. Para descobrir se poderia lidar com tudo outra vez. Não sabia se seria capaz de abandonar a mãe. Ela tinha lhe dado tudo, amor, casa, roupas, educação e ela a amava muito mais. Rapunzel sentiu mais tristeza e culpa ao lembrar das palavras da mulher mais velha e chegou a conclusão de que era verdade, talvez a mãe a amasse muito mais do que ela a amava. Sentiu-se uma pessoa horrível e lembrou com amargura de que Eugene não se importaria se ela fosse horrível e até brincaria sobre eles serem os piores juntos. Rolou na cama novamente e abafou um grito de desespero. Eugene sabia que ela não conseguiria largar a mãe para ir com ele da mesma maneira que ela sabia que ele não abandonaria seu sonho por ela. Não chorou dessa vez, cansada de dormir com o -rosto molhado.
___Tangled___
Eugene quase se perdeu nos arredores da capital tentando achar o caminho que fez quando fugia de Max. Logo ele se ambientou e viu a relva cobrindo a passagem que parecia apenas mais uma parte da montanha. Engoliu em seco sentindo um nó quente na garganta e uma sensação fria na boca do estomago. Ele tinha tomado cuidado com o horário. Não fora muito cedo, pois se a mãe dela fosse sair certamente seria cedo, para voltar na hora do almoço ou ao final do dia. A viagem de volta demorou mais do que ele se lembrava, foram sete dias inteiros. Cada vez que se aproximava sentia o peito apertar. Se perguntava se ela ainda estaria lá, tinha medo que a mãe tivesse mudado de lugar após saber de sua aventura. Depois se perguntou se ela tinha dito algo à mãe. E se ela tivesse fugido? Ao longo da viagem pensou melhor. Ela se sentiu constantemente culpada por não obedecer à mãe, ele tinha quase certeza que ela não teria fugido, mas a mulher finalmente poderia ter cedido e deixado sua filha sair e voltar para casa como qualquer outra mãe faria. Ao afastar a relva que cobria a passagem secreta ele chegou à conclusão de que não sabia nada sobre uma mãe e as possíveis reações de uma. As chances de Rapunzel estar lá poderiam ser mínimas, mas ele queria, com cada célula de seu corpo reencontrá-la e pedir desculpas pela demora. Pedir desculpas por ter partido e confessar o que vinha no peito.
Ao sair da passagem encarou a torre. Nunca se acostumaria com aquela visão. Andou cautelosamente preferindo a sombra das árvores. Não queria encontrar uma mãe zangada e super protetora, não quando precisava acertar as coisas com a filha primeiro. Não sabia se a senhora estaria na torre e quando chegou perto das paredes de pedra se questionou como falaria com Rapunzel sem que mulher soubesse. Coçou a cabeça e decidiu por entrar sorrateiramente. Ele saberia fazer aquilo, conseguiu entrar no palácio. Conseguiria se empoleirar no telhado da torre e ouvir se a mãe estava lá. Fincou a primeira flecha e ouviu uma risada vinda da parte de trás da construção:
–Pascal! Vamos, pode aprender a nadar!- Ouviu a voz da garota e sorriu feliz. Andou apressadamente dando a volta na torre. Ela estava sentada na beira do pequeno riacho, o cabelo precariamente preso para cima, de um jeito que a deixou estranhamente mais atraente. Os pés descalços brincavam na água e ela tinha puxado o vestido azul escuro até os joelhos. Ele gostou da cor azul na pele dela. O modelo era mais solto que o rosa que ela usou quando se conheceram, os ombros eram frouxos caindo para os lados e não tinha mangas. A curva do ombro o deixou embasbacado. Piscou abobado e se aproximou:
–Blondie?- Ela quase quebrou o pescoço ao virar e arregalou os olhos. Se levantou abruptamente e o vestido caiu de maneira leve até os joelhos. A jovem levou a mão ao peito. Os olhos brilharam e ele pode vê-la conter as lágrimas. Ele sentiu algo estranho dentro do peito e seus lábios tremeram. Rapunzel estava bem e estava ali, realmente estava ali. A dona de seus pensamentos e a responsável por sua loucura. A responsável por sua imprudência de voltar a Corona. Ela se aproximou alguns passos e parou, ainda olhando-o como se fosse fruto de sua imaginação. Eugene jogou a bolsa e o saco de dinheiro no chão e se aproximou. Não conseguiu falar mais nada e nem notou como sua boca abriu ao vê-la:
–Roupa nova?- Ela murmurou sem jeito. Ele se olhou. A calça era um pouco mais escura que a outra e seu colete era preto. A camisa continuava igual à antiga:
–Você também.- Ele brincou e a encarou com carinho e saudade:
–O que... O que está fazendo aqui?- O tom choroso o fez desmoronar. Se aproximou sentindo tudo que o açoitou durante o mês de uma só vez. Seus olhos molharam e ele ficaria chocado com isso se não fosse a garota a sua frente- Não tinha que sair do reino?- Sussurrou se aproximando mais, finalmente estavam próximos um ao outro. Ele esticou a mão e colocou o cabelo dela para longe do olho. O gesto foi tão cheio de carinho e saudade que ela sentiu-se quebrar e algumas lágrimas caíram:
–Eu tinha e eu quase saí.- Suspirou:
–Você realizou seu sonho?- O moreno assentiu e a encarou longamente- Então?
–Eu percebi...-Suspirou- Um pouco tarde...-Engoliu em seco e deslizou a mão pela nuca dela- Que eu confundi uma ambição vazia com um sonho.- A jovem soluçou deixando as lágrimas caírem- E Rapunzel, eu tentei, juro que tentei me afastar, mas como eu disse, eu não te esqueci. Eu não quero te esquecer.- Ela arfou e continuou chorando. Eugene sentia sua voz esganiçada pela emoção. Tomou fôlego- Você é o meu novo sonho.- Soltou sem ao menos ter noção daquilo antes que proferisse em voz alta. Ela o olhou com saudade e ele pode ver uma emoção bilhar nos olhos dela. Tinha dito, estava entregue e exposto, esperando o que viria com medo:
–E você é o meu.- Ela sussurrou jogando-se nos braços dele e apertando-o forte contra si. Ele a abraçou de volta imediatamente e fechou os olhos. O corpo macio e o cheiro de flores lhe trouxeram uma sensação de familiaridade, como se finalmente estivesse em casa. Sentiu-se tremer e somente quando Rapunzel limpava suas lágrimas é que ele se deu conta de que chorava -Eugene.- Ela chamou e soltou um riso leve. Algo que ele sentiu tanta falta que mal podia acreditar- Eu estou feliz que tenha voltado.- Ele sorriu emocionado e deixou algumas lágrimas escaparem. Ela sorriu de volta. O moreno não mais se conteve e puxou-a pela nuca, beijando-a. Ambos sentiram o céu. O ladrão suspirou contra a boca macia e logo a forçou abrir os lábios sentindo o gosto da língua contra a sua. O suspiro feliz da garota o deixou em transe. Brincou lentamente com os dentes e a língua e sentiu arrepios pelo corpo quando ela imitou seus movimentos. Se afastaram lentamente, os beijos dele tocando todo seu rosto de um jeito carinhoso. A mão segurou a nuca e por fim ele lhe deu um suave beijo na testa. Ela o abraçou e ele deitou o queixo no topo da cabeça loira. Ambos fecharam os olhos:
–Goldie?
–Hum?
–Sua mãe lhe deixou sair?- Ela ficou tensa e se afastou um pouco:
–Não.- O olhou com tristeza:
–Quando ela volta?
–Quando anoitecer.- A voz chorosa o deixou preocupado:
–Hey. Quer me contar o que andou fazendo?
–Não podia mais ficar só lá dentro. Foi como se eu não me encaixasse. Então...-Ela suspirou aliviada por finalmente falar sobre aquilo- Não sabia se poderia lidar com o mundo lá fora sozinha daí essas últimas semanas, conforme ela saia eu vinha aqui.- Sorriu e deu de ombros, puxando uma mecha de cabelo num gesto característico que tanto o encantava. Ela sorriu- Entende?
–Claro que sim. Vou te contar uma história. Uma vez eu saí numa aventura por um navio mercante quando fiz 16 anos. Fui escondido dos padres do orfanato. Ganhava muito pouco. Eram centavos por dia, mas eu queria a experiência. Aprendi algumas línguas diferentes por lá, eu vi o mundo, eu vi a velha Inglaterra, lá é cinza e cheira estranho. Não é como aqui.
–A velha Inglaterra?- Eugene assentiu e sorriu diante o espanto e a empolgação dela- Quando eu voltei já tinha 19. Não podia mais me encaixar por lá. Era tudo tão igual e eu era tão diferente de quando parti que as coisas pareciam estranhas para mim. Coisas que eram familiares.- Rapunzel o olhou com alivio, era exatamente assim que ela se sentia- Meu mundo tinha crescido e eu não cabia mais ali. Meu coração não pertencia mais aquele lugar. Se é que algum dia pertenceu.- Sorriu debochado e ela sorriu com ele- Bem...-Suspirou- Eu achei meu próprio caminho e...- Ficou sem jeito- Flynn Rider surgiu.
–Então as pessoas do orfanato sabem que é você?- Perguntou espantada:
–Duvido. Eles já não gostavam de mim antes. Eu mudei externamente também. Saí um rapaz pequeno de cabelo curto e pernas finas. Eles não me reconheceram quando retornei. Achei justo dar fim em Eugene de vez, já que ninguém sentia falta dele mesmo.- Ficou sem jeito- Lembra o que eu disse a você logo que saímos? Sobre crescer? Um pouco de rebelião e de aventura.- Ela o olhou com um ar de deboche- É exatamente isso. E nos deixa um tanto pirados mesmo. Mas nos acostumamos. – Rapunzel o olhou com carinho:
–Eu gosto quando fala da sua vida.
–Não se acostume.- Brincou sendo convencido e arrogante- Não sou assim tão fácil.
–Oh, sinto muito poderoso Flynn Rider. Sei como pode tentar manipular as pessoas para seu interesse.- Eles riram- O que é isso no saco?
–É no que resultou a coroa.- Respondeu envergonhado- O suficiente para me aposentar.- Ela decidiu não perguntar muito sobre aquilo. Estava feliz de mais com a volta dele:
–Está com fome? Quer um banho? Uma cama para dormir? Está bem?- Disparou a falar. Eugene nunca ficou tão feliz de ouvir o que alguém tinha a dizer como naquele momento. Ficaram mais um tempo na beira do riacho. O moreno tirou as botas e refrescou os pés cansados na água fria. Rapunzel fechou os olhos aproveitando a luz do sol. Ele a olhou de um jeito travesso e espirrou água em seu rosto. Ela abriu os olhos e o encarou falsamente ofendida. O moreno olhou para o outro lado e assobiou, fingindo inocência de um jeito que não convenceu nem Pascal. A jovem sorriu de canto e encheu a mão de água jogando no rosto dele e deixando-o muito molhado:
–Hey Blondie! Eu lhe espirro água e você me dá um banho?- Ela levantou e cruzou os braços fazendo uma expressão de quem sabe muito das coisas. A mesma expressão que usou para intimidá-lo quando estava amarrado na cadeira:
–Oh nossa o ladrão mais procurado do reino está reclamando de uma águinha na cara?- Ele levantou e fingiu um olhar ofendido. A loira o desafiou empinando o queixo. Ele deu um passo para o lado dela e a jovem deu um passo para trás sentindo uma intensão travessa no olhar dele. Sem esperar correu e ele riu correndo atrás dela. Em um minuto Eugene a alcançou e a puxou para si. Rapunzel soltou um gritinho risonho e chutou o ar tentando escapar dele. O moreno a arrastou até o riacho e tentou derrubá-la. Ela se agarrou a ele e ambos caíram dentro da água, não era uma quantidade muito significativa e os deixou parcialmente molhados. Ela começou a gargalhar, sentindo-se bem pela primeira vez em dias. Ele a acompanhou, feliz por estar ali:
–Woah.- Murmurou tirando o cabelo da testa dela. Rapunzel ainda ria, mas seu sorriso morreu os poucos conforme observava o rosto do homem a sua frente:
–Quantos anos você tem?- Ele piscou surpreso:
–26.- Respondeu risonho. Ela o olhou satisfeita e repetiu o número baixinho. Guardando a informação para si com satisfação- Rapunzel?
–Sim?
–Eu vou te beijar.- Avisou e tomou a boca macia numa carícia quase ousada. Tinha medo de assustá-la. A jovem suspirou e levou as duas mãos a nuca dele. Eugene sentiu as unhas dela levantarem seu cabelo e arranharem a pele do pescoço. Gemeu contra a boca pequena e deslizou as mãos até a cintura fina puxando-a com brusquidão para si. Rapunzel arfou e moldou o corpo ao dele sentindo um calor inexplicável e arrasador. O vestido fino de verão que usava deixava-a sentir muito dele, mas ainda assim precisava de mais, uma curiosidade incontrolável de saber onde aquelas sensações quentes e deliciosas a levariam a fizeram deslizar as mãos até o colete preto e abri-lo. Eugene pareceu gostar de seu gesto e Rapunzel quase desfaleceu com a sensação do peito dele colado aos seus seios. Um formigamento no baixo ventre a fez resfolegar contra ele. Sem esperar o movimento brusco Eugene perdeu o equilíbrio e ambos tombaram na relva. Se olharam com sorrisos idiotas nos lábios e beijaram-se. O corpo dele estava inteiro em cima de si e Rapunzel pensou que poderia morrer com aquela sensação maravilhosa. Eugene rolou para o lado e respirou fundo. Não poderia se dar ao luxo de perder o controle. Seu estomago roncou denunciando a falta de comida:
–Vamos lá pra dentro.- Rapunzel decidiu e se levantou limpando a grama grudada nas mãos. Ele assentiu bobamente e seguiu-a. No interior da torre a jovem o segurou pela mão e saiu mostrando o lugar onde cresceu. Eugene ficou impressionado com a quantidade de coisas que ela sabia fazer, mas o que mais o deixou embasbacado foram as pinturas e o conhecimento em astronomia. Ele tinha uma noção leve sobre mapas e astros. Foi obrigado a aprender sendo tripulante de um navio mercante e reconheceu, com admiração, que ela tinha um conhecimento sofisticado sobre aquilo. Foram para a cozinha depois do pequeno tour e ele sentou na cadeira sentindo o cansaço da viagem:
–Sua mãe te ensinou a ler as estrelas?- Perguntou curioso. Ela riu:
–Ela me ensinou a ler. Os livros me ensinaram sobre as estrelas.- O homem ficou mais impressionado ainda:
–Você aprendeu todas essas coisas sozinha?
–Bem. Sim. Eu tenho muito tempo livre.- Sorriu sem jeito e soltou o quase inexistente coque. Encostou-se perto do fogão de pedra- Ao invés de ficar pensando nas coisas lá fora eu fiz meu próprio mundo aqui dentro. Embora...-Ela parou de falar e seu olhar ficou mais melancólico:
–Embora você não se encaixe mais?- Ela suspirou e não respondeu:
–O que você gosta de comer?- Eugene sentiu o estomago roncar- Ou melhor, o que é bom comer para repor energias? Você precisa.- Ele sorriu diante a preocupação dela:
–Uma boa carne.- Ela o olhou com nojo:
–Aquela coisa que estavam assando no festival? Aquela coisa morta?- Ele assentiu:
–É muito saboroso e nutritivo. Ótimo para aguentar longas viagens.
–Não tenho isso aqui. Mas tenho pão, bolo e essa manteiga que aprendi a fazer. Também tem bastante frutas e verduras. Já sei. Vou fazer meu prato favorito.- Ela parecia muito animada- Espero que você goste, eu sempre deixo tudo ou muito duro ou sem sal ou sem gosto... Não que eu ache ruim, mas a minha mãe sempre acha algo... Nunca consigo agradá-la quanto à comida e... Vou fazer uma torta de amoras. É minha especialidade.
–Quer ajuda?- Ela o encarou surpresa:
–Nunca tive ninguém me ajudando, mas vai ser bom você socar a massa enquanto preparo o almoço!- Ele sorriu- Primeiro lavando as mãos.- Eles sorriram e depois das mãos limpas ela começou a preparar a massa da torta. Quando estava pronta despejou na mesa- Esse é seu trabalho. Amasse-a até que pare de grudar e fique macia. Depois separe as amoras boas das ruins.
–Sim senhor capitão!- Ela sorriu e se ocupou do almoço- Então Blondie.- Perguntou enquanto tentava se livrar de um pedaço de massa grudento que ficou no dedo- Gostaria de saber mais sobre a sua história. Como conheceu Pascal?- Ela riu enquanto descascava as batatas:
–Ah, ele apareceu nas flores da janela. Era do tamanho do meu mindinho e estava muito doente. Eu o curei com meu cabelo. Nunca mais saiu e perto de mim.
–E você entende mesmo o que ele fala?
–Sim. Aprendi a ler as expressões corporais dele.
–E há quanto tempo se conhecem?
–Seis anos.
–Camaleões vivem tudo isso?
–Em média 15 anos.- Respondeu contente com seu conhecimento, de ser a pessoa a dar as respostas e não perguntar- Eles também são muito sensíveis a mudanças climáticas, por isso fiquei preocupada quando saímos daquela caverna cheia de água. Camaleões não tem o sangue quente como o nosso e perdem calor muito rápido.
–E ele come o que?
–Pequenos insetos. Mas o Pascal gosta mesmo de frutas.- Rapunzel lançou um olhar por cima do ombro e viu Eugene entregando três amoras a seu amiguinho verde. Sorriu feliz- E ele em especial adora a massa da minha torta, mas não pode comer ou ficar com dor de barriga.- Rapunzel virou e viu o dedo de Eugene cheio de massa parado no ar, a boca de Pascal estava aberta e o moreno ficou congelado- Não dê. Ele fica muito mal. O açúcar não faz bem a esse guloso.- Eugene e Pascal soltaram um riso sem graça e o homem voltou a sovar a massa. Ela não estava mais grudando e a farinha já não era necessária em grande quantidade. Um cheiro delicioso começou a preencher o local:
–Hey Blondie. O que está preparando aí?
–Surpresa.- Ela sorriu e voltou sua atenção para a comida. O estomago de Eugene roncou. Logo a jovem sentou a mesa ao lado dele enquanto algo assava no forno. Pegou as amoras e começou a fazer uma geleia. Em alguns minutos colocou a torna no forno. Eles continuaram conversando. Eugene lhe encheu de perguntas sobre as pinturas e quais eram suas histórias favoritas. Enquanto ela falava ele captava cada detalhe de suas expressões, o jeito quase cantado que ela comentava sobre sua rotina e a empolgação ao narrar suas brincadeiras com Pascal ou como cuidou de um beija flor machucado. O jovem não conseguia tirar o sorriso sonhador do rosto. Ela era doce e inocente, mas ao mesmo tempo tinha aquela coisa pelo mundo que era raro de se ver nas pessoas que viviam em sociedade. As garotas que cruzaram o caminho do jovem sempre tinham a cabeça em casamentos, romances avassaladores e alguma estabilidade financeira ou social. Flynn Rider sempre se encarregou de preencher o segundo item da lista. Rapunzel recebeu muito mais educação que qualquer outra garota receberia a vida inteira, ou melhor, ela não recebeu, ela buscou sua própria educação e via-se que era muito mais estudada e inteligente que muitos homens por aí.
Eugene suspirou conforme ela falava. Apesar da mãe super protetora e aparentemente, pelos relatos que ouviu, um tanto quanto autoritária, apesar de viver trancada e sem perspectivas ela não se lamentou. Na verdade a loirinha a sua frente fez o que poucos fariam. Ela se ocupou e levou esperança dentro de seu coração. Como poderia não se apaixonar por aquela garota? Era quase injusto com ele. Não seria ele mesmo assim? Criado sobre as rédeas curtas dos padres e freiras do orfanato, sem família, maltrapilho e sem nenhuma perspectiva brilhante? E mesmo assim com animo de ler para os pequenos e encher seu coração de esperanças enquanto divertia a todos com os contos de Flynnigan Rider:
–O que foi?- Ela perguntou sem jeito enquanto tirava o assado do forno. Ele cruzou os braços e inclinou a cadeira para trás num imprudente movimento. A cadeira ficou balançando com seu peso. Ele deu de ombros:
–Você é linda.- Murmurou e ela corou. A loira parecia digerir o elogio. Quando finalmente o fez sorriu timidamente:
–Obrigada.- Ele piscou o olho direito e ela sentiu um calor por todo o corpo. Eugene parou de se balançar na cadeira quando a garota colou um prato a sua frente. Sua boca salivou. Eram legumes refogados e assados no forno com algum tipo de molho. Um purê de batatas coberto com o mesmo molho dos legumes e verduras frescas no prato- Esse é o meu assado! Espero que goste!- Ela sentou perto dele e começou a comer. O moreno sorriu e assentiu enchendo o garfo de comida:
–Woah Blondie! Isso está incrível. Tem algo que você não saiba fazer?- Ela o olhou feliz:
–Bem. Eu não sabia nem como chegar às lanternas. Acho que existe muita coisa que ainda não sei. Você me ajudou em muitas delas. — Respondeu feliz e levou o garfo a boca. Pascal esticou a língua e roubou uma amora que estava jogada na mesa. Eugene arqueou uma sobrancelha, um pensamento impertinente e pervertido coçando no fundo de sua mente. Rapunzel resmungou alguma coisa para si, mas ele não ouviu. Voltou para a comida que estava deliciosa e tentou não pensar no quanto adoraria ajudá-la com muitas outras coisas que envolviam apenas os dois.- Eu não sei muito sobre as leis, mas sei que roubar é errado.- Acusou apontando o garfo para ele de maneira desconfiada. Eugene ergueu os braços fingindo inocência:
–Não sei por que está me dizendo isso.- E piscou novamente um olho só. E lá estava Rapunzel, sentindo aquela reação quente pelo corpo por causa da piscada casual. A loira não sabia o que era um flerte e muito menos que causava aquela sensação, mas gostava do que sentia:
–Oh não se preocupe Eugene. Eu sei que jamais pegaria algo que não lhe pertence.
–Longe de mim fazer algo assim.- Riram e voltaram para a comida. Quando terminaram a garota retirou a torta do forno e esperou esfriar. O cheiro delicioso preencheu o local. Eugene comeu um delicioso pedaço de torta quentinha e ficou maravilhado com o sabor. Entre conversas sobre a infância de Rapunzel ambos limparam a cozinha e depois se aconchegaram ao sofá perto da janela. Uma brisa mais fresca entrava deixando-os mais confortáveis. Eugene nunca tinha sentindo nada como aquilo. A barriga cheia, o coração aquecido e uma sensação de paz enquanto a abraçava. Ficaram deitados no sofá falando sobre coisas aleatórias do mundo até que pegaram no sono.
Pascal olhou o casal com carinho e franziu o cenho ao lembrar de como Gothel tratava Rapunzel. O pequeno camaleão se dava conta da diferença de tratamento. Eugene parecia estar feliz ao redor de Rapunzel enquanto Gothel sempre parecia nervosa e constantemente a levar um fardo. Eugene e todas as pessoas que o pequeno camaleão viu na vila olhavam diferente da mãe Gothel. Pascal já não gostava muito da mulher por proibir Rapunzel de ter um mínimo amigo feito ele e ao ver como Eugene parecia fazê-la bem mais confiante e feliz ele sentia menos apreço ainda por ela.
Rapunzel abriu os olhos e ainda sonolenta sentiu o corpo de Eugene abaixo do seu. Quando era mais nova ela dormiu com a mãe algumas noites, tentando abrandar o coração de um pesadelo. Naqueles tempos ela sentiu-se segura, mas nunca mais procurou tal conforto quando a mulher lhe disse que era tolo e ridículo uma menina de 14 anos dormir com a mãe. Rapunzel sempre quis agradar muito sua mãe, para lhe agradecer por ter lhe protegido e cuidado durante 18 anos, mas ela nunca conseguia. Sua mãe uma vez lhe disse que ela roubou sua liberdade e sua vida. Foi à primeira discussão que tiveram sobre ir para o lado de fora. Olhou para Eugene. Ele estava dormindo pacificamente e parecia feliz por estar abraçado a ela.
Suspirou. Ele era muito bonito. Tinha características diferentes dos homens que viu na vila. Ele tinha um jeito despojado e arrogante que a fazia rir e por trás daquilo um olhar doce e um toque carinhoso.
–Oh eu vou mal.- Murmurou pensando no quanto estava apaixonada e lembrando de sua mãe dizer que paixões eram feitiços perigosos que os homens jogavam sobre as mulheres para elas ficarem submissas as suas vontades e serem estraçalhadas com a coisa ruim que tinham dentro das calças. Franziu o cenho e deslizou a mão para o rosto dele, contornando os traços numa caricia fantasma. Ele teve muitas oportunidades para lhe lançar o tal feitiço, principalmente para recuperar sua bolsa e não leva-la até as lanternas, mas ele não o fez, o que na situação seria o mais sensato. Ela chegou à conclusão de que a mãe tinha mentido sobre aquilo também. Deslizou os dedos pelo queixo dele. Gostou da sensação dos pelos contra seu dedo e lembrou da palavra que tinha guardado. Barba. Suspirou descendo os dedos pelo pescoço. Ele parecia beijado pelo sol. Sorriu com seu pensamento e imaginou o quanto deveria ser gratificante beijar sua pele. Ficou subitamente com inveja do sol. Inclinou-se para cima e esfregou lentamente seu queixo contra o dele. A sensação dos pelos dele contra seu queixo a fez arrepiar e uma sensação quente dominou seu peito. Sem conseguir conter sua curiosidade deu um beijo em seu pescoço, um beijo simples com direito a um som no final. Infantil e sem intenções maliciosas a não ser curiosidade e carinho:
–Rapunzel?- Eugene chamou com uma voz meio falha. Ela sentou, ainda no colo dele e o viu engolir em seco:
–Desculpe.- Ela sussurrou envergonhada- Eu só fiquei com invejo do sol.- Ele a olhou curioso. Piscou tentando acordar melhor e ter certeza de que não estava ouvindo errado:
–Como?
–A sua pele. Ela parece beijada pelo sol.- Explicou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo- E bem, eu quis beijar pra saber se era tão bom. Por que o sol te beijou inteiro. Pelo menos onde está exposto.- Eugene começou a rir. Não, ele não estava rindo, ele estava tendo um ataque.- Hey!- Ela deu um tapa em seu ombro- Hey! Pare de rir! Estou falando sério!- Gritou empurrando-o. O ladrão continuou rindo e ela não resistiu, acabou rindo junto. Eugene se recompôs e a encarou risonho:
–Então você me beijou porque sentiu ciúme do sol?- Rapunzel assentiu:
–Ridículo eu sei...
–Não.- Ele sentou e ficaram com os rostos próximos. Rapunzel ajeitou os pés deixando um de cada lado do corpo dele. O moreno sabia que ela não estava sentada em cima dele para provocá-lo, que para ela era apenas uma posição confortável, mas isso não fez sentir menos desejo. Engoliu em seco e focando no rosto dela. Suas mãos foram automaticamente parar nos quadris. Os dedos quase inconscientemente fazendo uma carícia fantasma. – Eu acho curioso. O modo como você encara as coisas. É divertido. E foi engraçado. Não é todo dia que se ouve uma garota falando sobre ciúme do sol. E você diz sobre a minha pele, mas a sua...-Ele sorriu e levantou uma das mãos, tocando o indicador com carinho nas sardas do rosto- A sua sim foi beijada.- E substituiu o indicador pelos lábios dando beijos estalados por cada sarda do rosto. Rapunzel sorriu feliz e sem conseguir se conter puxou-o para um beijo. Eugene sorriu contra a boca macia e deixou-se levar. A língua dela brincou com a sua, imitando seus movimentos e ousando em alguns pontos. Ele não conseguiu conter o suspiro. O beijo tinha gosto de amora doce que comeram mais cedo e algo mais, um gosto próprio dela. Os sons que a jovem fazia enquanto se deixava levar pelos beijos o faziam enlouquecer. Eugene deslizou as mãos para os quadris dela segurando-se para não fazê-la vir um pouquinho para frente, onde sua necessidade era evidente. A jovem suspirou e ele gemeu baixinho enquanto mordia os lábios dela:
–Está tudo bem?- O tom preocupado dela o pegou em cheio. Ele suspirou e assentiu colando a testa a dela e tentando controlar as reações de seu corpo:
–Yeah Goldie. Só...Me de um minuto ou posso enlouquecer.
–E não queremos isso certo?
–Não por enquanto.- Murmurou risonho e sem resistir lhe roubou um beijo de maneira ofegante- É só... Você em cima de mim e...- Então ela se mexeu para frente a fim de abraçá-lo e sentiu. Olhou-o quase chocada e continuou parada no mesmo lugar, não estava ajudando-o a se conter. Rapunzel levantou abruptamente e abraçou-se. Estava completamente sem jeito. Ele jogou a cabeça para trás e suspirou ruidosamente levando a mão ao rosto. Vê-la assustada foi fator suficiente para fazê-lo perder qualquer empolgação- Você está ok?
–Yep!- Respondeu sem jeito- Eu só...-Descruzou os braços e passou a mão pelo cabelo de um jeito nervoso- Eu não pensei que você teria e minha mãe disse e...-Ela engasgou:
–O que sua mãe te disse Rapunzel?
–Nada.- Murmurou sem jeito. Ele a encarou com um olhar de quem não estava acreditando e se ajeitou ficando sentado no sofá. Ela voltou para perto e sentou ao lado dele. O moreno a encarou- Bem.- Bufou e lembrou-lhe muito a noite da fogueira quando mostrou a ele o poder de seu cabelo- Ela me disse que os homens jogam feitiços nas mulheres para que elas fiquem submissas e assim com vontade de deixá-los...Rasgar a todas elas com as coisas horríveis e duras que escondem dentro das calças.- Eugene a encarou surpreso:
–Oh isso. Bem isso...- Não conseguiu falar muita coisa e se jogou para trás de novo tapando o rosto com as mãos. Bufou. Ele nunca, em toda sua vida, pensou que passaria uma situação daquelas. Nunca gostou de virgens, ele sempre as evitou e teve uma ou duas experiências catastróficas com mulheres inexperientes. Não sabia como lidar com aquilo. Uma coisa era lidar com virgens, outra totalmente diferente ela lidar com uma garota que não sabia nem o que ele tinha dentro das calças e achava que aquilo pudesse matá-la. – Céus.- Resmungou e suspirou pesadamente. Suas mãos escorreram lentamente de seu rosto e ele a olhou. Era sua Goldie ali. A pessoa por quem ele voltou, estava arriscando o pescoço e disposto a abdicar seu estilo de vida. Ele deveria ter adivinhado que nunca se apaixonaria por uma pessoa comum, era óbvio sendo quem era – Vamos resumir umas coisas por aqui. A sua mãe mente.- Ela o olhou magoada e ele percebeu tarde de mais que deveria ter tido mais cuidado. A situação dele já estava complicada de mais sem magoá-la- Desculpe Goldie, mas ela mentiu sobre isso também. O único feitiço que joguei em você foi o mesmo que jogou em mim.
–Eu nunca fiz nada parecido.- Ela respondeu determinada:
–Pois então.- A loira assentiu olhando-o atentamente- Eu vou até a biblioteca e trarei alguns livros a você. Assim poderá aprender sobre isso de verdade e não com essas histórias de terror que sua mãe andou lhe dizendo. Não sei que tipo de trauma ela sofreu, mas as coisas não serão assim com você no que depende de mim.- Rapunzel assentiu, mas depois o olhou com pavor:
–Não! Você não pode voltar a capital. Se lhe pegam você vai para a forca.
–Eu sei os riscos.
–Não Eugene, não existe nada que não possa me ensinar. Não faça isso.
–Eu preciso ir até a capital resolver umas coisas.
–Que tipo de coisas?
–Dividas. De pessoas que eu não gostaria de dever e que não teremos paz enquanto eu dever. Bem! Eu aproveito e passo na biblioteca.
–Mas seu rosto está em todos os lugares. Não pode fazer isso!
–Goldie. Fique calma. Ainda preciso fazer um trabalhinho sujo ou dois. Coisas que me encomendaram antes da coroa.
–Eugene.- Ela o olhou decepcionada- Não tem dinheiro suficiente com essa coroa?
–Não é pelo dinheiro. É pela aventura.- Sorriu largamente e Rapunzel meneou a cabeça negativamente. Correr pela sua vida tinha sido de certa forma revigorante, mas ela não sabia se podia o tempo inteiro com aquele ritmo:
–Eugene. O reino está fortemente vigiado. Você não voltaria lá por nada. Não minta.- O homem ficou surpreso com a perspicácia dela:
–Eu preciso de umas coisas que estão por lá e que não tem nada a ver com dinheiro.
–O que seria?- Ele a encarou longamente:
–Posso tentar encontrar e depois te falar?
–Você não vai desistir dessa ideia não é mesmo? – Ele lhe lançou um sorriso sacana e ela segurou o próprio riso- Você é horrível.
–E te conquistei com meu pior lado.- Murmurou lhe lançando uma piscadela.- Acho que preciso ir não é?- Rapunzel assentiu a contra gosto:
–Onde vai ficar?
–Eu me viro.
–Eugene. Não quero que fique sozinho por aí a noite.- Ele sentiu o coração encher de esperança perante as preocupações dela e beijou-lhe a testa com carinho- Eu sei que você sabe se virar, mas não acho justo dormir em qualquer canto enquanto eu...
–Hey. Seja uma boa garota e convença sua mãe a sair por mais tempo.
–Não fale assim comigo.- Rosnou irritada e ele sorriu:
–Desculpe.- Ela assentiu e quase sorriu quando ele lhe mordeu os lábios- Preciso ir.- Suspirou contra a boca dela e roubou outro beijo antes de se levantar. Foi para a janela e lhe deu um último beijo cheio de sonhos e esperanças para logo depois iniciar sua descida. Quando chegou ao chão olhou para cima. Ela o olhava com medo:
–Tenha cuidado!
–Pode deixar.
–E volte inteiro!
–Já não garanto Goldie!- Ela riu e acenou. Eugene acenou de volta e foi andando de ré, olhando-a até que alcançou a parede de folhas. Rapunzel suspirou e jogou-se no sofá. O cheiro dele ainda estava por lá.
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