Sob a luz das estrelas
12 Capítulo 12: Joe e o navio atrasado
Notas iniciais
O sonho impossível não é aquele que a gente não pôde alcançar,mas aquele que desistimos de lutar
–Queremos comprar duas passagens. – Eugene chegou com a documentação fresquinha para o senhor gordo de trás do balcão – Para o próximo navio rumo à velha Inglaterra.
–Documentação, por favor. – O moreno empurrou os papéis. Rapunzel agarrou o braço dele com ansiedade:
–Preencham esse formulário, por favor. – Era um papel perguntando o motivo da partida, data da volta e todos os dados pessoais. Quando terminou de preencher entregou ao homem – Vão para ficar? Preencham mais esse. – Era outro pedindo laços de parentesco inglês e cópias de documentos comprobatórios. Cerca de duas horas depois eles finalmente tinham concluído toda a papelada:
–Para você conseguimos a passagem. Para a jovem de Corona apenas se você tiver os proclames e comprovação de que haverá casamento no velho mundo.
–Tudo aqui. – Enfiou o documento falsificado pelo balcão. O homem analisou com tanto cuidado que o casal sentiu medo de ser descoberto. Por fim ele suspirou resignado:
–Muito bem. O próximo navio para Inglaterra sai em 30 dias.
–O que? – Eugene gritou – Como assim em trinta dias?
–O último saiu tem cinco horas e o próximo chega só daqui um mês. Sinto muito, mas os navios para o velho mundo saem com mais frequência de Corona, que é o parceiro comercial deles. Os nossos vão para as Índias e oriente.
–Dá índia podemos pegar outro navio para Inglaterra.
–Não é possível. Precisam de uma documentação especial e os indianos não deixarão que embarquem sozinhos e solteiros. Além do mais é um continente bárbaro... – Eugene bufou e o interrompeu:
–Não podemos esperar tanto tempo.
–Vocês têm pressa com o casamento? – O homem gordo e barbudo olhou diretamente para o ventre plano de Rapunzel e Eugene sentiu-se ofendido:
–Isso realmente não é da sua conta! – O rosto rosado do homem ficou mais rosado ainda:
–Senhor, providencie nossa passagem para o próximo navio com destino ao velho mundo. O mais rápido possível. A mãe do meu noivo pode morrer a qualquer momento. A coitadinha contraiu febre amarela lá das colônias. Eugene querido, controle seus nervos. – Pediu toda empertigada parecendo uma verdadeira rainha ao falar com os homens – Eu preciso conhecer minha sogra antes que a morte a leve, senhor.
–Claro. Eu sinto muito, mas o próximo é só daqui um mês mesmo.
–Iremos nesse. – Enfiou a mão na bolsa de Eugene – Primeira classe, por favor. – Jogou muito dinheiro no balcão.
–Sim, senhorita Flynnigan. Eu sinto muito pelo inconveniente.
–Se algum navio aportar mais cedo, por favor, nos avise. Estamos hospedados a três quadras daqui.
–Naquela pensão de reputação horrível? Uma dama feito você? Rapaz, onde está com a cabeça? Leve a senhorita para os quartos da Vovó. Melhor sopa e melhores quartos. – Eugene revirou os olhos e assim que teve as passagens em mãos passou o braço pelo ombro de Rapunzel e saiu andando com ela. Pascal olhou ameaçador para o caixa e o homem ficou surpreso ao ver um camaleão no ombro da loira.
–Eu estou sendo uma péssima influencia a você. – Admitiu tentando esconder o orgulho na voz e falhando miseravelmente.
–Não fui demais? – perguntou dando risada e o camaleão assentiu feliz – Tivemos necessidade Eugene, não estou mentindo para enrolar uma velinha e roubar-lhe o colar de rubi. – Cutucou lembrando de uma história que o moreno lhe contou. – Estou ou não me virando?
–Se algo acontecesse comigo você saberia seguir. – Murmurou risonho e ela ficou séria:
–Nunca mais brinque com isso. Vamos para Inglaterra juntos.
–E se não formos?
–Para a prisão! Que seja! Mas vamos juntos. – O moreno sorriu e Pascal o olhou com repreensão – E precisamos ficar num lugar que chame menos atenção. Se minha mãe seguir alguma pista certa e nos encontrar em Arendelle... Não quero confrontá-la. Nunca mais! Isso se ela não trouxer os guardas.
–Já pensou na possibilidade disso realmente acontecer? – A jovem engoliu em seco:
–Não quero pensar em coisas ruins. – Ele beijou-lhe a têmpora:
–Vai ficar tudo bem. – Tentou assegurar a si mesmo e voltaram para a hospedaria. Um mês era muito tempo no mesmo lugar quando tinham uma mulher feito Gothel no rastro. Rezava para que ela tivesse mordido a isca e ido para o norte, ou no máximo se perdido nas Ilhas do Sul.
_Tangled_
Rapunzel franziu o cenho quando o raio de sol tocou seu rosto. Espreguiçou o corpo sentindo o cobertor tocar seu corpo nu. Girou para o lado e sentiu o espaço vazio. Virou para o travesseiro de Eugene e viu um pedaço de papel. Pegou-o com interesse e leu:
Goldie,
Fui tentar resolver essa coisa da passagem. Estava tão linda dormindo que não tive coragem de te acordar. Aproveite o dia e explore Arendelle. Não se afaste do centro, pode ser perigoso.
Com amor,
Eugene
A jovem sorriu e levantou num pulo. Viu Pascal deitado na cabeceira da cama e ficou com dó de acordá-lo. Andou até o banheiro e fez sua higiene matinal mergulhada em lembranças da noite anterior. Não conseguia tirar o sorriso do rosto quando pensava em como foi tocada por Eugene.
Rapunzel decidiu visitar o pintor que conheceu no dia em que chegaram. Colocou o novo vestido que Eugene tinha lhe dado, mais quente que qualquer um que teve em sua vida. Ela agradecia por isso, pois Arendelle era mais fria e o inverno se aproximava com força. Enfiou meias de lã, o par de botas e de maneira apressada fez uma trança mal feita. Naquela altura já estava com prática em trançar o cabelo. Trancou a porta e desceu apressada:
–Bom dia senhorita Flynnigan. – Rapunzel sorriu:
–Bom dia senhora Georgia. – Saiu e deu a volta na hospedaria. Ela e Eugene não acharam por mal trocar de estabelecimento uma vez que ficariam por um mês inteiro. Da estalagem suspeita foram para a hospedaria aconchegante. O moreno não disse nada, mas aquilo evitaria falatórios a respeito de Rapunzel. Ele não queria preocupar ou magoar a loira com bobeiras da sociedade conservadora.
Rapunzel foi para a rua e seu estomago roncou. Ela decidiu ir até a confeitaria onde vendiam deliciosos cupcakes e o café era saboroso. Sentou no balcão, não queria ocupar uma mesa tomando café sozinha. A mocinha sorridente logo trouxe seu pedido. Um café escuro, pão de milho quentinho e um cupcake. A porcelana era de um trabalho fino e todo artesanal. Rapunzel passou alguns minutos absorta no design da louça:
–Bom dia Rapunzel!
–Bom dia Amy.
–Você gosta da nossa louça, não é mesmo?
–Sim, os padrões dos desenhos são tão bonitos. Estilo clássico, não é o que escolheria na hora de pintar, mas as cores... – Sorriu sonhadora – São tão vivas.
–Mamãe é uma apreciadora de arte. Eu não entendo tanto, mas peguei algum gosto por pinturas por causa dela. – Rapunzel sorriu:
–Eu não sei quanto a sua mãe, mas... – A loira sorriu nostálgica e fitou o café dentro da xícara – A arte sempre me transportou para longe quando precisei. – Amy sorriu para a garota a sua frente:
–O jeito que você fala sobre o que gosta é tão bonito. As pessoas deveriam aprender a amar a vida do jeito que faz. – Rapunzel corou e deu de ombros com um sorriso tímido:
–Eu gosto muito de conhecer as pessoas e ter liberdade em minhas escolhas. Acho que é por isso que aprecio cada uma delas.
–Você é muito sábia Rapunzel.
–Amy, mesa perto da janela. – A mãe da atendente chamou de maneira ríspida. Amy revirou os olhos:
–Eu ainda preciso aprender a apreciar a minha vida feito você! – Ambas riram e a garota se foi, deixando Rapunzel sozinha em pensamentos:
–Eu sei, eu sei. Aquele rapaz e ela vieram sabe-se lá de onde. – A loira ouviu a voz de uma senhora cochichar e a outra soltou um barulho de deboche – Trudy que trabalha na Sopa da Vovó me disse que dormem juntos e nem são casados!!! Conduta lamentável.
–Lamentável! – Rapunzel sentiu o coração bater mais fraco – Onde já se viu? Uma menina decente não se prestaria a fazer isso. Nem um homem decente! Eles nem devem ser noivos.
–Mas ela tem porte.
–As prostitutas francesas também.
–Bem... Podem ser boatos.
–Sendo ou não, uma moça solteira não viaja sozinha com um homem. Ela deve ser daquelas que sofre a doença... De querer sexo além da reprodução.
–Prostituta. Aposto que as coroas de ouro dele pagam o serviçinho sujo dela.
–Arruinada. Completamente arruinada. Por causa daquele sedutor barato. Conheço o tipo dele. Se mete debaixo das saias da primeira que passa, prometendo juras de amor e depois dando o fora! – Então o estomago de Rapunzel fechou e ela perdeu todo o apetite:
–O que foi Rapunzel? – a jovem não tinha percebido que Amy voltou para o balcão – Não gostou da comida?
–Oh, sim... É só que... – Piscou tentando espantar as lágrimas – Está muito bom. – Mordeu o lábio inferior e bateu os dedos na xícara de maneira nervosa:
–O que houve? – Amy olhou em volta e percebeu as duas senhoras cochichando e olhando de maneira recriminadora para sua amiga – Ahh, aquelas esnobes. São da nobreza. Não ligue, Rapunzel. Elas falam mal de todo mundo que tem menos dinheiro que elas. Criticam mamãe porque resolveu abrir esse café e ajudar papai com as despesas. São umas idiotas, mas trazem bastante dinheiro.
–É. – Deu de ombros tentando não se importar:
–Hey! Você sabe pintar?
–Faço isso desde pequena. Não sei se sou boa, mas acho que sim. Eugene ficou impressionado quando viu, mas ele deve ser uma opinião parcial, não é? Minha mãe não gostava muito, dizia que eu fazia sujeira. – Ficou calada e suspirou – Mas ela não conta.
–Uh. Vocês tiveram um desentendimento feio, hã?
–Vamos levar por esse lado.
–Bem. Não falaremos de coisas ruins. Olha, a Lady Alexandra está procurando uma mulher para dar aulas de pintura para sua sobrinha. Elas estão morando no palácio.
–Eu não sei se posso aceitar um compromisso desses. Não ficarei em Arendelle por muito tempo.
–Bem. É um bico. Até a sobrinha dela casar. Ela quer deixar a sobrinha dentro de casa para não sair arrumando confusão. Joe é muito legal, vai gostar dela.
–Bem. Por que não? – Sorriu empolgada – Posso fazer um teste, não é? – Disse animada enquanto terminava de comer:
–Sim! Você será perfeita para o cargo. Jovem, solteira, mulher. Nada de escândalos. Joe já acumulou problemas demais para quem é a próxima noiva da nobreza. Vamos. Vamos lá! Mamãe. – Tirou o avental e jogou em cima do armário que ficava atrás do balcão – Estou indo ver o pedido de Lady Alexandra. – Não esperou a resposta da mãe e saiu puxando Rapunzel:
–Vamos agora?
–Por que não? – Amy passou o braço pelo de Rapunzel e rumaram para o castelo. Já faziam oito dias desde que chegaram a Arendelle e a jovem de Corona já tinha conquistado a amizade dos músicos, do pintor que conheceu assim que pisou no novo reino e de Amy. A jovem garçonete atendia Rapunzel quase todas as tardes e embora ficasse intimidada com o charme arrogante do noivo dela sempre sentava na mesa e conversava animadamente com a garota. Rapunzel tinha muitas informações sobre variados assuntos o que a tornava de longe uma das pessoas mais interessantes e gentis que Amy tinha conhecido. Até sua mãe rabugenta tinha gostado dela e a mulher não gostava de ver a filha conversando com as amigas em horário de trabalho. A jovem garçonete estava morrendo de curiosidade para saber o que houve entre a loira e a mãe e criava várias suposições românticas em sua mente sobre o amor proibido dela e do noivo.
___Tangled___
Eugene passou pelo centro de Arendelle quando voltava do porto. Viu o amigo pintor de Rapunzel tentando vender suas telas confusas às pessoas e não a viu ao lado dele. Rumou para o café onde ela adorava comer cupcakes e jogar conversa fiada com a garçonete espevitava e também não a viu. Rumou duas quadras para frente e viu os músicos, mas nada de Rapunzel. Revirou os olhos sentindo-se entediado apenas por se imaginar perguntando sobre sua noiva para o mirrado e saidinho flautista. Deu meia volta antes que aquele grupo de garotos idiotas o visse e se foi. Voltou até a hospedaria e encontrou Pascal sozinho no quarto. O camaleão parecia ofendido por ter sido esquecido. Deixou o réptil se empoleirar em seu ombro e saiu novamente. Andou até a livraria e não a encontrou. Depois de procurar na loja de tintas e utensílios variados começou a ficar preocupado. Seu coração apertou e ele sentou no banco perto da ponte de acesso até o castelo. Cruzou as mãos embaixo do queixo e começou a pensar. Pascal soltou um guincho animado:
–Eugene? – Levantou os olhos e viu sua garota bem à sua frente. Suspirou aliviado e passou as mãos pelas costas dela, por baixo da trança, encostando nela e não no cabelo – Conseguiu resolver as passagens? – Ele meneou a cabeça negativamente. Pascal correu para o ombro de sua amiga, aliviado por deixar o homem:
–Está tudo bem? – Olhou-a atentamente e a jovem assentiu apontando com o olhar para Amy. Eugene sentiu o rosto arder e desfez o abraço – Olá senhorita Barleet. – A jovem deu um aceno breve e se despediu de Rapunzel de maneira apressada – Onde você estava? – Perguntou quando Amy os deixou. A loira apontou para o castelo sem conter a empolgação:
–Eu... Eu... – Ela segurou uma mecha do cabelo e pulou empolgada- Euconseguiumemprego! – Falou de uma só vez e Eugene piscou confuso:
–Como?
–Eu consegui um emprego! Yey! – Pulou feliz e o moreno sorriu – É um temporário enquanto não partimos, mas Lady Alexandra disse que é exatamente o tempo que ela precisa enquanto a sobrinha dela não se casa e ela vai me pagar. Olha só! O meu próprio dinheiro, finalmente meu próprio dinheiro. – Eugene cruzou os braços e olhou-a desconfiado:
–E o que exatamente vai fazer em menos de um mês?
–Vou ser professora de pintura! Eu vou ensinar a futura condessa a pintar! Fiz um quadro e a tia dela adorou. Disse que tenho um talento e tanto e... Eu nem acredito que tenho um emprego. Um trabalho de verdade igual todas as pessoas com vidas comuns! Isso é tão... – Sorriu largamente – Tão incrível! – E abraçou-o. Eugene a abraçou de volta e enquanto a sentia em seus braços suspirou preocupado. Não estava em seus planos de passar discretamente por Arendelle que Rapunzel, com todo aquele cabelo e simpatia marcante, fosse lembrada no castelo. Logo num lugar cheio de guardas que poderiam muito bem saber de seus feitos. Afinal, ele roubou a irmã da rainha! E o irmão do rei! Não era possível que não estivessem se falando. Ficou preocupado:
–Quando você começa?
–Amanhã à tarde. Todas as tardes depois do almoço. Ela me pagará três coroas por dia.
–Tudo isso?
–Ela disse que a sobrinha dará trabalho. – O moreno a encarou de sobrancelha erguida e Pascal soltou um chiadinho desconfiado – O que foi Eugene? – A empolgação dela foi morrendo aos poucos – Não gostou da ideia? Pode ser perigoso? – Como ele poderia acabar com a animação dela daquela maneira? Não teria coragem:
–Claro que não! Só estou com ciúme. Não a terei por inteira só para mim. O que vou fazer durante toda a tarde? – Olhou-a lançando-lhe o smolder. Ela revirou os olhos e riu:
–Use sua criatividade.
–Minha criatividade pode nos meter em problemas.
–Não roube ninguém Eugene. Ou eu lhe acerto a cabeça com a frigideira. – Ele a olhou falsamente ofendido e a puxou pela cintura:
–Eu sei muito bem que seria capaz de fazer algo assim. – murmurou com um sorriso de lado enquanto a aproximava de si. A loira passou os braços pelo pescoço dele e lhe lançou um sorrisinho de canto. Pascal revirou os olhos com o flerte do casal:
–Pode ter certeza que sim. E eu faria mais de uma vez se fosse preciso. Sem dó ou remorso. – Ela aproximou mais o rosto do dele e Eugene cerrou os olhos:
–E me amarraria numa cadeira. – O homem sussurrou colando a testa a dela e sentindo o coração acelerar:
–E te chantagearia. – Ela murmurou risonha e finalmente o beijou. O moreno esqueceu as preocupações sobre o novo emprego dela e aproveitou a textura macia dos lábios contra o seu e a maneira como a língua dela se encaixava perfeitamente em sua boca:
–Hum... Eugene. – Rapunzel chamou entre o beijo e se afastou dele – Hoje ouvi umas coisas no café da Amy que me deixaram confusa. – Ele a olhou curioso e andou com ela até o banco. Sentaram-se e ela segurou a mão dele. Pascal suspirou aliviado de não precisar ficar tão perto durante um beijo dos dois – Ouvi umas senhoras falando que garotas que gostam de sexo são doentes. As pessoas realmente acreditam nisso? – O moreno revirou os olhos:
–Sim. As pessoas acreditam nisso. Existem algumas coisas... – Ele estalou os lábios e levou a mão ao queixo coçando a barba – Vamos resumir assim. As pessoas aqui fora, elas... – Coçou novamente o queixo – Criam certas regras e querem que as pessoas sigam para manter a ordem. Muita gente ouve essas regras e passam de boca em boca para as outras. O resultado final são mentiras. – Rapunzel o olhou confusa:
–Não entendi nada.
–Bem... As pessoas dizem por aí e a maioria delas acredita que, por exemplo, a mulher não é tão importante quanto o homem. Que garotas não devem trabalhar e muito menos ficar felizes se isso acontecer a elas. Como se elas fossem deixar de ser boas garotas por fazer isso. E as mulheres devem obedecer a seus maridos mesmo que eles sejam idiotas completos ou as tratem mal. Mesmo se eles saírem com outras mulheres e não forem boas pessoas. As mulheres aqui fora não podem trocar de marido, se não todos acreditam que elas estão erradas e são más. – A loira arregalou os olhos e levou a mão a boca – Os médicos, que são pessoas que cuidam dos ferimentos e doenças dos outros, acreditam que as mulheres são inferiores aos homens. Então eles inventam um monte de mentiras que eu já comprovei serem mentiras.
–Isso parece uma daquelas histórias que minha mãe contava.
–Infelizmente não é. Eu não sei por que esses médicos, eu não estou dizendo que são todos, sempre existe suas exceções, mas a maioria deles jogaram verdades por aí que não são bem... Verdades. E as pessoas acreditam neles. Por que eles salvam a vida delas. – Rapunzel assentiu. Aquilo fazia sentido – As pessoas acham que se uma mulher sente prazer... – Ele esticou o dedo e passou pelo pescoço dela e ela arrepiou. Pascal bufou e saiu do ombro de Rapunzel ficando empoleirado no banco – Apenas com esse toque, é porque sofre algum tipo de doença. Para muitas pessoas, se as mulheres sentem qualquer tipo de prazer com o contato físico é porque estão doentes. Até onde eu sei tem duas verdades, a que a mulher é biologicamente incapaz de sentir prazer e a que ela só sente prazer com bem... Quando tem um homem dentro dela. – Ambos ficaram constrangidos com o que ele disse.
–Isso é uma tremenda mentira. Como esses médicos podem saber o que uma mulher de fato sente quando é tocada por alguém? — Eugene assentiu e sorriu orgulhoso:
–É por isso que não acredito. Eu sempre ouvia essas lições dos padres e lia nos livros, iguais aqueles que você leu, então eu tive meu primeiro beijo. – Eugene sorriu nostálgico – Ela tinha as mãos geladas de ansiedade tanto quanto as minhas e as bochechas dela coraram do mesmo jeito que as minhas e nós dois suspiramos e tivemos nossas expectativas idiotas. – Rapunzel piscou dando toda atenção do mundo aqueles relatos – Homens e mulheres são complementares e não superiores um ao outro. Mas eu sou tido como louco por pensar assim e tem gente que vai te tratar como doente ou devassa porque você se deixa sentir. – Os dedos dele pararam embaixo de sua nuca e a mão deu um aperto firme e sedutor – Essas pessoas não tem absolutamente nada a ver com o que fazemos e sentimos. São todos idiotas.
–Eugene. Se vamos viver em sociedade, seja no velho mundo ou em qualquer outro canto, não podemos ter uma postura assim. Nós não precisamos ligar para o que eles acham de nós, mas não devemos os tratar como idiotas porque têm uma opinião diferente da nossa. É relegá-los ao ostracismo da mesma forma que fariam conosco. Ninguém precisa saber como levamos nossa vida íntima ou nossos papéis um com o outro dentro da nossa rotina. Também não precisamos tratar todas as pessoas como se fossemos melhor que elas por termos mais... Compaixão? – Suspirou confusa – Por termos uma visão diferente. Isso é errado. – Ele revirou os olhos – Já está fazendo isso.
–Sinto muito, Goldie.- Murmurou sentindo-se envergonhado. Ela tinha razão. Ele passou muito tempo pensando no quanto as pessoas eram idiotas e tolas por não compartilharem a mesma opinião que a dele que mal pensou que estava sendo tão tolo quanto eles – Eu costumo olhar só para o meu próprio umbigo.
–E um hábito não morre tão cedo. – Ele assentiu.
–Vamos. – Levantou e esticou a mão. Pascal correu e enfiou-se no bolso do colete dele. Ela aceitou a mão e o olhou com uma sobrancelha arqueada, o olhar mais sexy de desconfiança que ele já tinha visto na vida, pelo menos era tudo aquilo para ele – Vou te levar para nosso quarto e chocar mais um pouco os moradores locais. – Rapunzel riu e abraçou-o. Aproveitou o momento e sussurrou:
–Podemos tomar um banho juntos? – Ele afastou a cabeça e a olhou com malícia enquanto assentia.
________Tangled________
Rapunzel chegou meia hora mais cedo no dia seguinte tamanha ansiedade por começar as aulas. Tomou instruções com um empregado empertigado. Ela era completamente proibida de ir até a ala norte do castelo onde as princesas e o casal real passavam a maior parte do tempo e só poderia ter contato com a princesa Anna caso a jovem lhe dirigisse a palavra. Rapunzel ficou sentada na sala de estudos esperando a presença de Joanne e alisou a barra da saia. O vestido que usava era de um azul bem escuro cheio de botões até o pescoço. Ela sentia-se bem quentinha, a combinação mais grossa que usava por baixo e o espartilho ajudavam. A neve começava a cair timidamente do lado de fora e acumular no batente da enorme janela. Ela puxou a trança para frente e alisou os fios lisos. Se perguntou por qual motivo ainda não tinha cortado o cabelo. Aquela ideia vinha rondando sua mente há muito tempo, principalmente depois que saiu da torre. Tentou não pensar naquele lugar, mas logo a lembrança da mãe veio a sua mente e a culpa apareceu timidamente. Ela não se deixava sentir aquilo, mas não conseguia parar de lembrar como a deixou. Sabia que tinha feito a coisa certa, mas algo lhe dizia que a mãe não tinha aceitado sua decisão de maneira feliz e muito menos se conformado com aquilo:
–Boa tarde. – Rapunzel saiu de seus pensamentos e encarou a jovem à sua frente. Lembrou-se dela imediatamente. Era a garota que foi jogada no chão de maneira brusca quando eles chegaram a Arendelle. Na ocasião ela tinha ficado encarando aos dois com desconfiança. Levantou e esticou a mão:
–Muito prazer Lady Joanne...
–Joe. Por favor, me chame de Joe.
–Sou Rapunzel Flynnigan, sua nova professora de arte. – A morena assentiu dispersa e sentou no banquinho de frente para uma tela. Rapunzel fez o mesmo ficando ao lado dela. Deu uma paleta de cores a garota – O que você já sabe de pintura?
–Nada específico.
–Então vou te instruir quanto aos estilos existentes e depois podemos introduzir o meu.
–Tudo bem. – A loira percebeu que a garota estava apática e com o pensamento distante. Quando Rapunzel começou a pintar ela pareceu se interessar um pouco mais e até trocou algumas considerações com ela, mas não passou daquilo. A tristeza dela era evidente. Antes de ir embora Rapunzel a olhou atentamente:
–Está tudo bem Joe? – A outra assentiu de maneira submissa e a loira sentiu o estomago afundar. Ela costumava assentir assim para sua mãe quando não queria mais discutir com ninguém – Espero que seus problemas possam ser resolvidos. – Joe levantou o olhar e a encarou com os olhos marejados:
–Me encontre uma arma. Dessas que são proibidas no país dos oceanos. Me encontre uma e assim eu resolvo. – Fungou e limpou uma lágrima teimosa – Eu sinto muito por isso. – Fungou de novo – Sua aula foi muito interessante. Obrigada. Acerte o valor com o senhor que lhe trouxe até aqui. – Antes que Rapunzel pudesse dizer qualquer coisa, Joe saiu andando.
Rapunzel saiu do castelo por volta das cinco e o céu já estava escuro. Suas botas deslizaram no chão molhado devido à neve. Eugene a esperava na porta com Pascal empoleirado em seu ombro. Passava as mãos pelos braços tentando se esquentar e o camaleãozinho se encolhia a cada rajada de vento. Ele estava com o casaco de couro que compraram na primeira parada que fizeram quase vinte dias atrás:
–Então? – Ele perguntou enquanto passava o braço pelo ombro dela. Pascal correu e parou no ombro de Rapunzel embaixo do cabelo. Suspirou aliviado com o fato de ter algo para se proteger do frio – Como sua nova aluna é? – Rapunzel ficou calada por alguns instantes:
–Triste. Ela é triste.
–Ela é tão ruim assim? – A loira soltou um risinho:
–Não. Ela até leva jeito. Quis dizer que ela estava triste. Chorando.
–E ela te disse o motivo?
–Acabamos de nos conhecer e talvez ela nunca diga.
–É melhor que não se intrometa em assuntos desse pessoal da nobreza. Ela deve estar sendo obrigada a casar com alguém que tem o triplo da idade dela, gordo e asqueroso. – Rapunzel e Pascal estremeceram ao ouvir o que ele disse.
Na tarde do dia seguinte Eugene estava entediado e andando a esmo pela cidade. Sem muito o quê fazer decidiu ir até o local suspeito no qual ele e Rapunzel se hospedaram logo que chegaram e sentou no bar. Precisava de umas cervejas para relaxar e deixar de pensar em tudo que poderia dar errado com o novo emprego de sua garota:
–Uma cerveja, por favor. – Estava extremamente frustrado com o fato de não conseguir um navio para a Inglaterra o quanto antes. Pensou em ir até as Ilhas do Sul, mas espalhou por Arendelle que rumaria para lá e a possibilidade de encontrar os ruivos psicopatas não lhe agradava. Torcia para que os idiotas tivessem mordido a isca. Ele arriscou muito depositando sua sorte nas mãos dos incompetentes guardas de Corona. Devia ter imaginado que aqueles homens não segurariam os gêmeos, não conseguiam segurar nem ele que era um alvo mais fácil. Bufou e ao terminar o copo de cerveja pediu outro – E já deixa mais um na reserva amigo! – Orientou o cara do balcão.
______________Tangled______________
Rapunzel observou a tela que Joe tinha acabado de pintar. Era a representação de uma gaivota voando sobre o mar. Precisava de mais técnica e certamente uma mistura melhor de cores, mas estava muito bonita:
–Muito bem. – Murmurou feliz – Você pegou bem a coisa do contorno inicial. – A morena assentiu enquanto examinava Pascal com curiosidade. A simpatia do bichinho já tinha conquistado a futura condessa – Você gosta do mar? – Perguntou casualmente enquanto guardava o material.
–Sim. — Rapunzel sorriu com a resposta – E você?
–Gosto das possibilidades que ele nos dá. – Ela olhou para a gaivota de Joe – Gosto de imaginar que ao entrarmos num navio, assim como essa gaivota, temos todas as possibilidades do mundo.
–Deve ser incrível. – Ambas encararam a pintura e suspiraram ao mesmo tempo. Pascal as olhou atentamente e sorriu discreto – Descobrir um mundo novo, uma cultura diferente, ter contato com pessoas que você jamais conheceria no seu mundo atual. Entender como as pessoas são. – Rapunzel a olhou de canto:
–Vamos fazer algo mais lúdico agora. Você já está pronta para o próximo passo.
–Eu vou fingir que não é a primeira vez que você dá aulas e ontem estava mais trêmula que uma vara verde. – As duas riram – Me mostre. – Rapunzel assentiu e pegou a paleta de cores. Joe admirou a habilidade dela em pintar sem fazer esboços. A morena ficou observando mais Rapunzel e seu longo cabelo trançado do que a pintura que ela fazia. A achou familiar da mesma maneira que achou o homem que a acompanhava familiar, mas não sabia distinguir o porquê do sentimento – Você veio de Corona, não é?
–Sim. – A loira respondeu enquanto descansava a mão no queixo e olhava para a tela tentando encontrar exatamente o que queria – Isso não está legal. O que acha Pascal? – O camaleão deu um chiadinho de dúvida e ela suspirou. Pegou a pequena faca que tinha em cima da mesa e tirou os pregos finos que prendiam a tela. Fez o mesmo com as telas brancas que estavam espalhadas pelo cômodo e colocou-as uma ao lado da outra no chão. Pegou o maior pincel e começou a pintar todas as telas de azul. Foi um trabalho rápido e quando terminou enfiou os dedos na tinta amarela e laranja. Sem se importar em sujar o vestido ficou bem próxima da tinta fresca e começou a fazer padrões no que parecia ser um céu cheio de estrelas. Joe ficou calada enquanto observava o modo diferente e concentrado em que Rapunzel trabalhava. Ela parecia completamente absorta na pintura e a morena não queria tirá-la do transe. Viu-a limpar os dedos no pano da mesa e depois trocar as cores. Algum tempo depois ela pode ver o que a loira realmente estava fazendo e ficou maravilhada – Isso é Corona. A capital pelo menos. Esse é o castelo, bem ao longe, pode ver? – Apontou e Joe assentiu – As ruas cheias de cidadãos e as lanternas. Foi a primeira vez que as vi. E muito provavelmente a última. – Suspirou. Joe observou a representação de um barco e apenas um esboço de sombras de um casal – Esse é Eugene e essa sou eu. – Sorriu – Acho que foi nosso primeiro encontro. Eu sonhei a minha vida inteira em ver essas lanternas. Estava aterrorizada quando finalmente tive a oportunidade de vê-las por mim mesma.
–Onde você morava que nunca participou do festival das lanternas? Eu estou no país dos oceanos há cinco anos e já fui a dois. A rainha é irmã da rainha de lá e como sou a futura condessa devo acompanhá-la nesses eventos. Mas o festival é bem bonito. Se não fosse o motivo triste por trás dele... – Suspirou e encarou a loira a sua frente – Por que nunca foi?
–Minha mãe não me deixava sair de casa, então... Eu sonhei por 18 anos. – Suspirou olhando para a pintura. Pascal a acompanhou e também encarou a pintura. A loira se levantou e limpou as mãos no pano.
–E o que te fez ter coragem para finalmente ir?
–Eu senti que deveria fazer naquele momento ou então nunca seria capaz de ir. – Sorriu timidamente:
–E agora? Que realizou seu sonho?
–Bem. Eu tenho outros que valem a pena lutar. – Suspirou com um sorriso tímido – E quanto a você, Joe? Já realizou algum sonho?
–Sim. – Ela sorriu largamente e sentou no chão observando a pintura de Rapunzel mais de perto. Os nuances lúdicos e fantásticos eram incríveis. O estilo da loira era tão diferente do tradicional que lhe enchia os olhos de felicidade ao observar – Eu li o conto dos três mosqueteiros quando era criança e me apaixonei pelas lutas de espadas, tudo tão romântico e cheio de aventuras. Queria ser tão boa quanto eles. Peguei minha mesada, que era pra gastar com fitas de cabelo e laços de vestidos e paguei pra um cara me ensinar. Ele era um professor de luta falido. Existe muito disso em Londres. Gente bêbada e falida. – Suspirou – Ele me ensinou muitas coisas e quando percebeu que eu realmente era boa com a espada começou a me ensinar de graça. A essa altura minha mãe já tinha descoberto e vetou minha mesada. – Sorriu nostálgica – E meu professor foi coagido a parar de me dar aulas. Eu fugia no meio da noite pra continuar aprendendo e teve uma vez que me inscrevi num campeonato e quase ganhei. Perdi o prêmio quando descobriram que eu era uma garota e essa foi a gota da água. Minha mãe me mandou para morar com minha tia. Mas eu realizei meu sonho. Pelo menos em parte. Sei que sou boa com a espada. Tive técnicas de esgrima também. Sei que sou muito boa, mas não posso demonstrar isso. – Tocou a pintura de Rapunzel – Um dia eu tive coragem de desobedecer, do mesmo jeito que você teve. Então... Aconteceram coisas que me fizeram desistir e eu não fugi. Eu ia voltar pra Inglaterra e abrir minha própria escola de luta. Daria um emprego para meu professor e ainda faria o que gosto. Mas uma futura condessa não deve pegar em espadas.
–Bem! Eu acho super útil aprender a lutar. Se Eugene não soubesse não tínhamos escapado da represa e... – Pascal chiou alertando-a. Rapunzel levou a mão a boca e arfou. Não queria sair contando sobre sua aventura antes de ver as lanternas e muito menos o motivo por ter saído de Corona – Obrigada. – Sussurrou para seu amiguinho verde. – Eu deveria aprender, afinal, viagens podem ser perigosas. Você poderia me ensinar, o quê acha? Eu venho te dar aulas de pintura...
–Mas não podemos fazer isso aqui. Vão ouvir. Tem que ser na sua casa. – Rapunzel mordeu o lado de dentro da bochecha:
–Eu... Não tenho casa. Estou provisoriamente num dos quartos da Vovó. – Joe coçou o queixo – Eugene e eu estamos esperando um navio. Vamos morar longe daqui. – A morena a olhou longamente:
–Estão fugindo, não é? Resolveram fugir juntos. – Rapunzel suspirou e puxou uma mecha de cabelo ficando constrangida enquanto olhava para Pascal – Há quanto tempo se conhecem? Desculpa, isso não é da minha conta. – Rapunzel suspirou:
–A relação com a minha mãe sempre foi complicada. Não estamos fugindo, só mantendo distância, por segurança. – Joe a olhou preocupada:
–Minha relação com minha mãe sempre foi complicada e nunca me senti insegura com ela. – A loira encolheu os ombros e fez um bico:
–Bem... As coisas tomaram um rumo bem drástico. Mas estou bem agora e não gostaria de encontrá-la tão cedo. – Jogou a trança para trás e Joe notou como a jovem estava incomodada:
–Ela não te deixava cortar o cabelo? – Rapunzel ficou vermelha se perguntou por que era tão óbvia. Resolveu ignorar a pergunta – Por que ele é tão grande?
–Minha mãe fez uma promessa à igreja. – mentiu – Ela sempre foi meio louca por religião e eu tinha que ser freira, dessas reclusas, quando completasse 18. – Corou de maneira muito forte e sentiu-se mal por mentir para uma pessoa tão legal como Joe – Ela nunca me deixou sair para eu ir me acostumando com a vida de celibato. Mas então...
–Você se apaixonou pelo cara e pelo mundo.
–Ordem inversa, mas sim. Isso aconteceu. – As duas riram – Se puder manter segredo.
–Pode deixar Rapunzel. Se sua mãe aparecer por aí eu finjo que não te conheço. – Rapunzel começou a arrumar o material de pintura – A propósito, qual o nome dela?
–Gothel. Cabelos cheios e pretos, olhos azuis, vestido vermelho. Sempre o vermelho. Por favor, se avistá-la nos avise. Eu não sei o que ela seria capaz de fazer com Eugene se nos encontrasse. – O desespero disfarçado deixou a morena preocupada:
–Seu segredo está seguro comigo. – A loira se despediu de sua aluna e saiu do castelo com o coração angustiado. Estavam há muito tempo parados no mesmo lugar. Arendelle era bem menor que Corona e encontrá-los ali seria fácil. Eugene a esperava na porta, estava cheirando a cerveja e com um olho roxo:
–O que você aprontou? – Perguntou dividida entre irritação e indignação:
–Eu só fui descontrair um pouco... – O jeito mole que ele falou a teria feito rir, mas estava preocupada com o olho roxo – E ouvi uns idiotas falarem de você. Arrumei briga com três caras e acho que quebrei alguma parte das minas costelas.- Ele andava com dificuldade – Mas eu vim te buscar Blondie.
–Você arranjou briga por minha causa? Quanta besteira Eugene!
–Você não é besteira. – Ele respirou fundo e parou de andar levando a mão às costelas.
–Mas você vai acabar chamando atenção desse jeito. Deixa de ser teimoso. As pessoas vão falar de nós mesmo. Não estamos casados, esqueceu? Não ligue para as mentiras que os outros dizem. Sua reação só dá mais crédito a esse tipo de gente.
–Eles são uns tramendos babacas.
–Tramendos? Vou te perdoar porque está bêbado e a próxima vez que for beber sem mim e aparecer nesse estado na minha frente eu vou te acertar com a frigideira. –Eugene parou novamente e a olhou indignado.
–Você está brava por que fui beber sem você? – Sorriu de canto – Seja lá quem for que me mandou essa mulher... – Riu olhando para as poucas estrelas no céu – Obrigado! – Rapunzel revirou os olhos risonha:
–Não é só por isso. Você pode ter nos exposto. Se metendo em brigas, bebendo desse jeito sem motivo. Estava comemorando o que? Sua tramenda estupidez?
–Acho que foi Flynn Rider.
–Vou começar a te tratar como tratei Flynn Rider.
–Ouch Blondie. Não, por favor. – Eles foram conversando até a hospedaria e quando chegaram no quarto o moreno se jogou na cama tirando o casaco de couro e as botas. Pascal correu para sua caminha que ficava no batente da lareira. A mesma já estava acesa deixando o ambiente quentinho e aconchegante. Rapunzel entrou no banheiro e voltou algum tempo depois vestindo uma camisa dele e apenas isso. Subiu na cama e soltou os cabelos – Está com fome? – Ela negou – Bom.
–Deixa eu ver esse olho roxo. – Examinou o rosto dele atentamente e depois puxou-lhe a camisa grossa que usava. Pode ver um ponto roxo abaixo do peito e tocou:
–Ai! – Ele resmungou e ela tocou o outro lado notando uma boa diferença:
–Ok. Vamos dar um jeito nisso. – Pegou o cabelo e colocou em cima dele:
–Nem pensar. – Grunhiu ofendido e jogou o cabelo dela para longe. Rapunzel o olhou indignada e extremamente magoada:
–O que foi?
–Não quero que use seu cabelo assim. Isso vai te deixar fraca e meu ferimento é fruto da minha estupidez. Ele precisa demorar de curar para eu me lembrar porque não devo me meter em brigas.
–Mas Eugene...
–Não quero que use seu cabelo. Esse cabelo é o motivo pelo qual você ficou presa naquela torre. Usá-lo... É imoral. – A jovem o olhou magoada e os lábios tremeram enquanto os olhos marejavam — Hey... – Se perguntou o que tinha dito de errado – O que foi?
–Meu cabelo é um dom. Um dom raro e especial que não deve ser tratado dessa maneira. Eu o mantenho justamente para esses problemas. Se você tomar uma facada? Se você ficar entre a vida e a morte?
–Então você me salva com essa coisa e nunca mais pode cortá-lo ou eu morro? Rapunzel, a vida é assim. As pessoas correm riscos sem contar com mágica. Elas vivem e se der errado deu! Corte logo isso! Não se prenda a esse fardo por mim. – Ela arfou e levou a mão à boca:
–Você... Não deveria dizer esse tipo de asneira! Quando estiver sóbrio conversamos!
–Mas... – Ela assoprou a vela e enfiou-se embaixo das cobertas. Jogou todo o cabelo para o lado dele da cama e ficou de costas. Eugene bufou e retirou a roupa enfiando-se embaixo dos cobertores. – Desculpe. – Murmurou abraçando-a e aconchegando o rosto na nuca cheirosa – Eu só... As coisas seriam mais práticas sem isso.
–Eu só queria te ajudar. – Murmurou magoada – E você foi grosso.
–Toda a vez que penso em sua mãe e no que ela fará se nos encontrar eu fico preocupado. – Rapunzel bufou e ele resolveu calar a boca, era melhor esperar ficar sóbrio para conversarem. Concentrou-se na respiração calma dela e no calor do corpo feminino contra o seu. Dormiu feito pedra.
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