Existem dias grandiosos e dias desastrosos, mas a maior parte deles se encontram em algum lugar no meio do caminho.

Pelo menos isso era o que William acreditava enquanto aguardava por sua carona na frente da rodoviária.

Esse era para ser um dos momentos mais importantes de sua vida, mas até ali o dia se resumia em uma viagem de horas em um ônibus com o ar-condicionado quebrado, sentado ao lado de uma senhora que não parava de falar que ele parecia algum ator que ela tinha visto em um filme, mas que não conseguia lembrar o nome, nem do filme e nem do ator.

A rodoviária estava lotada como um formigueiro e Will mantinha sua bagagem o mais próximo do corpo. Um menino veio lhe pedir uns trocados, Will procurou nos bolsos por alguma moeda, mas só encontrou o bilhete da viagem, o menino respondeu "Deus abençoe" com um tom de voz que soava como se ele desejasse o oposto enquanto se afastava.

Naquele momento um carro branco parou no meio fio, dentro dele Levi acenou sorrindo.

— Entra rápido Manolo, acho que é proibido parar aqui.

Will correu para o outro lado e entrou dentro do carro jogando sua bagagem no banco de trás. Enquanto manobrava para sair dali Levi perguntou:

— Como foi a viagem?

— Uma maravilha. — disse Will sorrindo abrindo a janela o máximo que as leis da física permitiam.

Levi estava de regata, bermuda e com os pés descalços, seu cabelo loiro era mantido para trás do rosto com a ajuda de um boné. Esse era o Levi sempre a vontade sete dias da semana.

Com exceção de uma visita três meses antes para assistir o velório de Cassandra, fazia anos que Will não vinha a Campo Aberto. Era de se pensar que a cidade não poderia ficar pior, mas havia ficado, não era uma cidade necessariamente ruim, mas sofria com um problema crônico de descaso, tanto da população quanto de seus governantes. O descaso era como um câncer sugando a vitalidade da outrora decente cidade.

Conforme o carro avançava pelas ruas, Will ficou surpreso com como as coisas haviam mudado, muitas das lojas que ele tanto gostava haviam se fechado e outras ocupavam o lugar.

— Que música bizarra é essa? — perguntou Will fazendo careta.

— Sei lá — disse Levi desligando o rádio. — É que eu não gosto de dirigir no silêncio.

— Silêncio? — disse Will gesticulando para a cidade que se contorcia ao redor deles.

— Como vai a Dona Vera? — falou Levi depois de algum tempo. — E a Jô?

— Elas mandaram um abraço.

Vera era a mãe de Will e Joana sua irmã caçula.

— O que elas acharam quando você contou que viria para cá? — disse Levi coçando o cavanhaque, enquanto fazia uma curva fechada. — A Jô deve ter surtado.

Levi deu uma risada só de imaginar a cena.

— A Joana encarou tudo numa boa, já está bem crescidinha...

— Quantos anos?

— Ela fez doze em dezembro.

— Puxa vida como o tempo passa rápido. — disse Levi balançando a cabeça.

— O difícil foi convencer minha mãe. — Will perdeu as contas de quantas vezes eles discutiram sobre aquela ideia que a princípio parecia maluca de morar na casa de um amigo. — Quando ela viu minhas primeiras esculturas ela acabou aceitando.

— Mãe é sempre assim, para o nosso próprio bem... Nossa cara, vou lhe dar um conselho, para andar de carro nessa cidade tem que manter a cabeça fria. — pouco depois de falar isso uma moto fechou na frente do carro obrigando Levi a dar uma freada brusca, os dois motoristas trocaram alguns elogios antes de seguirem caminhos opostos, após se acalmar Levi disse para Will. — Aí também já é demais né?

Alguns minutos depois eles chegaram em casa, Levi estacionou o carro na frente da garagem.

Will pegou sua mala e saiu do carro, o sol do fim da tarde ainda quente o suficiente para fritar seu cérebro.

— Bem-vindo ao lar doce lar. — proclamou Levi enquanto abria o portão de correr.

Ao entrarem um latido rouco os recebeu. Uma cachorra preta e obesa veio em direção a eles, Levi deu um cafuné nela enquanto entrava dentro de casa.

— Dora ainda está viva? — disse Will impressionado, reconhecendo ele a cachorra começou a lamber sua mão alegremente. — Ela tem o que, uns vinte anos?

— Dezoito — disse Levi já dentro de casa. — Essa cadela é imortal, estou começando a suspeitar que ela é um animago.

Will sorriu enquanto acariciava a cachorra. Ela era chamada Dora, a aventureira porque quando fora adotada tinha o hábito de fugir para rua dando trabalho para todo mundo durante suas explorações. Mas a idade havia alcançado Dora, constatou Will notando que ela estava cega de um olho e que seu vigor se resumia a lamber e abanar o rabo. Agora o portão aberto ou fechado já não fazia nenhuma diferença para ela.

— Vem — sinalizou Levi. — Vou lhe mostrar o resto da mansão. Primeiro o andar de cima.

A casa tinha um sobrado e eles subiram a escada que levava para o andar de cima.

— Essa porta aqui leva para o meu quarto. — disse Levi gesticulando.

— Essa outra aqui é o seu quarto, aquela outra porta ali é o banheiro, mas só para emergências, porque só o do andar de baixo tem chuveiro. Essa aqui é a sala, pode deixar sua bagagem no sofá por enquanto.

A sala era o maior cômodo da casa, da janela dava para ver a rua lá embaixo. No centro do cômodo tinha uma mesinha e ao lado dois sofás, o maior ficava de frente para a TV, o menor de costa para os quartos.

Os dois então voltaram a descer a escada.

— Aqui como dá para ver é a cozinha, quer água? — disse Levi abrindo a geladeira.

— Não obrigado. — respondeu Will, ao ver Levi cheirando o copo para descobrir se estava limpo.

— E então o que achou? — disse Levi se sentando na mesa enquanto bebia a água. — Não repara na bagunça.

Disse ao perceber que Will olhou para a pia que continha uma quantidade considerável de louça suja.

— Legal. — disse Will sem encontrar palavras para definir o que havia visto até ali. — Só tenho uma dúvida, onde nós vamos trabalhar?

Um sorriso travesso tomou conta de Levi como se ele esperasse pela pergunta, ele se levantou com um pulo e disse misteriosamente:

— No subsolo.

Ele levou Will para uma outra escada, essa era em espiral e ia para baixo.

Chegando no fim se depararam em um cômodo completamente escuro.

— Bem vindo a batcaverna — disse Levi ligando as luzes.

Diante deles se encontrava uma oficina de artesão completa, com uma mesa enorme cheia de arames, isopor, papel alumínio, plastilina e muitas ferramentas, em um dos cantos se encontrava até mesmo um computador. Também havia armários e caixas empilhadas.

— Uau, tem até ar-condicionado. — disse Will boquiaberto.

Will tinha vindo morar com Levi para juntos abrirem um estúdio de modelagem, ele havia esperado começar em algum lugar da casa, jamais havia passado por sua cabeça que Levi havia construído um estúdio secreto. — Como você conseguiu construir uma coisa dessas.

— Nem me pergunte — disse Levi tirando o boné para ajeitar o cabelo. — Foi um pesadelo arranjar permissão para construir um andar subterrâneo, por causa de problemas estruturais e tudo mais. A verdade é que quem teve a ideia foi Cassandra.

Um silêncio repentino tomou os dois rapazes. Levi deu um sorriso triste.

— Perdi a conta das vezes que eu vi ela sentada nessa mesa, desenhando... Ela adorava esse lugar.

— Olha... — começou Will.

— Não precisa se preocupar. — disse Levi erguendo os braços. — Eu já superei...

Levi tinha 33 anos, descobriu que seria pai com dezessete anos, a mãe de Cassandra havia morrido alguns anos depois de ter dado à luz a filha. Ser um pai solteiro fez com que Levi se tornasse um homem muito mais consciente. Cassandra era uma das pessoas mais incríveis que Will havia conhecido, por muitos anos eles haviam sido melhores amigos. Quando Will mudou de cidade ele ficou sabendo que Cassandra se tornou mais rebelde e começou a andar com companhias estranhas. Quando a notícia de sua morte chegou até Will e sua família, nenhum deles havia ficado muito surpreso com o acontecido. A causa da morte? Dois tiros a queima roupa, o motivo do crime ainda era desconhecido, a polícia havia arquivado o caso alegando que ela havia sido vítima de uma briga entre gangues. Para Levi a situação era ainda mais traumática, pois estava conversando com ela no telefone quando ela morreu. Esse era o verdadeiro motivo de Will estar ali, para evitar que seu amigo fizesse alguma besteira.

Will soltou um suspiro pesado, ele nunca havia admitido para ninguém mas era apaixonado por Cassandra, ela não só tinha interesses muito parecidos com os dele, os dois eram a sombra um do outro.

— Puxa olha só que horas são! — disse Levi dando um tapa na testa. — Vai querer jantar?

— O que tem para comer?

— Deixe me ver — disse Levi fingindo pensar. — Pizza de ontem.

— Delícia. — disse Will e ambos deram risada.

Após tomar um banho os dois comeram na sala enquanto assistiam televisão até tarde, a maior parte do tempo conversando sobre filmes e quadrinhos.

— Acho que é hora de eu ir para a cama. — disse Will se levantando do sofá.

— Vai para escola amanhã? — perguntou Levi com o controle na mão mudando de canal sem parar.

— Vou, tenho que resolver a transferência e descobrir o quão atrás estou nas matérias. — Will já sentia dor de cabeça só de lembrar que já era maio, ou seja, meses de lições atrasadas.

— Boa noite então Manolo. — disse Levi fazendo um sinal de positivo enquanto se ajeitava no sofá menor. — Se os materiais que faltam chegarem amanhã a gente começa a todo vapor.

— Combinado, Boa noite.

Will adentrou seu novo quarto e fechou a porta. Ele sabia no que Levi iria ficar pensando a noite inteira.

Will caiu na cama, seus pensamentos se voltaram para o sorriso contagiante de Cassandra, mas quase imediatamente um sono pesado o engolfou.