Sob O Farol E A Lua

4 Coração, Corpo e Mente.


Notas iniciais
História está avançando do jeito que eu queria. No próximo capítulo a resolução e de fato ao ponto em que eu queria chegar. Boa leitura.

— Derek — diz Isaac, chegando perto do alfa, que estava atualmente agachado — achei algo que você vai querer ver.

O lobisomem para de verificar o rastro. Tinha dias mas talvez indicasse algo dos betas. Eles vieram por essa direção.

— De Erica e Boyd? — indaga o lobo, ficando de pé e limpando os joelhos.

Isaac balança a cabeça.

— Não. Mas é melhor você ver.

Derek franze o cenho. Faz um gesto e Isaac lhe guia.

Estavam um pouco mais afastados da estrada principal, próximos do último local onde Erica e Boyd deixaram seus rastros. Derek chamou Isaac para novamente averiguar o perímetro, mesmo que fosse inútil, só para garantir que eles não deixaram nada passar. Qualquer detalhe que fosse, por menor que seja, ajudaria a encontrar os betas.

Não que ele planejasse continuar a andar em círculos. Se não tivesse sucesso, eventualmente sairia de Beacon Hills para procurar nas regiões vizinhas. O problema de tomar essa decisão é deixar o território desprotegido.

Scott e Isaac ficariam. Por mais que o moreno não fizesse parte de sua alcateia e eles não estivessem em um bom momento (que Derek dúvida que sequer tinha volta) o alfa sabe que ele defenderia a terra. Por mais que ele odiasse admitir, Scott consegue se virar, mesmo que muito de suas decisões fossem questionáveis — e, sim, Derek entende a ironia.

Isaac ficaria de uma forma ou de outra. Seja por causa de Scott ou porque Derek não permitiria ele ir.

Presumindo que Stiles não conseguisse nada. O que o lobo ainda duvidava.

Por pensar no moleque esporádico, Derek retirar o celular do bolso. Nenhuma mensagem.

Será que ele foi pego?

— Aqui.

Derek guarda o celular no bolso e volta sua atenção a Isaac. O loiro estava agachado, próximo de algo do chão.

Ele se aproxima e assume a mesma posição.

No começo ele não entendeu o que o beta queria que ele visse, até um leve cheiro de ferro atingir suas narinas.

Não, não ferro. Sangue.

Ele passa os dedos por entre as folhas secas, sentindo a viscosidade.

Ele traz o dedo ao nariz e fareja.

Não era de Erica e Boyd, felizmente não, mas sangue de menos de um dia, a julgar pela textura e o quão coagulado estava.

Era de um lobisomem, sem dúvidas. Mas o cheiro... vagamente familiar?

A questão era, de quem? Derek não reparou em ninguém invadindo seu território. Um ômega deixaria rastros. Eles sempre deixam.

— Derek?

O lobisomem olha Isaac. Ele parecia apreensivo.

— Isso é... de um lobo?

De um de nós.

— Sim. Mas não é deles. Parece ser de um desgarrado.

O beta ainda mantinha a mesma expressão.

Derek ás vezes esquece, por ser um lobo desde que nasceu, acostumado ao próprio corpo. Isaac ainda não tinha completo domínio sob seus novos instintos, não tendo abraçado sua nova natureza por completo.

Sim, claro. Mordidos.

— Como um lobo novo entrou em Beacon Hills e nenhum de nós reparou?

— Eu não sei.

Isso não parece ter sido a melhor resposta. O cheiro de Isaac vazava em ondas de frustração e um pouco de raiva.

— Derek, se for um ômega, provavelmente atacou alguém.

— Sim.

— Noite passada alguém morreu.

Derek não diz nada. Não porque ele não soubesse o que dizer, mas sim que ele estava tão focado em procurar os betas que ele ignorou completamente uma ameaça a seu território.

Belo trabalho, Alfa.

Ele quase ouve Stiles em sua cabeça dizer isso.

Ele demora a responder. E quando o diz, é sob dentes cerrados.

— Como você sabe disso?

— Noite passada eu saí na floresta — sob o olhar de desaprovação do alfa, Isaac gagueja — E-eu sei. Não me olhe assim! Você disse para não sair por aí sozinho, principalmente de noite, mas...

Derek não o apressa. Eventualmente Isaac falaria o que pensa.

Ele continua.

— Eu não conseguia dormir.

E o lobo entende. Mais do que qualquer um. Mas este não era o momento para vulnerabilidade. O foco estava na missão.

— Enquanto eu corria, eu ouvi gritos. Corri até em direção do som, mas não encontrei ninguém. Senti um cheiro estranho, mas não sabia o que era. Quando pensei que estava ouvindo coisas meu pé esbarrou em um... — ele engole em seco — Um corpo.

Derek só continua ouvindo. Paciente.

— Eu me assustei. Estava muito escuro e não conseguia ver nada. Nem pensei em usar minha visão de lobo — ele respira. Recuperando o fôlego antes de continuar — a única coisa que consegui reparar foi em um uniforme de polícia.

Agora, o que Stiles tinha mencionado de “emergência” fazia sentido.

— Eu fiz uma ligação anônima ao departamento. Parece que retiraram o corpo na mesma noite.

Derek respira fundo. Olha para o sangue no chão e então Isaac.

— E você só pensou em me contar isso agora?

— Bem, eu tentei! Eu tentei te ligar! — voz desafina, subindo uma oitava. — Mas você não atendia o telefone. Onde você estava ontem a noite?

O lobisomem só levanta uma sobrancelha.

— Dando um jeito de encontrar Erica e Boyd. Se der certo, teremos uma melhor pista.

O Isaac só o encara, mas não por muito tempo. Ele eventualmente desvia o olhar, ainda frustrado.

— Você pelo menos vai atrás desse lobo?

— Não.

O loiro o olha incrédulo.

— Não ainda.

Se fosse um ômega, era provável que seguiria agindo de forma instável. Ou os caçadores cuidarão dele ou tiraria a própria vida.

Lobos solitários não duram por muito tempo. O que é porque uma alcateia estável é importante para um lobisomem.

Fora que, a prioridade, a missão, é encontrar os betas. Derek só podia contar com Isaac no momento, ele não arriscaria a vida de seu único beta por causa de um lobo desgarrado.

Talvez fosse um pensamento egoísta. Mas Derek se cansou de perder pessoas com quem ele se importa.

Se isso significava ignorar este ômega a favor de continuar sua investigação... que assim fosse.

— Eu não sei se isso é uma boa ideia, Derek.

— Não temos o luxo nem os recursos para procurar Erica e Boyd e ainda caçar um ômega. — Derek fica de pé, encarando Isaac. Limpa o sangue com as folhas secas do chão. — Ou você prefere que cada um siga caminhos diferentes e acabemos mortos?

Isaac não recua. Ele fica de pé, defensivo e frustrado, resposta na ponta da língua.

Maldito filhote.

— Já parou para pensar que talvez Erica e Boyd tenham sumido porque fugiram?

Derek não diz nada. Sim, ele já considerou isso.

— Não acha que ficar a procura deles é perda de tempo?

— Você falaria o mesmo se fosse contigo?

Derek nunca foi um homem paciente. Ele não deixaria as frustrações de um adolescente atrapalharem a questão mais importante.

Isaac ainda não larga o assunto.

— Se fosse comigo eu ia querer que não me procurassem.

Derek nada diz. Ficar argumentando era perda tempo. Um luxo que eles não tinham.

O alfa só respira fundo. Espera um momento e diz:

— Se eles fugiram, vamos encontrá-los.

— Mas por quê? — Isaac não estava apenas frustrado. A indignação estava palpável.

— Porque a alcateia fica junto.

Porque uma alcateia era uma unidade. Era família. Era aquilo que os ancorava neste mundo. Os únicos que um lobisomem, principalmente o alfa, deveria se importar e cuidar. Prover.

Falhar em fazer isso era falhar com a alcateia em si.

E o Isaac... apenas bufa em escárnio.

— Mal da para chamar isso de alcateia...

Ele não reparou no que disse. Ainda muito imaturo para segurar a língua. Visível pelo olhar de pânico que se assolou em seu rosto assim que ele percebeu o que havia dito.

Mas já era tarde demais.

Algo dentro de Derek se estoura. O som sai de seu peito sem ele registrar. Um rosnado, baixo e perigoso, carregado de fúria, olhos em cor carmesim.

Isaac responde com os dele em um brilho dourado.

Isso era... um desafio?

Má decisão.

Ele avança para cima de Isaac, o prensando contra uma árvore próxima, fazendo um baque alto. O barulho assustador do rosnado reverbera pela floresta, o chão treme.

Não há um único som entre as árvores, exceto as respirações pesadas de ambos os lobos. É como se a própria floresta tivesse se calado, ciente da presença de um perigoso predador.

As mãos do loiro tremiam. Ele engole em seco. Suava frio. Sua respiração acaba ficando imperceptível.

Ele estava com a garganta exposta. Um gesto de submissão.

— Derek?

O alfa não responde de imediato. Olhos ainda vermelhos, a boca cheia de presas. A visão era aterrorizante. Muito perdido aos próprios instintos, mas também completamente ciente do que estava fazendo.

— Ponha-se no seu lugar. — joga mais de seu peso ao braço, prensando Isaac ainda mais contra o tronco — Não me desafie.

Ele o solta. Isaac cai ao chão, tossindo e segurando a garganta.

Derek... não devia ter perdido o controle assim. A última coisa que ele queria era machucar seus betas. Mas o que o Isaac disse... soltou um gatilho de algo dentro dele que nem mesmo o alfa sabia.

Ele precisava de Erica e Boyd. Logo.

Alcateia estável. Lobos estáveis. Alfa estável.

Tudo conectado, toda a hierarquia fazendo sentido.

Alfa, Beta e Ômega.

Derek repete esse mantra até conseguir se acalmar o suficiente.

— Vamos embora.

Isaac ainda estava no chão. Ele tremia. Seu cheiro... exalava medo. Puro e imaculado.

Derek sente culpa.

— Isaac.

Ele não o olha. O alfa tinha estendido a mão. Isaac considera por meio segundo antes de aceitar, ficando de pé.

Eles saem do local, em direção ao camaro do lobisomem mais velho.

Isaac ainda não o olhava.

O resto da viagem de volta para casa permanece em silêncio. Ambos quietos, alfa com as mãos no volante atento a estrada e beta no banco ao lado, encolhido, ainda tremendo levemente. O ar pesado e sobrecarregado.

A floresta ainda não ousou fazer um único som.


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Derek recebe uma mensagem de Stiles.

Stiles: Me encontre em casa. De noite. Consegui as filmagens.

Finalmente. Alguma boa notícia.

E outra em seguida.

Stiles: Usa a porta da frente!

O lobo revira os olhos.

Ainda estavam no carro, próximos da estação de trem abandonado. Quase chegando em casa. Ou tanto quanto dava-se para chamar de casa uma estação de trem.

Isaac ainda não havia dito uma única palavra.

Derek sentia frustração. Consigo mesmo, com a situação que se envolveu, jogando seus problemas no colo de adolescentes. Tudo parecia uma sobrecarga de informação e responsabilidade. Coisas que nem mesmo o alfa conseguia lidar sozinho. Imagine eles, lobos recém transformados? Era injusto esperar sempre mais deles, Derek sabe disso.

Ele falhou com seus betas. Falhou com Erica e Boyd, que muito provavelmente fugiram, justamente para não terem de lidar mais com o lobisomem e essa vida.

Ele nunca deveria ter sido alfa.

— Me desculpe.

O som assusta Derek. Isaac estava tão quieto e encolhido, que quando sua voz sai ela vem baixinha. Seria imperceptível se não fosse por sua audição aguçada.

Ele apenas aperta o volante com força. Mãos se esbranquiçando.

— Você não tem que pedir desculpas.

Isaac balança a cabeça.

— Não, é minha culpa. Eu... não devia ter dito aquilo. Nem te desafiado.

Derek... não sabia o que dizer. Questões emocionais nunca foram o seu forte, Laura sempre foi melhor nisso. Sempre sabia o que dizer, quando dizer, como confortar.

Como ele queria que sua irmã estivesse aqui. Como ele queria que toda a sua família estivesse aqui, bem, vivos, onde suas únicas preocupações seriam como se ajustarem em um mundo que não os entende.

Derek sentia-se exausto.

O alfa apenas estende uma mão, colocando no pescoço do beta. Um gesto amigável, que ele espera que o loiro entenda como uma tentativa de conforto.

Isaac visualmente relaxa e exala a respiração.

O ar no carro não estava mais tão carregado.

Derek continua pensando por um momento e resolve dizer.

— Eu... — ele não termina. Por que isso era tão difícil?

Ele respira fundo e tanta de novo.

— Eu não devia ter feito aquilo. Foi desnecessário.

Ele pensa mais um momento. Resolve acrescentar mais.

— Peço perdão.

Isaac não diz nada. Ele não precisava. Seu cheiro ainda exalava medo, sim, mas em menor quantidade. Na maior parte ele parecia... feliz? Não, satisfeito. Não, algo entre isso e contentação.

Ele finalmente o olha. Um pequeno sorriso no rosto. Estava contente.

O alfa então percebe que foi perdoado. No fundo de seu mente, seu lobo está satisfeito.

Ele dá um último aperto no pescoço de Isaac, o marcando com seu próprio cheiro e coloca as mão de volta ao volante.

Ele limpa a garganta. Certo, ele tem de repassar a Isaac a informação que conseguiu.

— Stiles estava me ajudando a conseguir algo que ajudasse a encontrar Erica e Boyd.

Chegaram a estação de trem abandonado. O lobo estaciona o carro e desliga.

Ele encara Isaac, que estava o olhando atentamente.

— Ele conseguiu a informação que precisava. Quero que venha comigo.

Isaac assente com a cabeça.

— Não sei porque, mas nem estou surpreso que pediu ajuda ao Stilinski. — ele balança levemente a cabeça — Aquele cara é esquisito.

Derek da um curto aceno de cabeça. Ele concorda.

— Acha que vamos encontrá-los?

O lobo não sabe. Ele espera que sim. Mas a incerteza ainda o agarrava.

— Eu não sei.

Isaac nada diz. Ele parecia contemplar por um momento. Resolve abrir a porta do carro.

— Bem, vou tomar um banho e me trocar. Quando for se encontrar com Stiles me avisa.

Derek assente.

Isaac fecha a porta do camaro, se afastando e indo a entrada da estação.

O lobo ainda permanece dentro do carro. Pensando no dia, no que fazer assim que tivesse as informações certas para ir atrás dos betas.

Ele solta um suspiro pelo nariz. Passando a mãos pelos olhos.

Talvez ele tirasse um cochilo até anoitecer. Ou faria flexões para passar o tempo. Ou correria pela floresta, procurando quaisquer outras pistas que tenha deixado passar dos betas perdidos.

Ele então lembra-se do sangue.

Aquele cheiro... Lhe era familiar. Derek tenta puxar da memória mas não consegue se lembrar de nada específico.

Talvez... alguma alcateia vizinha? Ele conhecia esse lobisomem?

Bem improvável.

Derek não mantinha contato com outros bandos, nem mesmo quando ainda morava em Nova York com Laura.

Mesmo quando jovem, quando sua mãe era a alfa, ele evitava intimidade com outros lobos.

Mas então...

Derek balança a cabeça. Era inútil pensar nisso agora.

Foco. Erica e Boyd. E apenas isso.

Stilinski tinha consigo a informação. Ele cumpriu com a palavra, falta apenas dar início a caça.

Sem pessimismo ou otimismo. Atenha-se aos fatos. Bom ou ruim, a informação indicaria o destino deles.

Tendo se preparado mentalmente, Derek resolve entrar em casa.


______________________________

Estavam de frente a residência Stilinski.

Era noite, conforme Stiles pediu. Derek olha o horário no celular. 21h00 em ponto.

O moleque não especificou horário. Mais tarde havia enviado outra mensagem, dizendo para vir quando o xerife não estivesse em casa.

Não havia viatura estacionado.

Eles estavam encostados no camaro. Isaac exalava pela boca, fazendo fumaça branca com o hálito.

Essa noite estava anormalmente fria. Mesmo o loiro estava usando seu cachecol favorito.

Derek ostentava somente sua jaqueta de couro como proteção.

Ele faz um sinal para Isaac, que assente com a cabeça e, juntos, se aproximam da casa.

Derek sobe o pequeno lance de escadas da entrada e toca na campainha.

Ele espera uns bons segundos antes de tocar de novo.

Ele ouve sons abafados no andar acima.

Jesus... EU JÁ OUVI! JÁ TÔ DESCENDO!

O lobo só revira os olhos.

Logo a porta se abre e um Stiles ruborizado e muito bem agasalhado – sério, tinha muitas camadas de roupas – estava ali.

Derek só levanta uma sobrancelha.

— O quê? — indaga Stiles. E então ele parece reparar o porque, ao olhar para o corpo. Ele apenas faz uma careta para o lobo — É sério que você tá me julgando? Nem todo mundo aqui tem metabolismo avançado. Sequer faz noção de quantos graus negativos está nesta noite? -6 graus celsius!

Derek não estava impressionado. Era difícil levar Stiles a sério quando a primeira camada de roupa que ele estava usando era da Patrulha Canina.

— Ei, eu consigo te sentir me julgando de novo. Para com isso!

Derek só levanta as sobrancelhas.

Isaac solta uma risada.

Foi algo tão inesperado e genuíno que Derek se sente congelado sem saber o que dizer.

— Vejo que ainda continua ridículo como sempre, Stiles.

O garoto só bufa.

— Como se você estivesse melhor. Você tá usando um cachecol? Quem diabos usa um cachecol?

— Gente legal.

Isaac joga o cachecol por cima do ombro. Levanta um sobrancelha em desafio.

— Gente sem estilo você quis dizer.

— Como se você tivesse estilo.

Derek respira fundo.

— Tá bom, chega. — ambos se voltam para ele, envergonhados. Bem, Isaac estava envergonhado. Stiles ainda mantinha a mesma expressão — As filmagens?

Repentinamente a expressão do garoto fica séria.

— Entrem. É melhor vocês verem isso.

Ver era eufemismo.

Derek e Isaac estavam na cozinha. Stiles tinha preparado café quente, enchendo dois copos e os entregando.

O alfa inicialmente iria recusar mas ele tinha que admitir que o cheiro do café estava muito bom. Ele bebe o dele puro.

Isaac pediu leite e açúcar.

Enquanto se aqueciam, Stiles tinha retirado o celular e estava mostrando as gravações de três dias atrás.

O alfa não acreditava no que estava vendo.

Erica e Boyd... pareciam selvagens. Como se estivessem fugindo. Como presas.

Derek assiste ao resto. A aparição de outros lobos, a subjugação, um lobisomem saindo do carro flanqueado por outros dois.

E se agachando, falando alguma coisa, os betas sendo levados a força pro veículo. Os olhos dele... um brilho vermelho.

Outra alcateia.

Derek tranca o maxilar.

— Me diz que você não tem só isso.

A informação indica o que aconteceu com eles. Mas não era o bastante para saber uma direção clara. Poderia ser qualquer coisa.

Stiles estava a sua frente, sentado em uma das cadeiras. Ao invés de um café, ele estava bebendo um achocolatado.

— Não se preocupa, lobo-azedo. — ele diz, passa o dedo na tela. Mostra outro vídeo — Já resolvi isso.

Os vídeos seguintes mostravam a trajetória do veículo até onde as câmeras da região de Beacon Hills permitiam. Eles seguiam um caminho reto para fora da cidade.

A última aparição deles foi em um posto de gasolina. O carro tinha parado para abastecer.

Derek repara que apenas o alfa saiu do veículo. Ele acaba entrando na loja de conveniência.

Ele volta ao veículo minutos depois e vai embora. Carro arrancando na estrada.

E... era só isso? Não.

Não, não, não, não, não, não, não, não...

TINHA que ter alguma coisa. Algo mais do que isso. Isso não era o bastante.

TINHA QUE TER—

Um pequeno som, vindo de Isaac. Derek o olha. Ele estava desconfortável, sentado ao seu lado.

O lobisomem não tinha reparado que ele estava rosnando. Ele sente seus dentes, mais afiados que o normal.

Até Stiles parecia apreensivo.

Derek inspira. E aspira. Conta até três. Faz o mantra.

Alfa, Beta e Ômega.

Quando ele consegue se acalmar o suficiente, ele repassa os vídeos novamente.

Tem que ter algum detalhe que ele não deve ter reparado.

Alguma coisa. Qualquer coisa.

O alfa volta ao primeiro vídeo. O assiste. E reassiste de novo.

A qualidade das câmeras não era das melhores, principalmente de noite. A imagem não fornecia muitos detalhes dos lobos.

Quando Derek achava que não tinha nada substancial, nada concreto, ele repara.

Individualmente, em dois lobos.

O mais truculento e o alfa.

E então Derek se lembra. De sua juventude, quando... Paige... estava viva. Aquele brutamontes...

Ennis.

O homem cego... Ele se lembra de sua mãe conversando com o homem quando ele veio a cidade. Na época ele não era cego.

Deucalion.

— Eu conheço esses dois.

Ele indica com o dedo para as duas figuras. Stiles e Isaac se aproximam para olharem melhor.

— O nome deles... Ennis. E Deucalion. — Ele destaca cada um.

Stiles dá um gole do achocolatado. Diz:

— Como você os conhece?

Derek não responde a pergunta. Como ele os conhece não era relevante. Saber porque eles levaram os seus betas é a pergunta que não quer se calar.

— É... briga de território? É uma provocação? — Pergunta Isaac, ainda apreensivo.

Derek balança a cabeça.

— Não. Se fosse o caso, eles já teriam feito alguma coisa. — Stiles diz. Passa a mão no queixo, analisando. — Sequestrar dois betas enfraquece o território, mas aquela noite teria sido o momento perfeito para atacar. Não é?

Derek não sabe como ele continuava se impressionando com o garoto. Ele só o olha, confirma com a cabeça.

Perceptivo. De novo, ele seria um ótimo lobo.

— Seja lá o que eles querem... — Derek pondera — Uma coisa eu sei: foi para me atingir.

— Mas... por quê? — indaga Isaac.

Sim. Por quê?

Derek apenas suspira.

— Esses dois... — ele batuca com um dedo — São alfas.

Sim, sem dúvidas. Ele não questiona que isso permaneceu imutável nesses últimos anos.

Ennis sempre foi o estereótipo de lobisomem alfa. Orgulhoso, vil, ego acima das nuvens. Jamais que ele desistiria de sua posição para ser um relés beta de outra alcateia.

E Deucalion... Derek não o conhecia bem, mas ele sabe que o homem tinha uma percepção fria. Calculista. Isso não mudou. Os olhos permanecerem vermelhos não era surpresa.

Mas... dois alfas trabalhando juntos? Como se fosse uma alcateia?

Incomum de se ouvir.

Na verdade, é a primeira vez que Derek sequer pensa na possibilidade.

O que caralhos estava acontecendo?

— Espera, dois alfas em uma mesma alcateia? — Stiles inclina-se para frente, copo de achocolatado ainda na mão. — Como isso sequer é possível?

— Eu não sei.

— Derek, como dois alfas aparecem em Beacon Hills e não reparamos? — diz Isaac, meio ofegante.

Eu não sei.

Um rosnado. Seu controle numa linha fina. Mas Derek permanece humano.

A cozinha fica em silêncio. O único som era os batimentos cardíacos rápidos de Stiles e Isaac.

Stiles não permanece quieto. Ele jamais fica quieto.

— Se aqueles dois... — Estende um braço. Copo de achocolatado na mesa, ao lado, vazio — são alfas. Será que... os outros também são?

É uma possibilidade. Uma que Derek preferiria não imaginar.

Ele solta outro suspiro. Ele sente que só suspira desde que os betas sumiram.

Passa a mão no rosto. Ele se levanta, bebe o resto do café e coloca o copo na pia.

— Isaac, vamos embora.

O loiro rapidamente se levanta, já indo em direção a porta.

Derek se volta ao garoto.

— Stiles—

— Nem vem. Já sei o que vai dizer. — O interrompe, também se levantando da mesa — Derek, eu disse que ia ajudar.

O alfa só o encara.

— Vai ser perigoso.

— Eu não ligo. — cruza os braços — eu tô tão envolvido nessa porra quanto você.

Ele para por um momento. Olha de lado e depois encara Derek.

— O que vai fazer?

— Amanhã cedo irei investigar aquele posto de gasolina. — Diz decidido — Deve ter algum resquício daquele alfa, mesmo que o cheiro já tenha sumido.

— Ótimo. Irei com você.

Derek não diz nada a isso. Sabe que tentar convencer o adolescente era inutil.

— Como você vai explicar isso ao seu pai?

— Nada que eu não consiga resolver. — um dar de ombros — Meu pai já tá tão acostumado com minhas mentiras que provavelmente não vai se importar se eu sumir a manhã toda.

O cheiro dele se azeda. Novamente, Derek não sabe o que dizer.

O alfa resolve se mover. Vai em direção a porta, onde Isaac estava aguardando.

Antes de chegar ao limiar da entrada, Derek para. Com mãos no bolso, pondera um momento. Ele, então, vira-se em direção ao garoto.

— Stiles, eu...

Novamente – droga – as palavras lhe escapam. Não que ele precisasse dizer nada.

Stiles o olha como se entendesse o que ele queria dizer. Ele solta um pequeno sorriso.

— Se ficar todo emocional comigo, vou achar que tá amolecendo, seu rabugento.

E Derek...

Riu.

Um pequeno som, curto, mas uma risada do mesmo jeito.

Stiles parecia imensamente satisfeito com isso.

Derek, então, acena com a cabeça, o reconhecendo, e sai da casa. Isaac já estava lhe esperando no carro.

Certo. Mais uma vez.

A caçada.