Sob Meu Olhar
1 Atente a Arma.
Notas iniciais
A luz do sol era forte demais para eu conseguir manter os olhos tão abertos quanto eu gostaria, contudo a pequena movimentação irregular entre a vegetação não me passou despercebida. Meu corpo retraiu e minhas sobrancelhas franziram. Virei para trás, e não sei o que esperava ver de diferente. Meu pai ao meu lado procurando o que quer que fosse junto comigo? Meu pai esquentando agua para o pouco chá que restava ou um pai que apenas tagarelasse sobre como os sintomas da sua velhice eram precoces?
Papai continuava em sua cadeira de balanço totalmente imóvel fitando longamente a madeira do chão, perdido no homem que um dia fora e que partira há muito, muito tempo.
Voltei a procurar qualquer sinal de anormalidade vinda do pasto. Podia ser fruto da minha imaginação, naquele calor eu não duvidava de muito. Meu coração batia tão forte que podia senti-lo próximo a garganta enquanto gotas de suor escorregavam pela pele do meu pescoço. O movimento seguinte foi mais sutil que o primeiro, mas estava ali entre a grama alta. Apressei passos para o quarto de papai e puxei debaixo da cama sua espingarda. Sabia que estava carregada porque além do meu pai, ninguém mais a tocara. Sabia sem sombra de duvida também que carregar sua própria arma foi à última coisa que fez antes de se perder por completo.
O peso dela em minhas mãos era o peso de sua própria alma. Era o pequeno preço a pagar.
Parei em frente à porta de entrada e a ergui na altura do peito. Mantendo minha visão atenta, esperei pacientemente, sentindo o vento soprando levemente contra meus cabelos soltos – o que não era nada adequado para etiqueta de 1680.
A sombra do homem foi ágil. Prendo a respiração e cerro um pouco os olhos.
Disparo uma vez e a segunda.
Ele cai.
Estico o pescoço atenta caso se levante. Nada acontece.
Ando com a espingarda ainda em mãos, afastando o mato do meu caminho, me sentindo ser puxada para trás cada vez que minha saia prendia em algo ou batia contra a vegetação. Ser mulher era um incomodo de maneiras indescritíveis. Seja pelas regras que vinham a cada mês, pelos espartilhos que esmagavam meu peito e cortavam 50% do meu ar. Os vestidos grandes, volumosos demais e cheios de bugigangas...
Uma minúscula clareia que se formou com o tamanho do corpo. Caído de bruços não muito longe dali, o homem não mostrava nem sinais de que ainda respirava, de qualquer jeito, eu não me permitiria correr o risco, por isso posicionei a arma mais uma vez junto a mim enquanto dava passos cautelosos em sua direção. Reparei que não usava nada além de calças de linho de um tom bege surrado.
Eu dava banho em meu pai, ver um homem desnudo não me assustava tanto quanto assustaria antes, embora isso não tenha me deixado menos desconcertada Já vira antes as costas e peitos de serviçais até então, não havia motivos para me preocupar com este que provavelmente devia se tratar de um. Ou talvez...
Assim que minha sombra cobriu metade do seu corpo, notei que a cor de sua pele era de uma tonalidade escura diferente. Não era nem mais, nem menos. Os cabelos tão negros quanto as penas dos próprios corvos batiam na altura dos ombros. Tentei tirar as mechas que caiam sobre seu rosto com o pé, mas como eu mais chutava seu rosto do que arredava um fio, resolvi baixar cautelosamente ao seu lado. Apontei o cano da espingarda em sua testa e arredei a cortina que escondia sua face.
Claramente não era só sua pele e cabelo que tinham destaque em sua aparência; olhos pequenos e levemente puxados. As pálpebras tremeram um pouco antes de abrir e me fitar como se fosse um animal capturado.
Olhos castanhos escuros encontraram os meus de forma dura, e minha reação de segurar a arma com mais firmeza foi involuntária até sentir a vacilação da tremedeira que me alcançou.
— Vá embora, selvagem... – Falei sem saber se conseguia me entender, apesar de alguns dos nativos tivessem tido acesso a muito conhecimento da nossa língua. Não era como se eu nunca tivesse estado na presença de um igualmente. Uma pequena parte submissa vivia ajudando os fazendeiros da região em troca de muito pouco, e eu ajudava os fazendeiros em troca de muito menos alias, porém, nunca tinha de fato ficado frente a frente ou até me dirigindo a um deles.
Seus olhos atentos e animalescos acompanharam meus movimentos até finalmente me postar de pé. Varri seu corpo com o olhar a procura de algum ferimento, mas até então ainda não visível.
— Pare. – Avisei ajeitando a arma como uma simples advertência. Ele parou.
Que sorte a minha conseguir manter minhas emoções tão bem guardadas através de uma expressão dura. Senti minhas mãos vacilarem no mínimo umas três vezes com uma tremedeira. O suor da nuca lambia minha pele com um toque gelado que fazia os pelos dos meus braços se eriçarem, contudo, a pergunta que eu me fazia era: Eu teria coragem de atirar nele assim, de forma tão empática? Uma coisa era atirar ao longe, sem mira certeira, deixada a própria sorte, outra era olhar naqueles olhos anormais e faze-lo se juntar ao criador. Ou ao que quer que eles acreditem.
Inesperadamente uma de suas mãos levantou e automaticamente dei um passo para trás. Sua face suavizou e se esforçou para se colocar apoiado com os joelhos. Ele desabou soltando um leve gemido. Foi então que vi a marca de sangue do raspão que a bala fez que preenchia a sua cintura. Olhei dela para seu rosto.
— Você teve sorte. Sugiro que para continuar mantendo-a fosse melhor que se retirasse imediatamente.
Sua resposta não passou de uma virada de cabeça que considerei como um “sim”, para em seguida suas orbitas rolarem para cima e desabar desacordado.
— Droga! – Exclamei alternando entre analisar ao redor e aquele monte de carne na minha frente. – Ei! – Tentei chamar sem resposta.
A barriga morena subia e descia de forma irregular, lábios pardos entre abertos como um peixe que se desespera pela falta de água. Cutuquei a ponta da arma em seu peito chamando inúmeras vezes até passar a xinga-lo de nomes que duvidava muito que fossem apropriados para sair de uma boca feminina.
— Merda! – Deixei a arma ao meu lado, ao mesmo tempo em que deixei meu corpo alarmado para imprevistos decorrentes. Fui para o seu lado de forma hesitante demais.
— Ei. – Balancei seu corpo. – Acorda ai.
Nenhuma resposta. Inclinei mais sobre ele ao ponto de ficar literalmente cara a cara com o sujeito. Dei dois tapas leves em sua bochecha.
— Acorda. Vá embora. Não pode ficar aqui assim... – Olhando rapidamente do seu peito e a barriga. – Desse jeito.
Bufei começando a me sentir impaciente e levemente irritada. Tentei puxar seu corpo para meu colo, mas o homem pesava mais do que uma carcaça de porco adulto.
— Vamos lá, você precisa ao menos me ajudar! – Reclamei para ele mesmo sabendo que não adiantaria. Não adiantaria nem acordado, na verdade.
Seu tronco relaxava sobre minhas pernas dobradas, apoiando sua nuca em um dos meus braços enquanto a outra mão verificava a gravidade dos seus ferimentos. Só percebi que voltara a si no segundo que sua mão agarrou a raiz do meu cabelo e sua outra mão puxou meu corpo, me jogando no chão ao seu lado e mantendo metade do corpo cima do meu.
— Que diabos! Saia de cima de mim! – Espermeei empurrando seu peito e debatendo as pernas.
O que de nada adiantou. Era pior do que um armário tosco. Sabia que a arma se encontrava completamente fora de alcance, mas de nem toda arma se faz uma mulher por isso, por mais que não adiantasse, continuei a bater e a empurra-lo o máximo que pude. Sentia sua mão ainda em meu cabelo bem firme enquanto a outra mão desceu e segurou meus quadris. Na minha batalha, não percebi que havia fechado os olhos e só tentava em vão, revidar de algum jeito.
Meus músculos exaustos começaram a ceder pouco depois. Era meu peito que subia e descia agora de forma irregular e era minha boca que tanto buscava oxigênio. Minha visão ficou embaçada no minuto que me permitir ver, embora ainda sim conseguisse notar a forma a poucos centímetros do meu rosto. O ar que meus pulmões agarravam era tão insuficiente que comecei a me sentir sufocada. Meu peito pesou assim como todos os meus outros membros e um pouco de desespero abateu sobre mim ao mesmo tempo em que minha consciência parecia que ia flutuar para longe.
Não era a primeira vez que acontecia a falta de folego, no entanto, podia resolver essas questões apenas deitando em um rio, relaxando da melhor forma que eu podia, levando minha mente para um lugar ameno o suficiente para que eu me recobrasse como podia fazer o ar adentrar novamente. Comecei a refletir sobre a morte, todavia, parei quando senti um toque suave em meu rosto.
O aborígene me fitava atentamente. Sua bochecha uma hora ficava inchada e depois se comprimia. Isso se repetiu. Sempre que desinchava era o momento que um pequeno sopro tocava meu rosto. Um polegar acariciava minha têmpora gentilmente, enquanto outra mão se preocupava em manter meu rosto em direção da onde vinha o fino vento. Não notei que havia fechado os olhos até abri-los novamente e ver aqueles olhos selvagens e puxados. A pele morena do rosto, tão perto que era capaz de sentir o cheiro de cravo e folhas molhadas, a boca formando um “o” a cada segundo.
Não me lembrei que instante minha respiração voltou ao normal.
Fale com o autor