Snowy Days
7 Sono
Notas iniciais
P.O.V. – Percy
Quando me sentei na cadeira, sem querer acabei batendo no cotovelo do Nico, e pedi desculpas em um tom baixo. Ele simplesmente desviou o olhar e murmurou alguma coisa que eu não pude ouvir de volta. Presumi que era um “não foi nada”, e me virei para prestar atenção na tela branca que já passava algumas prévias de filmes que ainda não lançaram. Não prestei atenção em particularmente nenhum deles. Uns de aventura, sequências de filmes que eu nunca tinha ouvido falar. Mas acabei esboçando um sorriso quando ouvi Nico rir de um deles. P or causa de algum motivo que eu não entendia, eu adorava ver aquele menino feliz. Era como uma pequena meta que estabelecera sem se dar conta, por assim dizer.
Os trailers continuaram a ser projetados, e eu lentamente entrava em um devaneio, repetindo na minha mente no que eu tinha feito no dia. Fui para a escola, depois fui trabalhas mas acabei descobrindo que estava de folga, e daí Annabeth me ligou e começou a falar sobre o encontro que ela teria com a namorada dela no cinema, e daí ela me chamou para ir junto com “seja lá com quem você esteja ficando agora” (palavras dela), e eu disse que ia falar com um amigo meu. Eu me lembro de ter ouvido ela rindo no microfone, e de não ter entendido o porquê dela ter feito isso. E depois, eu acabei ligando para Nico, e dei uma desculpa qualquer para chamá-lo pra vir junto a nós, apesar de eu não saber direito a razão de eu ter feito isso. Eu conhecia ele há pouco tempo e...
― Acorda Percy, o filme já vai começar. ― Meus pensamentos foram interrompidos por uma voz ali do meu lado, a de Nico. Só fui perceber agora que estava encarando a parede havia um tempo.
Murmurei alguma coisa inteligente do tipo “Uhhhhh, foi mal.” E peguei um punhado de pipoca do pacote, enfiando tudo na minha boca de uma vez só. Não foi lá muito inteligente da minha parte já que eu não conseguia mastigar aquilo direito, então simplesmente fiquei com aquele bolo de comida ali até que eu conseguisse mover meu maxilar de novo. Depois disso, tive que tomar um pouco de refrigerante para ter certeza de que tudo iria para o devido lugar. Vou tentar me lembrar disso na próxima vez que for comer pipoca.
[...]
O filme já estava pela metade, e as garotas soltavam alguns barulhos estranhos conforme se beijavam. Às vezes eu me perguntava sobre a capacidade de ar nos pulmões delas. Sério, como que elas conseguiam passar tanto tempo se pegando desse jeito? Eu realmente não conseguia entender.
E bem, nesse ponto eu já estava completamente perdido na história do filme. Tinha algumas explosões muito bem feitas e mais umas discussões sem sentido, mas nada que realmente prendesse a minha atenção. Quase toda hora eu acabava desviando o olhar para os meus pés,ou acabava sentindo o cotovelo de Nico encostando no meu de novo e soltando um riso por causa da reação que ele geralmente tinha. Eu precisava admitir, ele ficava realmente fofo envergonhado daquele jeit... Okay Percy. Quem sabe você não presta atenção no filme? Ia deixar as coisas mais fáceis pra essa sua cabecinha de lesma. Sabe, ter que me perguntar a respeito da minha sexualidade de novo não era algo que eu goste de fazer. Quer dizer, não que eu já tivesse feito isso antes, claro.
Tentei me focar no filme, mas não deu muito certo. Qualquer movimento que Nico fazia ― seja para pegar um pouco de pipoca do saco ou simplesmente para coçar o queixo ― já tirava toda a minha atenção. Sério, o que estava dando em mim. Só porque eu estava no cinema com um garoto não significava que estavam indo além da amizade. Afinal de contas, amigos vão ao cinema juntos o tempo inteiro, não é? Quer dizer, não acompanhado de duas meninas que eram abertamente namoradas e... Argh, aquilo estava começando a me dar dor de cabeça. Sério, desde quando que eu estava tão confuso daquele jeito? Acho que desde que nós entramos na nossa sala do cinema, quando eu me sentei do lado de Nico.
Respirei fundo e peguei mais um pouco de pipoca, comendo tudo de uma vez, talvez em uma tentativa de me acalmar um pouco. Certo, quantos minutos faltavam para acabar mesmo? Vinte? Trinta? Okay, era só isso e eu já poderia sair daquele lugar escuro e...
Quando senti um peso sobre minha clavícula, quase desisti de querer ir embora daquele lugar.
Nico estava dormindo calmamente com a sua cabeça encaixada entre o meu pescoço e os meus ombros, como se não se importasse com o barulho das armas e de tudo o mais que o filme mostrava. Pode parecer um trocadilho idiota, mas ele dormia que nem um anjo.
Eu senti algumas borboletas se remexerem dentro de minha barriga, e soltei um pouco de ar pela boca. Eu não estava prestando atenção no filme mesmo. O que tinha a perder?
Então, lentamente repousei a minha cabeça sobre a dele, e fechei os olhos aos poucos. Do nada, deixei aquela minha ansiedade para dar o fora dali de lado, e acabei desejando em silêncio para que o filme nunca acabasse só para conseguir aproveitar tudo o que aquele momento tinha a oferecer para mim.
[...]
― Vocês são um amor juntos, sabia?
Acordei sobressaltado com a voz de Annabeth em meu ouvido, agarrando o encosto da cadeira do cinema e saindo da posição em que eu estava antes por reflexo. Desde quando ela estava... Ah é, nós tínhamos ido ao cinema.
― Nós somos só amigos, okay? ― Resmunguei de volta para ela, em um tom sonolento.
―Tá bom, tá bom. ― Ela soltou um sorriso, como se não acreditasse no que eu tinha dito. ― Vem, se levanta.
Eu o fiz, me apoiando não encosto da cadeira para me equilibrar. Então puxei Nico pelo pulso, já que ele já tinha se acordado também, provavelmente porque eu me mexi bastante quando ouvi Annabeth sussurrando na minha orelha. Ele bagunçou os cabelos com a mão livre, e depois coçou os olhos. Soltou um bocejo, e tentou se levantar. Acho que ele estava sonolento demais para entender o que tinham me dito (considerando que ele tivesse chegado a ouvir), então não me preocupei.
Eu dei mais um puxão no pulso dele.
― Onde nós estamos indo? ― Ele perguntou em um tom de voz meio sonolento, agora já de pé. Nós descíamos as escadas um pouco atrás das meninas.
― Casa. Talvez a gente pare em algum lugar aí no meio do caminho pra comer alguma coisa, mas é, a gente ta indo pra casa. Depois a gente vai se dividir e a Annabeth vai ir com a Reyna, e você vai vir comigo. Eu acho, pelo menos.
Ele bufou, como se estivesse chateado com o fato de que teria que voltar comigo e estivesse pensando seriamente em me enforcar. Eu simplesmente não conseguia entender aquele garoto, sério.
― Só não corra que nem um maluco dessa vez. ― Ele disse, e virou a cara. Acho que aquele seria um dia longo.
[...]
Acenei para as garotas e disse um “Tchau!” bem alto para elas, e Nico fez o mesmo, só que em um tom ligeiramente mais baixo e menos animado. Era naquela parte em que nós nos separamos das duas garotas, e em que o clima ficou um tanto tenso entre nós.
Eu encarava os meus pés conforme ia andando, observava alguns prédios das redondezas ou até mesmo lia um outdoor. Tudo menos olhar para o garoto de olhos escuros que tinha mexido consideravelmente com a minha cabeça, e que estava praticamente colado a mim por causa do frio. Eu não estava sentindo bem. Jurava que a qualquer instante aquelas borboletas que se agitavam dentro da minha barriga sairiam de uma vez só pela minha boca, porque elas estavam com realmente muita energia.
Olhei para ele com o canto dos olhos, e percebi que ele estava tão nervoso quanto eu, ou talvez até mais. Aquele garoto me intrigava em diversos sentidos, e eu queria respostas. Queria saber por que ele sempre tinha aquela cara de triste e solitário quando eu o via em algum intervalo da escola, por que ele parecia tão irritado com todo mundo, e por que ele sempre estava com o rosto corado quando estava perto de mim. Tudo bem que ele era um cara misterioso, mas eu estava começando a achar que ele estava misterioso demais.
― Uh... Nico? ― Eu tentei quebrar o gelo, um pouco ansioso ainda. Ele se virou, com uma careta de confusão estampada em seu rosto.
― Que foi?
― Por que exatamente você dormiu apoiado no meu ombro hoje, lá no cinema?
Bem, se eu estava tentando diminuir a tensão que estava entre nós, realmente estava longe de conseguir. Porque ele simplesmente virou a cabeça e murmurou alguma coisa que eu não consegui entender. Depois, ele tossiu e falou para mim:
― F-foi sem querer. ― Ele tossiu de novo, e começou a correr, apesar do ar rarefeito do inverno.
Eu fiquei observando-o até que me desse conta do que tivesse acontecido. Esperava que ele me perdoasse, porque dessa vez ele era quem tinha corrido que nem um maluco primeiro.
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