Snowy Days
9 Quarto
Notas iniciais
P.O.V. – Percy
Fiquei observando o teto do elevador enquanto tentava entender o que tinha acontecido. Nico tinha... me beijado? Será que eu não estava sonhando, ou alguma coisa do tipo? Acho que não. O toque dos lábios dele era real demais para ter sido criado pela minha cabeça, e a vontade que eu subitamente senti de retribuir aquele gesto também. Eu já não sabia mais o que estava sentindo; Minha cabeça dizia uma coisa, e o coração falava exatamente o oposto disso. Aquele beijo apenas serviu para que eu ficasse mais confuso do que já estava.
Quando eu acordei do meu pequeno devaneio tive o impulso de sair correndo atrás de Nico, mas quando eu percebi, as portas de metal do elevador já tinham se fechado mais uma vez, e agora ele tinha começado a subir. Será que ele tinha apertado o botão para que eu subisse quando estava fugindo? De qualquer jeito, tudo o que eu podia fazer agora era esperar. Depois eu ia me resolver com ele.
Fiquei mais um tempo dentro daquela caixa de metal, me observando no espelho com certa surpresa. Meu rosto estava completamente vermelho, e aquela expressão idiota continuava ali, tentando descobrir se o que acabara de acontecer era verdadeiro ou não, e o porquê de eu não ter empurrado ele longe, ou de ter ficado com raiva. Tudo o que eu fiz foi ficar em choque, sem conseguir achar nenhuma resposta para as infinitas perguntas que se formavam em minha mente.
E então foi que eu percebi que as portas já tinham se aberto novamente, e que eu estava de volta para o meu andar. Recuperei-me um pouco e saí do elevador, indo em disparada para a porta do meu apartamento, onde procurei desesperadamente pela a chave certa.
Abri a porta e depois fechei-a com força (era o vento, juro), correndo para o meu quarto logo em seguida. Nem me dei ao trabalho de tirar meus tênis, a touca, ou o que fosse, e me atirei na cama, ignorando possíveis reclamações que os vizinhos de baixo poderiam vir a ter. Eu sabia que precisava urgentemente conversar com Nico, mas antes disso eu devia pelo menos organizar os meus pensamentos.
Certo, vamos partir do começo. Há pouco mais de uma semana, eu atendi um garoto consideravelmente estranho lá na cafeteria e por algum motivo não consegui parar de pensar sobre o sorriso que ele tinha. No outro dia, descobri que aquele garoto era Nico, e atendi-o de novo lá, só que ele estava com a meia-irmã e o namorado dela. E hoje eu tinha o chamado para ir ao cinema, junto com Annabeth e Reyna. E ele acabou dormindo no meu ombro durante o filme, e eu pedi explicações sobre isso enquanto nós voltávamos para o nosso prédio, mas ele fugiu. Depois eu o encontrei no elevador, insistindo para que ele me dissesse alguma coisa, mas ele me beijou e saiu correndo pelas escadas.
E o que eu entendi disso foi: Nico gosta de mim, e eu estou realmente confuso sobre como que eu me sinto em relação a ele. Certo que eu ainda não entendia o porquê de querer tanto me aproximar daquele garoto, mas será que era... uh... amor? Tipo, realmente? Bem, se ele só fosse um amigo para mim, eu não estaria pensando sobre os meus sentimentos e tudo o mais.
Lambi os meus lábios, talvez querendo que o de olhos escuros ainda estivesse ali. Pelo menos, teria sido mais fácil se ele ainda estivesse. Poderíamos conversar, e talvez eu conseguisse entender caso ele me dissesse o seu ponto de vista das coisas. E talvez aí eu tivesse alguma resposta para todas aquelas perguntas.
“O ponto de vista dele.” As palavras chegaram à minha cabeça, e eu me sentei na cama no exato momento. Era isso. Eu só precisava conversar com Nico.
Levantei-me com um sorriso triunfante no meu rosto, e comecei a andar em círculos no meio do meu quarto, deixando algumas marcas sobre o tapete em formato de peixinho que eu tinha desde os meus sete anos de idade. Certo, como que eu ia falar com ele a respeito disso? Duvido que ele vá responder qualquer mensagem que eu envie, ou que atenda uma chamada de telefone.
— Mas e se eu... — Pensei em voz alta, direcionando meu olhar para a minha janela e a escada de emergência que tinha ali. Sorri de novo, tendo uma ideia.
[...]
Dei umas batidinhas na janela do quarto o qual eu acreditava ser de Nico, depois de ter observado o lugar por um tempo considerável. Tinha uns pôsteres de bandas que eu não conhecia espalhados por aí, e uma pequena coleção de CDs que me chamou a atenção, mas não tanto quanto uma figura enrolada em um cobertor sentada em cima da cama. Aparentemente, ele não tinha me ouvido.
— Nico. Por favor, abre a janela. — Bati de novo, dessa vez mais forte. — Nicoooooo.
Pelo o que parecia, ele me ouviu dessa vez. Ele ergueu a cabeça e foi até onde eu estava, apesar de estar um tanto hesitante. Ele foi até metade do caminho, mas acabou tendo que voltar para se enrolar na sua coberta de novo. Só então ele caminhou até a janela, arrastando o cobertor no chão. Quando chegou ali, abriu o vidro até a metade. Não era o suficiente para que eu pudesse entrar, mas servia por enquanto.
— O que você quer? — Ele perguntou, enfiando seu rosto no meio do cobertor felpudo. Notei que seu rosto ainda estava um tanto avermelhado.
— Pedir desculpas e também conversar um pouco. — Dei mais uma espiada dentro do quatro dele — Pode abrir mais a janela? Está frio aqui fora.
Os olhos escuros dele me fitaram por um tempo considerável, em uma expressão que seria assustadora se não fosse pelo o seu rosto vermelho. Eu tinha que admitir, aquilo era um tanto fofo.
— Tanto faz. — Ele disse, dando de ombros por baixo de todo aquele pano azul-escuro. Mas eu sabia que não era ‘tanto faz’ para ele, e parecia que nem para mim.
Nico segurou a sua amada coberta com uma mão, impedindo que esta caísse, e com a outra subiu ainda mais o vidro da janela, deixando um espaço considerável. Eu desci por ali, e fechei o vidro depois que já tinha entrado no quarto. Ele pareceu não se importar com isso, e foi se sentar na sua cama, indicando para que eu me sentasse lá também.
Eu o fiz, me sentando do lado dele. Mas Nico deu um pulinho para o lado oposto, como se não quisesse tanta proximidade de um cara que tinha beijado um pouco mais cedo naquele mesmo dia.
Nós ficamos em um silêncio por alguns minutos, mas cada segundo que se passava parecia me atingir como uma faca em meu peito. Por mais que eu ainda estivesse com sérios problemas dentro da minha cabeça e ainda não tivesse certeza do que eu sentia por aquele garoto, ficar daquele jeito com ele estava longe de ser algo que gostava.
— Nico, sobre o que aconteceu no elevador...
— Não quero falar sobre isso. — Ele simplesmente abaixou o olhar e bufou, cruzando os braços sob o cobertor. Percebi que este estava escorregando pelas suas costas, mas não comentei nada. Talvez fosse melhor se não tivéssemos nenhuma barreira de tecido entre nós. As coisas ficavam mais fáceis desse jeito.
— Mas, Nico... — Eu comecei a falar, mas fui interrompido de novo.
— Chega, Percy. Se eu soubesse que você viria aqui só pra rir de mim, não teria te deixado entrar. — Ele dizia tudo em um tom irritado, virando seu rosto na minha direção para dar mais ênfase ao que falava. Por mais que aparentasse estar bravo comigo, eu tive a impressão de que ele poderia chorar a qualquer momento, como se fosse uma bomba sem nenhuma contagem regressiva fixa até sua explosão. Aquilo me preocupou um pouco. — Então, por favor...
— Eu não vim rir de você.
— Veio fazer o quê, então? — Nico disse em um tom de deboche, como se não tivesse acreditado no que eu tinha dito. Mas eu tinha falado a verdade. Eu não iria rir dele. Eu ia era fazer uma coisa muito melhor.
Inclinei o meu corpo para o lado dele, dando um pequeno pulinho para que nós estivéssemos com as pernas coladas e finalmente, tomando posse de seus lábios. Eu não sabia exatamente o que estava fazendo, mas era meu coração que estava me comandando. Naquele instante, a razão não existia mais, e nem mais nada no mundo. Eu só queria ficar próximo daquele garoto que aparecera na cafeteria um dia, e que desde então não sumia da minha cabeça.
Por mais que tenha demorado um pouco devido ao choque, o beijo fora correspondido. Senti duas mãos geladas na minha nuca, e no mesmo instante coloquei as minhas nas costas já descobertas do moreno, reduzindo ainda mais a distância entre nós. Então, eu comecei a avançar, andando pela cama já bagunçada de Nico até que ele caísse deitado sobre esta, ficando embaixo de mim. Ele estava com o rosto completamente vermelho, talvez por causa da posição em que estávamos, ou pelo o que tínhamos acabado de fazer.
— Eu achei que te devia uma resposta. — Soltei um riso, ignorando os fios de cabelo que estavam caídos sobre meus olhos. Pelo menos eu tinha uma visão boa de Nico dali.
— Vo-você... — Ele estava totalmente incrédulo, e incrivelmente nervoso. Pude ver um pouco de suor escorrendo pelo seu pescoço. — Uh, eu... eu não estou pronto ainda.
— Que? — Foi só agora que percebi o quão constrangedor aquela posição era. Senti o meu próprio rosto queimar e caí do lado dele, rolando. Fiquei com o olhar fixo no teto, e soltei um riso baixo. — Foi mal, eu não queria fazer com que você pensasse que eu ia fazer alguma coisa uh... meio imprópria.
— Tudo... tudo bem. — A voz dele soava fraca, mas de certa forma feliz. Olhei para ele com o canto dos olhos e pude ver que tinha um sorriso no seu rosto. — Então, isso quer dizer que...
— Que eu gosto de você. Bastante, na verdade. — Era um pouco estranho falar aquilo em voz alta, mas era o que eu estava sentindo no momento. Toda aquela minha confusão já tinha passado depois de sentir o toque suave dos lábios gélidos mais uma vez, como se um beijo fosse o suficiente pra fazer com que todas aquelas incertezas sumissem da minha cabeça.
Nico apenas comprimiu um riso e deitou-se de lado, me observando. Acho que eu tinha feito a escolha certa em ter feito aquilo. Vê-lo feliz era realmente gratificante.
Depois de alguns segundos daquele jeito, ele beijou meu nariz, e disse:
— Eu também.
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