Snow Flower
9 Dimensão Paralela
Notas iniciais
Por um leve segundo, Karin tinha a sensação que despertava em sua cama confortável. Mas o piso duro, machucando suas costas, trouxe-a de volta à realidade. Dorida e preguiçosa, bochechou enquanto despertava. Antes de abrir os olhos, esfregou-os. Ao acostumar-se com a luminosidade, a morena notou que a poucos centímetros de seu rosto estava ex espada, sorrindo como sempre.
Seu coração falhou uma batida pelo tremendo susto, afastando-se rapidamente quase como se manejasse o shunpo.
— Você está bem, Karin-chan! Estava ficando preocupada.
— Quer me matar de susto!? Era preciso estar tão perto?
— Só queria confirmar que ainda estava respirando. Os humanos são imprevisíveis… podem morrer a qualquer momento, até durante um sono calmo e profundo. – Mantendo as curvas alegres em sua face, a Kurosaki sentiu uma gota cair por sua testa. Como ela dizia algo assim de uma maneira tão descontraída?
Optando por ignorar aquele assunto, percorreu com o olhar ónix o cenário em sua volta. Não reconheceu o local, no entanto, suspirou de alívio ao perceber que já não se encontrava em Hueco Mundo. Na verdade, parecia ter caído num beco abandonado em seu mundo.
— Isto… estamos na Soul Society?
— Não. Apesar de não conhecer muito bem, estamos com toda a certeza no Mundo Real.
Só naquele instante, Karin notou que a espada estava a ocultar por completo seu poder espiritual, e usando trajes humanos -preferindo ignorar como ela os conseguira. Com essas vestes, mesmo que algum humano a visse não estranharia por completo sua aparência invulgar. Se bem que ela não compreendia o motivo de Nell se disfarçar… Por que elas não foram directamente para um local mais seguro e discreto?
— Então… tudo correu bem! Podemos procurar o Urahara-san agora!
— Receio que não vá ser tão fácil assim.
— O que quer dizer?
Nelliel encarou fixamente um ponto atrás da humana, acenando com a cabeça para esta se dirigir até ao sítio referido. Intrigada, e extremamente confusa, a Kurosaki seguira a recomendação, deslocando-se até o final do beco escuro. Quando olhou para as ruas, quase caiu com a rapidez com que recuou. Ela não estava em Karakura! Ela receava que sequer estava no Japão! Para onde elas foram enviadas!?
— Como isso aconteceu!? – Apesar de tentar manter o tom de sua voz normal, suas tentativas foram frustradas.
— Não sei. Se bem que se tivermos em conta os riscos, foi até um lugar seguro dentro de todas as hipóteses que tínhamos…
— Yoruichi-san uma vez me contou que os arrancares podem criar gargantas para vários locais. Não pode fazer uma que vá para a Soul Society ou até a loja Urahara Shop’s?
— Me perdoe. Eu já tentei, mas... não consegui. – Karin seguiu os olhos dourados da espada, reparando na mão esquerda desta, completamente queimada, resultado do esforço desumano consecutivo. — O tal pecador deve ter bloqueado, de alguma forma, todas as gargantas que interligam os três mundos.
A Kurosaki respirou fundo, ela devia estar mais grata a Nell, afinal ela salvou-a, ajudando-a a fugir de Hakai. Para além disso, estavam em seu mundo, mesmo que tivessem ido para outro país, ela poderia regressar a casa. Ela lutava contra monstros usando apenas uma bola de futebol, com certeza aquela situação não seria um obstáculo impossível para ela. Inclusive, não estava sozinha. Ela tinha uma ex espada a ajudando.
Karin sempre se sentiu entediada com a presença de espíritos em sua vida, invejando sua irmã gémea que estava longe dessa realidade, era alguém normal. Porém, nunca cogitou que chegaria o dia em que, por uma redonda ironia, ser uma pessoa comum seria a sua maior dificuldade. Ela já não se imaginava sem sua reiatsu consideravelmente alta, sem poder vê-lo… Uma vida sem as visitas inesperadas de Toushirou, seria muito solitária e vazia.
— Certo, vamos Nell! -A arrancar a encarou um pouco confusa, pelo súbito ânimo da morena- Precisamos voltar, não podemos nos render agora!
Karin não aguardou por uma resposta e infiltrou-se na rua, encarando as pessoas estranhas passarem por ela apressadas, dando-lhe vários encontrões. Suspirou irritada, começando a retribuir os “gestos carinhosos” que recebia, até que por uma brecha da multidão, encontrou uma senhora de idade, semelhante a avó Haru, que bebia algo quente, pelo vapor que exalava. Foi-se aproximando cautelosa, para não assustá-la.
— Desculpe, poderia me ajudar bachan? – A espontaneidade e honestidade na Kurosaki de alguma forma agradou a senhora, rindo da preocupação excessiva da morena por ela estar só.
— Que menina tão encantadora. — Karin ficou corada com o elogio repentino, agradecendo com um tímido sorriso.
— O que a menina precisa de mim?
— Etto… como se chama esta cidade?
Ela esperava que a senhora risse pela pergunta que soava como um disparate, que a observasse confusa suspeitando que ela fosse louca, contudo prosseguiu com uma expressão serena. Pela visão periférica, detectou a aproximação de Nelliel em suas costas, possivelmente para escutar também a resposta da senhora.
— Esta é a cidade de Karakura, menina. Você e sua amiga nunca estiveram aqui antes?
Ficou paralisada com essa constatação. Um arrepio congelou sua coluna naquela posição encurvada para escutar a bachan. Karin e Nelliel se entreolharam por um milésimo de segundo, o suficiente para repararem noutro pormenor na fala da senhora. Quando a iam questionar, ela já não estava lá. Simplesmente sumiu, sem deixar rasto. Não sabiam designar o que era mais incógnito: estarem de facto em Karakura ou por a bachan, afinal, poder enxergar espíritos; tendo ela -aparentemente- uma reaitsu vulgar.
— Nell… o que esta acontecendo? Isto não pode ser Karakura!
Ela enxergou minuciosa cada canto que sua visão permitia lhe alcançar. Desde os prédios mais altos, até à calçada e aparelhos eletrónicos incomuns perto dos parques de estacionamento, para a quantidade absurda de automóveis. Parecia uma revolução tecnológica! Os robôs substituíram as pessoas em Karakura… Até mesmo os espíritos tinham desaparecido.
Nelliel permaneceu em silêncio, contrastando com a impaciência e perplexidade da humana junto de si. Por fim, chegando a uma única conclusão possível.
— Nós não mudámos somente para outro mundo, também viajámos no tempo.
Um frio embrulhou o estômago de Karin, que arregalou os olhos, observando para o possível futuro da sua cidade natal.
xXx
P.O.V Hakai On
— O que fará agora Karin? Não poderá escapar.
A presa virá ter a seu perdedor. Um gesto de desespero. Não disfarçei minimamente o sorriso que crescia em meu rosto, perante as inúmeras hipóteses de sofrimento que minha jogada implicaria naquela humana peculiar.
Confesso, estou orgulhoso pela minha inteligência.
— Mesmo que encontre seu irmão, ou seu querido capitão de gelo… não resolverá nada. Apenas será um jeito de prolongar sua dor.
Dirigi-me até ao lago de enxofre, dentro de uma redoma, que revelava diversificadas imagens do futuro divertidas, em que brevemente a humana deparar-se-ia com todas elas. Pertenciam a um universo em que a família Kurosaki era feliz, na qual Masaki Kurosaki nunca falecera, e principalmente… Onde o capitão de gelo casou com sua amiga de infância, Hinamori Momo. Ou seria Hitsugaya Momo? Seria interessante usar esse nome como tortura para a minha presa.
Minha risada ecoou pelo palácio morto. Aquilo que Karin estava a viver não era o futuro de Karakura como a espada intrometida sugeriu. Era um mundo paralelo, criado pelas minhas próprias mãos, na qual Karin nunca existiu e seria obrigada a enfrentar a tortura de nenhum de seus queridos amigos a conhecer.
— Karin, Karin se não tivesse fugido de mim, não teria de passar por isso… foi você quem se condenou, e no final, você voltará até mim com o coração sangrando.
P.O.V Hakai Off
Enquanto isso, um vulto discreto estava ocultado na retaguarda de Hakai, que presenciara toda a situação. O pecador ao sentir a temperatura descer consideravelmente, riu sarcástico, apesar da surpresa causada pela visita inesperada. Uma lâmina estava empunhada contra seu pescoço, e mesmo quando Hakai rodou seu corpo para o encarar, a zanpakutou não tremeu, permanecendo firme.
Ele não hesitaria em matá-lo…
— Bem-vindo ao meu palácio, capitão. Espere que goste da decoração.
Pela segunda vez, Toushirou e Hakai confrontavam-se visualmente.
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