Snow
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Comecei a achar incrível a forma como os sons de lápis deslizando delicadamente nos papéis poderiam ecoar em minha mente, enquanto eu encarava a lousa manchada, veio até mim uma vontade intensa de sorrir quando pensei: “Estou de coração partido e com um zero em matemática, é realmente impossível que as coisas piorem”. E pela primeira vez em meses eu não desejo estar em um local que não seja a escola, talvez mais tarde eu estude para recuperar na próxima chance, porém, hoje não.
Hoje é dia de luto, luto pela garota que eu era na última sexta-feira... na verdade, pelos sentimentos que cresciam em mim. Luto pelo cabelo rosado que farei questão de tirar, e luto por um dia eu ter dito que o amava, e caramba! Alguma vez eu me lembro de ter sido sincera? E agora não há nada além de um vazio extenso e do vácuo que se confunde com o estômago que está vazio durante horas.
A aula começara a beirar o fim e a minha prova em branco reluzia com todas as lâmpadas acesas na classe, as vozes começaram a soar rapidamente pelos cantos junto com a minha vergonha por ter cometido outro erro além da minha existência, o grande zero em matemática.
O sinal bate, e entre todos os murmúrios, a voz de Derek sobressaiu-se:
— Acho que eu odeio você. – Com os cantos dos olhos, o vejo sentado ao lado, em cima de uma carteira.
Dou de ombros:
— Porquê eu sempre ganho?
— Não, porque eu gosto de você. – Então eu o encaro, e observo que seu cabelo estava desgrenhado de uma forma estranhamente arrumada.
— Faz sentido, faz muito sentido. – Digo ao voltar a encarar a lousa.
— Fica difícil te odiar gostando de você. Isso fode, amiguinha. – Desta vez, não volto a encara-lo. De onde eu estou, eu tenho a sensação de que se me concentrasse, poderia ouvir seus batimentos cardíacos.
— Eu entendo. – Digo simplesmente, com a intensão de acabar com aquela tortura.
— Mas isso não muda o fato que você é idiota, desprezível, mais interessante que qualquer pessoa daqui. E é linda, espera, você também é má, tem olhos lindos, não tem senso de ridículo, mas sua boca é bonita, não está casada comigo, mas seu cabelo deve cheirar bem.
Viro-me para encara-lo e dou de cara com um sorriso despreocupado:
— Não cheira nada além de cigarros. – Levanto rapidamente na intenção de evita-lo, encarar as pessoas que me conhecem bem tem sido uma luta diária, e quando se trata do Derek, que seria uma das únicas pessoas que dizem coisas que mudam algo, é desesperador estar por perto sem dar a atenção que ele merece, e machuca-lo tem sido a única coisa que tenho sucesso ultimamente.
Andei até o pavilhão principal e os murmúrios das classes esvaziando-se para o almoço preencheu-se com grande ferocidade, a queda de temperatura fazia meus olhos lacrimejarem, e o frio já não agredia minha pele por baixo do grande casaco que roubei de meu pai. Mas de qualquer forma, minhas mãos pálidas já deixavam transparecer o roxo de minhas veias. Pensei em qualquer coisa que não me fizesse andar e agredir todas as garotas que riam e falavam alto perto de mim. Elas fazem-me lembrar o motivo pelo qual evito contato com garotas. Aliás, eu odeio adolescentes que estão na minha faixa de idade. Pois bem, existe algo que eu não odeie? Além das músicas do Metallica e o cheiro de cigarro que se confundia com o perfume dele?
A crise existencial já estava chegando a um nível que as músicas do Black Label Society já parara de tocar em minha mente, dando espaço para All Of Me de John Legend. No fim do segundo pavilhão, é possível notar que mais um conhecido se aproximava, não que para mim fosse possível enxergar algo, mas seu cabelo longo era algo que eu conseguia notar de longe. Arthur era o amor de minha vida, mas não o amor que quebraria meu coração, é o tipo de amor que eu recorreria quando estivesse de coração partido. Logicamente que não seria para chorar, mas para fazermos piadas sobre isso.
— E aí, está pronta para derrubar o Estado? – Ele se aproximou com a mesma leveza que carregava no sorriso, aliás, o sorriso dele era uma das coisas que eu mais gostava de ver durante o dia.
— Poderíamos pensar nessa possibilidade após finalizarmos o trabalho de física? – Estar junto a ele me passava uma paz intensa, tampava temporariamente o buraco em minha existência, acrescentava oxigênio no vácuo, cicatrizava os ferimentos.
— Droga! Eu havia me esquecido do trabson. – Ele joga o seu cabelo longo para o lado, e observa qualquer coisa que eu não sabia identificar o que era.
— Claro que se esqueceu. Me mande as coordenadas do que se deve ser feito, eu posso conseguir algo com o meu pai. – Digo enquanto me afasto.
Arthur faz apenas um sinal de concordância e então eu vou em direção à saída da escola. Os dias de inverno se pareciam muito comigo, não sou o sol, não sou a chuva, mas nublo facilmente.
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