Smile
3 Capítulo 3 – Enfiando O Dedo
Notas iniciais
Eu comecei a trabalhar no meu projeto no mesmo dia, pois, segundo o professor, quem fosse mal, teria que ir para o Acampamento Repolhudo junto com ele e fazer um estudo sobre o verde. Pesquisei várias coisas na internet... Depois de horas, desisti e liguei para a Mônica. Ela disse para eu passar lá e dar uma ajudinha no projeto dela.
Ao chegar lá, vi que Mônica estava na frente do computador, vendo um vídeo. Aproximei-me para ver e ouvir melhor. Ela acenou a cabeça, um sinal para dizer que sabia que eu estava presente. Ouvi a voz de uma mulher no computador.
“A compostagem é uma técnica milenar, praticada pelos chineses há mais de cinco mil anos. Nada muito diferente do que natureza faz a bilhões de anos desde que surgiram os primeiros micro-organismos decompositores. Segue o exemplo da floresta, onde observamos que cada resíduo, seja ele de origem animal ou vegetal, é reaproveitado pelo ecossistema como fonte de nutrientes para as plantas que, em última análise, são o sustentáculo da vida terrestre. Agora você ira saber como montar a sua própria composteira.”
Mônica pausou o vídeo e virou-se para mim.
- E aí? Já decidiu o que vai fazer para a Semana Verde? – perguntou.
- Não ainda. Está difícil. E você? – perguntei, olhando para um engradado de PVC que estava sobre a mesa, junto com jornais, terra e uma lata de minhocas.
- Eu vou fazer uma composteira. – respondeu, voltando ao computador e dando play no vídeo. A mulher voltou a falar.
“1. Forre por dentro um engradado de PVC (destes que usamos para carregar as compras no supermercado) com uma camada espessa de jornal bem úmido, mais ou menos 6 ou 8 folhas. Depois de acomodar estas folhas de jornal faça furos no fundo.”
Ela pausou o vídeo novamente e pediu para eu ajudá-la. Nós forramos o fundo do engradado com jornal e fizemos furos. Mônica voltou para o vídeo e deu play.
“2. Preencha o fundo deste engradado com composto já pronto e com minhocas. Faça uma camada de mais ou menos 10 cm de espessura.”
Mais uma pausa. Ela sorriu para mim.
- Eu ponho a terra e você as minhocas. – disse.
- Ah, foi pra isso que me chamou? – perguntei, rindo.
Ela riu também. Mais um play.
“3. Escolha no seu lixo orgânico algumas porções de cascas de frutas ou folhas de verduras, não muito.”
“4. Enterre este material no composto. Isto vai servir para avaliar a quantidade de minhocas que existe neste material, já que elas serão atraídas pela comida (lixo orgânico).”
“5. Cubra tudo com mais uma camada de jornal úmido. O jornal tem que estar sempre úmido, caso contrário roubará água do material que esta sendo compostado e este não ficará pronto em poucas semanas.”
“6. Providencie uma tampa para o seu composto. Isto evitará a proliferação de moscas e baratas além de servir de barreira para um eventual rato.”
“7. Agora uma parte bem importante! Observe por alguns dias quanto tempo as pequenas minhocas levam para comer uma determinada quantidade de lixo orgânico. Esta é a capacidade de reciclagem da sua composteira. À medida que as minhocas vão crescendo e se reproduzindo o consumo de resíduo orgânico vai aumentando. Uma minhoca vermelha do composto pode comer o próprio peso em um único dia, além disso com apenas três meses elas já estão se reproduzindo, podendo depositar um casulo a cada semana. Cada casulo desses pode gerar de quatro a doze pequenas minhocas que já nascem prontas para comer muito pelo resto da vida. Uma composteira doméstica pode ser considerada eficiente quando os resíduos orgânicos somem totalmente em menos de duas semanas.”
Fizemos tudo conforme foi dito. Depois de lavarmos as mãos, Mônica veio até mim.
- Agora precisamos encontrar algo para você fazer... O que será que a Magá e o Cas vão fazer?
- Podemos ligar para eles e chamá-los para vir aqui. – sugeri. Ela concordou.
Logo estávamos nós quatro na casa de Mônica. Magali disse que estava trabalhando em uma lambreta elétrica e que se fosse com ela para a escola, o peso do ônibus diminuiria e queimaria menos combustível.
- Mas você não pesa tanto. – disse Cascão.
Eu ri. Magali fuzilou o amigo com os olhos.
- Ao invés de ficar falando, porque não resolve fazer o seu projeto, Cascão? – perguntou.
- Ah... Fica trank. Eu dou um jeito. – respondeu Cascão.
O dia da apresentação tinha chegado. Eu fiz um pesticida ecologicamente correto. Mataria as pragas antes das plantas se prejudicarem. Mas não havia sido testado. Reparei que Mônica estava com a sua composteira trabalhando a todo vapor. Os resíduos orgânicos já haviam quase sumido. Cascão, ao meu lado, estava suando frio. Não tinha conseguido fazer nada. E Magali... Não estava lá. Estranho.
Denise, que estava do meu lado, também não tinha feito nada. Perguntei se ela havia esquecido.
- Não. Só não quis fazer. – ela respondeu.
O professor começou a chamar os nomes. Logo chegou a vez do Cascão, que não tinha feito nada e acabou levando zero.
Logo após, chamou mais alguns e me chamou. Eu fui até lá com o meu pesticida e uma planta com pragas.
- Bom, eu fiz um pesticida ecologicamente correto que mata as pragas antes que prejudique a planta.
E comecei a borrifar pesticida na planta. As pragas começaram a sumir. O professor aplaudiu, mas parou logo que começou a sair fumaça da planta. Ela começou a ficar preta e murchou.
Levei uma nota 5 pela tentativa, mas teria de ir ao Acampamento Repolhudo com o professor. Pelo menos o Cascão e o Do Contra (que também não fizera nada) iriam comigo.
Seguindo a lista, o professor chamou Denise. Ela viu a sua confiança sumir. Olhou para os lados e pegou uma laranja na sua mochila. O que ela iria fazer?
Denise Caminhou até a frente da classe e segurou a laranja.
- Essa... – começou ela. – É uma singela laranja.
Todos olharam para Denise.
- Muitos dos nossos alimentos hoje em dia... – prosseguiu. – vêm embalados em diversos tipos de embalagens exageradas que acabam virando lixo. E esse lixo demora muito para se decompor. E eu tenho uma maneira para diminuir isso. – e ergueu a laranja. – Se eu estiver com sede, eu posso fazer isso... – ela ergueu o polegar. Virou e fez um furo na laranja. Virou o furo para a boca e espremeu a fruta, fazendo o suco cair na boca. Limpou-a com as costas da mão. – Agora eu estou morta de fome. Daí eu faço isso... – tirou a casca da laranja e comeu a fruta. Logo depois de engolir tudo, ficou com as cascas na mão. – E agora eu só preciso me livrar dessa casca biodegradável. – disse Denise, indo até a janela e jogando a casca da laranja no jardim.
A classe toda ficou em silêncio. O professor começou a aplaudir. Eu fiquei de boca aberta. Denise era muito esperta.
- Ei! – Cascão berrou. – Ela também não fez nada. Ela só enfiou o dedo em uma laranja!
- Caro Cascão. A garota enfiou o dedo no futuro!
Eu ri. Cascão estava pagando por todas as tiradas que fazia com as pessoas.
Notas finais
@leocancellier
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