Smaragdus
1 Capítulo 1 - Maria
Nem sei por quanto tempo tenho esse colar: um pedacinho de esmeralda, sempre comigo. Minha mãe costumava dizer que foi por volta de quando eu estava para completar 1 ano; ela me pegou no berço brincando com essa coisa verde. Disse que eu fiquei meio encantada com o brilho, não largava de jeito nenhum. A pedra é toda deformada, de modo que nunca deve ter passado nem ao menos pelos mais vagos pensamentos de um joalheiro. Sabendo que a esmeralda não era lapidada, minha mãe concluiu que não pertencia a ninguém, por isso a mantive comigo. Ela prendeu a pedra com alguns nós e fez um cordão de fita de couro pra mim.
- Talvez até lhe traga sorte, não é filhinha? – sempre dizia minha mãe ao contar essa história.
Ninguém faz ideia de onde eu tirei aquilo; e esse foi provavelmente um dos maiores mistérios da minha tediosa vida no centro de Volta Redonda.
Bem, como eu disse: “foi”. O mistério durou até os sinais começarem quando eu tinha 6 anos, a partir daí, encontrei outros, muito maiores, que fizeram a origem da pedra tornar-se a menor das minhas indagações, pelo menos naquele momento.
Eu nunca fiz muito o tipo popular na escola, nem nos anos de ensino fundamental. Como eu disse, eu tinha meus 6 anos, e já voltava a pé pra casa, afinal sempre fui forte e independente e me virava muito bem sozinha! Ok, ok não colou totalmente, né? Eu queria mesmo era economizar a grana que meus pais me davam para as passagens de ônibus... Na boa, o caminho nem era longo e vocês podem achar que uns 6 reais por dia são esmola, mas eu juntei muita grana nesses anos. Enfim, eu estava voltando da escola a pé, como sempre, e um menino babaca da minha sala – o Edu — com seu amigo imbecil – um tal de Felipe — me seguiram com suas bicicletinhas da moda – riquinhos nojentos.
Nem me toquei no começo, mas eles fizeram questão de arrumar confusão.
- Ei, Maria! Tá sozinha na rua é? Não tem medo não? – falou o Edu em tom de deboche e depois fez uma careta que me deu náuseas.
- Me deixa! – bufei
- Opa, opa, opa, alguém ficou estressadinha, hein Edu?
- Relaxa ai, tampinha.
Ah, como eu lembro das exatas palavras. Se tem uma coisa que eu odeio MUITO, e veja bem: eu odeio várias coisas, são piadinhas toscas com a minha altura!
Eles continuaram me irritando, mas prometi pra mim mesma que não ia jogar o joguinho deles, como uma criatura superior àqueles garotos nojentos me mantive inabalável. Mas eles não desistiram, continuaram ao meu lado por mais um quarteirão, até a minha capacidade de “não jogar o joguinho deles” escorrer pelas minhas mãos.
Foi quando Felipe cambaleou na bicicleta, só para dar um chute na minha mala, que meu livro caiu direto na vala e a última gota de tolerância secou. Cerrei os punhos e os encarei com a expressão mais fechada que uma garotinha adorável de 6 anos poderia ter e, subitamente, minha raiva e a diversão deles transformaram-se, em choque.
Em um segundo eles estavam em cima das bicicletas, no outro eles caíram do chão e toda a lataria de seus presentes de natal mais caros começou a se contorcer dobrando como se o metal fosse uma folha de papel vegetal, daquelas do escritório de arquitetura do meu pai, e, em pouco tempo, haviam peças de borracha soltas pela calçada e duas perfeitas tampinhas, como as de garrafas de vidro da Coca-Cola –ah, como eu amo a Coca das garrafas de vidro. James, minha esmeralda (sim, eu dei um nome para o meu mais fiel companheiro), brilhava em meu pescoço; ainda muito assustados, os meninos correram pra longe, e eu desmaiei.
Quando eu acordei no hospital, preferi evitar a história, obviamente, ninguém acreditaria em mim, mas eu tinha certeza do que tinha visto e, acima disso, sentia quem tinha sido a responsável. Claramente, o ocorrido sugou muito das minhas energias, por isso, desmaiei. Com o tempo e o aumento das manifestações de meu poder, aprendi a lidar melhor com ele e até a fazer mudanças mais complexas, gastando menos energia. Nunca me assustei com o dom que tinha adquirido por causa daquele pedacinho de esmeralda, era mais uma prova de minha superioridade em comparação a reles humanos.
Tudo correu bem nos 9 anos que seguiram meu primeiro incidente: Edu e Felipe foram transferidos de escola depois de visitarem muitos psicólogos por causa de uma história inacreditável, segundo seus pais; criei sistemas básicos de cálculos para entender minhas capacidades e limitações; e tinha, inclusive, feito amizades no ensino médio.
Thaisa e Thaiza eram gêmeas, morenas, cabelos longos e suavemente diferentes, mas de uma maneira muito clara pra quem as conhecia de verdade. Eu as chamava de ‘S’ e ‘Z’, brincando com seus nomes, muito divertidos.
Victória, ou Vic, como eu a chamava, havia sido a primeira a reagir sem surpresa alguma aos meus poderes, talvez por ela ser extremamente calma (o que, na minha opinião, deveria ser considerado um superpoder extraordinário). Ela foi a primeira a me apoiar e chamar aquilo de dom ao invés de usar a palavra “aberração”.
Mas, como na vida de heróis dos quadrinhos, nada nunca pode correr bem, e, quando isso acontece, é um sinal; um sinal que não precisa de vidente nenhuma para se entender: no meu futuro, tinha um monte de merda para acontecer.
As meninas, minhas três únicas amigas, estavam dormindo comigo no meu quarto quando invadiram a minha casa, no meio da madrugada. Eu ouvi um barulho da porta, sempre tive um sono leve; além disso, o cachorro desnaturado da vizinha começou a latir descontroladamente. Levantei da cama e coloquei a roupa o mais rápido que pude, poderia ser só meu pai pegando um copo d´água na cozinha, mas preferi me garantir, afinal, não custaria nada: minha energia estava em ótimo estado e o que um criminoso ordinário poderia fazer contra mim?
No corredor pude ouvir as últimas palavras do vaso preferido da minha mãe, sua sinfonia de cerâmica se rachando e se espalhando pelo chão; uma voz feminina soltou um palavrão; aquilo não era meu pai. Desci as escadas sorrateiramente, mas o que encontrei não foi um cara com uma meia na cabeça, olhando pro sofá da sala e pensando frustrado: “Que tipo de pessoas são essas que não têm televisão em casa?”. Eram 2 mulheres bonitas e um homem bem arrumado, todos eles muito mal encarados e, eu juro, que, no meio da escuridão da sala, notei seus olhos todos pretos. Ok, estava bem escuro, mas nem quando eu vou ao oculista minha pupila dilata a esse ponto.
Ainda meio pensando “que-porra-é-essa-?” eu saí correndo escada acima, fazendo eles me notarem e começarem a correr atrás de mim. James brilhava, uma luz verde bem assustadora que guiou meu caminho enquanto a escada começava a se liquidificar, adquirindo um aspecto de piche.
Quando eu cheguei no topo, esbarrei com alguém; estava prestes a gritar “mãe, liga pra polícia, rápido, AGORA!”, mas percebi que não conhecia aquele rosto.
- Meu nome é Giulia, sou um arcanjo, não tenho tempo para explicar. Vamos sair daqui!
E antes que eu pudesse começar um “Escuta aqui queridinha” para conquistar minhas merecidas informações, um clarão branco tomou conta de todo o meu campo de visão.
De repente, não estava mais em casa, mas sim em um tipo de um celeiro. Estava frio, nada típico da minha cidade, possivelmente eu estava mais ao sul e mais longe do litoral, ou melhor, ‘impossívelmente’. Mas claro que com meu poder de manipular objetos, um trio mal encarado de olhos pretos invadindo minha casa e uma tal de arcanjo chamada Giulia, não tinha sentido considerar teletransporte uma impossibilidade.
Ainda dormindo como se nada tivesse acontecido, minhas três amigas se espalhavam pelo chão cheio de palha. Mas não estávamos só nós 4 ali.
- Oi – aproximou-se uma menina que surgiu no meio das sombras, mas, dados os recentes acontecimentos nem cheguei a me assustar – Meu nome é Isabella Noal, mas pode me chamar só de Noal. – ela se aproximou e colocou a mão no meu ombro, pronta pra um abraço — Sinto muito pelos seus pais.
Fale com o autor