Slytherin Flowers
7 Capítulo 6 - O Salão Principal
Notas iniciais
Respirar fundo.
Era tudo o que ela precisava fazer. Sentir o ar entrando em seus pulmões e se acalmar logo. A aula de Transfiguração estava acontecendo, e o professor era bastante rígido, não gostaria que faltasse. Tinha se atrasado em torno de dez minutos, mas poderia inventar uma desculpa, certo?
Errado.
Quando saiu da cabine e se olhou no espelho, Flora percebeu que não estava em condições de comparecer à aula alguma. Os cabelos e as roupas ainda estavam alinhados, mas os olhos extremamente vermelhos e um pouco inchados não escondiam que estivera chorando. Seria óbvio para todos que se debulhara em lágrimas se aparecesse daquele jeito. Não queria passar por aquela situação, por isso dirigiu-se para longe das salas.
Não sabia para onde ia exatamente. A respiração ainda estava desregulada pelo choro, às vezes ela suspirava forte automaticamente. Ajeitou as vestes por força do hábito e continuou descendo escadas e mais escadas. Ela se sentia estranha naquele momento, o choro fora incontrolável; Flora não gostava de não ter controle sobre as coisas. Não se sentia melhor. Sinceramente achava uma droga, porque parecia que as lágrimas lhe trouxeram um peso ainda maior: o sentimento de fraqueza.
O dia se encontrava cinzento, como um espelho de seu humor. As nuvens estavam escuras, e Flora se animou minimamente com a possibilidade de chuva. Parando de andar, ela riu ao reparar onde estava: no Salão Principal. No momento ele se encontrava vazio e Flora agradeceu por isso. Sentou-se à mesa da Sonserina, aproveitando para pôr as pernas em cima do banco, sentindo-se rebelde por um momento.
Sorriu leve, sem humor. Uma coisa daquelas simplesmente não parecia engraçada no momento. Flora refletiu por um segundo, considerando o que fazer. Não queria voltar ao dormitório, mais cedo ou mais tarde Pamela apareceria por lá. Então, ficaria ali mesmo. Retirou da bolsa escura que carregava um caderno de desenho e um lápis, materiais trouxas mais convenientes para aquilo do que uma pena e um pergaminho.
Seus desenhos costumavam serem coisas como flores, o símbolo de Hogwarts e da Sonserina, ela mesma jogando Quadribol — o braço estendido enquanto lançava a goles... Albus pedira uma vez que ela fizesse um retrato dele, e Scorpius que desenhasse o time de Quabribol, ele no centro como capitão.
Flora não sabia como diabos ele descobrira que ela desenhava, e nem como conseguia ser tão cara de pau para pedir algo a ela, mas acabou realizando o pedido porque gostou da ideia dele. De qualquer jeito, fazia um bom tenho que não rabiscava nada, então não tinha nenhuma ideia em especial do que fazer.
Apoiou o queixo nas mãos, suspirando desanimada. Tendo uma ideia súbita e estranha ao fitar a mesa próxima, levantou-se, andou e sentou-se novamente, só que dessa vez na mesa da Grifinória. Riu de seu pequeno feito, passando as mãos pelo tampo exatamente igual ao da mesa da sua própria casa e percebendo que não havia tanta diferença assim.
—Se divertindo aí, Salexto?
Dando um pulo e olhando para cima assustada, Flora percebeu que James Potter estava a sua frente. O olhar curioso passava dela, para a mesa da Sonserina e em seguida para a da Grifinória. Ele sorriu maroto de repente, encarando-a de forma penetrante como se esperasse uma explicação. As bochechas dela esquentaram.
Ok, James tinha que admitir: considerou aquilo extremamente... Instigante. Salexto sentada à mesa de sua casa e vermelha de vergonha. Inacreditável. Por um momento fantasiou ela como uma grifinória, o brasão vermelho e dourado reluzindo no peito, ou talvez ela com as vestes vermelhas do seu time de Quadribol...
— Não é da sua conta, Potter.
Ele ergueu as sobrancelhas. Ah... Não. Flora Salexto era sonserina. Da ponta dos pés até o último fio dos cabelos. Aquela língua afiada não negava isso.
— Potter? Minutos atrás era James.
— Todos têm momentos de distração, não é? — Ela entrelaçou as mãos e o fitou, depois tombou a cabeça em direção a porta. Uma mensagem clara que dizia “Quero você saia daqui o mais rápido possível”.
— Hm. — Ele exclamou sem interesse, dando as costas para Flora e caminhando até onde suas coisas estavam. Sentou-se na mesa virado para ela e apoiou os braços para trás, sorrindo debochado em seguida. — Aqui é legal também. — Fez um sinal de positivo com a mão esquerda.
Flora irritou-se. James odiava aquela casa. Albus dizia que ele vivia implicando com ele por pertencer à Sonserina. Instigava competitividade em todos os sonserinos... Não tinha o direito de estar sentando naquela mesa.
— O que você está fazendo aí!? — Ela perguntou, estreitando os olhos para ele.
— O que você está fazendo aí? — Ele repetiu a pergunta, cruzando os braços.
Flora sentiu uma súbita vontade de rir, a irritação esquecida. Teve de abaixar a cabeça para esconder um sorrisinho incontrolável, odiando-se por isso. Maldito senso de humor deturpado. James estava muito calado, e ela achou isso suspeito. Ergueu a cabeça para procurá-lo, encontrando-o no mesmo lugar, olhando para o seu caderno fixamente. O caderno de desenhos.
Praguejando mentalmente, ela foi apressada até ele, bufando irritada ao parar em sua frente e constatar que Potter já tinha visto a maioria dos desenhos. Fechou o caderno, sendo acompanhada pelo olhar atento dele.
— Não deixei você mexer nas minhas coisas. — Ela inclinou-se para guardar o caderno novamente na bolsa, deixando os cabelos taparem seu rosto irritado. Não gostava que ninguém visse seus desenhos, ainda mais o maldito arrogante do Potter!
Sentiu uma mão pondo seus cabelos atrás da orelha, prendendo-os para que pudesse ver seu rosto. Corou furiosamente ao perceber quem fora e virou-se para olhá-lo. James continuava sentado, e como ela ainda estava inclinada, eles estavam muito próximos. O olhar castanho esverdeado se fixou no dela. Flora achou muitíssimo interessante o fato de conseguir decifrar o que ele sentia só fazendo aquilo. James era um livro aberto, estava praticamente estampado em seu olhar que ele sentia a mais pura... Curiosidade.
Bem, é! James estava adorando aquilo e achando curioso. Os olhos muito azuis dela eram hipnóticos. Por mais que ele olhasse, não conseguia se cansar de tentar entender o que ela escondia. O que ela pensava no momento. Os cabelos voltaram a escapar, ele automaticamente ergueu a mão para pô-los novamente no lugar, sem conseguir conter-se, mas Flora impediu-o no meio do caminho, segurando seu pulso.
— Me deixe em paz, Potter.
E saiu. Sim! Juntou suas coisas na velocidade da luz e desapareceu pela porta do Salão Principal. James se esparramou pelo banco da Sonserina, se sentindo estúpido por estar sentando ali e por... Ah, simplesmente se sentindo estúpido, oras!
Não tinha nem perguntado a ela o que lhe acontecera antes da aula de Transfiguração para que saísse tão transtornada pelas escadas. Merlin, Flora tinha até lhe chamado de James!
Que garota incompreensível!
♔♔♔
Albus saia da aula de Poções respirando fundo e pensando no que faria para se redimir com a melhor amiga. Certo, em nenhum momento ele tivera a intenção de ferir Flora, mas isso acontecera, e não podia deixar de pensar que ela sua culpa.
Albus não podia dizer que tinha muitos amigos.
Bem, ele tinha os primos e amava a todos eles. Eram sua família e estavam lá sempre que ele precisava, mas era sempre a uma certa sonserina que ele corria quando precisava de conselhos, de apoio e de conforto. Porque, embora confiasse nos primos, o laço familiar sempre o impedia de contar coisas pelas quais podia receber julgamento.
E por ser filho de Harry Potter, ele era muito popular. Não tanto quanto o irmão mais velho, mas ainda assim era difícil encontrar pessoas que não estavam interessadas no status de serem próximas ao filho d’O Menino Que Sobreviveu. E era aí que Flora entrava.
Para ela não importava que ele fosse um Potter, ou se ele fosse um nascido-trouxa, se seu pai era um presidente ou um assassino famoso. Para Flora ele sempre seria apenas Albus, e essa ideia o confortava. Então, se sentia extremamente culpado pelas palavras que proferira horas atrás.
— Rose! — ele chamou, caminhando ao lado dela quando se encontraram no caminho do Salão Principal. Era hora do almoço e queria falar com a prima antes de voltar às aulas.
— Oi, Al. — A ruiva sorriu, olhando-o curiosa por causa do afobamento que ele transparecia.
— Preciso de um favor seu.
Os olhos verdes transmitiam seriedade, e tal fato fez com que Rose temesse, sinceramente, o que o primo iria pedir.
♔♔♔
Começara a chover. Estava frio, e Flora não tinha trago a capa para as aulas. Com preguiça de voltar ao dormitório, dirigiu-se ao Salão Principal para almoçar, decidindo que podia suportar o clima ameno por mais algumas horas. Depois de conversar com James, ela tinha ficado no campo de Quadribol, sentada nas arquibancadas e esperando o tempo da aula de Transfiguração acabar.
Tivera muito tempo para pensar, mas não conseguiu tirar conclusões do porquê ter se deixado ficar tão próxima ao canalha do Potter. Sentia saudades da época que se ele ficasse a menos de dez metros de distância, o ameaçava com um feitiço. Agora? Deixava que ele até mexesse em seu cabelo!
Sem dúvidas, estava amolecendo.
Sentia fome. Albus dizia que ela comia demais para alguém de seu tamanho, mas não era como se ela se importasse. Esse pensamento fez com que se lembrasse do que o amigo tinha lhe dito e, embora tentasse evitar, a mágoa consumia seu coração.
Buscando esquecer esse assunto, ela entrou no Salão Principal e sentou-se à mesa de sua casa. O local estava lotado, e ela percebeu que tinha se atrasado um pouco. Logo o almoço foi servido e ela sentiu falta de alguém para conversar, já que sempre comia com Albus. Scorpius estava lá, mas não era como se tivesse muito assunto com o loiro, que estava aparentemente distraído.
— Ai, ai. — Uma voz feminina se fez ouvir, entre suspiros. Ao mesmo tempo Flora sentiu alguém deslizar para sentar ao seu lado. Constatou, surpresa, que Rose Weasley estava ali. Agindo como se fosse super normal simplesmente se infiltrar na mesa da Sonserina e ao lado dela.
— Por que está sentada aqui? — Perguntou educadamente, escondendo a curiosidade enquanto levava um pedaço de torta de frango à boca.
— Vim resolver assuntos da Monitoria. Não se preocupe, McGonagall não vai se importar.
Flora continuou mastigando por um momento, aproveitando o tempo para refletir sobre as palavras de Rose.
— Podemos resolver isso depois se quiser. — Ela torceu internamente para que Rose aceitasse a sugestão. Era estranho comer ao lado dela, como se fossem íntimas ou algo do tipo. E pelo que se lembrava não tinham assuntos urgente a tratar sobre a Monitoria.
— Tenho tantas as coisas a sugerir que vou ocupar o seu tempo de almoço, e algum tempo após as aulas. O que acha da biblioteca?
♔♔♔
Flora estava achando todo aquele tratamento tagarela de Rose muito estranho.
Mesmo que a ruiva aparentasse ser alguém que gostava de conversar, conversar com ela nunca parecera um dos desejos da Weasley. De repente, ela tinha mil idéias para a Monitoria, e Flora se apressava para anotar todas elas em um pergaminho. Algumas eram verdadeiramente idiotas, como se Rose tivesse acabado de inventá-las, mas havia uma ou duas interessantes, que deixaram Flora levemente impressionada.
Ela começava a ficar irritada quando passou a escrever na terceira folha de pergaminho, e Rose só parou para respirar um pouco depois que todo o espaço disponível nele fosse preenchido. Flora soltou um suspiro aliviado, suas mãos doíam levemente.
— Por Merlin, dá onde saiu tanta criatividade? — Era uma pergunta para ninguém, já que ela repousou sua cabeça na cadeira e apreciou o teto da Sala dos Monitores por um instante antes de fechar os olhos, deixando claro que não esperava uma resposta.
— Estava aqui pensando... Não acha que poderíamos apresentar um projeto de reforma no castelo? — Flora massageou as têmporas ao ouvir a pergunta. Não era possível que alguém pudesse ser tão insuportável.
— Não! — Abriu os olhos, pensando no trabalho que daria fazer Filch sequer pensar na ideia. — Por Merlin! — Repetiu o chamado. Só Merlin para lhe ajudar numa situação dessas. Sua rival querendo discutir planos por horas depois do almoço.
Daqui a pouco teria que ir para a aula de História da Magia e Flora nunca se sentiu tão grata por isso. Por um momento, pensou ter visto um sorriso satisfeito nos lábios de Rose, como se ela estivesse cumprindo uma tarefa árdua e estivesse orgulhosa de si mesma, mas quando a olhou com mais atenção, não havia nada. A ruiva finalmente parou de falar, olhando pela janela sem realmente ver, pensativa.
Flora guardou todos aqueles papéis na bolsa, bufando ao perceber que teria de analisá-los mais tarde. Devia haver dez minutos restando para que tivesse de ir à aula, mas decidiu que poderia usar essa desculpa para sair dali o mais rápido possível.
— Bem, vou indo. — Acenou distraída para Rose enquanto se levantava da cadeira e ajeitava a bolsa nos ombros. Ouviu um arrastar apressado de madeira rangendo, e mais rápido do que pôde acompanhar, a garota já estava ao seu lado.
— Nós temos a mesma aula agora. — Constatou o óbvio. Flora franziu os lábios por esquecer esse detalhe. — Vou com você.
A Salexto fez uma cara de desagrado enquanto abria e passava pela porta, sendo seguida pela outra. Flora não entendia por que Rose parecia tão subitamente próxima a ela, mas constatou que seria rude perguntar alguma coisa, deixando pra lá. Elas caminharam em um silêncio agradável, atraindo alguns olhares curiosos de outros alunos. Rose, apesar de baixa, caminhava rápido, o que agradou Flora, porque aqueles olhares inquisitivos estavam lhe dando nos nervos e tudo que ela queria era escapar deles o mais rápido possível.
Professor Binns — o qual todos já haviam aceitado como eterno professor da matéria — já estava lá, esperando que todos os alunos entrassem. O ambiente se tornou maçante de repente, como todas as aulas da matéria, e Flora sentiu a letargia tomar conta dela assim que sentou em uma mesa próxima ao fantasma. Percebendo que estava finalmente sozinha, olhou para trás, procurando a Weasley. Rose tinha sentado perto dos primos e conversava animada com eles. A garota a pegou olhando e acenou sorridente, fazendo com que todos da família olhassem para frente, inclusive James, que inclinou a cabeça com um nítido sorriso maroto.
Flora voltou-se para o professor antes que eles pudessem olhar para sua expressão contorcida. Os acontecimentos daquele dia não ajudaram muito a melhorar a imagem que fazia do Potter. Na verdade, agora sentia vontade de cortar cada mecha de seu cabelo que ele tocara. Atrevido. O problema era que, bem, ela não estava tão indignada como queria.
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