Skyrim - Das cinzas
19 Capítulo XIX - Julgamento Familiar - FINAL DO LIVRO 1
A Catedral de Volkihar era um lugar ainda mais sombrio do que qualquer outro no castelo, mais até do que as ruínas da ala abandonada. Era um lugar que evocava o mal em sua essência. De alguma forma, a luz, teoricamente do sol, que entrava pela janela era pálida e enfaquecida, como se fosse a luz do luar. As grandes pilastras de pedra erguiam varandas, as quais podiam ser acessadas por escadarias enormes. A arquitetura era diferente de tudo em Skyrim. Talvez, antiga até de mais, talvez, muito à frente de seu tempo. Uma coisa era certa: o Clã Volkihar não medira custos ou esforços para fazer o santuário perfeito para a divindade a qual representavam: Molag Bal, o Deus dos Esquemas e Príncipe Daédrico da dominação e escravização dos mortais. Ele também é conhecido pelos títulos "O Prince Maquinador", "O Coletor de Almas", ou “O Pai de Coldharbour”. O criador de Vampiros. O criador do Clã Volkihar. O deus que fez de Serana o que ela era hoje.
Serana lembrou-se das tardes que passava com seu pai no castelo, ainda menina. Harkon Volkihar era um homem bom, apesar da nobreza. Conseguiu sua fortuna com os contatos certos em Solitude, e usou seus lucros para dar atenção e vida boa para sua pequena Serana e sua amada esposa, Valerica. Ele era um homem alegre, cheio de energia.
Lembrou-se de quando ela e sua mãe começaram a cuidar do Jardim do pátio interno. Valerica costumava fazer coroas de flores para ela, enquanto contava para ela histórias antigas de Skyrim, como a lenda de Alduin, o Imperador dos Dragões. Ela se lembra de ter medo da Irmandade Negra. Medo que viessem à noite, ou até mesmo à luz do dia, e tirassem dela seus pais.
Lembrou-se do dia em que seu pai chegou, extremamente ferido, após uma caçada que terminou em tragédia após o ataque de bandidos. Seu tio, irmão de Valerica e amigo íntimo de Harkon, morrera durante o acontecido, mas um homem misterioso salvara o pai de Serana. Um homem a quem agora Harkon devia a vida, e que o pagamento era simplesmente juntar-se, junto de todo o Clã Volkihar, ao culto à Molag Bal.
Serana então lembrou-se do ritual que foi forçada a participar, da experiência degradante que ocorreu. Primeiro, ela, na frente de todos os cultualistas, precisava se despir e então entrar numa piscina cheia com o sangue de homens que teriam sido sacrificados em nome do Lorde Molag Bal, entrando embaixo de uma pequena cascata que jorraria mais sangue em sua testa, depois, mergulhando. Ela sentiu, dentro da piscina, como se mãos invisíveis deslizassem por todo seu corpo. Sentiu uma dor aguda e repetitiva em sua vagina, que vinha em pontadas, depois uma forte dor em seu útero. O ar acabava em seus pulmões, mas ela não podia emergir — algo a segurava embaixo de todo aquele sangue. Ela queria gritar, mas não podia.
Quando acordou, sentia sede. Ela só viu que matou um vilarejo inteiro depois de tê-lo feito.
Lembrou-se de como seus pais mudaram a partir daquele dia. Sua mãe ficou obcecada com necromancia, como se tivesse urgência em ressuscitar os mortos. Ficou paranóica. Seu pai, num impulso de proteger a família, enfiou-se numa profecia que os protegeria não só dos seres humanos, mas do sol. “O sol nunca mais ameaçará você, minha filha”, ele dizia, “papai vai cuidar de tudo, está bem?”
Ela passou a ver os dois cada vez menos. Vez ou outra ela se aventurava além dos muros da Fortaleza que Harkon estava construíndo para mantê-los afastados dos humanos. Conheceu homens e mulheres, no mínimo, interessantes, mas, como ela pôde perceber, passageiros de mais para sua imortalidade e incompreensivos de mais para quanto a sua condição. Elas a tratavam como um monstro quando descobriam sua verdadeira natureza.
Monstro assim como aquele postado à sua frente, naquele momento.
Harkon estava postado logo em frente à imponente estátua de Molag Bal que se erguia no altar. Uma mulher, uma vampira, estava junto dele. Ele se virou para ver a filha entrando pela porta. Então olhou para a mulher ao seu lado.
—Me desculpe, minha cara, mas isso é para um bem maior. — disse ele.
Com um movimento rápido, ele puxou-a para si e mordeu seu pescoço, transformando-a em pó quase instantâneamente. Feito isso, ele limpou sua boca e novamente realizou sua transformação novamente. Então, ele andou até Serana, encarando-a, e ignorando a presença do rapaz de cabelos grisalhos que a acompanhava.
—Então, você voltou. — ele começou, olhando-a com desaprovação — Seu… bichinho… está lhe mantendo entretida? Vejo que alimentada também. Bom saber que conseguiu uma bolsa de sangue ambulante.
—Você sabe por que estamos aqui. — retrucou Serana, com um tom seco.
—Claro que sim. — o tom de Harkon era debochado e depreciativo — Você me decepciona, Serana. Você pegou tudo o que eu concedi a você e jogou fora por esse... ser patético e digno de pena.
—“Concedeu a mim”? — a voz de Serana tremeu de raiva — Você está louco? Você destruiu nossa família. Você matou outros vampiros. Tudo por uma droga de profecia que mal entendemos. — ela suspirou e tomou um tom gélido e ameaçador — Não mais. Eu estou farta de você. Você não tocará nele.
—Então, este dragão tem presas. — Harkon manteve seu tom jocoso — Suas palavras escorrem com o veneno da influência de sua mãe. Quão parecidas vocês se tornaram, afinal.
—Não… — Serana respondeu — Porque, ao contrário dela, não tenho medo de você. Não mais.
Harkon, parecendo ignorar a última coisa dita por sua filha, finalmente voltou-se para Duncan.
—E você… parece que eu tenho que agradecer por ter virado minha filha contra mim. Eu sabia que era apenas uma questão de tempo antes que ela voltasse com o ódio em seu coração.
—O ódio nascido de sua negligência. — Duncan disse, secamente.
—Um pequeno preço para pagar o melhoramento de nossa espécie. — Harkon retrucou.
O olhar de Duncan se encheu de desdém.
—Isso é tudo com o que você se importa, não é mesmo? — respondeu o rapaz — Gente como você é uma praga nesse mundo.
—Sim, sim. — o Lorde Vampiro sorriu diabolicamente — Sempre o nobre caçador de vampiros. E o que acontece quando você me matar? Valerica é a próxima? Ou Serana?
—Não tem nada a ver com vampiros, Harkon. Tem a ver com gente que é tão bêbada com o próprio poder que acha que pode passar por cima de quem for para ter o que querem.
—Isso é algo que vocês, plebeus, nunca entenderam. Quando se tem poder, eu posso passar por cima de quem eu quiser, e posso ter o que eu quiser. E não preciso manipular a filha de ninguém para usá-la de escudo contra meu oponente. Tudo o que você está fazendo é mal para minha filha, seu cachorro sarnento.
—Eu jamais prejudicaria Serana. Ela é muito importante para mim, ao contrário do que é para você.
—Então minha filha está realmente perdida. — Harkon respondeu com falso pesar — Ela morreu no momento em que aceitou um mortal em sua vida. Se você acha que pode usar meu comportamento para justificar seu senso torto de moralidade e fugir da culpa, que seja.
—Basta!- Duncan rugiu.
—Sim, basta. — Harkon sorriu — Estou cada vez mais cansado de falar com você e com minha filha traidora. Eu lhe darei uma chance única de me entregar o arco. Não haverá uma segunda.
—Ora… não posso entregar algo que não está comigo, Harkon. — Duncan sorriu. — Arco é um aparato enorme, o qual eu não poderia esconder ou ocultar, afinal meu conhecimento sobre magia é muito limitado.
—Então você não tem utilidade para mim, mortal. Faça o que sua espécie faz de melhor, e morra em vão.
Harkon imediatamente conjurou três esqueletos e duas gárgulas. Seres, esses, que Duncan e Serana já estavam fartos de matar.
—Enfrente suas próprias batalhas, pai! — gritou Serana.
—Eu prefiro não sujar minhas mãos com seres inferiores como seu bichinho. Quanto à você, eu já devia ter matado você e sua mãe há muito tempo.
Duncan e Serana não teriam problemas em derrotar os inimigos não fosse pelo fato de Harkon constantemente usar sua força para criar tremores que faziam Duncan perder o equilíbrio, e com isso, o ritmo de suas passadas. Mesmo assim, Serana conseguiu eliminar ao menos as gárgulas, enquanto Duncan usava a Dawnbreaker para criar devastadores pulsos de energia. Harkon observava à distância, em segurança no altar.
Quando terminaram, voltaram-se para Harkon, que prontamente lançou uma magia que se assemelhava muito a uma onda de sangue. Duncan lembrava-se do efeito daquele sangue, graças ao filho bastardo de seu atual oponente.
—Sua velocidade humana não vai livrá-lo para sempre de meus poderes, garoto! — Harkon ria.
Serana partiu para cima dele, acertando-o com uma magia de raio.
—Talvez ele, não. Mas eu posso matar você. — disse a vampira.
Harkon se desfez em um enxame de morcegos que, num piscar de olhos, alcançou Serana. Quando voltou à forma física normal, segurou a filha pela cabeça, jogando-a contra uma das pilastras, quebrando-a e fazendo com que a pequena varanda desabasse sobre ela.
Duncan partiu para cima de Harkon com a Dawnbreaker em mãos, desferindo golpes com ímpeto. Golpes dos quais Harkon desviou com extrema facilidade. ao contrário do que seu tamanho indicava. Harkon então resolveu acabar com isso.
Com apenas uma mão, ele segurou a lâmina da Dawnbreaker. O chiado e o cheiro indicando carne sendo queimada pareceram não incomodar o Lorde Vampiro, para a surpresa de Duncan.
—Você realmente achou que esse seu brinquedinho poderia ferir a mim, o vampiro mais poderoso de toda Skyrim? — Harkon falou com a imponência de sempre.
Então, com um simples empurrão, Duncan foi arremessado na parede, batendo as costas e fazendo-o perder todo o ar dos pulmões. Com a visão turva, ele viu Harkon pegar a Dawnbreaker, uma mão na lâmina, outra no cabo, e forçá-la. A lâmina emitiu um brilho forte, como se pedisse por socorro, então quebrou-se, perdendo totalmente o brilho.
—Patético. — Harkon comentou, jogando o que sobrou da espada no chão.
O rapaz grisalho desembainhou a Lâmina dos Nightingales e partiu para cima de Harkon novamente, que respondeu a investida com outra onda de sangue. Dessa vez Duncan estava perto demais para desviar a tempo.
A dor poderia ser descrita como um chicote cheio de espinhos em brasa. Duncan sentiu como se seu corpo perdesse o peso logo antes de sentir as costas no piso de pedra. Tentou não pensar na dor. Seus ouvidos zuniam. Levantou-se, tonto. Não podia se dar ao luxo de ficar deitado. Empunhou a espada novamente.
—Você é insistente. — comentou Harkon. — Muitos admirariam isso em você, mas não eu. Para mim, você é simplesmente irritante e tolo.
Deixe ele falar, pensava o rapaz. Deixe ele falar, encontre uma abertura. Não importa se para ele você é irritante ou tolo.
Duncan começou, lentamente, a rodear Harkon.
—Ajoelhe-se. — disse, Harkon — E quem sabe eu lhe darei uma morte rápida.
—Vá a merda. — o rapaz retrucou.
Harkon moveu o braço para conjurar mais uma onda de sangue. Por uma fração de segundo, ele se tornou vulnerável. Fração de segundo, essa, que Duncan aproveitou para atacar. Harkon imediatamente cancelou o feitiço para se defender com as garras, mas era com isso que Duncan contava. Quando a espada tocou Harkon, o feitiço dela teve efeito, e o rapaz pode sentir a vitalidade de Harkon sendo sugada pela espada e vindo até ele.
Revigorado, ele lançou mais uma saraivada de golpes consecutivos, os quais Harkon majoritariamente aparava, dando a Duncan mais força. Ele quase sorriu com a ironia de estar drenando a vitalidade de um vampiro.
Quando o Lorde da corte dos Volkihar percebeu o que estava havendo, instantaneamente se transformou em um exame de morcegos novamente, forçando a distância entre ele e o caçador de vampiros.
Mas o Dawnguard não estava disposto a desistir agora que tinha vantagem. E, como antecipado por Harkon, ele veio com mais uma investida. Harkon usou uma fração um pouco maior de sua força para atirar longe a espada, prendendo-a na parede, além do alcance de Duncan. Então, pegou-o pelo pescoço e o ergueu.
—Você voltou minha filha contra mim… agora eu não tenho escolha. Primeiro, você morre, depois, Serana sofre!
Duncan olhou para Serana, que depois de se livrar dos escombros, estava vindo ajudá-lo. Não se viu com outra escolha. Com toda a força, chutou Harkon no rosto, forçando o vampiro a soltá-lo. Então, ainda recuperando o fôlego, enfiou a mão na gola de sua armadura e de lá tirou um colar de metal com um pingente redondo com a imagem de um lobo talhado no mesmo. Respirou fundo e arrancou-o do pescoço.
Os ossos dele começaram a estalar e a se expandir. Uma dor insuportável tomou seu corpo e uma pior ainda tomou sua mente. A morte parecia algo trivial com aquilo. Com garras que cresciam de seus dedos arrebentando a pele da ponta dos mesmos, aquela criatura disforme começou a arrancar a própria pele como se a mesma fosse falsa. Debaixo da mesma, maços de pelo cinzento apareciam, enquanto seus gritos e grunhidos se transformavam em rugidos cada vez mais animalescos.
Em pouco tempo, no lugar daquele jovem de cabelos grisalhos, havia uma fera pouco maior que Harkon em sua forma vampiresca, ainda trajando a parte de metal da armadura da Dawnguard, rasgada e esticada até o limite. Os olhos amarelos brilhantes da fera olhavam Harkon, enquanto aquela coisa arfava, recuperando o fôlego depois da transformação. Então, colocando um dos braços no chão, como a pata dianteira de um lobo, ele rosnou, depois soltou um longo uivo.
—Então… essa é sua verdadeira natureza. — desdenhou Harkon. — Um ser sem consciência, uma besta horrenda feita apenas para matar. Não somos tão diferentes assim, você e eu. Mas enquanto eu sou feito para mandar, você é feito para servir.
A criatura estreitou os olhos e arreganhou os dentes.
—Não sei por quê perco meu tempo tentando manter diálogo com você. Você é só um lobisomem! A única diferença são seus pelos… — ele partiu para cima do lobisomem, prendendo- o na parede — …. que serão uma ótima adição à decoração do meu castelo!
O lobisomem pegou Harkon pelo pescoço e o ergueu, batendo-o contra a parede e contra o chão.
—Eu e você… — disse a criatura, com uma voz rouca e distorcida — somos bem diferentes.
Ele arremessou o lorde vampiro para o meio do salão, saltando sobre o mesmo. Harkon conseguiu evitar que Duncan abocanhasse seu pescoço, mas não evitar que ele arranhasse seu rosto. Com um chute, Duncan foi tirado de cima do vampiro.
Os dois travavam uma luta sangrenta, enquanto Serana, pela primeira vez na vida, se sentiu impotente. Duncan estava tão próximo de Harkon o tempo todo que seus feitiços o acertariam também. E para travar uma batalha de perto com Harkon, ela teria que se transformar naquela coisa horrenda.
Não.
Aquela forma vampiresca corromperia seu ser, assim como fizera com seu pai. Uma vez já foi o suficiente, e até então ela sofria com seus efeitos. Para ela, de nada adiantaria se ela conseguisse matar seu pai, se Duncan e a Dawnguard fossem suas próximas vítimas.
Ela assistiu, impotente, enquanto Duncan arrancava um pedaço da asa de Harkon e enquanto Harkon abrira um profundo corte na armadura e no peito de Duncan.
Duncan, após acertar um golpe em Harkon, pegou-o novamente pelo pescoço.
—Seu deus importa tanto assim para você, Harkon? — Duncan rugiu — Então pode ficar com ele todo para você!
O lobisomem então arremessou Harkon contra a estátua de Molag Bal, quebrando-a. O vampiro levantou-se com um sangue escuro escorrendo de sua boca.
—Eu estou farto de você, caçador de vampiros!
Ele saltou contra Duncan, arremessando-o contra a janela da catedral, fazendo com que a luz do sol entrasse. E Duncan saísse.
Harkon olhou pela janela, esperando ver o cadáver de um lobisomem tingindo o chão de vermelho, mas o caçador foi mais esperto, usando suas garras para prender-se na parede, surpreendendo Harkon. Claro, Harkon pensou nessa possibilidade, afinal, oponente nenhum havia dado tanto trabalho antes. Mesmo assim, a investida de Duncan o obrigou a recuar até as escadas do altar. Duncan rosnou.
—Você acha mesmo — disse Harkon, furiosamente — que pode entrar na minha casa, voltar minha filha contra mim e não sofrer as consequências? Serana não é sua, ela é minha! MINHA!!
Logo quando ele disse isso, uma flecha dourada atravessou seu peito. Ele olhou para trás, incrédulo.
Serana apontava mais uma flecha com o Arco de Auriel.
—Eu não sou de ninguém...pai. — ela disse, soltando a flecha, que acertou o meio do peito de Harkon.
—Serana… como… pode? — o sangue cascateava da boca de Harkon, enquanto seu peito ardia em brasas — Seu próprio…. pai…
A pele monstruosa de Harkon começa a se desfazer, como se derretesse em sangue, deixando apenas um esqueleto vermelho, que logo virou pó.
Serana andou até Duncan, que arfava com dificuldade devido aos ferimentos.
—Serana… eu…
—Shh… está tudo bem. É você ainda aí dentro, não é?
—Sim… mas sem meu pingente, não posso voltar à forma humana. — a voz de Duncan se encheu de pesar.
Serana deu um sorriso.
—Bom…. apesar de você ficar um cachorrinho muito fofo assim, acho que isso aqui é seu. — ela mostrou o colar, então o pôs no pescoço de Duncan.
Instantaneamente, seu corpo começou a murchar e seus pelos começaram a cair em tufos. Seus olhos foram a última coisa a voltar ao normal. Ele sorriu.
—Obrigado. Bom saber que sua magia de ilusão conseguiu ocultar o Arco.
—Sim…. meu medo era meu pai conseguir ver através dela, mas quando ele pediu o arco a você e não a mim, eu sabia que nosso truque tinha dado certo…
Isran entrou na catedral mancando e com a ajuda de Florentius.
—Então… acabou. — disse ele — Ele está morto. E a profecia morre junto dele.
—Eu e Arkay sempre tivemos fé em vocês. — disse Florentius, sorrindo.
Isran olhou para Serana com orgulho, mas pena em seu olhar.
—Eu sei que isso deve ser…. difícil para você. — disse ele.
—Eu acredito que meu pai morreu faz muito tempo. Isso foi apenas…. o fim de alguma outra coisa. Só fiz o que tinha que ser feito. Nada mais.
—Na verdade, acho que você fez muito mais. E por isso, você tem minha gratidão… e eu lhe devo desculpas.
—Você não me deve nada. É parte do seu trabalho não confiar em vampiros.
Isran pela primeira vez deu um sorriso. Ainda que cansado, era um sorriso. Então, voltou-se para Duncan.
—Então, a criatura foi destruída. Não só isso, mas o arco de Auriel está em boas mãos. A Dawnguard agora será dedicada a guardá-lo a salvo, certificando-se de que a profecia nunca acontecerá. Você serviu Skyrim bem. Mesmo com esses vampiros, a luta não acabou por completo. Uma vez que voltarmos a entrar no forte, haverá mais trabalho a fazer. Seria uma honra se pudessem juntar-se a nós. Os dois.
Serana deu apenas um pequeno sorriso. Duncan fez o mesmo. Isran entendeu e, juntamente de Florentius, deixou os dois a sós.
—Bom… é isso, não é? — perguntou Serana, com um sorriso triste.
—É… — Duncan respondeu — Vai…. fazer mais alguma coisa?
—Vou voltar ao Soul Cairn e avisar minha mãe que meu pai se foi… isso a dará a chance de voltar e começar uma nova vida. Depois, acho que vou ficar com a Dawnguard enquanto eles permitirem. Eles são guerreiros respeitáveis e… acho que agora eles vêem a vantagem de ter um vampiro do lado deles.
—Entendo… — Duncan pegou as duas metades da Dawnbreaker e as olhou, guardando a metade com sua empunhadura — sendo assim, eu vou com você até o Soul Cairn, depois te acompanho até o Forte.
—Eu ficaria grata.
***
—Você tem certeza? — Valerica perguntou, incrédula.
—Ele morreu pelas nossas mãos. — respondeu Duncan. — Tenho certeza absoluta.
Ela ponderou.
—Então…. não vejo nada que impeça meu retorno a Tamriel. Me ajudem a pegar algumas coisas e levá-las de volta ao meu laboratório no Castelo Volkihar. E…. do fundo do meu coração, eu lhe agradeço. Por ter detido a profecia, mas acima de tudo, por ter mantido Serana a salvo.
Serana deu um longo abraço na mãe, e Duncan não pode deixar de sorrir.
—O que vai fazer agora, mãe?
—Bem… creio que eu deva voltar a exercer meu trabalho como alquimista. O Soul Cairn me deu uma oportunidade única de continuar meus estudos, e pretendo continuar a minha pesquisa. É o que eu mais amo fazer, e provavelmente é o que farei pelo resto de minha vida…. mas claro, sempre que quiser me fazer uma visita, as portas estarão abertas.
***
Antes de rumar para o Forte Dawnguard, os dois pararam em Riften junto da Guilda dos Ladrões, para que eles pudessem deixar lá os “espólios” do Castelo Volkihar. Quando entraram, porém, Karlaiah os esperava na entrada. A elfa estava sem o capuz dos Nightingales, fazendo Duncan lembrar-se de seus enormes olhos azuis, como um par de ágatas. A elfa caminhou até ele.
—Imaginei que viria até aqui.
—Aconteceu algo, Karlaiah? — Duncan perguntou, preocupado.
—Na verdade, sim. — a elfa respondeu, encaminhando Duncan até a pequena taverna do Caminho dos Ratos. -Veja bem, eu entrei no santuário de Nocturnal, para continuar aguardando por um chamado dela, mas eis que…
Ela abriu caminho. Na mesa, coversando com alguns dos ladrões que ficaram de guarda no esconderijo, ele viu uma garota de cabelos castanho-claros e olhos cor de âmbar. A garota contava algo que erealmente parecia ter sido hilário, então deu uma uma risada doce, gostosa aos ouvidos. Uma risada que Duncan havia sentido falta durante anos. Seus olhos marejaram.
—Âmbar…? — ele mordeu o lábio.
A garota olhou para ele, primeiro surpresa, depois deu um enorme sorriso.
—Duncan!! — ela correu até ele, derrubando a cadeira onde estava sentada, e deu um abraço caloroso e bem apertado no irmão mais velho. Duncan a abraçou de volta e girou-a no ar.
—Você… pelos nove, irmãzinha… eu…. como?
—Nocturnal aparentemente fez um acordo com Meridia ou Arkay, então veio até mim e disse que se eu me tornasse uma Nightingale, eu poderia voltar a Tamriel!
E ela estava falando a verdade. Ela trajava o uniforme dos Nightingales, assim como ele naquele momento, visto que sua armadura estava sendo reparada por Gunmar.
—Mas isso que quebra a regra dos três, não quebra? — Duncan perguntou Duncan.
—Bem… acho que toda regra tem uma excessão. — sorriu ela.
—Você não mudou nada…
—Bom…. levando em conta que eu estava morta, acho que isso é bom, não é?
—Ih, Duncan — disse Vex, jocosa como sempre — Quem é a pirralha?
—Vex, essa é minha irmã de sangue, Âmbar. Âmbar, essa é minha irmã de consideração, Vex.
—Você agora é irmã do Duncan? — perguntou Âmbar inquisidoramente.
—Sou. — Vex retrucou secamente — Vai fazer oq eu a respeito?
Âmbar abraçou Vex forte.
—Irmãzona!
Vex riu.
—Está bem, está bem…. você me pegou. Vem cá, maninha. — ela retribuiu o abraço.
Âmbar então olhou para Serana e estendeu a mão, a qual a vampira apertou, insegura.
—E eu acho que eu tenho que te agradecer por manter esse cabeça oca a salvo enquanto eu estive fora. Quando te vi no Soul Cairn, sabia que podia confiar em você.
—Eu… fico muito grata. — disse Serana, adquirindo um pouco de cor nas bochechas.
Âmbar se voltou para o irmão uma vez mais.
—Bom, maninho, já que a gente pode nunca ter que atender um chamado de Nocturnal, eu acho que vou te acompanhar nas suas aventuras por Skyrim, o que acha?
Duncan sorriu.
—Vai ser ótimo te mostrar Skyrim, maninha. — ele olhou para Serana, que já se encaminhava para a saída — Serana… sei que você queria ficar com a Dawnguard, mas…. seria uma honra ter você junto conosco também.
—Ah, não… — ela respondeu — você já tem sua irmã… eu ia atrapalhar.
Dito isso, ela passou pela porta de volta aos túneis do Caminho dos Ratos. Duncan pediu para que a irmã esperasse ali, então foi atrás de Serana.
—Serana! — Duncan chamou, correndo. Quando chegou, parecia ter corrido uma maratona. Estava exausto. -Serana… por favor, venha comigo.
—Duncan, não… não seria certo. Matamos meu pai, você recuperou sua irmã… é hora de darmos um fim à nossa jornada.
—É o que você quer?
—Não… mas…. aquilo que meu pai me disse…. sobre você ser um bichinho, ou minha bolsa de sangue ambulante…
—Seu pai era um idiota, Serana. Você não precisa dar ouvidos a ele. Ainda mais porque… eu não me importo de ser sua “bolsa de sangue”.
—Mas eu ligo! Não quero te machucar.
—Não vai.
—Duncan, eu…
—Olha… se você quer ir embora, tudo bem. Mas… antes só deixa eu te dizer uma coisa.
—O que?
—Eu te amo.
Serana arregalou os olhos.
—Mas… eu sou um vampiro, um monstro.
—Serana. Eu sou um Lobisomem, ex-membro da Irmandade Negra, Nightingale e matei muita gente. O termo “monstro” é relativo, não acha?
—Mas…
—Ora, — Âmbar disse, chegando perto — sé se beijem logo! Estou querendo ver esse beijo desde que saí do Cairn!
Eles riram e olharam um para o outro. Seus olhares se encontraram. Então, seus lábios. Âmbar pulou de alegria.
—Então… — Duncan lançou um olhar curioso para Serana — você vem?
A vampira sorriu de maneira sincera. Após um momento de silêncio, ela respondeu:
—Vamos escrever mais algumas histórias.
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