Skyrim - Das cinzas

14 Capítulo XIV - Tocando os Céus (Parte II)


—Então… é isso? — perguntou Serana, decepcionada — Outra caverna… Como se eu já não tivesse passado tempo mais que suficiente debaixo da terra.

—Gelebor disse que não seriam só cavernas. — respondeu Duncan.

Serana apenas fitou-o. “Gelebor é um Falmer”, ela pensou, “talvez isso não passe de uma tramoia doentia dele.”

Mas conforme marcharam adiante, sentiram um frio intenso. Uma brisa tão gélida capaz de arder o rosto, doer as entranhas e aquecer corações.

O frio do Norte.

Da superfície.
Das montanhas nortenhas.

E lá estavam eles, na boca da caverna. Atrás deles, um abismo para o qual nenhum dos dois ousara fitar. À sua frente, algo que Duncan jamais esqueceria: Uma paisagem de tundra tão linda quanto possível. Os animais ainda tinham a pelagem bioluminescente da caverna, aumentando o espetáculo. O sol, já bem baixo, tingia o céu de laranja. Árvores se retorciam com folhagens com cores que Duncan jamais imaginara possível. E espalhadas, ainda que visíveis, as três guias restantes: Aprendizado, Resolução e Visão. Cada qual posicionada em cada um dos extremos desse vale esquecido, jamais tocado por homens.

A caminhada fora fácil, ainda que demorada. pelas guias do Aprendizado e da Resolução. Serana esquecera de sua pressa, esquecera de seu pai, esquecera de seus problemas. Duncan sentia-se bem. Olhou para Serana. Fitou-a por um longo tempo enquanto caminhavam. Seus cabelos castanhos, agora pontilhados pela neve que caia suavemente, já não estavam mais arrumados como quando se encontraram pela primeira vez, uma única mecha caía sobre seu rosto. Seus cintilantes olhos amarelados fitavam as pequenas flores que teimavam em crescer em arbustos num lugar frio como aquele. Sua capa fora um interessante adicional à armadura dos Dawnguards, a qual ela ainda trajava com certo orgulho, talvez pela causa pela qual lutavam, talvez por pertencer à Duncan. Apesar de o rapaz preferir acreditar na segunda opção.

—O que foi? — perguntou ela de repente.

—Sobre?

—Não sei, você estava olhando para mim aí, com cara de bobo.

—Nada… só estava pensando longe.

—Longe?

—No futuro. Quando tudo isso acabar.

—Ah, é? E no que nosso querido caçador de monstros estava pensando?

—Ah… você sabe.

—Sei?

Ela parou na frente dele.

—Sabe. — respondeu ele, no tom de sempre, mas com um ar... um pouco diferente.

—Então tem a ver comigo? — ela se aproximou mais.

—Pode vir a ter… — ele sorriu.

Ela aproximou os lábios dos dele.

—Agora, não. — disse ela.

—Por que?

—Não posso pensar nisso. Não ainda. Mas… talvez, quando o Arco estiver fora do alcance do meu pai.

—Parece justo.

Ela então beijou os lábios dele de maneira breve e estralada.

—Pronto, pra você não ficar triste até lá. — ela piscou.

Duncan não evitou o sorriso bobo que veio aos lábios dele.

—Vamos, — disse ela — estamos quase lá.

Subiram um pequeno monte, então se depararam com mais uma visão estonteante. Um lago congelado.

Mas Duncan não ficou maravilhado. Suas pupilas voltaram a ser meros pingos de tinta.

—O que foi?-perguntou Serana.

—Eu não gosto disso. É aberto de mais. É uma emboscada.

—Duncan, não há Falmer aqui, nem nada que com o que devamos nos preocupar. Está tudo bem.

—...Certo.

Eles começaram a andar pela enorme superfície plana e gélida. Logo, sentiram um forte, mas breve tremor sob seus pés.

Um calafrio subiu a espinha de Duncan e ele não soube dizer se era pelo mau pressentimento ou pelo frio.

Logo, o gelo irrompeu com um estouro e algo subiu em direção em direção ao céu. Então, do outro lado do lago, o mesmo aconteceu. E logo caíram, próximos à Duncan e Serana, duas enormes criaturas.

Com certeza eram dragões, mas eram diferentes dos normais. Pareciam ter se adaptado ao ambiente aquático.

Duncan entrou em pânico, assim como Serena. Serana tentou conjurar um feitiço de gelo, mas mudou de idéia. Soltou raios.

Duncan, voltando a si, desembainhou as espadas e partiu para cima de um dos dragões. Tentando levar a luta contra Durnehviir como aprendizado, ele tentou evitar ficar de frente com a criatura ao mesmo tempo que evitava sua cauda. Mas, por mais que ele atacasse, nada, nem a magia da espada dos Nightingales, parecia ter efeito.

Os dois dragões alçaram vôo.

Duncan sacou a besta e começou a atirar, mirando nas asas das criaturas. O com chifres maiores abriu a bocarra, de onde saiu um jato de fogo. Quando este atingiu o gelo, o vapor quente subiu.

—Temos que tomar cuidado com o gelo! — afirmou Serana — Se ele quebrar de mais, podemos acabar caíndo na água!

—Você morre de frio?

—Não… o que é pior, porque vou ficar congelada viva pela eternidade!

—Não no meu turno. — Duncan afirmou mais para si mesmo do que para a vampira, atirando com a besta mais uma vez.

Os dois dragões rugiram e mergulharam. Silêncio.

—Eles…. se foram? — perguntou Duncan.

—Não. — respondeu Serana — Ainda posso ouví-los. Estão nos circulando.

Silêncio…

Era possível para Duncan ouvir a água se movendo sob o gelo no qual ele pisava.

Silêncio…

Apenas pequenos tremores.

Silêncio…

De repente o gelo rachou sob os pés de Duncan. Tudo o que ele teve tempo foi de pular para o lado antes que o gelo se partisse revelando aquele demônio alado cuspidor de fogo. A fera rugiu, talvez furiosa por errar sua presa. Mais um tremor. O outro iria aproveitar que Duncan estava deitado para arrebentar o gelo e engolí-lo ali! Duncan girou o corpo, conseguindo ver através do gelo turvo a enorme bocarra se abrindo. Sentiu algo pegando-o pela gola, então foi arremessado no ar, frações de segundo antes de a criatura sair da água com um estrondo, mas diferente de seu irmão, aquele não estava disposto a desistir de sua presa. Pousou próximo a Duncan fazendo o gelo rachar e avançou, tentando mais um bote. Duncan rolou para o lado, atacando o olho da criatura, que rugiu de dor enquanto o sangue escorria de seu globo ocular.

O dragão preparou-se para outro bote, mas foi interrompido pelos relâmpagos de Serana, que o obrigaram a recuar. Mas Serana tinha outra preocupação. O outro dragão estava atrás dela, fazendo de tudo para matá-la da forma mais dolorosa possível.

E ela estava com medo. Ela se lembrava bem quando, há não muitos dias, foi terrivelmente ferida por um Centurião Dwemer ainda se lembrava de seu corpo queimando, de sua aparência quase não-humana. Ela não queria passar por aquilo de novo. Nunca mais.

Tentou conter a fera com raios, a única coisa que parecia surtir um pouco de efeito, enquanto desviava de suas baforadas flamejantes. Duncan, por sua vez, tentava se manter do lado cego da criatura, obrigando o dragão a abrir sua guarda para tentar atacá-lo. Pisando em gelo fino e rachado, Duncan se via obrigado a dar passadas leves e rápidas. A criatura então alçou vôo novamente, de maneira meio torta por causa da visão prejudicada. Seu irmão fez o mesmo e, novamente, em sincronia, mergulharam, abrindo mais um par de crateras no gelo.

Mas dessa vez Serana tinha uma idéia em mente.

Conjurando uma magia de raios em cada mão, ela castigou a água com uma descarga de eletricidade extremamente potente. Assim se manteve enquanto suas reservas de magia permitiam. A água crepitava.

Novamente, silêncio.

Então eles sentiram algo bater no gelo e, ao olhar para baixo, viram os corpos inertes de dois enormes dragões boiando por debaixo do gelo.

—Você está bem? — perguntou Duncan.

—Estou. Vamos, estamos perto.

Seguiram, em silêncio, para última guia, a Guia da Visão.

Ao serem saudados pelo último fantasma e encherem o jarro com a água do último poço, foram até uma antiga, mas ainda perfeita, ponte de pedra. Logo à frente deles, um enorme castelo com a lendária arquitetura Ayleid, esquecida nos dias de hoje até pelos próprios elfos.

—É disso que estou falando. — disse Serana. — Faz todo o resto valer à pena.

Eles atravessaram a ponte, chegando à um enorme pátio com uma estátua de Auriel ao centro. Serana observou que se tratava da antiga representação do deus, visto que aquela insígnia já não era mais usada mesmo em seu tempo.

Aquele templo, então, era mais velho que Serana.

Aquele templo, então, tinha mais de cinco mil anos.

E mesmo assim estava de pé.

Imponente.

E silencioso.

Encabulado com o pensamento, Duncan despejou o conteúdo do jarro numa enorme bacia, vendo a água então passar por debaixo de seus pés, preenchendo um sol talhado no chão.

Com isso a insígnia de Auriel na porta do enorme templo se acendeu, girou com um enorme estalo e, com um rangido intenso, as portas se abriram.

Ao adentrarem no Santuário, eles estremeceram. Duncan viu as garras de um Falmer se estendendo em direção a seu rosto. Mas as garras não se moveram. O Falmer estava congelado. Dezenas deles. Alguns deles de pé, como se tentassem fugir de seu terrível destino. Outros tentavam chegar à um altar de oração de Auriel, alguns em pé, outros ajoelhados como se em súplica, outros, até mesmo, rastejando num último esforço de escapar.

—Estranho… — disse Duncan.

—O que?

—Eles pareciam estar tentando alcançar o altar de Auriel. Como se ainda tivessem fé… como se ainda estivessem tentando ser salvos.

—Você acha que Gelebor mentiu? Que eles não atacaram o santuário?

—Não. Acho que, para alguém isolado em um pedacinho de terra no meio de uma caverna inóspita, foi o que pareceu.

—Mas e a resistência?

—Estou começando a duvidar que foram os Falmer quem os mataram. Eles foram nada mais nada menos que bode-expiatório.

—Mas… isso não bate com os Falmer que encontramos antes. Aqueles não se segurariam em massacrar os homens de Gelebor.

—Aqueles, não. Mas lembra de quantos anos estamos voltando no tempo? Isso foi logo após o acordo com os Dwemer. Talvez, devido às condições precárias nas quais se encontravam, no desespero, eles tenham voltado até aqui em busca de salvação.

—Mas quem os impediu? Auriel?

—Eu não sei.

Eles andaram pelos corredores do Santuário, vendo mais cenas congeladas. Até que encontraram uma passagem. Uma passagem que os levaria ao âmago de tudo aquilo. Que os levaria ao Arco. Que os levaria a Virthur.