Skyline
1 Soneto
A luz havia falhado na pequena biblioteca da escola. Já era tarde da noite, o céu ressaltava seu melhor e a leve brisa da noite tocava minha face, que mexia pra lá e pra cá os meus fios de cabelo. Acendi uma vela, e comecei a ler poesias.
\"De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Soneto da Fidelidade — Vinícius de Moraes\"
Li este poema, em voz alta (como não costumo gritar, forcei minha voz), sob o clarão da luz da vela. Ela derretia a cada segundo. Este momento, sem a bibliotecária para me supervisionar e me dar bronca, lendo o Soneto da Fidelidade, um momento à só, só eu e os livros.
Ao ler, pela quinta vez, o Soneto da Fidelidade, comecei a refletir sobre ele, meu namorado. Será que ele é tão assim, perfeito? Atrás dessa perfeição, está um lado obscuro? Eu neguei estas possibilidades. Juntos há oito anos, nove anos seria na semana que vem, ele sempre foi fiel, amável e doce para mim. Ele não iria fazer algo assim, tal como me trair.
A brisa tornara-se um vento violento, que balançava as cortinas sem parar e as janelas também. O barulho de gotas caindo no chão indicavam chuva. Decidi alugar o livro das poesias, onde eu estava na metade. Peguei um clipe amarelo para demarcar a página onde parei. Ah! Amarelo, minha cor favorita. Faz tempo que abandonei o padrão amarelo para experimentar outras tendências. Escrevi uma anotação, avisando à bibliotecária que aluguei o livro e peguei um clipe. Sim, eu sou muito correta, inteligente, culta, diferente de muitas garotas daqui.
- Ah! — o vento violento me derrubava. Era muito forte. Balançava meu corpo. Chegou a tal ponto de derrubar o livro, que caiu numa poça de água, longe de mim
- Magali? Isto... É seu? — Cascão apareceu. Parece que ele também estava no colégio. Foi até mim, resistindo ao vento violento, e me entregou o livro — Está ensopada! Vamos, vou te levar para casa — ele me deu um lugar espaçoso em seu pequeno guarda-chuva. Eu era um pouco menor para minha idade. Cascão parecia querer me confortar mais do que queria confortá-lo
- Obrigada, mas não sou nenhum bebê! Não fale comigo nesse tom paternal! - tentava secar meu livro molhado, mas não adiantou nada. Precisava do secador da mamãe, potente, quente.
- Magali, fique quieta! Se eu querote proteger, tenho todo direito. Aqui estamos, sua casa – ele demonstrou um lado protetor, e ao mesmo tempo, um cavalheiro que nunca havia sido visto, abrindo a porta para mim
- Obrigada, Cascão!- impulsionada, sem pensar, beijei seu rosto
- De... Nada... Magali...– suas bochechas ficaram em brasas. As minhas também. Estava envergonhada, o que Quinzo diria sobre minha atitude?
Entrei em casa e achei minha mãe, revendo as contas na mesa da cozinha. A casa estava às escuras, apenas sobrando a luz da cozinha.
- Filha... Estamos num péssimo estado. Se não conseguirmos o pouco de dinheiro que falta, podemos ser despejadas daqui... – minha mãe tirava seus óculos, olhando para mim
- Mãe... Meu emprego de ajudante... Pode ajudar?
- Acho que até o prazo, não...
- Ah... Vamos conseguir, mãe... – desde que meu pai fugiu com todo o seu dinheiro, minha herança e roubou o dinheiro de minha mãe, estamos numa péssima situação. Faz uns cinco meses que vivemos no vermelho, sempre com dívidas. Sentei numa cadeira e abracei minha mãe. Não me importo se formos despejadas, prefiro ficar ao lado dela. Não abrimos nada do essencial, vendemos nossos bens, mas não foi o suficiente.
Subi para meu quarto e comecei a secar o livro, mas no caminho, já tinha secado bem, só faltava um pouco. Enquanto deixei o secador na frente do livro, ventilando suas folhas ensopadas, liguei o meu computador. Nós não podíamos vendê-lo. Além de ser velho, comunicávamos com a maioria dos familiares que moravam no exterior, pois ligações internacionais são caríssimas. Com meu dedão, apertei o botão que iniciava uma viagem emocionante no mundo da internet, onde não havia limites de países, onde a distância não importa. Isso é o mais impressionante dela.
Meu computador, meio lerdo para acordar, demorou um bom tempo para despertar de um sono profundo. Enquanto esperava, deitei na cama. Por algum motivo, comecei a pensar no Cascão.
“Não... Não tenho uma queda por ele! Eu amo o Quinzo!”
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