Sinto Muito - JDD
1 Capítulo do Leo - Sinto Muito
Notas iniciais
Mínimo - Máximo de Palavras: 3508 - 7680
Música: idfc - BlackBear
Local: Ginásio da escola
Tema: Duas garotas de 18 anos acabam presas em um ginásio por estarem brigando. Uma delas possui sentimentos amorosos pela outra, mas sabe que nunca poderá revelar isso.
Personagens (1 - 4): Lara Shelby, Agnes Londrin
Mesmo com todo o espaço disponível naquela estrutura enorme que era o ginásio do melhor colégio de West Ford Beach, o Anchor Beach High School, Agnes Londrin e Lara Shelby se sentiam absurdamente sufocadas ali dentro apenas pela presença uma da outra.
Lara estava frustrada porque há apenas um mês elas eram amigas inseparáveis e de repente tudo mudou, era como se fossem totais estranhas ou até inimigas. E era tão doloroso estar no mesmo lugar que aquela baixinha hiperativa sem ouvir a voz super animada dela para falar de assuntos completamente aleatórios ou o som da risada estranha e escandalosa, mas também tão maravilhosa e contagiante.
Já Agnes não suportava estar tão perto dela sentindo uma saudade tão absurdamente esmagadora, porém com uma magoa ainda maior no coração que a impedia de se aproximar.
“Por favor, me tira daqui e eu juro que faço tudo que você quiser!” — Implorou por mensagem à Melissa, sua amiga cretina que a havia trancado ali.
“O que eu quero é que vocês conversem. E até agora não ouvi nadinha.” — A morena respondeu e mesmo que Agnes não pudesse vê-la, podia imaginar o sorriso irônico e o brilho de deboche no olhar cor de avelã.
“Cara, eu não aguento mais ficar presa. Além de estar sufocando na presença dessa garota, eu to morrendo de fome, sua vaca.” — Reclamou se segurando para não chorar, pois podia sentir Lara observando-a há dois ou três metros de distância de onde estava sentada na arquibancada.
Por um instante, decidiu mirá-la de volta. Quando seus olhos castanhos encontraram os olhos de um lindo tom azul piscina, foi um momento que lhe causou sensações horríveis em proporções impressionantes, ainda mais se fosse considerado que durou apenas um segundo. Naquele instante, Agnes teve certeza que foi um péssimo dia para sair da cama.
Horas Antes
Aquela aula de educação física era para ser mais uma como qualquer outra na Anchor Beach High School, porém já fazia semanas que as aulas de educação física daquela turma do último ano estavam estranhas. A lembrança de Agnes e Lara sendo a combinação perfeita, fazendo as melhores jogadas nas partidas de vôlei e comemorando os pontos com seu típico “toca aqui especial de melhores amigas pra sempre” ainda estava fresca na memória de todos, então continuava a causar estranhamento o fato da pequena Londrin mal olhar para a cara de Shelby nos últimos jogos.
Naquele dia, a treinadora as deixou no mesmo time como sempre, na esperança de que qualquer que fosse o problema entre as garotas, já tivesse sido resolvido.
Agnes já esperava por isso, portanto sua única reação foi respirar bem, bem fundo, o mais fundo que podia, e vestir a porcaria de colete vermelho. Daria o seu melhor em seu jogo favorito e ignoraria o fato daquela garota ser quem era e estar bem ali ao seu lado.
Lara, por outro lado, não conseguia lidar tão bem com isso, mas era boa moça e CDF demais para questionar a decisão de uma autoridade escolar. Além do que, tinha medo de que qualquer coisa que fizesse pudesse ser interpretada de maneira errônea e piorar ainda mais uma situação já horrível, afinal, ainda queria ter sua melhor amiga de volta.
Quando a partida começou, logo a adrenalina corria no sangue de todos e tanto o time amarelo quanto o vermelho faziam um show da quadra, se continuassem assim, os testes para a equipe de vôlei oficial do colégio seriam ótimos no próximo mês.
Tudo seguia bem até um garoto de colete amarelo, Connor Jason Parker, mandar uma bola que parecia impossível de bloquear, mas Agnes conseguiu interceptá-la antes de chegar ao chão, levantando-a para que Lara conseguisse mandá-la de volta como um foguete. E assim os vermelhos marcaram ponto.
Como o velho costume, Shelby se virou com um sorriso e ergueu a mão para Londrin para comemorarem com seu típico “toca aqui”, porém ela apenas a olhou de cima a baixo duas vezes e balançou a cabeça negativamente, quase com desprezo, então produziu uma espécie de ruído estranho com a garganta e voltou a ficar em posição de jogo.
— Ag, para com isso, por favor. — Implorou sentindo seu coração apertar como se tivesse sido posto em um recipiente de metal gelado do tamanho de uma caixa de fósforos, e algumas lágrimas apareceram sem convite, se acumulando nos cantos de seus olhos azuis. — Você agindo desse jeito comigo tá me matando aos poucos. Olha pra mim! A gente não pode ficar assim pra sempre.
— Se não vai soprar esse apito, Treinadora Rarvey, vou beber uma agua. — Murmurou Agnes como se ninguém estivesse falando ao seu lado.
— Não, nem pensar que você vai sair sem me dizer nada. — Lara a segurou pelo braço assim que ela se virou para ir ao bebedouro.
— Meninas! — A treinadora repreendeu, porém sem interferir, queria muito que elas conversassem para poder voltar ao normal.
— Se quer me ignorar, é um direito seu, mas eu tenho o direito de pelo menos saber o porquê. — Foi a vez de Lara desprezar a existência de alguém. — Depois de anos de amizade, você me deve uma explicação.
— Não te devo nada. — Pela primeira vez em semanas, Agnes se dirigiu a sua melhor amiga diretamente, porém o tom cortante chegava a ser pior do que o próprio silêncio, tanto que a força nos dedos ao redor de seu pulso desapareceu, permitindo-a puxá-lo. — Licença.
Da arquibancada, Carly Wendy Madsen e Melissa Lauren Pierce assistiam à cena, total e completamente embasbacadas. Acostumadas a andar no mesmo sexteto desde antes de entrar no High School, pensaram que essa briguinha entre as inseparáveis Agnes Londrin e Lara Shelby não duraria mais do que uma semana e agora elas estavam protagonizando um vexame em frente a uma plateia.
— Isso já tá indo longe demais pra ficarmos só olhando e esperando melhorar. — Disse Melissa no ouvido de sua amiga. — A gente tem que fazer alguma coisa pra ajudar a concertar essa situação.
— Concordo, Mel. — Carly respondeu com uma expressão de desagrado. — Sabe que se tem uma coisa que eu odeio fazer é me meter na vida dos outros, mas caralho... Sheldrin tá se desfazendo. Eu nunca achei que ia dizer isso, mas Sheldrin tá se despedaçando bem diante dos nossos olhos. Uma amizade linda dessas não pode morrer desse jeito, e não vai! É nosso dever não deixar que isso aconteça.
— Jura? Que ótimo. Pensei que ia ser mais difícil te convencer a dar uma de enxerida. — Replicou sorrindo.
— Hahahaha. Muito engraçadinha você. — Murmurou revirando os olhos. — Mas e aí? Por onde a gente começa? Falamos com o Adam e o James sobre isso?
— Hm. Acho melhor não. — Negou depois de ponderar um pouco sobre os outros dois integrantes do grupo. — Sabe como o James é ansioso, vai acabar entregando o plano. E tenho cem por cento de certeza que ele vai ficar chateado se chamarmos só o Adam pra ajudar a gente. Muito chateado mesmo. Tipo, level hard de chateação.
— Tem razão. — Carly concordou.
— Além do mais, eu já tenho uma ideia perfeita e só vai precisar de nós duas. — Disse com um sorriso sapeca.
— Por mais medo que essa sua cara me cause, me conta aí qual o plano. — Pediu Carly suspirando logo em seguida.
— Depois que a aula acabar hoje, você manda uma mensagem pra Lara dizendo que esqueceu uma coisa super importante no seu armário do vestiário aqui no ginásio, mas precisa falar com a Professora Jenkins sobre seu trabalho de biologia antes dela ir embora. — Melissa explicou. — Enquanto isso, eu faço o mesmo com a Ag. Provável que elas acreditem porque a Jenkins sempre vai embora logo que o sinal toca. Depois disso a gente só vai precisar esperar elas entrarem e trancar as duas aqui, então mandar mensagens dizendo “conversem”. E as soltamos quando nosso lindo Sheldrin tiver voltado ao normal outra vez.
— Esse plano é horrível além de muito idiota. — Sentenciou com uma expressão de desaprovação. — Vamos fazer.
— Operação Sheldrin Back em andamento. — Respondeu totalmente empolgada.
Presente
Lara já estava achando que ia ficar louca ali dentro, mas Agnes tinha que piorar tudo colocando fones de ouvido e começando a cantar alto sem nem perceber enquanto mexia no celular com o cenho franzido.
Ag tinha uma voz simplesmente maravilhosa e vivia cantando e cantarolando por aí. Era uma coisa tão de rotina que Shelby só percebeu o quanto adorava aquilo com a saudade excruciante que se instalou desde a ausência.
Tell me pretty lies
Look me in the face
Tell me that you love me
Even if it’s fake
Cause I don’t fucking care
At all
(Me conte lindas mentiras
Olha na minha cara
Fala que me ama
Mesmo que seja mentira
Porque eu tô pouco me fodendo
Nem um pouco)
You’ve been out all night
I don’t know where you’ve been
You’re slurring all your words
Not making any sense but
I don’t fucking care
At all
(Você esteve fora durante toda a noite
Eu não sei onde você esteve
Você está pronunciando todas as suas palavras
Não fazendo qualquer sentido, mas
Eu tô pouco me fodendo
Nem um pouco)
Algo que Lara sempre admirou bastante em sua melhor amiga era como ela conseguia impor sentimentos na voz ao cantar, mas daquela vez estava diferente, parecia tão mais real e pessoal. Era impossível não notar que aquilo era sobre elas, que ainda havia algum sentimento mesmo que enterrado sob várias camadas de algo ruim. Algo que precisava ser retirado.
Cause I have hella feelings for you
I act like I don’t fucking care
Like they ain’t even there
(Porque eu tenho muitos sentimentos por você
Eu ajo como se eu não ligasse
Como se eles não estivessem ali)
Cause I have hella feelings for you
I act like I don’t fucking care
Cause I’m so fucking scared
(Porque eu tenho muitos sentimentos por você
Eu ajo como se eu não ligasse
Porque eu estou tão assustado)
I’m only a fool for you
And maybe you’re too
Good for me
I’m only a fool for you
But I don’t fucking care
At all
(Eu sou apenas um otário por você
E talvez você seja
Demais para mim
Eu sou apenas um tolo pra você
Mas eu estou pouco me fodendo
Nem um pouco)
A partir dessa parte da música Agnes se calou e guardou o celular no bolso, suspirando como se aceitasse uma derrota, então levantou e foi para o vestiário, em seguida voltou com a mochila de Star Wars que pertencia à Melissa. Após mais alguns suspiros e alguns resmungos que pareciam ser as palavras “vadia”, “idiota” ou algo assim, ela abriu o zíper do bolso maior e tirou um sanduíche lá de dentro.
O queixo de Lara caiu em descrença e logo ela mandou uma mensagem muito irritada para aquela desgraçada que teoricamente devia ser uma de suas melhores amigas.
“Carly! Ela tá comendo! Não basta toda a tortura psicológica de estar presa com a pessoa que eu mais amo sem poder falar com ela, ainda tenho que vê-la comendo sendo que meu estômago tá quase saindo pra me dar uma voadora de tantas horas que nada entra nele.”
“Respira, miga, e fica calma.
A gente deixou comida o bastante pra vocês duas.
Só que ela perguntou primeiro.
Vocês ainda podem dividir.
Você só precisa pedir pra ela.” — Carly respondeu em várias mensagens.
“Eu te odeio, sabia?” — Lágrimas escorriam dos olhos de Lara ao digitar. — “Você e a Mel. Porque isso é maldade. Eu tentei falar com ela hoje, todo mundo viu. Já dói o bastante ter consciência de que minha melhor amiga quer distância de mim, não precisava me trancar em uma porra de ginásio pra ela esfregar isso na minha cara por horas a fio.”
— Mel, ela tem razão. — Carly murmurou encolhendo os ombros após ler a mensagem e observar sua amiga ali da sala de projeção acima da arquibancada. — A gente forçou a barra. Pensamos pouco nos sentimentos delas ao prendê-las.
Melissa suspirou ruidosamente e também olhou pala janelinha. — Você sabe que eu odeio admitir que não to certa...
— Pode dizer que tá errada, não vai doer não. — Interrompeu rindo.
— Sim, ia doer sim. Muito. — Respondeu franzindo as sobrancelhas, porém abrindo um sorriso logo em seguida, ainda observando as duas garotas abaixo. — Além do mais, acho que eu não vou precisar.
Carly seguiu o olhar e percebeu que Agnes estendeu a mochila para Lara, mesmo que seu rosto estivesse virado para o outro lado para não ter que encará-la.
— Ela ainda se importa. Há esperanças para Sheldrin! — Exclamou baixo.
— Viu? É por isso que eu não uso aquela palavra. Seria um grande equivoco. — Melissa sorriu ainda mais. — Eu nunca estou errada.
— Cala a boca, Mel. — Disse Carly revirando os olhos. — Vamos ver se agora elas falam alguma coisa.
Lá em baixo, Lara se aproximou receosa, murmurando. — Obrigada.
— Não. — Disse Agnes quase sussurrando, encarando-a por fim. — Não fala comigo, por favor. Só pega. Eu não vou te deixar com fome. Ainda mais me olhando com esses olhinhos azul-piscina brilhando de lágrimas.
Em silêncio, Lara esticou sua mão para pegar a mochila, tirou um dos sanduíches que havia lá dentro e começou a comer. Porém seu choro não sessou, escorrendo até chegar aos lábios, dando um salgado a mais ao alimento.
— Ag, a gente vai ter que conversar nem que seja só pra Carly e a Melissa tirar a gente daqui. — Alegou depois de mais alguns minutos de quietude sufocante. — Olha, não precisa me tratar como antes. Por mais que doa, eu aceitei que não vai rolar. Só... Pelo menos me diz o porquê de ter se afastado assim. O que eu fiz ou disse? Ou o que eu deixei de fazer ou dizer?
— É muito engraçado você não conseguir lembrar já que estamos presas há horas no lugar onde tudo aconteceu. — Respondeu Agnes com uma risada escorrendo desgosto.
— Se você for mais específica, talvez eu consiga me desculpar com mais eficiência. — Sugeriu tentando parecer calma.
— Eu to falando daquela sua conversa super bacana com a Lucille Cooper, o Jamie Del Rey e a Mary Sarah Johnson sobre a minha sexualidade pelas minhas costas no mês passado. — Agnes quase gritou, porém sorrindo para tentar conter a raiva que a lembrança lhe causava.
Um Mês e Cinco Dias Antes
Agnes queria secar melhor o cabelo, mas sabia que sua melhor amiga não seguiria seu conselho de ir logo para a sala de aula e a esperaria, como sempre. Então apenas se vestiu e foi andando para fora do vestiário do ginásio até ouvir seu nome ser mencionado em uma conversa. Escondendo-se atrás da porta, apurou os ouvidos para entender qual era o assunto.
— Como você ainda tá “levantando aqui” esse questionamento? É claro que a Londrin é lésbica, Lucille. — Afirmou Jamie rindo enquanto passava os dedos pelo topete, olhando-se no espelho do pó-compacto de Mary Sarah.
— Sei lá, podia ser só uma impressão minha, queria saber a opinião de vocês. — Disse a loira cruzando os braços e olhando mais uma vez para a porta do vestiário, esperando que o último integrante do quarteto saísse para seguirem todos juntos para a próxima aula.
— A nossa e a de toda a torcida do Los Angeles Lakers, do New York Yankees e do New England Patriots juntas, né? — Mary Sarah debochou também às gargalhadas. — Qual é? É só olhar pra aquela carinha de sapatão. A gente sabe quando ela tá há menos de um quilômetro de distância só pelo cheiro de couro que a Londrin exala.
— Olha, aqui, seu bando de fofoqueiros do caralho, vocês lavem a boca de vocês com sabão antes de falar da Agnes! — Lara se aproximou deles com uma expressão furiosa que era raramente vista pelas pessoas, mas sempre que aparecia era para defender seus amigos, em especial Ag.
— Ui. Alerta de namorada super protetora. — Jamie zombou com um sorriso irritante.
— Não, eu sou só uma melhor amiga super protetora. — Rebateu cerrando os punhos e aumentando o tom de voz. — E sabe por quê? Porque a Ag não é lésbica. Então é bom parar de ficar dizendo besteira antes que eu decida arrebentar essas caras cínicas que vocês tem.
— Nossa, mas você tá brava? — Foi a vez de Mary Sarah provocar.
— Ah, queridinha, você não vai mesmo querer descobrir como eu sou quando fico brava de verdade. — Lara replicou com um brilho de desafio nos olhos. — Mas vai ver já já se continuar falando da Agnes.
— Gente, para com isso. — Pediu Lucille se pondo de braços abertos entre seus dois amigos e Lara para evitar o início de uma briga, porém eles permaneceram se encarando por cerca de dez segundos de forma tão intensa que pareceu ter sido muito mais tempo.
— Mas o que diabos eu perdi? — Questionou Charlie Oliver Griffin, o quarto integrante do quarteto, ao finalmente sair do vestiário e se deparar com aquela cena.
— Charlie! Graças a Deus! — Exclamou Lucille puxando Jamie e Mary Sarah em direção á saída, esperando ser seguida por ele. — Não perdeu nada que valha a pena ser mencionado. Então só vamos logo pra sala. Bem rapidinho.
Presente
— Ag, eu não sei quem foi que te contou sobre esse dia, mas foi uma pessoa mentirosa e muito mal intencionada. — Afirmou Lara com as sobrancelhas franzidas. — Por que...
— Ninguém me falou nada sobre isso. — Agnes interrompeu, cruzando os braços. — Não precisou. Eu tava lá, escondida atrás da porta do vestiário ouvindo tudo.
— Se estivesse mesmo escutando, saberia que eu só te defendi daquele clã de idiotas intrometidos. — Replicou imitando o gesto. — E seja lá quem foi o fofoqueiro...
— Eu. Estava. Lá. — Cortou-a novamente, dessa vez com bastante ênfase. — E, sim, eu sei que você me defendeu. Defendeu com unhas e dentes mesmo, como um titã furioso. Como uma mamãe leoa protegendo seus filhotinhos. Como se seu cérebro simplesmente não fosse capaz de aceitar que aquilo poderia ser verdade.
A boca de Lara se abria na mesma velocidade em que sua ficha escorregava até por fim cair. — Ag, você é...
— Sim. Sim, eu sou. Sempre tive essa desconfiança, mas já faz pelo menos uns seis ou sete meses que eu tenho certeza. — Respondeu com firmeza. — Acho que agora você não vai mais querer tanto assim a amizade de uma sapatão que cheira a couro de volta.
— Não! Você entendeu tudo errado, Agnes. — Disse Lara com uma expressão quase de desespero para se retratar.
— Esteja a vontade pra me explicar como posso ter entendido aquela proteção furiosa errado. — Murmurou com um sorriso irônico. — Porque eu não consigo pensar alguma outra interpretação pra se sentir tão ofendida com a ideia.
— Não fiquei! O fato de você gostar de mulher tá longe, tipo anos luz de distância, de ser uma coisa que vai me incomodar! Eu te juro, Agnes! — Declarou gesticulando muito com as mãos. — Se você dormisse com todas as lésbicas e bissexuais e garotas curiosas do país, não ia afetar em nada, nadica de nada, a nossa amizade.
— É mesmo? Então o que foi aquele chilique?
— Foi meu instinto. — Lara sorriu com sinceridade pela primeira vez naquela conversa. — Eu vi um bando de matracas maldosas falando algo sobre a minha melhor amiga, uma coisa que eu achava que era mentira. Nem me interessou exatamente qual era a fofoca, eu só quis ir te defender. Defender a garota que eu mais amo nesse mundo. É automático quando se trata de você. Sei que fui ofensiva com a sua sexualidade e, de verdade, eu sinto muito por isso. Mas eu, com certeza, quero a sua amizade de volta. Por favor, estou implorando o seu perdão.
Agnes olhou para baixo por um longo momento, ponderando sozinha em sua cabeça o que deveria fazer a seguir.
— Tá bom. — Murmurou, encarando Lara após alguns minutos. — Eu perdoo você.
— Ah, que maravilha! — Exclamou alto, inclinando-se para abraçar sua melhor amiga com toda a empolgação do mundo depois de tanto tempo separadas.
— Espera. — Agnes ergueu a mão como um sinal de “pare”. — Antes de me abraçar, você precisa saber que as coisas não vão voltar a ser exatamente o que eram antes. Não agora, pelo menos. Por mais que eu sinta sua falta, e eu sinto muito a sua falta, ainda estou magoada. E sentimentos são coisas bem além do que temos a capacidade de controlar. Mas, como uma pessoa que sabe bem fingir maturidade, eu preciso te pedir desculpas por ter te julgado tão rápido. Como melhor amiga, eu deveria ter sentado pra conversar sobre isso naquele dia ao invés de ficar tão full pistola. Sinto muito.
— Águas passadas, meu amor. — Lara sorriu e a envolveu com seus braços, apertando-a com força. — O importante é que Sheldrin tá de volta. E nada nunca, jamais, vai ser capaz de nos separar de verdade. Eu te amo, Ag.
— Eu também te amo... — Sussurrou Agnes retribuindo o abraço, embora seu coração estivesse sendo esmagado pelo peso de um segredo gigantesco.
Mas se antes de tudo aquilo ela já achava que jamais teria qualquer chance com Lara, agora é que tinha plena certeza. Por isso, aquela linda garota de olhos azul piscina nunca, em hipótese alguma, poderia ficar sabendo sobre seus sentimentos. Tudo que já estava trancado a sete chaves em um cofre dentro de seu coração, agora ganhara ainda mais trancas, correntes e cadeados de proteção.
Carly, na sala de projeção, comemorava de maneira frenética, fazendo um esforço quase sobre-humano para não gritar e entregar sua localização. Até perceber que ao seu lado sua amiga estava quieta, ainda olhando para a cena abaixo pela janelinha.
— Cara, como você pode não estar estupidamente feliz?! — Exclamou embasbacada. — O nosso lindo Sheldrin tá de volta, Mel! Agora o nosso grupo vai ser como antes.
— Eu estou feliz. Claro que estou. — Respondeu tentando sorrir sem parecer falsa. — Só estou admirando-as mais um pouquinho antes de descer pra soltá-las e ser estapeada por elas antes de ganhar um “obrigada por salvar nossa amizade, vocês são demais”.
Era mentira. Melissa, mesmo de longe, notou a expressão de Agnes de que havia algo a mais. Ela torcia para ser só impressão sua ou para não ser algo grave o bastante para separá-las outra vez quando acabasse vindo à tona. Mas uma certeza que tinha era que de havia algo a mais.
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