Notas iniciais
Um motorista de ônibus dirige à noite e sozinho em uma estrada deserta, famosa por ser palco de acidentes estranhos, ao longo do caminho ele percebe que não está sozinho, e que há algo ou alguém o perseguindo.
Chatos pra car*lho. Era essa a opinião de Vincent Butler, o motorista do amarelão (como era conhecido seu ônibus), sobre os garotos do último ano do St. Marcus College. Eles viajavam todos os dias, às sete da noite, de Helena, cidade onde moravam, até St. Marcus, a cidade vizinha, para estudar na maior faculdade do interior do estado de Ohio. Vincent já estava de saco cheio de todos eles, com suas piadas sujas e brincadeiras de crianças de sexta série, e isso era apenas um bico que ele arrumara, mas precisava do emprego, estava passando por dificuldades financeiras, ainda mais com a chegada da sua filhinha. Era 23 de dezembro, fim das aulas e os adolescentes pareciam ainda mais agitados e chatos do que antes, mas era compreensível, iriam se formar e estavam viajando. Vincent dirigia sem tirar os olhos da estrada, pensando em sair o mais rápido possível daquele emprego. Em um assento atrás do assento do motorista, alguns jovens conversavam sobre uma lenda urbana. Vincent prestou atenção por um instante.
– Sabe o que dizem sobre essas estradas desertas daqui? – Uma garota perguntou a outras.
– Não – Outra respondeu.
– É assombrada. Dentro desse milharal vive uma mulher, e sempre que algum motorista passa sozinho, ela sai e o assombra.
– Ela o mata?
– Ela o deixa maluco, faz um barulho aqui, arranha uma janela ali, e depois de fazer você se tremer de medo, ela...
– Ela o que?
– BAAAM! Ela o mata.
– Isso é mentira.
– Não, não é, o namorado de uma amiga minha sobreviveu, ele disse que a viu, tem cabelos negros e usa um vestido branco.
Vincent soltou uma risadinha zombeteira.
– Hum, assombrada... ah, por favor – Falou sozinho e continuou dirigindo.
***
– Tchau Vince! – Disse Tasha, uma das exceções dos jovens insuportáveis.
– Tchau – Ele disse e fechou a porta.
O St. Marcus College era uma faculdade antiga, Vincent sempre quis estudar lá, mas se a oportunidade não chegou, não há o que fazer, como ele mesmo dizia. Vincent ligou o motor do ônibus e partiu.
***
Hoje era um dia diferente, os garotos da faculdade não iriam voltar com ele, iriam viajar para Paris no dia seguinte, escolheram uma viagem ao invés de formatura.
No caminho, passando pelo centro da cidade de St. Marcus, Vincent percebeu que o ônibus estava fazendo um ruído estranho na parte de trás. Precisava dar uma olhada nisso.
– Droga, preciso parar na drogaria! – Ele lembrou que sua mulher havia o mandado comprar fraldas.
Eram oito e vinte, quando ele entrou na drogaria, um homem baixo e mal humorado o atendeu no caixa.
– O que deseja? – Ele disse, tirando os olhos da última edição da People que estava lendo e olhando por cima de seus óculos de grau.
– Fraldas – Vincent disse, sorrindo.
– Fraldas? – O homem perguntou, como se esperasse algo mais.
– Ah sim, fraldas pequenas, das supersecas.
– Ficam bem ali – Ele apontou com um lápis para uma pilha de fraldas descartáveis a um metro dali.
– Obrigado.
Quando se virou, Vincent fez uma careta, imitando o caixa mal humorado.
Depois de comprar as fraldas e um sorvete, ele entrou no ônibus e ligou o motor, aquele barulho na traseira estava lhe irritando.
– Quando chegar em casa, vou dar uma olhada nisso ai – Ele falou sozinho, tinha esse hábito.
Vincent partiu. Passou por várias lanchonetes cheias de jovens e casas com enfeites de natal por todos os lados, que na opinião dele, era o melhor feriado do ano inteiro.
Após passar pela catedral da cidade, as casas começavam a sumir de vista, com as luzes de natal acesas, algumas nem piscavam, apenas iluminavam a noite com sua luminescência colorida. Isso lembrava que Vincent havia combinado com Cheryl de colocar as luzes da casa naquele dia.
Pronto. As casas sumiram de uma vez, ele estava entrando em uma zona deserta que ligava St. Marcus a Helena, a zona dos milharais. Ao passar por aquela estrada, lembrou-se da conversa daquelas jovens sobre a lenda da mulher de branco. Sobre aquela estrada. Era realmente uma estrada deserta e perturbadora, famosa por ser palco de vários acidentes, o que é bem estranho, pois é difícil de bater em algo, e não é muito movimentada.
Vincent continuou sem tirar os olhos da estrada. O barulho na traseira aumentou, preocupando-o um pouco, até porque esse ruído não estava ali quando ele saíra pra trabalhar.
– Bem, talvez seja a mulher de branco começando seu trabalho – Ele zombou e olhou pelo retrovisor, procurando por algo de errado, mas não encontrou. O que realmente lhe assustou, e até o fez frear bruscamente foi um vulto preto na estrada. Passou rápido, mas era grande.
– Mas que merda foi essa? – Ele perguntou, parando o ônibus. Não desceu, apenas olhou em volta, não havia nada, e com certeza ele não havia atropelado, caso contrário teria sentido.
Boom. Um ruído alto na parte de trás.
– Porra! – Ele gritou e ligou o ônibus. Partiu logo em seguida. O que era aquilo? Ele pensava, enquanto tentava se recuperar.
Depois de se acalmar, começou a sorrir. A sorrir não, gargalhar.
– Por que diabos estou assustado? – Ele perguntou para si mesmo – Ah, garotas, vocês e suas lendas urbanas. – Ele sorriu. O coração ainda desacelerava.
Vincent continuou dirigindo pela estrada, já estava mais calmo. Ligou o rádio e estava tocando algum rock n’roll da moda por ai, então trocou de estação algumas vezes, até achar o que procurava.
– Ah, músicas alternativa – Ele encostou no banco e relaxou.
(Não, na verdade não)
Fechou os olhos e cantou junto com o rádio. Estava tocando uma dessas músicas de jovens.
A tranquilidade de Vincent foi por água a baixo quando ouviu o para-choques do ônibus se quebrar com uma pancada forte, ao mesmo tempo em que foi levemente arremessado pra frente. Matei um animal, foi o que ele pensou, até ouvir algo que o deixou arrepiado, aterrorizado. Era um grito humano, de uma mulher. Um grito de horror e dor. Oh meu deus, atropelei uma mulher.
Vincent desceu correndo do ônibus para ver se a suposta mulher estava bem, mas o que encontrou o deixou ainda mais perturbado do que se houvesse encontrado uma mulher. Não era uma, era um cachorro, e estava morto. A pancada havia sido forte. Mas eu juro que ouvi um grito de mulher, eu juro, pensou ele. Olhou em volta do milharal, procurando a mulher que supostamente gritou, mas tudo o que viu foi algo se movendo rapidamente lá dentro. Parecia um leopardo, era realmente rápido, mas ele não conseguiu ver o que era, só ouviu o som do milho sendo farfalhado. Apenas correu e entrou no ônibus.
– Oh meu deus! – Ele ligou o motor e foi embora, sem olhar para trás – Que droga era aquela?!
Vincent estava indo a quase cento e vinte por hora no ônibus, quando viu a luz amarela do painel piscar. O combustível estava acabando.
– Merda! – Ele bateu no volante.
Depois de dirigir mais uns três quilômetros, ele avistou o posto de gasolina do Moe, parou ao lado de uma bomba e desceu, estava tremendo. Pegou a mangueira e começou a encher o tanque de diesel. Quando acabou, colocou-a de volta no compartimento e foi pagar.
– Oh, Vincent! – Moe sorriu ao vê-lo – Quando tempo.
Vincent pensou em contar tudo, dizer que ouviu um grito de mulher no milharal, dizer que viu algo se mexer rapidamente lá dentro, mas seria taxado de louco, então se conteu.
– Oi Moe – Ele forçou um sorriso.
– É só o combustível mesmo? – Ele perguntou, apontando para o ônibus.
– Sim.
– Onde estão os estudantes?
– Vão viajar, ficaram em St. Marcus, estou sozinho. Eu e Deus – Ele sorriu e pagou.
– Boa viagem – Moe recebeu o dinheiro e sorriu de volta.
Vincent saiu da conveniência e foi direto para o ônibus. Moe saiu atrás dele, iria checar as bombas, quando viu algo estranho. Algo no ônibus. Era uma mulher, de cabelos negros e longos, estava sentada nos últimos bancos. Havia algo perturbador naquela mulher misteriosa.
– Ele disse que estava sozinho – Moe estranhou.
Vincent deu partida e começou a acelerar.
– Ah não – Moe disse, presumindo o pior. E então saiu correndo, mas não alcançou o ônibus.
– Vincent! Cuidado! Tem alguém no ônibus, tem alguém no ônibus!!! – Ele gritou, mas Vincent não ouviu.
Vincent pensou ter ouvido alguém gritar, mas ignorou, já havia ouvido gritos demais.
Voltou à estrada deserta, ao milharal, e enquanto estava dirigindo, teve a sensação de estar sendo seguida, ou observado. Olhou no retrovisor interno do ônibus, não havia nada lá atrás. Mas quando olhou para o milharal a seu lado, quase perdeu o fôlego, havia algo correndo lá dentro, como se estivesse seguindo-o. Como é possível? Ele pensou, estava a cento e vinte por hora. Aumentou a velocidade e a coisa o seguiu.
– O que é isso?! – Ele gritou, aterrorizado.
Outro barulho na parte traseira, tão alto quanto os outros, ele olhou pelo retrovisor e dessa vez seu coração disparou. Havia uma mulher sentada no último banco do lado esquerdo. Ela olhou para ele e abriu a boca de um modo anatomicamente impossível e gritou, gritou como na outra vez. Era ela. Ele soltou um grito desesperado, tornou a olhar pelo retrovisor, a mulher havia sumido, mas quando voltou seus olhos para a estrada, ela estava lá, parada no meio da pista. Ele freou bruscamente, mas não conseguiu impedir, chocou-se com a mulher. Litros de sangue cobriram o para-brisa, alguns pedaços da carne da mulher estavam presos nos limpadores, que foram acionados na mesma hora. O sangue foi limpo, Vincent estava aterrorizado. Este foi o fim? Ela se foi? Sua mente se perguntava. Ele tomou coragem e desceu para ver o estrago. Era horrível, o corpo da mulher estava partido em dois, suas vísceras jogadas por toda a pista. Ele cobriu o nariz, o cheiro acobreado de sangue era nauseante. Vincent se preparava para entrar no ônibus e ir embora, chamar a policia e sair daquela droga de emprego, quando sentiu algo frio e molhado segurar seu pé, virou-se e olhou para o chão, a mulher estava inteira novamente, como se seus pedaços houvessem se juntado. O sangue continuava no chão, mas agora, ela estava viva novamente, segurando a perna de Vincent. Seu rosto pálido – a não ser pelo sangue – e seus olhos totalmente brancos eram aterradores.
Vincent gritou alto, desesperado e tentou se safar, mas a criatura cravou as unhas na carne dele, fazendo-o gritar novamente, de dor. Ele finalmente se soltou das garras daquela coisa e correu para o ônibus, ao entrar fechou a porta e ligou o motor, estava aterrorizado.
Ele começou a acelerar, a criatura não fez nada para impedir, apenas ficou parada ao lado do ônibus, totalmente imóvel. Vincent acelerou mais e foi embora rapidamente, olhando pelo retrovisor, viu a criatura ainda parada no meio da pista, apenas observando.
Vincent sentia uma dor imensa no ferimento que as unhas daquela coisa fizeram em sua perna, mas continuou dirigindo normalmente, nada o acalmava mais do que saber que ele havia escapado.
Era assustador, em um dia não acreditava nessas coisas, e no outro, estava vivendo o terror na própria carne. Estava cheio de esperanças de que conseguiria chegar em casa vivo, quando um som fez sua espinha gelar. Era aquele ruído alto na parte traseira novamente. Vincent olhou para o retrovisor interno do ônibus, seu coração palpitava a mil, mas viu que não havia nada lá, então, quando voltou os olhos para estrada, ela estava lá, como antes, parada no meio da pista. Ele freou e tentou desviar, mas um pneu acabou estourando e o ônibus derrapou na pista e capotou. Capotou uma, duas, três, quatro vezes e parou dentro do milharal. Foi tudo o que Vincent viu antes de bater a cabeça e apagar.
***
– Senhor, senhor! – Ele acordou com um paramédico, retirando-o do ônibus numa maca.
– Onde estou? – Ele perguntou, e ao perceber que ainda estava no milharal, desesperou-se – Cuidado! Ela está aqui!
– Quem? Senhor?
– A mulher de branco! Eu a atropelei, o ônibus está cheio de sang... – Ele parou de falar, quando passou pelo para-brisa e viu que ele estava limpo, sem nenhuma mancha de sangue. O para choque também, todo o sangue que tinha, era o de sua cabeça.
– Mulher de branco? O que?
– Mas... Oh meu deus.
Os paramédicos colocaram-no na ambulância.
– Não havia mulher nenhuma – Um dos homens tentava informa-lo.
– Mas eu a vi, eu a atropelei.
– Senhor, escute, não tem mulher nenhuma, nem sangue, acho que você dormiu ao volante.
Seria possível? Seria possível que tivesse dormido? Não, impossível, eu a vi, eu a atropelei, foi real, eu tenho certeza. Eram tantas coisas que passavam por sua mente agora, mas depois de ver aquele para-brisa limpo, começou a achar que estava ficando louco.
– Mas e o capotamento? Eu sonhei com isso também?
– O que?
– Eu a vi, antes de capotar, não foi sonho!
– Senhor, acalme-se.
– Não, ela ainda está lá, vai matar alguém novamente.
O enfermeiro da ambulância aplicou-lhe um sedativo e Vincent apagou, novamente.
***
Quando acordou, Vincent estava deitado em uma cama de hospital, Cheryl estava ao seu lado.
– Ah, amor, você acordou – Ela disse.
– Cheryl! – Ele disse, sorrindo, estava tão feliz em ver aquele rosto angelical novamente.
– Você está bem?
– Minha cabeça dói, mas é só isso.
– Que bom, o médico disse que você terá alta em breve.
– Eles não acreditaram em mim Cheryl, eles não acreditaram, eu vi aquela mulher lá.
– Vince, você dormiu ao volante, é normal isso acontecer.
– Parecia tão real.
– Eu sei, mas não era. Escute-me, você ouviu falar daquela mulher recentemente?
– Sim, algumas garotas estavam falando sobre ela no ônib... Ah não, não venha com esse papo de psicólogo.
– Está vendo? Isso foi apenas um sonho, uma projeção da sua mente, você estava com medo.
– Medo? Daquela lendinha? – Ele zombou.
– Mas já passou, querido, tudo passou.
Ele sorriu e ela lhe deu um beijo.
***
No dia seguinte, quando Vincent acordou, Cheryl já estava lá.
– Bom dia – Ela disse.
– Bom dia, querida, e então, o que o médico disse?
– Ele disse que viria aqui quando você acordasse.
– Graças a deus, não vejo a hora de voltar pra casa.
O médico, Dr. Nolan, chegou onde eles estavam e analisou sua prancheta.
– Sr. Butler – Ele disse, observando mais uma vez a prancheta. – Você está liberado pra ir pra casa, apenas preencha isso aqui, por favor. – Ele entregou a prancheta e uma caneta a Vincent, que pegou e assinou.
– Obrigado – Ele agradeceu. Cheryl também.
– Por nada.
***
Depois de trocar de roupa, Vincent e Cheryl saíram do hospital, tudo o que ele tinha era um corte na cabeça. Na verdade havia mais uma coisa, uma coisa na perna, alguns pequenos cortes, marcas de unhas.
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